O Quinteto Era de Cordas (The Ladykillers)


«O Quinteto Era de Cordas» é uma das comédias britânicas mais famosas de sempre e um marco indiscutível do humor cinematográfico tanto para as Terras de Sua Majestade como para os próprios EUA (o argumento do filme foi nomeado para um Oscar e há poucos anos atrás os irmãos Coen fizeram um remake deste clássico adaptado ao estilo americano e mais moderno de se fazer Cinema). Respeitando a receita e os ingredientes fundamentais (um enredo divertido, personagens acutilantes e um baixo orçamento) para a execução de uma comédia que, para além de ser muito boa, é diferente das demais, «O Quinteto Era de Cordas» revela-se uma boa surpresa mesmo em 2013, passados quase sessenta anos da sua estreia original, e apesar de já haver a versão mais recente disponível para ser visionada. Contudo, se compararmos o remake dos Coen com este original (tinha visto a versão dos irmãos há uns dois ou três anos, e até gostei), consigo perceber onde é que a dupla de cineastas falhou em relação ao filme que as inspirou: eles não conseguiram passar a "essência" humorística da comédia dos anos 50 para a versão do século XXI. E apesar de ser um filme agradável e com boas interpretações, não consegue ultrapassar a graça, o estilo e a versatilidade dos atores originais e dos diálogos tão bem ritmados da fita original. E pensei antes de ver esta obra que, por ter visto o remake primeiro, ficaria demasiadamente influenciado pelo que já conhecia da história, mas muito pelo contrário: este filme tem tanto para explorar e tanto para descobrir que me esqueci quase completamente que já tinha visto aquela história (se bem que com algumas - e relevantes - diferenças) em "algum lado". E isso nem todos os filmes vítimas de remakes conseguiram fazer, afastarem-se da sombra dos seus "descendentes" e continuarem a ser únicos e inigualáveis.


«O Quinteto Era de Cordas» segue as desventuras de um grupo de ladrões que pretende fazer um grande assalto que envolve uma elevada quantidade de dinheiro. Através de esquemas intrincados e armadilhas bem planeadas, este bando pretende alcançar o seu objetivo de todas as maneiras possíveis, usando também a casa de uma senhora de idade, que vive sozinha mas que está sempre acompanhada (veja-se a patética antítese que eu acabei de criar devido ao facto de não saber escrever como deve ser) pelas suas aves de estimação, para poder executar o "grand finale" do seu golpe. Nela fica hospedado o chefe do grupo de criminosos (interpretado por Alec Guinness), um excêntrico génio do crime que neste assalto vê a sua criação mais espetacular de sempre, que traz todas as tardes os seus quatro colegas a casa da dita senhora, fingindo que são um quinteto de cordas amador que necessita de ensaiar muito para melhorar a sua "arte". Acreditando na história do grupo, a senhora começará a passar as tardes a ouvir a música "tocada" pelos artistas no andar de cima da sua casa, enquanto os bandidos aproveitam para acertar os pormenores do golpe e, após a sua execução, os procedimentos que deverão tomar para poderem sair limpos do caso. Tudo isto faz parecer com que o sucesso do quinteto é garantido, mas a presença da simpática e humilde idosa irá trocar muito as voltas dos cinco criminosos, criando uma sucessão de situações e "gags" que, além de fazerem rir, mostram como a simplicidade da senhora ultrapassa toda a malvadez daqueles cinco malfadados ladrões de meia tigela.


Brincadeiras à parte, «O Quinteto Era de Cordas» retrata um certa perspetiva de vida ainda com grandes toques de ruralidade e pouco avanço urbano, comum na Grã-Bretanha da época ainda dominada em parte pelas consequências da II Guerra Mundial (veja-se uma das cenas iniciais, em que a senhora mostra a casa ao chefe do bando, referindo o cuidado que o seu futuro inquilino deve ter com o segundo andar, que ficou algo danificado devido ao conflito). Mas deixando as reflexões sociológicas, psicológicas ou filosóficas para os que se são entendidos nessas matérias, continuemos: a subtileza dos diálogos e dos planos de câmara (que realçam, em parte, algumas cenas cómicas, que exigem com o seu "timing" uma maior precisão fílmica) e a caricatura das situações e das personagens torna-se um exemplo puro do humor clássico à maneira exclusiva da Inglaterra, repleto de execuções brilhantes e acutilantes de comédia que podem ser exemplo ainda hoje para muitos que queiram fazer filmes cómicos (um género que, a ver pela grande parte das produções que são feitas hoje em dia, bem está a precisar de ideias frescas e novas. Talvez os produtores e  os argumentistas encontrem alguma nova inspiração nestes filmes clássicos - sem precisarem de entrar na via da "cópia"pura e dura dos mesmos...). «O Quinteto Era de Cordas» revela a tradição da comédia britânica em todo o seu esplendor, contendo diversos enganos e tropelias entre as personagens que farão as delícias de espectadores de todas as idades.


Mas além de possuir uma das suas mais fortes componentes no argumento, é preciso do filme mencionar merecidamente o fabuloso leque de atores que compõe as personagens tal e qual as vemos no ecrã. Penso que no geral todos os atores estão extremamente bem (encontramos também um Peter Sellers nos primórdios da sua carreira artística no Cinema - apesar de não oferecer uma das suas melhores performances, é interessante acompanhar, sempre pelo lado "geek" da coisa, os primeiros passos do futuro génio mundial da comédia, como o podemos fazer com este filme), mas há duas "menções honrosas" que merecem ser atribuídas: uma dessas menções vai para Katie Johnson, a simpática personagem que acolhe os bandidos, que se trata de uma senhora tão querida e tão simpática que é impossível não termos pena dela à medida que se vai desenrolando toda a trama da fita. É uma senhora como deve ser, bem educada e sempre atenta aos que o rodeiam, e que seria uma Avó perfeita para os filhos dos seus filhos. A outra menção vai para Alec Guinness, que aqui entra num papel cómico que eu não estava nada à espera. Sempre tive uma imagem deste ator a interpretar papéis mais sérios e dramáticos (como por exemplo nos épicos de David Lean como «Lawrence da Arábia» e «Doutor Jivago», como também na trilogia original de «Star Wars»), e por isso foi uma grande surpresa ver este Grande ator, um perfeito gentleman, a fazer papel de parvo. Mas mesmo assim, um parvo com muita graça, o que me fez ver que devo explorar mais a vertente humorística de Guinness (deixou mais umas pérolas dentro do género que, pelo que andei a ler, devem ser vistas) e também comprovar a versatilidade e diversidade de papéis que o ator interpretou e sempre com o maior dos profissionalismos, sendo hilariante nesta personagem. Pouco mais tenho a dizer sobre este filme, mas apenas posso acrescentar que há certas coisas que deveriam permanecer intocáveis, e «O Quinteto Era de Cordas» é uma delas, visto que vale por si e não necessitava de nenhum remake. Este é um filme que continua superior às imitações e ainda motivo para se soltar umas boas gargalhadas, sendo altamente recomendado para os apreciadores das grandes comédias clássicas dos anos 50, como também para aqueles que apenas viram a versão dos Coen (para perceberem que, se ficassem apenas pelo remake, perderiam a melhor parte disto). Uma grande comédia que deve continuar a ser vista.

* * * * 1/2  

Comentários

  1. Olá! Adorei seu blog, muito criativo! Ainda não vi este filme, mas admiro muito Alec Guinness e Peter Sellers, dois ícones britânicos.
    Também tenho um blog sobre cinema e gostaria que vc desse uma olhada. O endereço é: http://www.criticaretro.blogspot.com/ Passe por lá! Lê ^_^

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    1. Obrigado pelo comentário! Vale muito a pena ver este filme, ainda mais se gosta de Guinness e de Sellers! :)
      Gostei muito de ver o seu blog também, continue!!! ;)

      Obrigado,

      Rui Alves de Sousa

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