quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Brother - Irmão


O ano de 2000 foi marcado por diversos acontecimentos cinematográficos de valor. Um deles poderá ter sido, a meu ver, a passagem do célebre "Beat" Takeshi Kitano, realizador, escritor, ator, apresentador, etc etc etc, pelos Estados Unidos da América. Do resultado desse cruzar de culturas surgiu «Brother - Irmão», um thriller no estilo a que Kitano habituou os seus seguidores e fãs das abordagens, na sua filmografia, à "yakuza", a máfia japonesa. O filme é a prova de como a sagacidade e a visão oriental do cineasta conseguem agradar além-fronteiras e impôr-se, num país dominado por uma cultura cinematográfica própria e que domina, praticamente, a distribuição de filmes em todo o Mundo. Apoiado por um grupo de profissionais do cinema americano que souberam perfeitamente respeitar os objetivos de Takeshi Kitano com este «Brother», o realizador criou mais uma grande história para juntar ao seu vasto (e complexo) currículo artístico, com uma história que volta a envolver crime, negócios obscuros e violência (não sendo banal e sim, estilizada ao jeito que Kitano caracterizou a sua filmografia).

«Brother - Irmão» é uma espécie de versão interracial de «O Padrinho», onde o confronto de culturas (a japonesa e a americana) acaba por ser um dos primordiais pontos-chave de toda a trama, sendo mesmo quase uma personagem autónoma, que condiciona as ações e comportamentos de todos os personagens do filme. Yamamoto é um membro da yakuza que, ao refugiar-se nos EUA após uma guerra da dita máfia no Japão, reencontra o meio irmão, um "dealer" da zona e que dá poucos motivos de orgulho a Yamamoto. Contudo, é a presença do gangster nos "states" que fará com que ele, o seu familiar e os seus amigos/colegas de "profissão" se juntem a uma organização criminosa local, que a pouco e pouco começará a crescer, travando uma contínua e sangrenta guerra com a máfia americana. Um dos amigos do irmão de Yamamoto torna-se um grande companheiro deste, que chegado a uma terra desconhecida e sem saber falar praticamente inglês, encontrará nele um apoio e um guia para perceber tudo o que se passa à sua volta, conseguindo entenderem-se os dois sem precisarem de falar muito um com o outro.

«Brother - Irmão» é talvez um dos filmes menos apreciados de Takeshi Kitano. Alguns críticos e especialistas na Sétima Arte acusaram a incursão americana como o principal fator que motivou o falhanço deste filme. Contudo, o mesmo não tem uma nota má de todo no IMDB (está no número 7) e conseguiu agradar a muitos fãs do Cinema do multifacetado artista japonês. Repleto de cenas de violência gráfica, mas mostrada de uma maneira algo poética (e que faz, por um lado, lembrar as cenas violentas de «O Padrinho»), mas talvez demasiado explícita e repetitiva, percebo que algumas pessoas tenham considerado o filme algo cansativo e contínuo por insistir, por vezes, na mesma tecla. Não é um filme para todos os gostos, e mesmo na minha opinião, fiquei com uma impressão algo enjoativa de uma ou outra cena. Mas penso que a demasia da violência possa ser apropriada para o contexto do filme. Provavelmente Kitano pretende, com o uso dela, mostrar a fidelidade e o fanatismo com que os membros da yakuza levam a sua posição nesta dita organização, algo que é real e que inúmeras reportagens escritas e televisivas têm vindo a mostrar ao longo dos anos. E esta violência fez-me alguma impressão no bom sentido, porque me pareceu ser real, e não plástica como em muitos filmes americanos. É a violência no estilo seco e perturbador de Takeshi Kitano, que não precisa de nos mostrar tudo Tintim por Tintim para acreditarmos no que estamos a ver. E isso é obra.

Contudo, apesar da controvérsia gerada pelo filme além-atlântico e do estilo em que é filmado, «Brother - Irmão» é um filme que vale pelo seu visionamento. Traz uma bonita história sobre a amizade e a lealdade, repleta de realidade (a experiência pessoal de Takeshi Kitano foi usada pelo próprio para relatar as atitudes e preocupações de Yamamoto e companhia) e com a qual nos podemos identificar, apesar de envolver um universo que nos é completamente distante. Com «Brother - Irmão» regressa a já "milenar" colaboração entre Kitano e o realizador Joe Hisaishi, que compõe, para não variar, uma extraordinária e poética banda sonora, que dá um tom muito oriental a um filme que se passa, na maioria da sua duração, num país ao qual não costumamos associar os sons e melodias que escutamos nesta obra. De salientar também a grande e marcante química entre "Beat" Takeshi e Omar Epps, o ator que interpreta o amigo americano de Yamamoto, e que hoje em dia é mais conhecido pelo seu papel na popular série «House M.D». A amizade que se constrói entre os dois criminosos tem o seu quê de comovente.

Por fim, é importante não esquecer a forma como Takeshi Kitano vai filmar esta história dramática (com alguns toques de comédia) nos EUA, sem ter de se submeter às "regras" da cinematografia do país, não se esquecendo, contudo, da forma de falar e de socializar dos americanos. Kitano mantém-se igual a si próprio, utilizando o seu estilo de Cinema único e inimitável, repleto de técnicas e características peculiares e que constituem a sua visão da Sétima Arte. «Brother - Irmão» não é um filme para todos os gostos, mas que vale o seu visionamento e que sabe agradar a quem o quiser ver. Sem esquecer as suas origens, "Beat" Takeshi conseguiu, ao longo dos anos, suscitar o interesse de um público muito mais vasto e de proporções internacionais, e que esperam, em cada novo filme do realizador, uma história e uma visão cinematográfica diferente da que estão mais habituadas. E «Brother - Irmão» cumpre essa premissa, sendo mais uma prova da versatilidade, da criatividade e da internacionalidade do Cinema de Kitano.

* * * * 1/2

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