quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Antes do Amanhecer (Before Sunrise)


Se existe um filme romântico que pode ser capaz de surpreender qualquer um, tanto pela sua originalidade como pela sua atualidade (na forma como trata as relações humanas), esse filme é, sem dúvida, «Antes do Amanhecer», o primeiro de três filmes realizados por Richard Linklater e protagonizados por Julie Delpy e Ethan Hawke. Lançados de nove em nove anos (o primeiro em 1995, o segundo em 2004, e o último este ano), e sempre com as mesmas duas personagens principais, Celine e Jesse, a trilogia de Linklater segue o percurso das mesmas ao longo desse tempo e da forma como as suas relações, os seus problemas e os seus conflitos é moldada pela passagem do tempo. Pelo cartaz do filme que eu coloquei para ilustrar esta crítica, alguns de vós poderão ficar com uma ideia errada desta grande obra, feita com meios simples, mas que possui uma essência rara de ser encontrada. Poderão achar que este filme não passa de uma banal história sem qualquer rasgo de criatividade sobre o amor impossível e coisas do género. Mas não, neste filme nada disso é encontrado. Aliás, arrisco-me a dizer que, de entre todas as grandes histórias de amor que já pude acompanhar em diversos filmes emblemáticos da Sétima Arte, nenhuma foi tão real, tão "palpável" e tão facilmente identificável para o espetador como a relação de Celine e Jesse em «Antes do Amanhecer».


O filme parte do encontro de duas pessoas diferentes, oriundas de países completamente distintos (Celine é francesa, e Jesse vem dos "states"), que se cruzam numa viagem de comboio, a partir de um acaso do destino que (atenção: vem aí uma expressão-cliché) mudará para sempre as suas vidas. Quando está na altura de Jesse sair do comboio, visto que chegou ao seu destino (Viena), ele consegue convencer Celine a ir com ele e passarem juntos as horas que lhe sobram até apanhar o avião que o levará de volta aos EUA. Depois de salterem da carruagem, Jesse e Celine aproveitam para explorar Viena, conhecer alguns dos seus habitantes, contactar com modos de vida e lugares que lhes são completamente desconhecidos. Durante toda a hora e meia de duração de «Antes do Amanhecer», tudo o que as duas personagens fazem é, pura e simplesmente, conversarem uma com a outra, e à medida que a conversa se prolonga (e que os temas da mesma se tornam muito mais complexos e pessoais), conseguimos perceber que a ligação entre aqueles dois  seres humanos, aparentemente desconhecidos, conseguiu ser muito maior a nível sentimental em apenas algumas horas, do que muitas das relações de amizade ou de amor que cada indivíduo tem na sua vida e que são muito mais longas. Há qualquer coisa de especial naquela dupla, e nós percebemos isso desde o princípio. Talvez seja por isso que a história se tenha prolongado por mais dois (aclamados) filmes. Há qualquer coisa de especial nestas duas personagens aparentemente simples, que com os mais vulgares prazeres da vida, sabem emocionar, rir e chorar o espetador. E tudo isto mostrando apenas uma conversa, repleta de realidade e humanidade, que seguimos desde o início com interesse e com que nos identificamos facilmente, através dos diversos temas que Jesse e Celine discutem ao longo daquela noite em Viena, noite essa que nenhum deles quererá alguma vez esquecer.


«Antes do Amanhecer» é o relato de uma história ficcional, mas que possui uma carga de realidade tão grande que esta ultrapassa qualquer tonalidade de ficção que o filme apresente. A forma como nos apercebemos do embaraço com que aquele moço e aquela moça se sentem por estarem um com o outro e os movimentos subtis que fazem (e que valem muito a pena reparar com detalhe, durante essa longa conversa que se prolonga da noite até à manhã do dia seguinte - a forma como por vezes não sabem o que dizer um ao outro, alguns tiques faciais que mostram a sua felicidade com aquela situação, mas também de alguma tristeza, visto que ambos prevêem que tudo aquilo irá acabar demasiado depressa) são, além do dito diálogo que estabelecem constantemente um com o outro (apenas uma observação: é engraçado como as problemáticas que aqueles dois discutiam, em 1995, em nada mudaram hoje em dia), um dos grandes marcos deste filme, e uma das suas mais peculiares características. Esta relação não contém aquela "plasticidade" típica de grande parte dos filmes românticos modernos produzidos por Hollywood - e não só. É desta matéria que se fazem os grandes filmes: as pequenas coisas e a inclusão eficaz das mesmas na ficção. Porque são essas pequenas coisas, pertencentes ao nosso dia a dia, aos nossos pensamentos e à nossa maneira de encarar o Mundo, que perfazem algumas das melhores obras de arte da História do Mundo. 


«Antes do Amanhecer» é o filme indicado para quem não aprecia certas doses de romantismo no Cinema (por experiência própria em ver fitas do género - mas que foram erradamente escolhidas -  ou apenas por estereotipar coisas vindas de outras pessoas que apenas não permitem que os cinéfilos descubram pérolas como esta), mas é ainda mais recomendado para quem aprecie fitas com essa determinada característica. Não se trata de um filme convencional, que fala sobre o amor de uma perspetiva insípida e sem qualquer ponta por onde se lhe pegue, sonhando mais alto do que aquilo que lhe é pedido, tornando-se uma má experiência cinematográfica. Não! «Antes do Amanhecer» é a total antítese desta última frase que aqui escrevi.  Um filme inspirado, que pede que seja revisto variadas vezes ao longo da nossa vida, para podermos compreender como as nossas perspetivas em relação à nossa existência e em relação ao que nos rodeia se altera durante o tempo. Olhar para estes dois jovens, em busca da felicidade e de uma vida digna dos seus sonhos, faz-nos pensar na nossa própria vida, quer se tenha dezassete anos, quer se tenha mais de cinquenta. Cada um ir-se-á rever em «Antes do Amanhecer», independentemente da idade e das ideias que defende sobre o que é o amor no verdadeiro sentido da palavra. Esta é uma obra que tem sido muito acarinhada pelo público ao longo dos anos, e bem merece, pois trata-se de um caso completamente raro no Cinema americano, que volta às raízes da Sétima Arte simplista e atenta ao uso de poucos recursos financeiros, mas capaz de criar filmes inesquecíveis, apesar de todas as adversidades. 

* * * * 1/2

8 comentários:

  1. Este filme é daqueles mesmo perfeitos que uma pessoa nunca esquece... Já viste o 2.º?

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    1. É inesquecível, sim sim! Vou ver hoje o segundo. Amanhã devo escrever qualquer coisa. :)

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  2. tu devias ganhar dinheiro pelo que escreves!

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    1. Obrigado Maria, mas acho que uma pessoa deve ganhar dinheiro por coisas mais interessantes, não isto! :p

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  3. Um dos filmes da minha vida. Este e o segundo. Estou ansioso para ver o terceiro.

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    1. Olá! Agradeço o comentário, e aqui no blog também critiquei o segundo filme. Também espero ansiosamente o terceiro! :) Gostei muito do seu blog! :)

      Obrigado,

      Rui Alves de Sousa

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  4. Antes de mais parabéns por este teu espaço :) A qualidade na tua escrita é inegável.

    Nas considerações sobre este filme salientaste tudo o que era importante. Este e o Before Sunset são dois dos meus filmes preferidos. São de uma simplicidade que roça a perfeição, já os vi vezes sem conta e em cada nova visualização volto a apaixonar-me por estas duas personagens. Pela minha experiência posso afirmar que poucas foram as vezes que simples conversas como as retratadas neste filme ficaram tão bem no grande ecrã. O terceiro filme é a minha maior expectativa de 2013.

    Cumprimentos,
    Rafael Santos
    Memento mori

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    1. Olá Rafael, obrigado pelo comentário! Concordo plenamente contigo, ainda vou rever este(s) filme(s) muitas vezes. E cá espero o terceiro! :D

      Um Abraço,

      Rui Alves de Sousa

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