sábado, 12 de janeiro de 2013

Ladrões de Bicicletas


Um dos expoentes máximos do movimento neo-realista do cinema italiano, «Ladrões de Bicicletas» é um belíssimo filme e uma das grandes obras primas humanas da Sétima Arte. Num estilo que tinha como prioridade o relato da realidade tal como ela é, sem serem acrescentados quaisquer tipos de artifícios artísticos à história e ambiente a ser filmado, esta obra dramática consegue cumprir essa regra do género que caracterizou o cinema europeu do pós-guerra, continuando ainda, na atualidade, a comover, visto que possui um tipo de sensibilidade que não é piegas, mas sim muito realista e carregada de simplicidade (tal como toda a história da obra).

«Ladrões de Bicicletas», uma obra belíssima realizada por Vittorio de Sica e que definiu todo um género, é o retrato puro e duro de um país devastado e empobrecido pela Segunda Guerra Mundial. A comovente história de um Pai desesperado por não perder o emprego depois de ter perdido a bicicleta que utilizava para o mesmo mostra ser um bom motivo de comparação com o nosso tempo e com as dificuldades que a crise põe a cada um de nós. Esta obra mostra também os valores, ideias e perspetivas de vida de uma Itália atrasada e devastada pela II Guerra Mundial. Destaque para os pormenores que nos permitem identificar a miséria da época em que decorre o filme: por exemplo, quando Antonio vai a uma loja dar os lençóis de casa em troca de algum dinheiro, para depois poder buscar a bicicleta, necessária para obter o seu emprego. Quando o lojista vai guardar os ditos, vemos o grande "armazém" de lençóis deixados por pessoas que, na mesma situação de Antonio ou numa pior ainda, apenas quiseram garantir a sua sobrevivência na cidade.

Acho caricato que o filme, na altura em que estreou, tenha sido muito criticado pela sua visão mais pessimista da realidade italiana. Os críticos arranjam, em certas alturas, argumentos muito pouco válidos para contestarem a sua opinião sobre certos e determinados filmes, misturando mais a sua opinião sobre certas particularidades ou do estilo de uma fita, do que propriamente da sua qualidade (e que em «Ladrões de Bicicletas», é inegavelmente excelente). E numa situação contrária, hoje em dia os críticos italianos queixam-se, por exemplo, do excesso de otimismo com que a Itália é retratada no Cinema, em filmes como a mais recente comédia de Woody Allen, «Para Roma com Amor», uma obra que, a meu ver, tem levado demasiada pancada dos cinéfilos. Contudo, apesar de alguma negatividade da crítica europeia, o filme foi logo abertamente elogiado por especialistas e não-especialistas da Sétima Arte, tendo sido eleito, poucos anos depois, como o melhor filme de todos os tempos da primeira edição da famosa lista da Sight and Sound, destronado em 1962 por «Citizen Kane», cujo reinado durou até à última edição do top, quando «Vertigo» tomou de assalto o primeiro lugar.

Existem muitos diálogos sobrepostos no filme que são, na sua maioria, impossíveis de acompanhar ao mesmo tempo. Mas estes não são necessários para se compreender bem esta magnífica fita. O neo-realismo trata mais da estética e das emoções reais das personagens do que propriamente a consistência das falas dos intérpretes. Conseguimos entender mesmo assim todo o filme e refletir, à nossa maneira, nas questões que o mesmo coloca em toda a sua curta duração. As expressões dos atores, principalmente do Pai e do filho protagonistas do mesmo (e que têm uma ligação muito eternecedora, e que me fez recordar, por variadas vezes, a dupla desse maravilhoso filme que dá pelo nome de «A Vida é Bela»), são suficientes para percebermos o que se está a passar. A história de Antonio, a sua demanda em busca da bicicleta perdida e que lhe irá custar um emprego, trata-se de uma situação que era algo vulgar naquela época, mas da vulgaridade se fez Cinema, e ficámos com um testemunho de vida que se tornou imortal na Sétima Arte através deste filme tocante, inteligente e emocionante. E que, sendo simples, esta história foi contada de uma maneira que mudou para sempre a forma de se transpor a realidade para o grande ecrã. 

Por fim, gostaria apenas de elogiar a bonita e excelente banda sonora desta obra, que ajuda muito a carga emocional do ambiente, da história e das personagens, aproximando-nos ainda mais da ação de «Ladrões de Bicicletas», daquele Pai desesperado e pobre, e daquela época, triste e inglória para a Itália e muitos outros países que ficaram devastados pela II Guerra Mundial. Um filme obrigatório, repleto de sinceridade, humanidade e honestidade. E neste ano de 2013, acabadinho de estrear, em que temos muitas incertezas em relação ao futuro do país e em relação às condições económicas que Portugal terá de enfrentar, o seu visionamento torna-se ainda mais essencial.

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