Sleuth: Autópsia de um Crime

Andrew, tell them it was all just a bloody game.


Uma trama complexa, várias reviravoltas, um duelo entre dois homens envolvendo jogos com consequências imprevistas, e algo diabólicas: tudo isto (e muito mais) é o que poderá ser encontrado em «Sleuth: Autópsia de um Crime», uma fantástica obra cinematográfica que prima pela originalidade, pelo suspense e pela manipulação do espetador (ou seja, no que é que devemos acreditar ou não naquilo que o ecrã nos mostra). Adaptação para a Sétima Arte da peça homónima (e vencedora de um Tony Award) da autoria de Anthony Shaffer, este filme conta com argumento escrito pelo próprio dramaturgo (talvez um dos principais fatores para que esta fita funcione tão bem) e realizado por Joseph L. Mankiewicz (um dos grandes cineastas da época "doirada" do cinema clássico de Hollywood, responsável por filmes celebérrimos como o vencedor de seis Oscares «All About Eve», e por obras menos conhecidas do grande público como o épico «Cleópatra», protagonizado por Elizabeth Taylor e Richard Burton e que representou um dos maiores prejuízos de sempre da História da indústria cinematográfica americana), «Sleuth» é um filme estimulante e criativo que conta com as interpretações dos Grandes Laurence Olivier e Michael Caine, que aqui deixaram duas performances inesquecíveis para a posteridade, e que revelam que sabemos muito pouco sobre as capacidades dos dois atores em pegar nestas personagens tão complexas e profundas. É raro um filme conseguir aproveitar ter apenas uma dupla de indivíduos na sua ação, para conseguir ser tão entusiasmante. 


Em «Sleuth: Autópsia de um Crime», nada é o que parece, e nem mesmo as suposições que nós elaboramos na nossa mente, ao longo das peripécias das duas personagens, parecem estar corretas. Ficamos sempre na dúvida, desconcertados com o rumo dos acontecimentos da trama e da forma como Andrew Wyke, um famoso autor de literatura policial (interpretado com mestria pelo inigualável Laurence Olivier) e Milo Tindle, o cabeleireiro amante da sua esposa (confesso que não estava nada à espera de ver e de adorar Michael Caine neste papel tão pouco vulgar...) tentam vencer os jogos que submetem um ao outro. À medida que cada novo jogo começa, tudo o que está envolvido torna-se cada vez mais grave e, a certo ponto, de proporções mortais. Primeiro, tudo começa com Wyke a trazer Milo a sua casa (uma enorme, sumptuosa e misteriosa mansão, repleta de armadilhas, enigmas e algumas bizarrias que ligam os gostos extravagantes do escritor às histórias de detetives por ele concebidas, e que em parte fazem lembrar o Universo de Agatha Christie), convencendo-o a colaborar no seu engenhoso plano: roubar as suas jóias para ficar com a soma elevada atribuída pelo seguro. Com todos os pormenores acertados e cada passo detalhadamente planeado, Wyke e Milo pensam estar na mira do crime perfeito. Ou será que não? Talvez as personagens não estão a preparar aquilo que nós pensamos, o plano que o ecrã nos mostra... Ou então, há muitas mais coisas envolvidas, e ainda não tivemos tempo de as descobrir como deve ser...


«Sleuth: Autópsia de um Crime» é um filme precioso. Tanto por tudo o que já apontei até aqui, como por outra coisa essencial: a sua estrutura mantém-se interessante e cativante hoje, e todo o suspense percorre a ação da fita até ao último segundo da mesma. É impossível não se ficar, pelo menos uma vez, com um certo fascínio pelos truques e armadilhas que Wyke e Tindle preparam um contra o outro, primeiro de uma maneira ingénua, e depois, a cada minuto, com proporções mais desejavelmente maiores e perigosas. Um intrincado e excelente filme que deve a sua originalidade e genialidade à peça de Anthony Shaffer, como à impecável e perfecionista direção de Joseph L. Mankiewicz, não esquecendo a maravilhosa dupla de atores que vale por muitos elencos que contém um número de participantes que abrange dois dígitos (ou mais até, se contarmos com figurantes e toda a "parafernália" do costume). Ah, claro, e o cenário, magnificamente planeado e construído, e que por si só é quase um terceiro ator do filme. É através dele que os dois personagens utilizam certas particularidades para conseguirem pôr em prática os seus esquemas e aldrabices, testando a inteligência de cada um e também o sentido de "orientação" do espetador. Termino avisando que este filme nada tem a ver com o imprestável remake feito há pouco tempo (com Jude Law e de novo Michael Caine, mas no papel de Olivier), e que o que vale mesmo a pena é o original. Todos estão convidados a entrar em «Sleuth: Autópsia de um Crime». Mas quem é que se arrisca a alinhar no jogo?

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