Barry Lyndon: a conquista da alta sociedade

Singular, belo, subtil e irónico. Nestes quatro adjetivos penso que consigo resumir tudo o que «Barry Lyndon», que se trata "apenas" de mais uma obra prima do genial Stanley Kubrick (cineasta que dispensa qualquer tipo de apresentações). Mas como o filme foi, para mim, bom demais para se dizer tão pouco sobre ele, vou tentar desenvolver a minha opinião (se bem que os resultados não serão os mais desejados). Repleto de exuberantes e deslumbrantes paisagens, inspiradas em quadros de pintores da época e que são muito bem aproveitadas pela lindíssima fotografia do filme, e com um elenco de excelentes atores (destacando Ryan O'Neill, o protagonista desta saga sobre a busca da ascensão social), «Barry Lyndon» é um filme que, tal como todas as obras pertencentes ao universo kubrickiano, mostra a versatilidade e criatividade de um cineasta que queria sempre ultrapassar as fronteiras. Cada um dos seus filmes enquadra-se num género cinematográfico distinto e numa história completamente diferente, e contudo, consegue encaixar-se em qualquer proposta de uma maneira diferente e profundamente original. «Barry Lyndon» não é exceção à regra: é uma crítica a uma época e a uma classe social que eu não estava a pensar que fosse tão perturbante e bonita, vindo do realizador de filmes como «2001: Odisseia no Espaço» e «Laranja Mecânica». Apesar de ser um filme que divide mais opiniões do que estes dois últimos citados, penso que fiz muito bem em ver «Barry Lyndon». Para mim, foi uma experiência inesquecível e mesmo educacional. Enquanto estava a pesquisar sobre o filme descobri que, para o realizador Martin Scorsese (outro incontornável Mestre da Sétima Arte), este é o seu filme preferido de Kubrick (com o qual tinha investido alguns minutos da sua "Viagem pelo Cinema Americano" para explicar a sua simbologia e a forma como foi magnificamente filmado). E para mim, «Barry Lyndon» tornou-se um dos Kubricks de eleição. Não é um filme que toda a gente tenha paciência para ver até ao fim, mas os apreciadores da obra do cineasta e de filmes diferentes do costume deverão gostar de visionar «Barry Lyndon». Não é um filme de entretenimento no mais literal sentido da palavra (e tenho de ser sincero, entretenimento é coisa que há pouco nesta fita), mas é um filme que representa o melhor que o Cinema pode oferecer aos cinéfilos ou aos que são apenas curiosos da Sétima Arte. «Barry Lyndon» trata-se de um filme "especial", que nos envolve no enredo, nas personagens e no ambiente se nós deixarmos que isso aconteça.

Basta olhar para esta paisagem e percebe-se que é digna de um quadro!
«Barry Lyndon» segue o século XVIII e a vida de Redmond Barry, um moço irlandês que devido a um conflito que envolveu temáticas amorosas, se vê obrigado a fugir do seu lar e percorrer Mundo. Um filme que rodeia todo o seu conteúdo à volta de duas palavras: "alta sociedade". É um retrato das maneiras que Redmond utiliza para ascender socialmente como também é uma crítica à repressão de sentimentos que as pessoas da época faziam para não causarem má impressão ou opiniões indesejáveis junto dos outros (algo que também pode ser visto noutro filme, mas realizado por Orson Welles, «The Magnificent Ambersons»). Em «Barry Lyndon» encontramos também a falsidade e a hipocrisia que circundava toda uma perspetiva de vida de uma classe social (neste caso, a alta nobreza) através desta sublime odisseia de Redmond pela mentalidade e pelos costumes do século das Luzes. E apercebemo-nos também da mudança que se sucede dentro do próprio protagonista do filme, à medida que este ascende mais e mais na sociedade do seu tempo e à medida que o seu estatuto se torna cada vez mais significativo. E todas as aventuras de Barry, desde a participação numa guerra até ao casamento com uma moça pertencente a uma família nobre muito rica, foram todas causadas por um único e simples acontecimento. É daquelas coisas de tamanho insignificante, mas que são essenciais para uma certa e determinada história se desenrolar de uma certa e determinada maneira: ou seja, se Redmond não se tivesse apaixonado pela prima (algo que vemos logo no início do filme - portanto, não estou a "spoilerizar" nada), ele não teria saído da sua "zona de conforto" e partido rumo ao desconhecido. Essa paixoneta desencadeou todos os acontecimentos que se lhe seguiram e levaram Barry a tornar-se naquilo que podemos ver ao longo das quase três horas de «Barry Lyndon». Não acredito que a história deixasse de ser interessante se não tivesse seguido este rumo, mas acho que marcou a diferença ao ser feita desta forma. O que me fez considerar que «Barry Lyndon» é, sem sombra de dúvida, mais um filme inigualável de Stanley Kubrick!


Com todas as análises e reflexões que já foram feitas sobre esta magnífica obra, resta-me muito pouco a dizer sobre a mesma que ainda não tenha sido referido por alguma individualidade, dentro ou fora dos recantos da internet. E como não costumo chegar àquelas conclusões brilhantes e mega-filosóficas que muitas pessoas conseguem atingir quando visionam filmes com esta magnitude, também não conseguirei descobrir essas coisinhas ainda não referidas por ninguém. Por isso não me resta mais nada a acrescentar. E esse foi o meu grande dilema: saber o que ia escrever para esta crítica. Vi o filme há quase três semanas e só hoje é que consegui concluir esta análise. Fui adiando isto até que há alguns minutos atrás decidi que tinha de terminar a minha pseudo-recensão crítica. E como puderam ver, eu não soube dizer nada de especial (para não variar...). Mas apenas vos quero dizer que vale muito a pena ver «Barry Lyndon» e saborear cada segundo do filme, cada plano, cada diálogo, minuciosamente executado e magistralmente dirigido por Stanley Kubrick. Talvez fosse este o maior poder do Mestre: fazer filmes que ultrapassam a nossa capacidade mental e que nos impedem de conseguir deitar cá para fora todas as sensações que obtivemos com o visionamento dos mesmos. «Barry Lyndon» trata-se, em suma, de um filme absolutamente fantástico e completamente imperdível. E está tudo dito.

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Comentários

  1. Depois de ler esta crítica, vou ter mesmo que ver o filme... Obrigada pelo conselho!

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  2. É um filme que costuma passar na televisão, quando voltar a ser repetido eu aviso! :)

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    1. Ok, obrigada, gostava mesmo de ver.

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