segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Lincoln - o jogo político na visão de Spielberg


E na primeira vez no ano que entrei num cinema para, efetivamente, ver um filme (que é para isso que um estabelecimento destes serve primordialmente - para além dos serviços de restauração, farra, sanitários e tudo o que não tenha a ver com a Sétima Arte), dei de caras com «Lincoln», uma epopeia magnífica realizada por Steven Spielberg (sem qualquer tipo de comentários a fazer sobre este Grande Senhor da Arte das Imagens em Movimento) e protagonizada por Daniel Day-Lewis naquela que foi, para mim, uma das maiores e melhores performances que pude vislumbrar em muito tempo. Quis ver este filme não só pela admiração que tenho por Abraham Lincoln, que é provavelmente um dos Presidentes americanos mais populares da História do País (senão "o" mais popular), mas também para saber se poderia comprovar, tal como o fez meio mundo de críticos e votantes do IMDb, que a investida de Spielberg em filmar os últimos quatro meses de vida de Lincoln resultou. E sim, na minha opinião, «Lincoln» cumpriu todos os seus objetivos. Mas não sou um grande seguidor de Spielberg, não conhecendo a totalidade da sua obra mas respeitando o Cineasta e a sua visão a 100%. Contudo, o seu penúltimo filme, «Cavalo de Guerra», deixou-me um pouco de perna atrás - vi apenas metade do mesmo, mas do que pude ver não houve nada que me convenceu que aquele filme era tão bom como várias pessoas me tinham dito -, e também o facto de me dedicar mais a ver filmes antigos (há tanta coisa boa no passado para descobrir antes de ver muito do lixo que se faz atualmente), mas enquanto estava a ver «Lincoln» numa sala que me proporcionou excelentes condições para o contemplar de todo (à exceção das três ou quatro pessoas que estavam atrás de mim e que adoravam fazer barulho com os pacotes de plástico de "um-alimento-qualquer-que-os-seres-humanos-gostem-de-levar-para-os-cinemas" a cada momento mais solene do filme), percebi que este filme não é igual à maioria dos filmes que se encontram em exibição. Fiquei muito surpreendido com este filme, mas vou tentar alongar-me mais um pouco, para poderem perceber que gostei mesmo de «Lincoln» e isto não se tratou de um impulso precipitado da minha parte.


«Lincoln» retrata um dos períodos mais intensos da vida política de Abraham Lincoln, tendo como ponto central da trama a Proclamação da 13ª Emenda na Constituição Americana, Emenda essa que permitiria terminar com a legalização da escravatura nos EUA. O filme mostra uma dualidade da figura histórica que muito pode emocionar alguns, mas que não se trata de algum pormenor lamechinhas e "lava-cérebros", ao género de muitos filmes de propaganda política que foram feitos durante toda a História do Cinema: a do político e do Pai de família, que sem esquecer o amor à pátria (não levada a extremos como hoje em dia alguns americanos, que definem "patriotismo" de uma forma algo estranha), passa tempo com os seus filhos e ensina-lhes o que acha que é importante para cada um deles compreender melhor a vida. Estes momentos paternais são em pouca quantidade em toda a duração de 150 minutos que o filme tem, mas acho que fazem a diferença, principalmente se compararmos as atitudes que Lincoln, sem ser algum santinho ou uma divindade americana, toma no longo processo que levou ao dia de eleições para a 13,.ª Emenda. É feito um retrato mais humano de Lincoln, que aprovou certas táticas e esquemas algo duvidosos para levar a sua avante, mas... não consegui deixar de pensar que foi por uma boa causa, ao contrário de todas as falcatruas onde estão metidos os nossos políticos hoje em dia...


É impossível não falar de «Lincoln» e não dedicar algumas destas linhas ao ator Daniel Day-Lewis e à sua excelente interpretação do protagonista do filme. Diria mesmo que me arrepiei com este Lincoln. Em parte já tinha ficado impressionado com o Lincoln-versão Henry Fonda (de «Young Mr. Lincoln - A Grande Esperança») pela grande certeza e firmeza com que o ator interpretou o seu papel, mas este Lincoln-versão Day-Lewis é também ele impressionante, mas por outras razões: enquanto que o Lincoln de Fonda retratava os seus primeiros anos como advogado, mostrando uma imagem mais jovem e humilde da personalidade que em muito condiz com a cinematografia pura e bonita de John Ford, o Lincoln de Day-Lewis (aquele que é considerado o melhor ator da atualidade) é muito mais velho e com outras preocupações (nomeadamente a nível político) que o "outro" Lincoln não tinha com que se debater. Contudo, em ambos os filmes a figura é retratada de uma forma digna e honrosa, sem ser falsa ou propagandística, e não as podemos comparar, porque ambas são excecionais à sua maneira. Tanto Fonda como Day-Lewis conseguem não interpretar Abraham Lincoln, mas sim "serem" o próprio Lincoln, e isso é algo que me surpreendeu imenso em ambos os casos. Se Day-Lewis arrecadar o Oscar, e apesar de eu não ter ainda visto nenhum dos outros filmes nomeados para os Prémios da Academia, penso que será mais que merecido!


A ver «Lincoln» (que apesar de durar duas horas e meia, para mim passou num instante), lembrei-me de algumas críticas de cinéfilos e críticos que dizem que o Cinema, como Arte, está em vias de falecer. Que me perdoem essas pessoas, e eu também posso não ter muitas razões para afirmar o que vou escrever aqui de seguida (visto que visiono muitos mais filmes de outros "tempos" do que propriamente atuais), mas provavelmente não saberão do que estão a falar. Ou talvez, se virem «Lincoln», poderão mudar de opinião. O filme bate certo em muita coisa que só poderá ser mesmo bem vislumbrada num ecrã grandinho: a nível técnico, posso destacar a maravilhosa fotografia e a banda sonora do multi-premiado John Williams (que apesar de não ter, aqui, um dos seus trabalhos mais originais, conseguiu elaborar uma banda sonora bonita e que acompanha brilhantemente a ação do filme, a meu ver). Mas gostei sobretudo em «Lincoln» das cenas dos debates do Congresso, muito ao jeito do Cinema clássico e que me fizeram lembrar, em parte, o fabuloso filme de Frank Capra «Mr Smith Goes to Washington» pela vivacidade e realidade que aqueles debates me passaram, e que infelizmente, pioraram de geração para geração (que se acusem as pessoas que acompanham regularmente - e por vontade própria - o Canal Parlamento...). «Lincoln» é um filme muito natural e pouco cliché (sim, existem algumas particularidades da obra que podem ser consideradas típicas da cinematografia americana, mas que estão bem "jogadas" e acabaram por não estragar o ritmo da fita), que contém um argumento puramente genial, repleto de grandes deixas e de citações que, em pouco tempo, inundarão os sites que se dedicam a fazer imagens do género para depois serem partilhadas nas redes sociais. Se muitos já foram os retratos fílmicos de Lincoln (convém não esquecer o de «O Nascimento de Uma Nação» de D.W. Griffith), mas acho que «Lincoln» bate qualquer outro na perspetiva mais histórica e precisa do seu ambiente e dos seus atores. 


«Lincoln» relata, em suma, o processo repleto de impurezas que circundou a 13.ª Emenda e sua proclamação na Constituição Americana, mas não se centrando apenas em Abraham Lincoln e dando espaço de "intervenção" a todos os seus ajudantes nas pequenas aldrabices políticas que foram planeadas: porque não se tratava apenas de Lincoln, mas sim de toda a máquina política que o acompanhava, com algum humor e realçando a vertente cómica da personagem (os momentos em que decide contar pequenas histórias engraçadas durante o filme são imperdíveis, principalmente uma que envolve um retrato de George Washington). Rodeado por um grande elenco de atores secundários (destaque especial para Tommy Lee Jones num desempenho que está também nomeado para uma estatueta de Hollywood, mas também para as aparições de Sally Field - também nomeada -,  James Spader, David Strathairn, Jared Harris e Joseph Gordon-Levitt), Daniel Day-Lewis preenche o ecrã de uma maneira extraordinária e que poucos atores da atualidade conseguem igualar. «Lincoln» é o relato da América fora de mitos e superstições criadas ao longo dos anos, não deixando contudo de existir a imagem que todos temos de Abraham Lincoln (e que se mantém, mesmo com toda a "mentira piedosa" da Emenda - visto que foi por uma boa causa). É um filme que acarreta uma elevada simbologia e que, penso eu, será estudada por alguns especialistas nas próximas décadas. Não sei se se trata de um dos pontos altos da carreira de Spielberg, mas não tenho dúvidas que se trata de um grande filme, que não pode ser esquecido na salganhada constante de estreias cinéfilas que se sucedem semanalmente. Mas «Lincoln» é, para mim, um filme que faz a diferença no meio da repetição constante de blockbusters sem imaginação que têm invadido as nossas salas. 

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1 comentário:

  1. Palavras para quê... está tudo dito e muito bem dito! Eu, que também já vi o filme, não podia estar mais de acordo com esta apreciação. Um belíssimo filme, com excelentes representações, especialmente no papel de Lincoln.
    Não se dá pelo passar do tempo e sai-se da sala com uma agradável sensação de satisfação, senão mesmo, alguma pena por o filme ter terminado... A não perder!

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