domingo, 10 de fevereiro de 2013

O Caçador (The Deer Hunter)


Um ano antes de Francis Ford Coppola ter dado ao Mundo a sua visão inigualável, inesquecível e algo surreal do Vietname que dá pelo nome de «Apocalypse Now», o realizador Michael Cimino, na altura ainda relativamente desconhecido do grande público cinéfilo ao nível global, lançou o épico «O Caçador». Cimino era um "outsider" de Hollywood, cuja excentricidade conquistou em 1978 o mérito e aclamação do público e da crítica, e de entre toda a curta filmografia que realizou, este continua a ser o seu filme mais famoso e marcante. Hoje em dia, Cimino está "escondido" do mundo cinematográfico (há algum tempo deu sinais de vida, aparecendo no twitter e mostrando a sua admiração por Paul Thomas Anderson e pelo seu mais recente filme «The Master - O Mentor»), em parte pelo o prejuízo e fraco reconhecimento que os seus filmes posteriores tiveram nos EUA (nomeadamente o anti-western «Heaven's Gate - As Portas do Céu»). Mas felizmente, o cineasta deixou para a posteridade, pelo menos, um filme que garantirá a sua imortalidade para a Sétima Arte. E esse filme é «O Caçador».


Com uma densidade e uma profundidade cinematográfica e humana de proporções inigualáveis, «O Caçador» é a história de três amigos e das suas vidas antes, durante e depois de terem participado na Guerra do Vietname. Mike (Robert de Niro), Nicky (Christopher Walken) e Steve (John Savage) decidem partir para o conflito após o casamento deste último, e antes de se despedirem da "aldeola" onde vivem, combinam uma última caçada nas montanhas (daí o título da obra). Mais tarde, quando saem da guerra e as suas vidas seguem rumos opostos, apercebemo-nos da forma como o combate modificou, fisica e mentalmente, aqueles três amigos. Durante a guerra, vemos a tortura e o sofrimento a que são submetidos (a famosa cena da "roleta russa", um dos pontos mais fortes e mais dramáticos de toda a ação da fita), e depois damos conta das marcas que tudo aquilo lhes deixou para o futuro. Contudo, não é tanto a guerra o tema central de «O Caçador», mas sim a forma como o ser humano age em diferentes situações. Antes de partirem para o Vietname, vemos a festa do casamento de Steve e a forma jovial e bem disposta como o trio encara a partida para a guerra (apenas algum do patriotismo exagerado dos americanos a tomar as suas funções), mas durante alguns segundos aparece um oficial vindo do conflito que não responde às perguntas dos três curiosos sobre como é a guerra. E penso que este pequeno momento nos diz de tudo o que se irá passar de seguida. Mas é muito interessante, não só de um ponto de vista histórico como também psicológico, acompanhar as situações com que o trio se depara. Acho que nos ensina bastante sobre os horrores da guerra e um conflito que nunca poderá voltar a acontecer. Alguns prevêem, num futuro próximo, uma guerra mundial entre China e EUA. «O Caçador» mostra como qualquer guerra é estúpida, independentemente do que está em jogo, algo que todos os bons filmes do género fazem.


«O Caçador» é um filme muito rico em termos de simbologia cinematográfica, visto que constitui planos subtis e movimentos de câmara engenhosos (como por exemplo, as gotas de vinho que a noiva entorna no seu vestido - um pequeno pormenor tão insignificante que, além de também nos dar uma "previsão" do futuro daquela personagem se se perceber o contexto da cena, consegue fazer completamente a diferença, tornando mesmo cada detalhe sem interesse num ponto de paragem do nosso olhar). Recheado de momentos altamente engenhosos e complexos, que muitas vezes não precisam de qualquer diálogo para estarem repletos de emoção e drama (veja-se, por exemplo, a cena do regresso dos amigos depois da caçada, e da sessão de piano tocada por um deles e que move a transição da calma e estabilidade da "aldeola" para o perigoso e terrível cenário do Vietname. E a partir daí, «O Caçador» adquire um ritmo vertiginoso, muito pesado e ainda mais real. Outro exemplo é o magnífico final do filme, com a música «God Bless America» como pano de fundo). Auxiliado por uma lindíssima banda sonora (com uma "theme" que usa poucas notas e mínimos instrumentos, mas que tem uma força excecional), esta obra magistral de Michael Cimino mostra a dura realidade da guerra de uma forma fascinantemente bonita e com uma qualidade impossível de ser superada.


«O Caçador» pode ser visto, para concluir, como uma autêntica desconstrução das "regras" do género épico e dos filmes de guerra, uma rebeldia que continua a influenciar diversas gerações de cineastas e que permanece muito atual e viva (não é para menos: «O Caçador» está incluído, por exemplo, na lista dos 100 Melhores Filmes Americanos de Sempre do American Film Institute). Esta desconstrução é feita através de uma forma de protesto cinematográfico contra os grandes épicos certinhos de Hollywood, que não pretendiam, na sua maioria, retratar a realidade crua das coisas. Esta ação de inovação marcou, na altura, a aclamação mundial de Michael Cimino, mas mais tarde, com o elevado prejuízo de «Heaven's Gate», o autor começou a ser esquecido pela máquina de Hollywood. Mas volto a repetir, quando se faz um filme como «O Caçador», qualquer cineasta bem pode encostar-se à sombra da bananeira e perceber que já conseguiu deixar o seu contributo fundamental para a História do Cinema. Porque «O Caçador» não é só, provavelmente, um dos melhores filmes de guerra de sempre, como um dos mais perfeitos estudos sobre o poder das Imagens em Movimento na nossa forma de reagir a um dado acontecimento. Esta obra termina de uma forma assustadoramente filosófica e que nos deixa muito para sentir e ainda mais por esclarecer. E penso que o ano de 1978 foi dos poucos em que a Academia se apercebeu que um "Melhor Filme" trata-se de uma obra que consegue ser muito mais do que um mero filme. E um desses casos raros e excecionais dá pelo nome de «O Caçador»!

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2 comentários:

  1. Um filme realmente marcante e inesquecível! Gostaria de o rever. Bela crítica e apreciações, fizeram-me, da melhor maneira, recordar o filme. Parabéns e obrigada!

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