quinta-feira, 14 de março de 2013

Argo - Quando o Cinema glorifica os EUA


O grande vencedor dos Oscares deste presente ano de 2013 (e filme apreciado pelo sôr Presidente Barack Obama), «Argo» é um inteligente thriller político americano que venceu todos os prémios que poderia angariar na sua estante de troféus, saindo vencedor de BAFTAS, Globos de Ouro e de tantas outras cerimónias, para além da da Academia de Artes e Ciências de Hollywood. Contudo, penso que talvez este seja um dos filmes de Oscar mais sobrevalorizados dos últimos anos. Trata-se de uma boa fita, consistente e ritmada. Mas talvez esteja a ser demasiadamente aclamada pelos americanos não tanto pela sua qualidade, mas pela mensagem e valores que pretende transmitir. Tenho ouvido, ano após ano, de oposições aos vencedores de Oscar dos últimos tempos e do quão são merecedores ou não desse tão desejado galardão cinéfilo, e cinematográfico. Mas com «Argo», chegou a minha vez de "protestar". Enquanto tinha encontrado alguma qualidade que fazia os últimos filmes premiados sobressaírem, a meu ver, para merecerem ser distinguidos (como, por exemplo, o caso de «Quem Quer Ser Bilionário» e «O Artista», que levou muitas marretadas da crítica portuguesa quando cá estreou), neste não consegui descobrir nada que fizesse este filme destacar-se entre os outros nomeados, nem mesmo de outros filmes que nem sequer chegaram à fase das nomeações («The Master - O Mentor», por exemplo). Talvez «Argo» tenha vencido em tudo quanto é prémio apenas pelas tendências presentes na moda cinematográfica deste ano. Mas apesar de tudo, é um bom filme. E vou explicar porquê mais adiante, mas sem querer, vou debruçar-me muito nos aspetos negativos. Mas não se admirem depois da nota que lhe vou dar. Apenas acho que, mesmo sendo bom, há certas coisas más (e com um grande valor) que têm de ser realçadas.
 
 
«Argo», um filme realizado e protagonizado por Ben Affleck (que já tinha dado que falar na Academia com «O Bom Rebelde», o qual recebeu o Oscar de melhor argumento original "a meias" com Matt Damon, e que começou a destacar-se, nos últimos anos, na realização de filmes curiosos e interessantes como «A Cidade», um filme de ação, e «Vista pela última vez», um thriller baseado no romance homónimo do autor Dennis Lehane) é uma adaptação para o grande ecrã da arriscada operação de resgate de seis americanos do Teerão, em plena revolução no Irão e com a perseguição fanática e infindável ao Xá da Pérsia. O filme inicia-se em jeito de documentário, com umas voz-off que nos localiza, temporal e psicologicamente, nos tempos conturbados daqueles últimos tempos da década de 70. E depois, começa a mostrar não só o lado americano, da CIA, onde se prepara o plano para resgatar os reféns, como também as situações e emoções vividas pelos próprios reféns, enquanto estão refugiados na casa do Embaixador da Suíça. Através de um esquema complexo e improvável, que envolvia a "falsa" produção de um filme de ficção científica em terras das Arábias (ao qual a CIA deu o nome, precisamente, de «Argo»), o agente Tony Mendez tentou levar a sua avante, apesar de todas as consequências e riscos que o seu plano suportava. E, sem pretender querer ser spoiler (aliás, basta ir ver os livros de História, não é nada que não se "saiba"), a operação correu bem, os americanos ficaram todos felizes e continuaram a ser os melhores do Mundo. Ou isto é apenas o que o filme pretende mostrar... sim, é exatamente isso. «Argo» possui muitos erros históricos que têm tornado a fita causa de controvérsia um pouco por todo o Mundo, mas não é essa a questão que está em jogo na maneira como eu analiso esta obra  (e que, penso eu, todos os críticos ditos "profissionais" deveriam levar em conta, de vez em quando, para não darem desculpas um pouco esfarrapadas quando não gostam de um ou outro filme), porque estamos a analisar uma obra de ficção, que pretende ser um bom filme e não uma análise detalhada da realidade (para isso já existe o Canal de História e afins...), e eu não pretendo moldar a minha noção dos factos por adaptações cinematográficas dos mesmos (a primeira coisa que costumo fazer quando vejo um filme supostamente baseado em "factos reais" - passe-se a redundância - é pesquisar a veracidade do mesmo e de como a ficção se mete com os factos, o que prejudica ou em certos casos beneficia os filmes - basta ser bem usada esta "fórmula"). Mas em certas alturas a ultra-ficção, por vezes ultra-banal, de «Argo», torna-se realmente insuportável, estando demasiado influenciada pelas convenções do cinema americano moderno e a seguir o modelo banal dos filmes ditos de "chacha" de domingo à tarde (como, por exemplo, aquele final tipicamente vulgar e previsível, onde tudo está feliz e contente e "iei, os States são o Paraíso que vós, países europeus, sempre almejaram atingir!", que vai buscar muitas influências a esses filmes "sensaborões"). «Argo» é um filme onde a América salva o dia, e ponto final. Mas tem os seus prós, e que são valiosos.
 
 
Na minha opinião, apenas um Oscar foi totalmente merecido para «Argo»: o de Melhor Montagem. A montagem do filme é sem dúvida importante para o desenrolar da trama e das emoções fortes, das tensões e do stress que esta coloca junto do espectador, o que o faz ter uma grande componente psicológica e "thrillerística" que foi muito bem trabalhada e conseguida. E Ben Affleck,  que além de ter o papel de protagonista (não tão destacável) é também realizador do filme, mostra saber manejar todo o conteúdo de «Argo» de uma forma estonteante, veloz e com algo de inesquecível. Nisto os americanos são mesmo bons, não haja dúvida: a fazerem filmes com bom entretenimento que, no caso de «Argo», apesar de se perder em certas partes sem grande interesse, destaca-se de tudo o resto. O filme possui uma boa fotografia, que utiliza de forma única e eficaz os ambientes em que a narrativa foi filmada. E temos também boas e grandes interpretações, com destaque maior para os secundários Bryan Cranston (o fabuloso Walter White da magistral série de TV «Breaking Bad»), Alan Arkin (nomeado para Oscar este ano - e já tinha vencido no ano de «Uma Família à Beira de um Ataque de Nervos» - , mas que perdeu para Christoph Waltz) e John Goodman (que ultimamente tem aparecido em muitos e bons projetos). Houve também um trabalho de pesquisa, em encontrar atores que se assemelharam muito com as personagens reais que estiveram envolvidos na operação de resgate, o que dá uma maior curiosidade em descobrir, depois, a realidade dos factos. E o argumento venceu outro Oscar, mas apesar de não ser algo de excecional, está bem construído, tornando o filme mais emocionante e empolgante... apesar de algumas partes mais previsíveis lá pelo meio. Por fim, a música, da autoria de Alexandre Desplat (um dos mais "concorridos" compositores de Hollywood) também acresce a parte positiva de «Argo».
 
 
O que é possível concluir, depois de toda esta salganhada de coisas boas e más que eu encontrei em «Argo»? Aquilo que eu afirmei no primeiro parágrafo desta crítica: é um filme sobrevalorizado, mas bom. E que no fundo, gera um bom debate, o que é agradável e raro de se encontrar nos filmes americanos recentes (pelo menos cá em casa foi o que se sucedeu, com uma sucessão de discussões sobre os prós e contras da verdade da história relatada na fita). «Argo» é um inteligente e sólido thriller, repleto de adrenalina, e que, com certeza, irá preencher, de forma agradável e algo inteligente, quem espera umas boas duas horas de puro (e bom) entretenimento. Contudo, os Oscares parece que dão, para certas e determinadas pessoas, um ar de "superioridade" aos filmes que os arrecadam. No caso de «Argo», isso não foi visível, pelo menos para mim. Mas se já foi para tanta gente é porque o filme lhes disse alguma coisa de especial, provavelmente. Contudo, o que aprendi a ver filmes é que não se deve ligar muito a uma coisa chamada "expectativas". Acabam por arruinar, muitas vezes, o que poderia ser uma boa e tranquila sessão de cinema. E, ao menos, «Argo» cumpre esse objetivo. Ao menos isso.
 
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