O Bom, o Mau e o Vilão: western em estado épico


Existem dois tipos de pessoas no mundo, meu amigo. Aquelas com a corda à volta do pescoço, e aquelas que têm a função de a cortar.


E eis que cheguei ao terceiro capítulo da Saga dos Dólares, o supra-citado, mencionado e aclamado épico «O Bom, o Mau e o Vilão». Sem sombra de dúvida trata-se do filme mais fantástico de toda a trilogia e o que mais rios de tinta fez correr a seu respeito ao longo das décadas. Sergio Leone não filma apenas um vulgar, mas bom western, como se sucedeu em «Por um Punhado de Dólares», nem realizou outro filme entre o estado épico e o género cinematográfico de coboiada, como em «Por Mais Alguns Dólares». Em «O Bom, o Mau e o Vilão», o espectador depara-se com um filme que é muito mais complexo e profundo do que os dois anteriores volumes da saga, e que se eleva a um estado de quase-transcendentalidade que é muito raro um filme conquistar. Do muito pouco de Cinema que por agora eu já conheço, penso que «O Bom, o Mau e o Vilão» foi o único filme em muito tempo que me deixou, tanto durante o seu visionamento como após o mesmo, num estado perfeitamente hipnótico. Algo que já me tinha sucedido precisamente com mais alguns filmes, nomeadamente outras duas obras primas de Sergio Leone - «Era Uma Vez na América» e «Aconteceu no Oeste» -, e «O Bom, o Mau e o Vilão» trata-se, com certeza, de outro desses filmes magistrais e completamente inigualáveis, que mostram a versatilidade e o talento de um realizador que conseguia retratar no ecrã as mais diversas histórias a partir das formas mais peculiares e pouco usuais, mas que são efetivamente geniais.

  

«O Bom, o Mau e o Vilão» retoma as aventuras e desventuras do "Homem Sem Nome", o mais famoso pistoleiro dos westerns com um toque de raviolli, e que desta vez, apesar desse epíteto que os media norte-americanos atribuíram à personagem, é apelidado de "Blondie". O indivíduo e o ator que o interpreta, Clint Eastwood, adquirem uma nova dimensão nunca antes alcançada até então nas histórias dos Dólares, tornando esta personagem num verdadeiro herói, "de carne e osso", algo que os dois outros filmes já tinham trabalhado um pouco (mas não o suficiente, apesar de ter havido uma certa evolução de fita para fita), sem recorrer demasiado aos artifícios "espetaculares" das personagens dos filmes de ação que costumam aliciar a malta masculina em busca de testosterona cinematográfica («Rambo», «Os Mercenários» e afins...), em que os bons e os maus quase não têm sentimentos e se assemelham um pouco a robôs pré-programados. Regressa o ator Lee Van Cleef, que aqui interpreta outra personagem ("Angel Eyes") apesar de utilizar, praticamente, os mesmos acessórios de vestuário (e de armamento também) que o Coronel Mortimer que encarnou em «Por Mais Alguns Dólares». Neste capítulo final, Van Cleef perdeu toda a (pouca) simpatia da personagem anterior, sendo aqui um verdadeiro homicida sanguinário e impiedoso, que não olha a meios para atingir os seus fins. Temos aqui uma grande diferença entre o Bom e o Mau, com Eastwood a ser um "Homem sem Nome" mais humano sério, e de certo modo tocante, contra o odiável e desprezível Van Cleef. E o Vilão? Bem, efetivamente não se trata bem de um Vilão, visto que ele é Tuco (que na tradução original não seria o Vilão - porque efetivamente esse é Angel Eyes, se formos a ver bem pelas características e ações que a personagem nos mostra - , mas sim o Feio - algo que se adequa perfeitamente, basta olhar para a fuça do personagem), um fulano interpretado por Eli Wallach que, por vias do oportunismo ultra-excessivo e completamente propositado, tanto aproveita estar de um lado como do outro da moeda, mas acabando sempre por virar mais para a companhia de Blondie, mas... para ser ele a ficar com o ouro que os três personagens estão incessantemente à procura durante as quase três horas de duração (muito, mas muito bem passadas) de «O Bom, o Mau e o Vilão». Mas é interessante ver como Blondie e Tuco, acidentalmente, se vão aproximando um do outro, por causa da busca dos tais 200 000 dólares. Por momentos até julgamos que eles são bons amigos, mas... é provável que não sejam. É bom salientar também a vertente metaforico-filosófica de Tuco, o que o faz estar constantemente a debitar pseudo-frases marcantes da vida (como o exemplo que utilizei para abrir esta crítica), o que acaba por dar um interesse acrescido ao nível psicológico a esta personagem. As outras duas personagens também o são, mas Tuco tornou-se uma verdadeira surpresa nesse aspecto. 


É interessante também analisar ao pormenor o crescimento da personagem de Clint Eastwood ao longo de toda a trilogia e o porquê de isso se ter sucedido. É algo que está, sem sombra de dúvidas, ligado também ao desenvolvimento artístico do realizador e co-argumentista Sergio Leone, que a cada novo filme dos Dólares soube colocar novos elementos técnicos, cénicos e cinematográficos às narrativas e aos diálogos vividos entre as personagens. É óbvio que cada um dos filmes da trilogia pode ser compreendido sem ser necessário ver os outros, ou que a ordem cronológica de lançamento das obras é irrelevante (visto que, para muitos, «O Bom, o Mau e o Vilão» se trata de uma prequela dos dois volumes anteriores), mas só se pode notar verdadeiramente esta evolução do "Homem sem Nome" e da forma como ele se torna cada vez mais próximo do público, se se vir os filmes pela data de estreia. Embora este terceiro seja o que verdadeiramente se destaca de toda a trilogia, toda ela é de visionamento altamente recomendável. De destacar, mais uma vez, o tom épico e semi-divino da banda sonora de Ennio Morricone (é impossível, para quem conhece a melodia da "theme" de «O Bom, o Mau e o Vilão» - sinceramente, existe algum ser humano que não tenha ouvido já a música? - , não ficar preso logo nos créditos iniciais do filme - e principalmente se se estiver acompanhado de um portentoso sistema doméstico de som), que mostra também sinais de evolução em termos transcendentais e ser uma das maiores obras de toda a História da música feita para Cinema. Tudo isto (a maior densidade das personagens, do mise-en-scène e da banda sonora) se junta a um argumento recheado de grandes diálogos memoráveis que ficam no ouvido e na mente do espectador e que de lá não irão sair por muito tempo. 


Este filme mostra um Sergio Leone em estado de graça (estado esse que é presenciado, de outras maneiras, nas outras duas obras primas do Mestre que mencionei no primeiro parágrafo), no expoente máximo da sua criatividade (que, felizmente, persistiu para os filmes seguintes), sendo um grande épico western, que envolve a guerra civil americana e a forma algo filosófica, e ao mesmo tempo divertida, como Blondie e Tuco se metem no meio do conflito que faz parte dos livros de História americanos. Para terminar, e porque não me resta mais nada a acrescentar a esta obra magistral, apenas refiro a única coisa que não gostei em «O Bom, o Mau e o Vilão»: que tivesse acabado. Por mim, ainda hoje, passados três dias de ter visto o filme, eu continuaria a acompanhar as tropelias e pistolarias do "Homem sem Nome", sem sombra de dúvidas. Não em formato non-stop, porque não possuo vista para isso. Mas fiquei tão agradado com este filme que me entristeci muito quando chegou ao fim e me apercebi que não havia mais. Mas por si só, esta é uma fita que deve ser vista várias vezes. Tenho a noção que muita coisa boa me escapou neste primeiro visionamento, e já tenho, pelo menos, uma dezena de revisões prometidas a mim próprio até ao final da minha existência. Porque tem de ser.

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Comentários

  1. Zé da Adega22/2/13 16:28

    Boas Rui, sou o Zé dos fóruns de cinema habituais.

    Como por enquanto ainda só postaste aqui, e por coincidência vim cá espreitar, comento então aqui...

    Eu já tinha sugerido que fizesses review à restante trilogia, quando apresentaste o Fistfull Of Dollars, os teus comentários aos 2 primeiros filmes era assim, assim.. fiquei sem perceber se realmente gostaste, mas este teu texto do "Grande Final" é épico, talvez a melhor crítica ao filme que já li até hoje (e eu leio críticas em inglês, de todo o mundo, e tou a comparar com essas, pois esta é a 1º escrita em português, que vejo).

    Agora falta o High Noon... que está um passo atrás dos italianos, mas 200 passos à frente do John Wayne. :)

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    Respostas
    1. Olá Zé!

      Eu gostei dos outros dois, mas como referi nesta crítica o que + gostei foi este, sem dúvida! Ainda não pude postar este texto nos fóruns, este PC não deixa (é lento), mas vou tentar daqui a pouco. Obrigado pelo teu constante apoio em relação ao que eu escrevo, mas já leste a crítica do Roger Ebert, por exemplo? É apenas uma das muitas que estão muito + interessantes :p E espero ver o High Noon em breve! :)

      Obrigado e um abraço,

      Rui Alves de Sousa

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