A Vida nas Cartas: a Deprimência



Não costumo ver televisão, propriamente dita (ou seja, aquilo que envolve ligar o aparelho e ver um qualquer programa que está a dar num qualquer canal às horas de exibição), de manhã. Contudo, hoje penso que fiz uma grande descoberta televisiva, enquanto deambulei pelo mágico mundo do zapping: encontrei a emissão de há pouco desse programa tão popular e querido dos portugueses (mais propriamente, das pessoas que acham que é a dar atenção a uma astróloga manhosa que a sua vida vai mudar) que se chama «A Vida nas Cartas: O Dilema». Sim, eu sei o que me vão dizer os puristas da televisão, que este não é o programa original, que era o da Maya só que ela saiu e então entrou esta fulana que faz os signos do Destak. Mas meus amigos e minhas amigas, sendo este programa uma sequela de outro, só posso dizer que, como sequela, se revela ser um dos melhores programas de comédia que vi na televisão portuguesa.

E porquê? Diria que «A Vida nas Cartas: O Dilema» será uma espécie de «The Office» em versão astróloga-que-pensa-que-tem-um-papel-divino-a-desempenhar-para-a-humanidade. É um programa extremamente deprimente, obviamente, pelo lado das entrevistas e das pessoas que contactam a astróloga. Mas o que tem graça, unica e exclusivamente (porque não há nada para se gozar com as vidas das pobres almas que, sem saberem o que fazer, dão credibilidade à sodôna Helena) é a forma como a astróloga responde aos convidados, sempre de uma forma falsa, hipócrita e engraçada. Aposto que deixa os seus "convidados" muito embaraçados com as respostas que recebem. Acredito até que acabam por esquecer as amarguras das suas vidas depois de terem conhecido este ser, que nem sei bem se se trata de algum espécime humano.

Nem vale a pena dar exemplos. Apenas vos aconselho a, num dia de manhã, acompanharem «A Vida nas Cartas: O Dilema», e tirarem as vossas conclusões. Preferencialmente vejam-no depois de ser emitido e depois vão passando à frente as partes que não vos interessam. Mas vão ver que irão encontrar ali certos gags e situações que vos farão rir, pela incompetência e falta de profissionalismo e de verdade que as afirmações da Mariazinha possuem. Até uma criança de cinco anos saberia dar uma resposta melhor a uma pessoa que perdeu tudo na vida e que agora pretende atirar-se da ponte, em vez do simples "Olhe, tenha muita força, felicidades e agarre-se à Igreja, 'tá bom? Ora liguem para o 760...". É deste tipo de pessoas que a Igreja depois fica descredibilizada (e eu sou católico, atenção! Só não acho é que uma pessoa se "agarrar" à Igreja, utilizando esse termo concreto - e é preciso tomar atenção a isto, para ninguém deturpar a minha opinião - não é necessariamente uma coisa boa). Ah, e já nem para falar dos signos, todos iguais uns aos outros e onde as coisas más significam coisas boas: "A carta da Morte", no signo de Touro (o meu, já agora - sim, não dou crédito a estas coisas, mas quem é que não tem curiosidade, ao menos, de saber a deprimência que é a astrologia do seu signo?), "significa o renascer". Sim, até porque a carta que ela mostrou tinha todo o ar de ressurreição, e não da parte mais horrível do Inferno, no último piso de todos. Mas enfim, as cartas não mentem, não é?

É a ver este tipo de programas que percebo qual vai ser a minha profissão do futuro: Tarólogo. Tenho tudo o que é preciso para ser um grande profissional nessa área: uma voz acolhedora, um ar fofinho (quando quero) e muita lábia para convencer as pessoas que, sem grande vontade e/ou opinião própria, requisitam os serviços de um especialista na matéria. Tenho o sucesso garantido, vou ganhar rios de dinheiro a adivinhar a vida dos outros, a supostamente errar em 99% das previsões que irei fazer, e a ser uma alta celebridade que vai a todas as festas que depois aparecem em programas como o «FamaShow» e derivados. Nem preciso de tirar um curso, nem nada! Está feito!

E isto, caros e caras, é o estado da televisão portuguesa. Já nem me vou queixar mais, porque nem vale a pena. Ao menos ainda dá para gozar um bocado com o que as televisões decidem transmitir... se não os podes vencer, junta-te a eles. De uma maneira não tão amigável, obviamente.

Comentários

  1. O que me ri com este post ahah

    Eu tive a (in)felicidade de apanhar esse programa na semana passada antes de ir para a aula. Tal como tu, também nunca vejo televisão de manhã mas naquele dia sentei-me à frente da tv sem qualquer motivo e dou de caras com este programa ridiculamente hilariante. Pensar que aquela mera taróloga pode exercer tanto poder na mente de certas pessoas ultrapassa-me. Só me ria com as situações.

    Convidada: São as dores nos ossos. (numa voz muito cansada)
    Taróloga: Dores no corpo não é?
    C: Sim dores nos ossos e nas articulações...
    T: (interrompendo) E diga-me lá linda, em que trabalhou durante a sua vida? Foi no campo não foi?
    C: Não, era doméstica...
    T: (interrompendo) Ah e a vida foi-lhe ingrata e teve de começar a trabalhar ainda em criança não foi?
    C: Não, eu...
    T: (interrompendo) Pois o seu corpo agora está a sofrer com os esforços ao longo da vida. Pois agora a solução é correr...

    Este é apenas um exemplo de como os convidados podem ser manipulados pela conversa dela e às tantas acabam por já estar a sentir o que a apresentadora lhes diz que sentem.

    Tenho de voltar a ver um dia destes para me rir mais. Mas sempre que penso que isso significa contribuir para as audiências fico de pé atrás :P

    Cumprimentos,
    Rafael Santos
    Memento mori

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  2. Obbrigado Rafael por partilhares essa pérola! :D E não te preocupes das audiências, é bom as pessoas conhecerem este programa de humor!

    Abraço,

    Rui

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  3. Este é um programa chave para se entender o poder que estes vigaristas têm sobre uma larga quantidade da população, normalmente a faixa mais idosa.

    Este é sem dúvida o grau zero televisivo.

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    1. Ricardo, eu diria que nem merecia estar no grau zero. No -7, no mínimo...
      Obrigado pelo comentário,
      Rui

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