terça-feira, 22 de janeiro de 2013

O Desconhecido do Norte-Expresso (Strangers on a Train)


Estamos em Junho de 1951, quando «O Desconhecido do Norte-Expresso», uma das obras mais prestigiadas do realizador Alfred Hitchcock, estreou nas salas de cinema americanas. Mal tinha começado a nova década e o Mestre do Suspense relançou a sua glória cinematográfica com um trabalho digno de recordação e de preservação para a posteridade. Antes de «Chamada para a Morte», «A Janela Indiscreta», «Intriga Internacional» e outros sucessos de bilheteira que povoaram a filmografia de Hitchcock durante os anos 50 (para além do clássico - mas não tão famoso quando estreou - «Vertigo»), «O Desconhecido do Norte-Expresso» mostra ser o teste definitivo para tudo o que Hitchcock planearia fazer nos EUA durante os anos seguintes, sendo também mais uma de variadíssimas demonstrações das capacidades criativas e cinéfilas do cineasta para mostrar, no ecrã, aquilo que o espetador queria ver no ecrã, sem precisar de recorrer a pretensiosismos e ideias pouco originais, nunca julgando mal da inteligência da legião de fãs que acompanhava os seus filmes. Hitchcock sabia inovar e chegar, ao mesmo tempo, ao que os espetadores mais ansiavam ver numa sala de cinema. E poucos realizadores souberam executar, em toda a História desta nobre Arte, essa junção dos seus próprios interesses (em relação à sua visão do que é o Cinema e de como é que um filme deve ser feito) com os do público, sempre em busca de coisas novas... ou pelo menos, há uns anos era assim, acho eu. OK, talvez as coisas tenham mudado, em termos da relação das audiências com aquilo que as distribuidoras decidem passar nos ecrãs. Mas é bom recordar filmes como este, em que essa dita junção que eu falei se concretiza. E não pretendo ser saudosista de um tempo que nunca conheci, visto não existir neste Mundo no ano de 1951. Apenas quero dizer que vale a pena explorar filmes dessa época, apesar da maledicência que muita gente elabora sobre os mesmos, embora não os conheça verdadeiramente. 


«O Desconhecido do Norte-Expresso» pode referir um comboio, tanto no título luso da obra hitchcockiana como na versão original do mesmo, mas não é esse transporte que está a parte central de toda a história misteriosa, intrigante e empolgante do filme. É no comboio onde as duas personagens centrais do filme (o tenista profissional Guy Haines - interpretado pelo ator Farley Granger, numa nova colaboração com Alfred Hitchcock desde «A Corda», de 1948 - e o excêntrico socialite Bruno Anthony, uma caricata e diabólica personagem com teorias preversas sobre a vida e a morte - interpretado pelo ator Robert Walker na sua primeira e única colaboração com o realizador britânico) se encontram pela primeira vez. O cruzamento entre as duas dá-se por um pequeno acaso do destino que trocará de imediato as voltas à vida de Guy Haines e à sua relação com a esposa que não lhe quer conceder o divórcio, apenas para se poder aproveitar do sucesso do marido na carreira como tenista. Logo naquela primeira viagem de comboio, Guy fala com Bruno, de uma forma acidentalmente insegura, sobre a sua vida e sobre o ódio que tem para com essa mulher, deixando expressa a vontade de lhe apertar o pescoço. Bruno leva aquela conversa a sério demais, e decide pôr a teoria do "crime perfeito" que tinha revelado a Guy, sem o consentimento deste (quando Guy ouve Bruno falar dessa teoria, não pensa, a princípio, que Bruno estivesse a falar a sério...). A ideia de Bruno consistia na troca de assassinatos: enquanto ele assassinava a esposa de Guy de uma forma bastante discreta, Guy teria de matar o Pai de Bruno (pelo qual este socialite sentia um ódio tremendo, mas nada justificável). Aqui estaria a génese do crime perfeito: sem motivos para serem descobertos, visto que estavam a matar uma pessoa que não se interligava em nada com as suas vidas, Bruno achava que ele e Guy poderiam sair ilesos e satisfeitos deste homicídio duplo. Contudo, Bruno mata a esposa de Guy, e este não quer cumprir a sua parte do acordo, porque não tinha percebido que Bruno estava a falar a sério quando o abordou com aquela teoria, e aí é que tudo se complica, ao nível da vida pessoal do jogador de ténis (a namorada e a família da mesma começam a suspeitar de alguma coisa estranha que se está a passar). A polícia andará atrás dele, convencida de que ele é o culpado do assassínio, e numa espiral de acontecimentos que não parecem ter fim, encontramo-nos num intrépido jogo cinematográfico de suspense e ação, repleto de cenas mirabolantes que estão repletas de características do "film-noir" (as sombras, as perspetivas, os planos de cãmara, etc), num filme baseado naquele que foi o primeiro romance policial de Patricia Highsmith, uma das grandes autoras deste género literário no século XX, adaptado para o cinema em parte por outro "monstro" das histórias de detetives, criador do célebre Marlowe, Raymond Chandler.

Alfred Hitchcock em mais um dos seus notáveis "cameos" - e talvez um dos seus mais conhecidos.
«O Desconhecido do Norte-Expresso» não foi para mim a obra prima que muitos críticos e admiradores da obra de Alfred Hitchcock afirmam que é. Contudo, trata-se de um grande filme, recheado de grandes momentos cinematográficos completamente inesquecíveis (veja-se, por exemplo, a célebre cena do "duelo" entre as duas personagens num carrossel - e mais não digo, apenas acrescento que esta é uma cena que, para mim, é espetacular, é a melhor de todo o filme, muito bem construída e repleta com aquele suspense tão à maneira inventiva e única de Hitchcock). Com uma história bem construída e ritmada, precisa e concreta, e que Hitchcock soube como ninguém levar ao ecrã e torná-la numa grande experiência de Sétima Arte. Vale a pena também destacar as interpretações do elenco, mas especialmente da dupla de protagonistas Farley Granger e Robert Walker (ator que faleceu no ano em que o filme estreou), que criam um clima de tensão e de "tempestade" que marcam uma das mais fortes "correntes" de suspense e entusiasmo que o filme proporciona ao espetador. Este filme é notável, e merece ser visto tanto pelos apreciadores de Cinema clássico, como os que admiram a obra e personalidade de Alfred Hitchcock. Uma verdadeira pérola do Cinema Americano.

* * * * 1/2

2 comentários:

  1. É de facto um grande filme. Tenho outras preferências na filmografia do Hitchcock, mas este é mais um que comprova todas as habilidades do mestre do suspense. Essa cena que referes do carrossel é absolutamente deslumbrante.
    E cada vez que penso neste filme lembro-me sempre do plano em que o Bruno mata aquela rapariga naquele parque de diversões e que observamos o estrangulamento através dos óculos da vítima. É um dos planos mais memoráveis.

    Cumprimentos,
    Rafael Santos
    Memento mori

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    1. Exatamente, não se trata de um dos graaaandes filmes do Mestre, mas tem cenas mesmo memoráveis, e planos de câmara assombrosos ainda hoje.

      Obrigado mais uma vez,

      Rui

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