sábado, 16 de fevereiro de 2013

Por Mais Alguns Dólares: mais alguma coboiada


Um ano depois da estreia do primeiro volume das aventuras do "Homem sem Nome", o realizador Sergio Leone e o protagonista Clint Eastwood regressaram para dar continuidade a uma das trilogias mais conceituadas da Sétima Arte, com «Por Mais Alguns Dólares», um filme mais longo, mais profundo e melhor do que o seu antecessor, e que vinca ainda mais algumas das marcas de estilo que caracterizariam, para os estudiosos e para os espectadores, a cinematografia única de Leone, que marcou todo o conceito de "spaghetti western" e que ao cineasta deve muito a sua qualidade. Pegando na mesma personagem e nos seus costumes incontornáveis (como por exemplo, o facto de estar sempre com o charuto na boca) protagonizado por um Clint Eastwood em completo estado mítico, e praticamente na maioria das pessoas que fizeram parte da equipa técnica do primeiro filme da trilogia, «Por Mais Alguns Dólares» eleva-se pela quantidade/qualidade de cenas lendárias e de profunda mestria que marcaram a História do Cinema. Trata-se de um filme mais consistente, mais detalhado e mais criativo, onde Sergio Leone aproveita ainda mais o espaço cinematográfico e a narrativa para criar grandes sequências que provam o porquê da magnificiência da Arte cinematográfica, e da Arte feita por Leone em particular. 


«Por Mais Alguns Dólares» tem Eastwood, um novo vilão (embora seja interpretado pelo mesmo ator) e uma nova companhia para o "Homem sem Nome": o Coronel Mortimer, interpretado por Lee Van Cleef (ao menos temos mais uma personagem cujas falas encaixam nos movimentos da boca, visto que se trata de um ator americano), um caçador de prémios que se junta a Eastwood para angariarem uma boa pipa de massa  apanhando um bando de criminosos muito procurado, desejando também concretizar o seu plano de vingança devido a uma causa que apenas conheceremos exatamente do que se trata no final do filme (e por isso vou fechar este assunto já aqui). A adição deste co-protagonista à história do filme auxilia também ao maior interesse e à maior complexidade da história da saga, visto que agora temos duas figuras centrais com que nos "preocupar" e que, por se tratar de um ator do mesmo país de origem do de Eastwood, faz-nos perceber que também se destaca de todos os outros personagens. O filme é feito desta dupla e de todas as peripécias que vão viver para alcançarem o seu objetivo, enquanto exploram os movimentos do grupo de maltrapilhos chefiado pelo temível (e mais lucrativo - para os "bounty hunters") pistoleiro Índio (um vilão que tem algumas das mesmas características do antagonista de «Por um Punhado de Dólares», além de ser interpretado pelo mesmo ator: é sádico, mais ou menos inteligente, precipitado e cobarde sem ter a pistola por perto - mas quando tem uma arma em punho, torna-se sanguinário e imparável), que pretende assaltar o altamente protegido Banco de El Paso e levarem o cofre camuflado de móvel de madeira que passaria despercebido de qualquer ladrão normal e não-informado previamente. Tudo isto ambientado nas cidades poeirentas e algo desprezíveis que caracterizam a perspetiva do género "western" em versão italiana, e com a grande banda sonora de Ennio Morricone que, tal como todo o filme, consegue superar a fita original, que não passava de um bom remake de um filme de Kurosawa com algumas ideias originais, mas com poucas razões para se tornar inesquecíveis. «Por Mais Alguns Dólares» pode não ser uma obra prima, mas é muito mais inovador, progressista e fantástico do que «Por um Punhado de Dólares». Sergio Leone foi constantemente aprimorando a sua visão cinematográfica, e este filme justifica bem esta minha afirmação. Basta ver a obra com atenção e notar-se-ão diversos planos de câmara e cenas que já se tornaram alvo de muitas imitações por parte de diversos cineastas nas últimas décadas.  


Em termos de técnicas cinematográficas e que são indissociáveis do estilo de Sergio Leone, em «Por Mais Alguns Dólares» há uma que aparece mais e que em «Por Um Punhado de Dólares» era completamente inexistente: a lentidão dos movimentos de câmara, muitos deles fixos e centrados na cara dos personagens (os míticos planos que Quentin Tarantino utiliza nos seus filmes - e principalmente no seu último trabalho, o "eastern" «Djando Libertado - , referindo-lhes mesmo como os planos Sergio Leone), que provoca tensão tanto no espectador como nas personagens e que nos mostra que pode haver suspense mesmo nas cenas mais simples e nas ações mais rápidas de uma narrativa (nunca a preparação para a morte e a ocorrência do óbito demorou tanto tempo num filme, diga-se de passagem).. Contudo, este estilo poderá não ser muito apreciado para aqueles que não gostarem deste género de filmes, nem para quem procura ação pura e dura e em efeito "non-stop". Contudo, isto a mim é o que faz verdadeiramente sentido, principalmente num western. E foi esta ideia de lentidão com que a cultura divulgou o Velho Oeste e as suas lendas (tal como os ditos duelos, silenciosos e nervosamente intermináveis), e acho que Sergio Leone sabe retratar isso como ninguém. Mas como em tudo na vida, gostos são gostos, que são completamente indiscutíveis, visto que cada um possui opiniões diferentes das coisas. Mas eu não hesitaria em recomendar «Por Mais Alguns Dólares» a qualquer apreciador de filmes e a todo o explorador de novas artes e novas perspetivas da magia dos filmes. Com «Por Mais Alguns Dólares», a saga melhora a olhos vistos, pronta para o desfecho excecional (para muitos - espero que comigo também seja o caso) que foi o terceiro filme, «O Bom, o Mau e o Vilão». 

* * * * 1/2

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