quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

O Arrependido (Out of the Past)


Aclamado por muitos como um dos melhores filmes americanos de sempre, e por outros como um dos expoentes máximos desse género cinematográfico tão interessante, abrangente e empolgante que dá pelo nome de film-noir, «O Arrependido» trata-se de uma obra que se torna um perfeito exemplo de todas as potencialidades que esse género tem para oferecer aos seus apreciadores, sendo, provavelmente, um dos melhores case-studies para quem quiser principiar-se a descobrir o film-noir. Uma autêntica peça de museu, não por dever estar exposta numa vitrine para as pessoas olharem sem grandes atenções e seguirem em frente para os outros elementos do espólio, mas porque é um filme que faz parte da mitologia do cinema americano e de toda a linguagem da Sétima Arte que o país desenvolveu durante a década de 40, aquela que é para mim a década "doirada" da cinematografia do Tio Sam. Filmes como «Pagos a Dobrar», «Fúria Sanguinária», e este «O Arrependido», carregam uma importância a nível histórico e documental bastante significativa, que nos faz conseguir perceber a situação do povo americano naquela época e de como (e desculpem o uso deste chavão) já não se fazem filmes assim hoje em dia... Ao contrário de países como Portugal, os EUA conseguem usar o seu Cinema para analisar a sua História, a sua maneira de pensar, e os seus costumes. Para os americanos, filmes como estes têm uma relevância tão grande como para nós possuem obras literárias como «Os Lusíadas» de Luís de Camões ou a «Mensagem» de Fernando Pessoa. E felizmente, a maioria destas obras conseguiram sobreviver ao tempo, e assim poderão continuar a ser vistas e apreciadas por novas gerações de entusiastas pelo Cinema.

«O Arrependido» é um filme que está tão "colado" ao film-noir, que apenas num ambiente noturno e sem qualquer tipo de luz natural a atingir o lugar onde pretenderem vê-lo, é que consegue ser captado em toda a sua essência. É uma característica que tem sido comum a, praticamente, todas as fitas pertencentes a este género que eu já pude ver até hoje, mas esta foi a primeira em que testei essa minha teoria mental, visto que os outros todos vi sempre em sessões da noite caseiras. Apesar de ter fechado a persiana do meu quarto e ter "extinguido" qualquer tipo de luz que atingisse os meus aposentos e de ter ficado num quase-completo estado de escuridão, senti que não estava a fazer algo que me auxiliasse a ver perfeitamente bem «O Arrependido». Parece que só à noite é que as personagens cinematográficas ganham verdadeiramente vida, realidade e emoção, assim como os ambientes em que estão inseridas e as situações com que se vêem envolvidas. Um filme pertencente ao film-noir, se visto em condições apropriadas, trata-se de um visionamento que poderá permanecer para sempre na memória do espetador (isto se - obviamente - o filme a ser visto for do agrado desse indivíduo). Mas é muito interessante sentir, depois de preparadas bem as condições para o visionamento, sentir toda a realização do filme, e principalmente, de notar aquelas particularidades que são indissociáveis do film-noir, como as profundas sombras que marcam a visão que teremos de um qualquer personagem (um pormenor artístico retirado dos filmes expressionistas alemães dos anos 30, se não estou em erro...) e os engenhosos e intrincados planos de câmara que constituem cada cena desta esplendorosa obra cinematográfica.

«O Arrependido» foi uma produção da RKO, um estúdio de Hollywood que, à época, constituía um dos pontos fulcrais da indústria cinematográfica americana. Era na RKO que se encontravam muitas das grandes estrelas de Cinema dos EUA daquela era. Caso disso é, por exemplo, a mítica atriz Katharine Hepburn, que foi dada a conhecer ao Mundo pela RKO, protagonizando uma série de filmes para a empresa e que marcaram os seus primeiros anos de uma gloriosa e versátil carreira na representação. E em «O Arrependido», temos como protagonista nada mais, nada menos, que o Grande Robert Mitchum, que no filme interpreta o papel de um ex-detetive privado que vê o seu passado a chocar com o presente quando recebe a visita do seu último cliente (interpretado por Kirk Douglas, num dos primeiros papéis da sua carreira, e que merece ser atentamente analisada) e que é a última pessoa que ele gostaria de rever. Com esse reencontro, ficamos a perceber como o proprietário de uma pequena estação de serviço numa aldeola dos EUA teve um passado tão obscuro e misterioso, envolvendo-se numa história de amor e de intrigas de proporções inimagináveis, ao apaixonar-se pela esposa que esse cliente lhe pagou para encontrar. Por várias vezes temos conflitos bastante profundos entre o passado e o presente da ação da obra, que são ainda mais densos com a série de intrincadas armadilhas que cada um dos três personagens prepara cuidadosamente para atingir os outros dois. E no fim de contas, quem será o mais esperto e levará a melhor?

Este filme é constituído por um argumento complexo, repleto de diálogos fabulosos e de situações inesquecíveis que provam a inteligência dos autores de «O Arrependido», dos seus atores (Robert Mitchum interpreta um galã cheio de estilo, ao melhor nível dos heróis - ou anti-heróis, em certos casos - que as obras do film-noir deixaram para a posteridade) e também do realizador Jacques Tourneur (um veterano da RKO que, antes de «O Arrependido», já tinha dado que falar com filmes produzidos para esse estúdio e que primavam pela criatividade e pelas diversas inovações que trouxe ao género de Terror, como os dois clássicos «A Pantera» - «Cat People» - e «Zombie» - «I Walked With a Zombie»), que sabe apropriar-se das condições que lhe foram fornecidas e aproveitar ao máximo todas as suas potencialidades. Apesar de eu não conseguir colocar este filme num patamar de excelência como outros grandes marcos do film-noir (embora esteja muito perto, na minha opinião, de atingir o topo da qualidade cinematográfica), «O Arrependido» é um filme cujo visionamento vale por muitas obras da atualidade. Nem só de filmes perfeitos vive o Grande Cinema, e este filme é um perfeito exemplo de que a arte cinematográfica é uma arte que deve ser mais valorizada pelo público e pelas televisões nacionais. Fossem exibidos filmes com esta qualidade mais vezes no pequeno ecrã e talvez a cultura e hábitos cinematográficos de toda a nossa nação fosse um bocadinho diferente...

* * * * 1/2

Sem comentários:

Enviar um comentário

Se chegaram até aqui e tiverem alguma mensagem, crítica, ou opinação a fazer em relação ao que acabaram de ler, façam o favor de o escrever aqui. A gerência agradece e responde (se não forem nenhum príncipe da Malásia que tem 10 milhões de dólares para me oferecer, claro).