sexta-feira, 22 de março de 2013

À Beira do Abismo (The Big Sleep)


Quando uma das grandes obras da literatura americana contemporânea é alvo de uma adaptação que inclui, na sua ficha técnica, dois dos atores mais consagrados do seu tempo e que compunham uma das químicas mais fascinantes da Sétima Arte (Humphrey Bogart e Lauren Bacall), um mítico realizador responsável por filmes que mudaram a mentalidades dos espectadores e dos cineastas americanos (Howard Hawks) e, no trio de argumentistas, um escritor que viria a receber o Prémio Nobel da Literatura e que deixaria para a posteridade uma série de trabalhos literários marcantes e excecionais (William Faulkner), logo pensei que toda esta receita tinha de dar resultado. E deu. «À Beira do Abismo», baseado no livro homónimo de Raymond Chandler, é uma das mais conhecidas aventuras do detetive Philip Marlowe, criado pelo autor, e esta será, provavelmente, uma das mais conceituadas adaptações cinematográficas da sua obra (se não a mais conceituada de todas). Num filme onde a relação entre Bogart e Bacall é muito aproveitada (e num dos slogans utilizados pela Warner para promover o filme - e que consta da capa da edição DVD do mesmo - refere-se isso mesmo: "the picture they were born for"), algo que contribuiu muito para o grande sucesso da fita, acompanhamos uma trama inteligente e empolgante que em nada retira o ambiente da ação literária e de todo o mistério que envolve as personagens que nos são dadas a conhecer.


«À Beira do Abismo» entra num mundo confuso, sério e misterioso, em que o detetive Marlowe (Bogart) tem de resolver um estranho caso de chantagem e relações familiares que o vai levar a conhecer mais pormenorizadamente uma das filhas do seu cliente (Bacall), e pela qual se vai apaixonar. Se bem que a versão original de «À Beira do Abismo» se centrava mais no caso em si e no desenrolar da resolução do mistério, a química entre Bacall e Bogart, como fora um sucesso no filme anterior que a dupla fez em conjunto, «Ter e Não Ter» (também realizado por Howard Hawks e com William Faulkner também no argumento), foi o propósito para se fazer uma nova versão do filme original de Hawks, onde as cenas de romance entre os dois atores são maiores e mais profundas. É esta a versão que se tornou mais popular, e por si só, penso que já se trata de um filme muito bom. Não vi a tal versão original (que, segundo fontes junto de mim - ou seja, a Wikipedia -, foi usada pela Warner para ser exibida para as tropas americanas), mas esta versão, que se tornou muito mais popular e muito mais apreciada (e comercializada, o que ajudou a divulgar, por muitas mais gerações, o lendário par romântico do Cinema Americano), representa todas as razões do misticismo que foi criado em volta da década de quarenta, essa época doirada para a Sétima Arte de terras do tio Sam: as roupas, os modos de falar, o mistério e a lenda que escondem as particularidades daquela década... tudo isto torna «À Beira do Abismo» um filme fascinante. O filme impôs quase como que uma "marca" de referência nos EUA, e em poucas palavras, e retirando mais uma frase promocional do filme, "Style is what The Big Sleep is all about". E gostei muito do filme, aliás, há muito tempo que um policial não me deixava tão intrigado e tão curioso. Mas não consigo achar que seja a "chef d'oeuvre" do género. Mesmo com Bacall e Bogart, cujas cenas deram um maior interesse ao filme para a minha pessoa, para além do extraordinário argumento, repleto de diálogos excelentemente escritos e que os dois atores interpretaram de uma forma inesquecível (ah, e sem esquecer o lado mais cómico que Bogart realça nesta fita ao interpretar o carismático Marlowe, dando um lado muito sarcástico e irónico que muito apreciei. E ao mesmo tempo, é o "tough guy", com quem nenhum indivíduo pode brincar!). E é por isso que vale mesmo a pena ver «À Beira do Abismo»: pela dupla e todo o simbolismo que representa, e para escutar, atentamente, as palavras que saem das suas bocas.


Howard Hawks proporciona, em «À Beira do Abismo», uma realização bem ritmada e construída de uma forma adequada aos caminhos que a narrativa toma a cada cena, algo que a banda sonora auxilia de uma forma impecável e não menos digna de nota. É uma realização ao melhor estilo dos "grandiosos" anos quarenta, e que eternizou Hawks, graças a este e outros filmes (como o emblemático «Scarface: O Homem da Cicatriz»), e que revolucionaram, de uma certa maneira, a forma de se mostrar a violência, tanto ao nível físico como ao nível psicológico, dentro dos padrões comuns da estética hollywoodiana, mais centrada na fofura das coisas e numa maior simplicidade de técnicas, mas um maior desperdício de orçamento. Eu gosto dessas coisas fofinhas de Hollywood, mas adoro o género do film-noir. E «À Beira do Abismo», apesar de não ser o melhor representante do género, que tanto inspirou e inspira ainda as gerações novas de cineastas que têm vindo a surgir, trata-se de uma obra muito boa, muito competente e muito consistente, e que é uma autêntica peça de História dos EUA (tanto que foi incluído na galeria de preservação de filmes do National Film Registry). É um filme que vem de uma época em que o final dos filmes se sucedia mesmo no final das fitas, sem necessidade de epílogos demasiado longos. O filme acaba ali, e pronto, não nos dão mais nenhuma explicação. E ainda bem, porque não nos dão informações supérfluas e centram-se, nos últimos momentos da ação, naquilo que é essencial (apesar de um pouco rápido demais - parece que acabaram o argumento à pressa, como um miúdo da primária que se apercebeu que já está quase a ultrapassar o limite de linhas da composição e inventa um final demasiado repentino -, mas isso não interessa muito, perante todas as grandes qualidades desta obra). Talvez necessite de revisitar «À Beira do Abismo» daqui a uns anos largos. Vou pôr este filme naquela prateleira dos "rever-daqui-a-dez-anos". Houve algumas coisas que me escaparam ao ver esta fita e penso que terei de a ver melhor e de uma forma digna noutra altura. Mas para já, nesta primeira visualização, fiquei com uma impressão muito boa do filme. E que é uma grande obra, disso não tenho dúvidas!

★ ★ ★ ★

Sem comentários:

Enviar um comentário

Se chegaram até aqui e tiverem alguma mensagem, crítica, ou opinação a fazer em relação ao que acabaram de ler, façam o favor de o escrever aqui. A gerência agradece e responde (se não forem nenhum príncipe da Malásia que tem 10 milhões de dólares para me oferecer, claro).