sábado, 12 de janeiro de 2013

O Grande Ditador: Como rir da guerra... a sério


Escrevi este texto em Setembro do ano passado, para uma revista portuguesa online dedicada ao Cinema, que estaria por estrear por essa altura. Contudo, os tempos não estão fáceis e o projeto teve de ser, com uma grande pena do criador do mesmo e de todos os seus colaboradores, posto de lado. Mas decidi publicar este texto no blog para o "arquivar" nas minhas críticas (ainda não tinha feito uma recensão propriamente dita a este filme, para mim um dos melhores de sempre). Acrescentei algumas coisas e modifiquei alguns erros de português. Espero que gostem e desculpem se não está grande coisa. Mas neste blog isso já é habitual. Além de que, entretanto, já não escrevo da mesma maneira como escrevia em Setembro. Talvez um bocadinho pior, vá.

«O Grande Ditador» é uma das obras mais conceituadas e acarinhadas da extensa cinematografia de Charles Chaplin. Elaborado durante uma das épocas mais preocupantes e conturbadas da História, a II Guerra Mundial, «O Grande Ditador» criticou o seu tempo, mas continua imensamente atual nos nossos dias. Alertado pela situação do nazismo e do Holocausto de Adolf Hitler, Chaplin decidiu pegar no ditador e transformá-lo num objeto de sátira cinematográfica que elevou a arte da comédia a um nível nunca antes ultrapassado. Utilizando o riso, a sua arma mais poderosa (e também de toda a Humanidade, como afirmava Mark Twain), Chaplin criou com «O Grande Ditador» uma grande lição de cinema e de coragem, ao fazer frente às grandes instituições com a abordagem, de uma forma leve mas extraordinária e arrebatadora, de um tema tão dramático, chocante e perturbante para o século XX, conseguindo satirizar impecavelmente todos os males que o totalitarismo alemão trouxe ao mundo. Com o filme, Chaplin combate o nazismo e seus apoiantes de uma maneira cómica, mas sem perder qualquer sentido crítico e social. 

Repleto de cenas e diálogos marcantes, «O Grande Ditador» é um filme que fez História e que já faz parte da própria História, tratando-se de um documento significativo para mostrar qual era a opinião que uma das figuras mais populares do seu tempo tinha sobre uma das personagens mais odiadas de todo o sempre. E o que é curioso é que o próprio Hitler viu o filme… mais do que uma vez. Recentemente foram descobertos registos que comprovam que Adolf visionou «O Grande Ditador» duas vezes e tererá querido voltar a vê-lo por uma terceira. Ou Hitler quereria perceber os fatores que Chaplin criticou na sua pessoa, ou então tinha adorado, pura e simplesmente, a fita. Mas isso nunca chegaremos a saber… 

Em «O Grande Ditador», Charles Chaplin faz a “completa” transição do cinema mudo para o sonoro (já tinha posto alguns diálogos no seu filme anterior, «Tempos Modernos», mas este mostra a resistência final de Chaplin ao abandono de um estilo cinematográfico que adorava e que, acreditava, iria garantir a sua imortalidade) e despe- se, de uma vez para sempre, da personagem de Charlot. Pela primeira vez, o público pôde ouvir e emocionar-se com a extraordinária performance vocal de Chaplin (quer como comediante, quer como ator mais dramático), uma voz com um alcance impressionante, que continua a apelar à paz e ao bom senso dos cidadãos na atualidade, principalmente com o famoso discurso que encerra o filme. 

A história desta obra é simples de ser contada: temos dois sósias. Um é judeu e proprietário de uma barbearia, e outro é Adenoid Hinkel, o feroz (e algo palerma) ditador da Tomânia, um país fictício que simboliza a situação da Alemanha na Segunda Grande Guerra. Ambas as personagens são interpretadas pelo próprio Chaplin, que nos consegue mostrar a distinção entre as perspetivas de vida do barbeiro e do tirano. Há tempo ainda para uma sátira a Mussolini (perdão, Napaloni) e vários momentos sérios em que Chaplin dá uma pequena amostra do poder negativo da ideologia Hitleriana. Mas o cineasta pretende "cinematografar", também, a fragilidade do sistema de Hitler, e de como este homem e as suas ideias dão muito mais motivo para rir do que se poderia pensar. 

Apesar de «O Grande Ditador» ter vários momentos de comédia física, estilo que Chaplin melhor domina, são as cenas faladas que marcam mais a ação de todo o filme. E se a maioria das pessoas, ignorantemente, conhece Chaplin pelo seu trabalho no mudo, nem sabe o que perde ao não ver os seus filmes sonoros, repletos de momentos cativantes, lindíssimos e inigualáveis. Veja-se, por exemplo, a mítica cena em que Hynkel brinca com um balão que representa o globo terrestre (uma prodigiosa metáfora sobre o que poderia acontecer ao mundo se Hitler continuasse a brincar com ele como se fosse uma criança) ou o prodigioso discurso final, que encerra «O Grande Ditador» de uma forma magnífica e poderosa. Chaplin fala mais por si mesmo do que pela personagem, divulgando uma mensagem de paz e esperança num mundo melhor numa época em que essas palavras bem eram necessárias de se fazerem ouvir… 

«O Grande Ditador» só chegaria a Portugal no final da II Guerra Mundial, mas com a censura, só mais recentemente, após o 25 de Abril, os portugueses puderam ter acesso, na sua versão integral, a esta obra-prima da Sétima Arte sem precedentes. Charles Chaplin foi e sempre será considerado um grande Génio do Cinema, que nos deixou um sem-número de filmes geniais que mudaram a vida de muitas gerações de admiradores. E «O Grande Ditador» é, com certeza, um desses filmes de topo.

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