terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

O Despertar da Mente (Eternal Sunshine of the Spotless Mind)


How happy is the blameless vestal's lot! 
The world forgetting, by the world forgot. 
Eternal sunshine of the spotless mind! 
Each pray'r accepted, and each wish resign'd.

É do poema «Eloisa to Abelard» do autor Alexander Pope (do qual estão transcritos quatro versos neste post) que surgiu o título original para «O Despertar da Mente», este romance genial escrito pelo imparável Charlie Kaufman (que se trata, provavelmente, de um dos argumentistas mais originais que Hollywood deu ao Mundo nos últimos anos, responsável também por outros filmes tão inovadores como «Inadaptado» e «Sinédoque, Nova Iorque», filme este que também realizou), realizado pelo francês Michel Gondry (e que teve com este filme o seu trabalho mais notável e reconhecido) e protagonizado pelos dois surpreendentes Jim Carrey e Kate Winslet comprovou que o Cinema contemporâneo ainda tem muito de bom e de novo para proporcionar aos espectadores, utilizando novas fórmulas e novas perspetivas cinematográficas, não deixando escapar, contudo, a humanidade nas histórias que o público sempre gosta de ver no ecrã. Sendo aclamado pelo Mundo fora como um dos melhores filmes do século XXI e por diversos críticos americanos e europeus, «O Despertar da Mente» revela ser um filme muito bonito, e sem dúvida, muito identificável para cada ser humano. Este filme foi um autêntico murro no estômago para quem já estava desacreditado da arte cinematográfica e centrava as suas atenções unica e exclusivamente para as novidades do mundo televisivo. Contudo, a Sétima Arte é ainda o único meio que consegue retratar as histórias e paixões humanas de uma forma mais profunda e poética, e que puxa mais por nós.


Por vezes, a nossa memória falha tantas vezes que até nos parece que foi "remexida" misteriosamente. E noutras vezes, nós é que gostávamos que a nossa cabecinha não se lembrasse de certos e determinados acontecimentos, principalmente nos momentos menos adequados para a lembrança dessas recordações. E neste filme, que mistura em parte alguma ficção científica, esta ideia, que a todo o indivíduo surge de quando em vez, é totalmente materializada. «O Despertar da Mente» é a história de Joel (interpretado por Jim Carrey, num dos papéis mais impressionantes de toda a sua carreira, pontuada excessivamente demais pela participação em comédias totalmente idiotas e sem qualquer tipo de piada), que depois de perceber que Clementine (Kate Winslet numa personagem completamente eletrizante, irrequieta e poeticamente bonita) apagou da sua memória todas as recordações que guardou do namoro que teve com ele, decide enveredar pelo mesmo processo e conseguir, de uma vez por todas, esquecer uma relação que terminou de uma maneira muito triste. Contudo, à medida que o processo de "apagamento" de Clementine prossegue, Joel apercebe-se que não quer perder, apesar de tudo, os bons e memoráveis momentos que viveu com ela. E em várias tentativas de "fuga" à lavagem cerebral, ele vai tentar vencer aquela batalha mental, deambulando pelos seus mais inúmeros pensamentos e memórias. Mais uma mensagem que se adequa perfeitamente à nossa realidade, "humana" e menos ficcional: provavelmente sentimo-nos também assim muitas vezes, com estas necessidades de apagar as memórias más da nossa vida, mas não serão mesmo essas memórias que causaram as memórias boas ou são causadas pelas mesmas, e/ou vão criar algo melhor que se sucederá nas nossas vidas? «O Despertar da Mente» mostra ser, por isso, um romance com toques de comédia que nos mostra todas as falhas que as relações amorosas possuem e que são inevitáveis. E que por terem esse grau de inevitabilidade não devem ser vistas como algo que nunca pode nem deve falhar, porque irá sempre haver qualquer coisa que escapará à perfeição desejada para uma relação. Nada é perfeito, e se formos a ver bem, se tudo assim fosse, qual seria a graça da vida?


«O Despertar da Mente» possui uma bonita fotografia e uma montagem consistente e quase sempre bem ritmada, que perdeu para mim algum efeito por se tornar demasiado rápida em certas partes de uma maneira despropositada. Contudo, este filme é surpreendente e impressionante pela sua originalidade e inventividade (que poderá não agradar a todos - aliás, os filmes escritos por Charlie Kaufman nunca costumam ser consensuais), e é um mimo ver Jim Carrey e Kate Winslet nesta obra, interpretando um casal apaixonado, real, e muito humano. A maior surpresa é sem dúvida Carrey que mostrou mais uma vez a sua versatilidade, como é habitual nos poucos projetos diferentes da "palhaçada" com que ficou conhecido e que lhe dá mais dinheirinho (recomendo, dentro dos ditos "poucos" projetos: «The Truman Show: A Vida em Direto», «The Majestic» e «Homem na Lua»), mas Winslet é igualmente magistral no ecrã. O filme não retrata só os desamores de Joel e Clementine como também das quatro restantes personagens centrais da trama, que são os próprios clínicos que fizeram as operações de "apagamento" de memórias. O que nos prova também a humanidade das personagens e como elas próprias se sentem vulneráveis em relação ao produto que vendem. A vida faz-se dos pequenos momentos, mais relevantes para cada um de nós e para a nossa felicidade do que as partes mais pessimistas da existência humana. E mesmo que queiramos esquecer o lado mau da vida, este é indissociável das partes boas da mesma.

* * * * 1/2

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