Amour: quando o impacto da realidade é maior do que qualquer ficção


"Só o amor é mais forte do que a morte". Esta frase não foi utilizada para promover o filme «Amour», a mais recente obra cinematográfica do realizador incontornável Michael Haneke, uma fita que ganhou Oscares, Césares, Globos, BAFTAS, entre tantos outros prémios e aclamações por esse mundo fora. Essa frase foi o slogan de «Caos Calmo», uma tragicomédia italiana protagonizada por Nanni Moretti. Contudo. várias vezes veio esta frase à minha memória enquanto via «Amour», e fiquei com ela associada ao filme mesmo quando visionei o final desta história triste e bonita sobre o envelhecimento e o amor que duas pessoas nutrem uma pela outra. «Amour» é um filme lento, mas é ao mesmo tempo rápido demais, como a existência humana propriamente dita, que retrata a vida de um casal de octogenários durante uma fase conturbada das suas vidas, quando a esposa começa a sofrer alguns problemas de demência. O marido decide cumprir o seu papel até às últimas consequências, nunca querendo abandonar a sua mulher, que tanto ama e estima, com a "missão" de a acarinhar e de tratar bem dela mesmo na fase mais complicada da doença desta. «Amour» não é um filme excelente por falar de temas preocupantes e que algumas pessoas se sentem mais tocadas do que outras quando a veem num filme, algo de que não depende a qualidade do mesmo (por exemplo, há quem adore «O Diário da Nossa Paixão» por falar do Alzheimer, mas não é por isso que o filme deve ser avaliado como bom ou mau, porque pode só "falar" e não retratar como deve ser a doença). A obra de Haneke destaca-se pela excelência como aborda a velhice e a vida, é verdade, mas além disso, é uma grande lição de Cinema e da transposição da realidade para a ficção. A linha que separa o real do imaginário é muito frágil em «Amour», e isso cria uma atmosfera muito densa, real e triste que, sem artifícios ou acessórios cinematográficos, vale pelo poder das imagens e das interpretações dos dois atores principais: Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva (nomeada para o Oscar de Melhor Atriz, que perdeu para Jennifer Lawrence - não vi ainda o filme pela qual ela venceu o prémio, contudo, duvido que a jovem atriz tenha tido uma interpretação em «Silver Linings Playbook» tão profunda e intensa como a de Riva). A realização de Haneke, centrada no dramatismo da narrativa e da preocupação que o cineasta tem por problemas sociais desta índole torna «Amour» vencedor de todos os prémios que lhe sejam possíveis dar, na minha opinião. É um filme verdadeiramente excecional. Difícil e pesado, mas é uma experiência cinematográfica rara de se encontrar. Uma pérola do Cinema Moderno que nunca passará de moda, e aliás, com o passar dos anos, tornar-se-á cada vez mais importante ver e compreender a mensagem humana e social que «Amour» pretende passar aos espectadores.


«Amour» não se trata de um filme fácil de digerir nem de acompanhar, e muitas vezes é duro encararmos o que vemos no ecrã como pura ficção filmada. Como o próprio Haneke afirmou, o argumento desta obra magnífica foi baseado num caso que o próprio cineasta presenciou no prédio onde vive. E o embate com a realidade torna «Amour» um filme duro de se ver. É um banho de realidade de que eu não estava à espera que fosse confrontado, e penso que muitas pessoas sentir-se-ão mal consigo próprias e tristes com esta história trágica de Amor e de Vida. Não estou a querer censurar ninguém, nem a dizer que "quem ver este filme é superior a nível intelectual e quem não o vir é estúpido". Mas «Amour» é um filme cujo visionamento é urgente para qualquer apreciador de Cinema. Algumas pessoas censuraram-me por, ao me perguntarem se valia a pena «Amour» e eu disse que não era para todos os gostos. Mas é verdade: Haneke é um realizador que quando agarra o espectador, aproveita isso até ao fim. E poderá ser, para muitos (para a maior parte das pessoas que estavam na sala onde assisti ao filme, que não perceberam tanto que aquilo que estavam a ver era um drama e não uma comédia, por exemplo), um filme impossível de se ver do princípio ao fim. Mas vale muito a pena. Não admira que a Academia tenha honrado tanto «Amour» e o seu realizador. Porque este filme, numa época onde estamos mais minados por Cinema sem grande ligação à realidade (e não tenho nada contra isso, muito pelo contrário), chega na altura mais apropriada para tocar nas feridas da sociedade e da maneira como os governantes e as entidades dão atenção à população mais idosa das sociedades, e mesmo a forma como cada um de nós olha e encara as pessoas mais envelhecidas e a sua posição no Mundo. «Amour» é um filme que faz pensar, que suscita debate, que pretende mudar mentalidades. E por tudo isto e muito mais, é-me difícil acrescentar mais alguma coisa a este filme tão inigualável e tão fenomenal. Vale mais que mil palavras.

* * * * *

Comentários

  1. O amor, pá, não é mais forte do que a morte. Nem que a vida. Existe, é perfeito durante algum tempo, e depois, como algumas amizades que também julgamos serem para sempre estraga-se, muitas vezes sem razão aparente. É o tempo, a vida, o dinheiro, o trabalho as pessoas, os anos.

    Fiquei a sentir-me doente com o "Amour"... o que não quer dizer que não tenha gostado. Sugiro que vejas também o "Longe Dela"(2006) da Sarah Polley, que sinceramente me cativou mais. Não é tão pesado e sombrio, mas não deixa de ser também de um dramatismo enorme.

    E muitos parabéns (novamente!)pelas tuas excelentes críticas! É um prazer lê-las!

    Abraço

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Olá João! Obrigado pelo comentário e pela sugestão cinematográfica, fiquei com curiosidade para ver esse filme. Sobre o amor, não posso dizer grande coisa, apenas quis dizer que me lembrei muito desse slogan enquanto estava a ver o Amour, que sim, é muito pesado. Mas eu não consigo deixar de concordar com essa frase. Acho que o amor, se bem gerido, pode ser para sempre. Ou não, porque da vida percebo pouco :p... Curioso porque falei com várias pessoas sobre o filme e disseram-me que se sentiram exatamente no mesmo estado que tu tiveste quando viram o filme. É como eu disse, um filme difícil.

      Um Abraço,
      Rui

      Eliminar
  2. Excelente texto, Rui, com o qual concordo."Amour" é um filme grandioso e, por vezes, doloroso de ver, por essa ficção ser tão realista que qualquer pessoa conhece ou já passou por algo semelhante. Assustadoramente real e profundo.

    Deixo-te aqui a minha opinião: http://hojeviviumfilme.blogspot.pt/2012/12/critica-amor-amour-2012.html

    Cumprimentos cinéfilos,

    Inês

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigado pela apreciação e pelo comentário Inês, gostei muito de ler o teu texto! :)

      Cumprimentos igualmente cinéfilos,

      Rui

      Eliminar

Enviar um comentário

Se chegaram até aqui e tiverem alguma mensagem, crítica, ou opinação a fazer em relação ao que acabaram de ler, façam o favor de o escrever aqui. A gerência agradece e responde (se não forem nenhum príncipe da Malásia que tem 10 milhões de dólares para me oferecer, claro).