sábado, 5 de janeiro de 2013

O Inferno na Terra (Stalag 17)


Se houve um filme que me surpreendeu, nos últimos tempos, em termos de "não-estava-nada-à-espera-de-algo-assim", esse filme é «O Inferno na Terra», uma comédia hilariante cuja tradução tuga do título nada tem a ver com a obra em si (para não variar...), que mostrou ser um filme muito interessante por, praticamente, toda a parte cómica que o constitui, continua a fazer rir, com gags e pequenos "sketches" que usam alguns dos estilos e mecanismos humorísticos que, na atualidade, muitos programas e filmes de comédia tentam a sua sorte (na sua maioria, sem sucesso). Em poucas palavras, «O Inferno na Terra» pode ser descrito como um divertidíssimo, inteligente e arriscado filme, para a época em que foi feito, onde o cinema de guerra era visto não tanto como uma boa matéria para se fazer humor ou filmes não tão propagandísticos ou melodramáticos. Mas obviamente que há mais, muito mais, para se dizer sobre esta fantástica e surpreendente obra, que ainda tem muita graça e que consegue pôr toda a gente bem disposta,  visto que dispõe de piadas que abrangerão grande parte dos gostos de cada um.

Realizado pelo mítico Billy Wilder (autor de obras consagradas como «Pagos a Dobrar» e «Os Homens Preferem as Loiras»), «O Inferno na Terra» é uma divertida comédia, com alguns toques de drama, que se passa durante a Segunda Guerra Mundial. Apesar da seriedade do tema, o mesmo é retratado com simplicidade e humor, através da história de um campo de prisioneiros americanos, raptados pelas tropas nazis durante o conflito. Em vez de nos querer dar uma perspetiva depressiva sobre a guerra (que em alguns filmes é necessária, admito, mas neste não), o filme consegue-nos entreter em grande, sem nos deixar também aqueles complexos de culpa (apesar de, por vezes, e se bem utilizados, esses ditos complexos sejam essenciais que o espetador obtenha de algumas obras cinematográficas. Mas volto a repetir: deste filme isso não é necessário). A brincar se dizem coisas sérias, e o filme consegue cumprir este antiquíssimo chavão de uma forma brilhante e muito inteligente.

Com a sua interpretação em «O Inferno na Terra», o excelente ator William Holden (que se tornou - e bem! - num dos grandes ícones de sempre da gigantesca e complexa indústria de Hollywood) recebeu o seu primeiro - e único - Prémio da Academia. Sendo um dos grandes génios da representação do Cinema norte-americano (veja-se filmes emblemáticos como a crítica ao jornalismo televisivo «Network - Escândalo na TV» e o western incontornável e insuperável «A Quadrilha Selvagem», para além de muitas outras obras que marcaram a História da Sétima Arte), Holden interpreta, neste filme, uma personagem irónica e sarcástica: o sargento Sefton, um fala-barato que faz diversas negociatas com os guardas alemães para conseguir obter alguns benefícios especiais. E é por ser tão "amiguinho" dos nazis que os seus colegas de camarata, depois de dois deles terem sido mortos numa fuga altamente secreta, o considerarão como o "bufo" do campo, o indivíduo que revela todos os pormenores e historietas que se passam dentro da camarata, para os nazis poderem controlar os americanos a cada passo que estes dão. Contudo, apesar de querer parecer sempre que está contra os seus companheiros de pátria, o sargento Sefton não perdeu o seu patriotismo, e toda a história que se desenrola e o ódio que os seus colegas têm para com ele (um ódio injustificável, como se verá) e que vai crescendo, criam uma atmosfera de guerra que podemos ver poucas vezes assim retratada em filme. Interessa mais as relações humanas que se constroem dentro do campo, e todas as cenas cómicas (muito bem engendradas) e não a guerra em si. Até os próprios alemães estão mais ou menos bem com aqueles americanos (têm uma simpatia falsa, mas ao menos não são como os nazis dos outros filmes, que não falam inglês e que não dizem piadas), e tenho de destacar a personagem do Grande Otto Preminger (um excelente ator que é, hoje em dia, mais recordado pela sua carreira como realizador - e que eu espero conhecer muito em breve, com alguns dos seus melhores filmes), que neste filme é Oberst von Scherbach, o nazi que controla e tenta sempre eliminar qualquer tipo de rebelia entre os seus prisioneiros.

Resumindo e concluindo, se há um filme de guerra esquecido, mas que deve ser visto, é «O Inferno na Terra». Não sendo um relato detalhado do conflito, que se passa dentro do mesmo (só vemos o dito campo de prisioneiros americanos, mais nada), uma ideia que algumas pessoas pensam que tem sempre de se suceder em obras cinematográficas que abordem a II Guerra Mundial, «O Inferno na Terra» é uma excelente comédia que, no meio dos risos, alerta para alguns dos dramas da guerra, de uma forma leve mas não menos profunda. É um filme que nos faz sentir bem, e que nos faz entender que aquela velha máxima ainda tem validade: mesmo nas situações mais complicadas, nunca faltam razões para se sorrir. Um filme para rir e para perceber como o Cinema pode ultrapassar barreiras geracionais. Fabuloso!

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