quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

A Janela Indiscreta




Todos nós gostamos, de quando em vez, de bisbilhotar a vida de outras pessoas, quer cada um admita isso ou prefira guardar para si próprio. Não é por mal, mas a bisbilhotice é uma particularidade que está presente na génese da Humanidade: foi com ela que o ser humano conseguiu, com os exemplos (bons ou maus) dos que o rodeavam, a aprender a ser si próprio. Contudo, se a bisbilhotice for longe demais, é capaz de haver sarilho. Acho que posso resumir, com esta última frase, a ideia principal com que fiquei do visionamento deste magnífico thriller, realizado por Alfred Hitchcock e protagonizado pelo magnânimo James Stewart, que contracena com a lindíssima (e lendária) Grace Kelly. Para o próprio Stewart, este era a obra que mais gostava de toda a filmografia do Mestre do Suspense, e penso que tem muito boas razões para isso: é em «A Janela Indiscreta» que podemos contemplar a graciosidade e a genialidade da perspetiva cinematográfica de Hitchcock de uma maneira mais fulgurante e inteligente.


O filme relata a história de Jeff (interpretado por James Stewart), um repórter fotográfico de uma revista americana que, após um acidente de trabalho, se vê obrigado a passar os dias em casa, com gesso numa perna, e reduzido às limitações de uma cadeira de rodas. Para se entreter, durante o tempo em que não está a comer ou a dormir, Jeff dá-se ao "luxo" de espiolhar o que é que cada um dos seus vizinhos anda a fazer. É engraçado acompanhar ao detalhe as histórias que se desenrolam em cada um dos apartamentos que Jeff vai conhecendo, revelando-nos diversas personagens e situações mais ou menos complexas a nível emocional, e que, apesar da maioria delas não ser o pano de fundo da ação de «A Janela Indiscreta», servem para nos dar uma perspetiva muito subjetiva e intimista do que os olhos de Jeff captam do que se passa à sua volta. Não construímos a nossa visão do filme pelo todo, mas sim apenas porque esta personagem observa. Hitchcock não nos deixa tirar conclusões próprias: só nos podemos limitar ao que o fotógrafo, de binóculos ou de câmara fotográfica na mão, consegue descobrir da vida privada de cada um dos seus vizinhos. E daí, faz a sua própria opinião sobre cada um deles (tal como todos nós fazemos das pessoas que vivem no mesmo prédio que nós), e podendo estar mais errado ou não, não deixa de ser muito interessante conseguirmos perceber como todos aqueles "figurantes" têm muito para contar.


De entre todos os vizinhos que Jeff segue com regularidade, haverá um que se tornará o maior foco de interesse na sua demanda bisbilhoteira: um casal pouco funcional que passa a vida a implicar. De repente, a esposa desaparece, e Jeff fica, a cada momento, mais convencido de que o marido cometeu um grave crime e a matou implacavelmente. À medida que consegue convencer a namorada e a empregada da sua razão, Jeff começa a não conseguir perceber, afinal, qual é a verdade da questão, quando o seu amigo polícia consegue desmentir, frequentemente, as provas que o fotógrafo encontra para evidenciar a sua teoria. A paranóia de Jeff pela vida do seu vizinho e pelo desaparecimento da esposa do mesmo cresce gradualmente, à medida que o indivíduo começa a agir de maneiras mais suspeitas. Mas até ao último momento do filme, ficará a permanecer a dúvida na mente do espetador: afinal o que é que se passa aqui? Tanto ficamos do lado de Jeff e companhia, como achamos, por vezes, que aquela teoria que a personagem vai construindo não passa de um tiro completamente ao lado. Como tudo vai acabar? Só mesmo vendo este magnífico filme, considerado um dos melhores da História da Sétima Arte e um dos expoentes máximos da carreira de Alfred Hitchcock, que aproveita todas as limitações "oferecidas" pelo cenário do filme, ou seja, o apartamento de Jeff e os outros que o rodeiam.


«A Janela Indiscreta» marca também um dos maiores êxitos de bilheteira de Alfred Hitchcock. Com todo o mérito, visto que este é um filme definitivamente para o público. Hitchcock aproveita a atmosfera, ao princípio, simpática e inocente, da trama da obra, para a pouco e pouco nos dar a entender que estamos a lidar com uma questão muito mais complexa do que se poderia imaginar à partida. Com suspense ao mais alto nível, interpretações marcantes e uma história muito bem construída e com um ritmo detalhada e genialmente composto, «A Janela Indiscreta» é um filme para o público à espera de conseguir aproveitar o máximo que a arte cinematográfica pode oferecer em termos de emoções. Uma possibilidade aproveitada a 100%, conseguindo o filme causar gargalhadas, sustos e pressões, sem ser necessário recorrer a maneiras mais óbvias e explícitas para conseguir provocar algo no espetador. O realizador do público é, definitivamente, Alfred Hitchcock. Um cineasta de génio que soube aliar o seu pensamento e a sua visão ao que o público procura descobrir na Sétima Arte, procurando sempre agradar o seu vasto grupo de seguidores de maneiras sempre novas e originais. «A Janela Indiscreta» é uma autêntica lição de Cinema e às potencialidades que um cenário aparentemente mínimo pode oferecer a um realizador. Não vejam o remake, em formato telefilme, com Christopher Reeve e Darryl Hannah. Fiquem por este original, e ficarão servidos como reis!

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