segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Feliz ano novo!

E pronto, cá me despeço, em nome das Amêndoas, dos leitores deste blog, pelo menos enquanto estamos em 2012. Que passem bem esta... passagem de ano, na companhia de pessoas, vá, fixes (ok, o nível de intelectualização deste estaminé acabou de reduzir cerca de 200%, por causa do uso do termo apresentado antes de ter começado este "parêntesis". Desculpem!). 

Foi um ano tão cheio, este. Tanto para o Mundo, como para mim (e aqui vem o meu momento de egocentrismo - sim, porque se quiserem uma revista dos momentos de 2012 a nível global, liguem os televisores e vejam todos os telejornais de todas os canais disponíveis, que é para não deixarem escapar nada!): muitas visualizações no blog, apoios de muitas pessoas (conhecidas ou anónimas), um prémio pelo qual estou muito orgulhoso, algumas coisas giras feitas a nível mais ou menos profissional (e outras que serão efetuadas nos próximos meses), enfim... um ano é sempre um ano, mas este foi muito preenchido, mais que o habitual! E espero que 2013, apesar dos tempos muito negros que se avizinham, nunca nos esqueçamos que há sempre coisas boas para aproveitar e momentos para nos rirmos da realidade.

Termino este post de pseudo-festejo com uma mensagem: Não façam disparates no "révéilão", hm? Que o calendário muda, mas o futuro também! E antes que comece a fazer referências disparatadas sobre o futuro/filme de 1984 de Robert Zemeckis, despeço-me com amizade, e vemo-nos em 2013! ;)

Alfred Hitchcock apresenta: o Mestre na TV


Poucas são as séries televisivas que conseguem resistir ao tempo. Se com o Cinema, a tarefa de preservação e divulgação dos grandes Clássicos da Sétima Arte revela-se difícil e comprometedora, com o material do pequeno ecrã, o trabalho poderá ser mesmo impossível. Muitos têm de referência séries que viram e que, à época, marcaram uma geração. Mas sinceramente, quantas dessas séries continuam interessantes hoje em dia? Penso que poucas. São mesmo poucas as séries que conseguimos visionar sem estarmos muito a pensar na antiguidade que está a passar pelos nossos olhos, ou que nos distraia por algum pormenor caricato que, na altura em que foi originalmente transmitida, fazia todo o sentido (ou não - veja-se o caso do «Baywatch», em sucessivas reposições na SIC Radical. Não sei se alguma vez aquilo tentou ser uma série dramática, sinceramente...).

«Alfred Hitchcock apresenta» poderá ser um desses casos especiais de semi-imortalidade da arte televisiva. Esta série era constituída por fornadas de episódios com menos de vinte e cinco minutos cada, envolvendo temáticas como o mistério, o thriller e o suspense. Foi uma série de grande sucesso, produzida pelo próprio Alfred Hitchcock (e que realizou muitos poucos episódios dos mais de duzentos que a série tem - um pormenor engraçado: várias histórias foram realizadas por Paul Henreid, o famoso Victor Lazlo do filme «Casablanca», o clássico eterno de Michael Curtiz). E sejamos sinceros: a verdadeira razão porque vale a pena ver este programa é, mais do que as histórias exibidas (algumas mais interessantes que outras, mas a curta duração das mesmas ajuda a que fiquemos a vê-las até ao fim), as introduções e conclusões dos episódios, apresentados por Hitchcock, num estilo de humor irónico e sarcástico muito british.

Alfred Hitchcock era, além de um excelente cineasta, um comunicador de exceção, e isto comprova-se com esta série, e a que se seguiu («A Hora de Hitchcock», que durou entre os anos de 1962 e 1965, em que os episódios foram estendidos para, exatamente, uma hora) e o remake, elaborado em 1985, alguns anos após a morte do Mestre da Sétima Arte. Mas como nesta nova versão das histórias de «Alfred Hitchcock apresenta», foram utilizados os "tempos de antena" originais do realizador, até que este remake conseguiu almejar algum sucesso... a princípio, como acontece com a maioria dos remakes. Mas são esses pequenos sketches humorísticos e sarcásticos de Hitchcock que se tornaram a imagem de marca desta sua incursão televisiva. Este era o realizador do Público, o que, provavelmente, mais tentava extrair emoções dos espetadores e fazê-los experimentar coisas novas sem se aperceberem disso. Como Hitchcock diz, numa das suas introduções, "I think everyone enjoys a nice murder, provided he is not the victim". E não houve outro realizador que soubesse tão bem isto como Alfred Hitchcock. Apesar de estar pouco envolvido nas múltiplas histórias da série, vale a pena ver uns episódios, especialmente pelos momentos dados ao realizador para exprimir as suas ideias... peculiares. E eu precisei apenas dessas introduções e dessas conclusões para ficar agarrado e ver uns quantos episódios. E de vez em quando ainda se apanham uns atores conhecidos do Cinema como "special guests" nas histórias apresentadas por Hitchcock (como o recentemente falecido Jack Klugman), e pelo menos pela curiosidade cinéfila da coisa, vale a pena esta série. O tempo investido a vê-la tem sido muito proveitoso!

domingo, 30 de dezembro de 2012

South Park - O Filme


Adoro o universo de South Park, a mítica série de comédia animada criada por Trey Parker e Matt Stone e emitida no canal Comedy Central (um dos grandes expoentes do humor televisivo nos EUA - é lá que são também transmitidos programas célebres como «The Daily Show» ou o seu spin-off «The Colbert Report»). E a adaptação cinematográfica da série televisiva foi o primeiro filme na minha vida que vi sem legendas, há cerca de uns quatro anos. Algumas piadas poderão ter-me passado ao lado na altura, mas recordava-me do essencial do filme e das partes onde que tinha soltado mais (e ruidosas) gargalhadas. Não há dúvidas que «South Park - O Filme» é uma grande comédia, que leva a criatividade de Parker e Stone aos limites do impossível. Todos os pormenores da série e todas as possibilidades do grande ecrã foram aproveitados para a elaboração desta fita animada. Além de possuir todas as marcas do humor satírico e corrosivo da dupla de humoristas, «South Park - O Filme» é também um musical, repleto de melodias e letras hilariantes, e que mostrou ser um sinal das capacidades de Parker e Stone para este tipo de entretenimento, algo que ficou de vez comprovado com a peça que criaram para a Broadway, «The Book of Mormon», e que recebeu variadíssimos prémios, como os Tony Awards, os mais importantes na área do Teatro.

Em «South Park - O Filme», a pequena cidade e os seus habitantes atingem proporções nunca antes vistas, com a estreia de um filme canadiano no cinema de South Park. Terrence e Philip, os dois comediantes que Kyle, Stan, Cartman e Kenny adoram, estão pela primeira vez no grande ecrã, com um filme corrosivo, ordinário, idiota, e por isso polémico e controverso para os Pais da criançada da cidade. Claramente, esta situação apresentada na história do filme é também uma sátira à constante polémica e censura de que a série «South Park» tem sido alvo ao longo dos anos, desde o seu "nascimento". A estreia da fita leva muita garotada a ir vê-la e conseguir entrar no cinema, apesar do filme estar interdito a menores de 18 anos. Os efeitos do filme nos miúdos são irreversíveis: a sua linguagem torna-se muito mais ordinária e badalhoca, mas a gota de água foi a experiência de Kenny a tentar imitar um dos truques dos humoristas canadianos, o que levou ao seu (já habitual) falecimento. E os progenitores, depois desta tragédia (quer dizer, o Kenny já foi tantas vezes desta para melhor que cada novo falecimento já não pode ser considerado como uma tragédia, mas sim uma rotina...) põem todas as culpas na obra de Terrence e Philip (qual país, qual sociedade, qual quê! Aqueles dois canadianos é que são as reencarnações do Diabo na Terra!) e declaram guerra aberta ao Canadá (com um momento musical, «Blame Canada», que é de rir e chorar por mais! Aliás, esta canção esteve nomeada para o Oscar...). E esta situação totalmente ridícula serve para, ao estilo que a série de televisão tão bem nos costumou, gozar com a América e suas idiossincrasias com uma garra e um génio que muitos poucos têm a ousadia de utilizar.

«South Park - O Filme» só será ofensivo para quem assim o entender. Contudo, penso que esse não tivesse sido o objetivo de Trey Parker e Matt Stone com este universo, os episódios da TV e esta fita. É "apenas" uma grande sátira, de proporções (quase) épicas, sobre tudo e mais alguma coisa. Desde o fanatismo e censura que os americanos "construíram" nas últimas décadas (censura essa que os leva, por vezes, a tomar medidas extremas - no filme, é a eclosão de uma guerra contra o Canadá, tudo por causa de dois humoristas e o seu filme pateta), às idiotices da infância (apesar dos quatro amigos falarem, por vezes, como gente grande, há sempre momentos em que se parodia a sua própria condição de crianças), passando pela liberdade de expressão, o controlo da criação cultural pelas autoridades e as desculpas que os americanos constantemente dão para os seus filhos serem como são (nunca é por culpa dos Pais, mas sim da sociedade, do país vizinho, da televisão...). No meio de várias paródias musicais quer às peças da Broadway, quer aos filmes da Disney, quer a algumas das míticas frases da série, «South Park - O Filme» mostra o melhor e o pior daquela cidade, num filme hilariante e repleto de grandes cenas, com um humor negro e excêntrico difícil de agradar a todos os públicos, mas essencial para os admiradores da série ou deste género de comédia. Uma obra surpreendente que não perdeu atualidade com o passar dos anos (apesar do ajudante do Diabo, Saddam Hussein, já não estar entre nós, a piada mantém-se, e continuar-se-á a manter por muito mais tempo) e pensada ao pormenor, para agradar a todos os fãs do programa e desagradar aos que o consideram a causa de todos os males dos Estados Unidos da América. Brilhante!

* * * * 1/2

sábado, 29 de dezembro de 2012

A Corda: Hitchcock em versão teatral


Dois estudantes matam um colega, somente para sentirem a adrenalina e o perigo do ato cometido. Após o homicídio, feito por sufocamento, escondem o cadáver num baú, e é em cima dele que será servido o jantar que de seguida se seguirá e que aquele duo preparou com o máximo cuidado. Para a refeição convidaram um Professor conhecido e admirado pelos seus alunos (mas mais propriamente, pelos dois assassinos - é por causa das ideias de Nietzsche, transmitidas pelo professor aos alunos, que a dupla de homicidas encontrou um motivo para matar aquele pobre inocente) e os Pais, a namorada e o melhor amigo (e ex da anterior) de David, o rapaz falecido e que todos pensam que irá estar presente no jantar. O plano perfeito e o crime perfeito, eis o objetivo dos dois garotos. Cumprir a máxima "nietzschiana" do Super Homem, o indivíduo inteligente e superior que poderá, se lhe aprouver, matar todo e qualquer ser humano que ache ignorante e inútil para a sociedade. Passam das palavras para os atos, compreendendo e adaptando mal os ideais de Nietzsche à sua realidade. E isto é só o princípio de uma noite que parece nunca mais acabar, para os dois rapazes. A tensão e o nervosismo que sentem em relação ao baú não para de crescer, em toda a curta duração de «A Corda», uma obra curiosa e distante de toda a filmografia de Alfred Hitchcock.

O vulgarmente (e excessivamente) denominado Mestre do Suspense (Hitchcock, felizmente, tem muito mais do que isso, apesar de ser esse ingrediente o que mais caracteriza todo o conjunto de filmes que realizou) deixou muitos e bons filmes para que muitas e muitas gerações possam ainda vislumbrar o talento e criatividade de um dos maiores génios cinematográficos de todos os tempos. Contudo, não encontramos em «A Corda» muitos dos elementos característicos que muitas pessoas adoram nos filmes de Hitchcock. Isto porque, pura e simplesmente, «A Corda» não é um normal (e com isto não pretendo dizer "vulgar", mas sim habitual dentro das multiplicidades artísticas do cineasta) thriller a que se associe o realizador: elaborado quase como um filme sem cortes (como se fosse uma única grande sequência com poucas necessidades de montagem - e algumas dessas necessidades passam mais ou menos despercebidas, mas outras sofrem tentativas frustadas de serem disfarçadas), não deixa de ser interessante notar como Hitchcock, apesar das limitações causadas pelo cenário (que se assemelha quase ao de uma qualquer sitcom americana gravada com público ao vivo) e pela estrutura do filme (baseado numa peça de teatro, a obra foi planeada e executada para conseguir obter o ritmo contínuo e sem paragens das artes de palco, o que por vezes pode confundir por parecer que estamos mais a ver teatro filmado - como aquelas sessões que passam repetidamente na RTP Memória, ou mesmo na estação generalista, quando esta se lembra de fazer serviço público - do que propriamente um filme de Cinema, com características mais apropriadas para o mesmo), consegue sempre aproveitar o melhor de cada cena, de cada personagem, de cada diálogo e de cada movimento para criar o maior suspense e tensão possível. Tensão essa que é muito auxiliada pela ausência praticamente completa de banda sonora no filme (além das músicas tocadas por um dos jovens homicidas - que é um artista no piano, veja-se só! - e das melodias que os personagens põem a rodar no gira-discos), ajudando-nos a focar no essencial de «A Corda» - e que é, pura e simplesmente, o que se vai passando naquele apartamentozeco, com uma vista lindíssima para a cidade, e dos ditos e não-ditos dos anfitriões daquela habitação como dos seus convidados, em diversas cenas com diálogos ou repletos de pequenos apontamentos humorísticos (com um certo toque "british", a meu ver), ou cheios de muitas subtilezas e que transmitem também as sensações daqueles indivíduos, principalmente dos dois assassinos, que tentam parecer o mais normal possível e evitam que qualquer um dos convidados se aproxime da arca onde está escondido o corpo (veja-se com atenção, por exemplo, a cena em que a cunhada do Pai do falecido David lê a sina ao assassino pianista, e fala de como aquelas duas mãos - que momentos antes, tinham estado envolvidas na morte de um inocente - teriam muito para dar ao Mundo. A expressão aterradora de reação que o jovem tem ao ouvir as palavras simpáticas - e sem, aparentemente, um duplo sentido, mas que nós espetadores percebemos na perfeição - é, sem dúvida, um grande momento de "acting" desta fita). 

Apesar de ter gostado de toda a trama e do elenco soberbo que perfaz este «A Corda» (com o imparável e inesquecível James Stewart em mais um grande papel), tenho pena que não tenha sido algo mais. Penso que não deveria ter sido filmado em estilo "teatral", porque acho que retira alguma da tensão e "cinematização" da história, que só por si contém mil e uma maneiras para a Sétima Arte se aproveitar dela da melhor maneira possível, através de diversos estilos ou realizadores cinematográficos. Houve uma coisa que me impressionou negativamente que foi a maneira como a câmara anda a cirandar pelo cenário, por vezes, de uma maneira descontrolada, focando demais aquilo que não nos interessa ver (mas nalgumas vezes, filmar o que não é suposto resultou bem - por exemplo, a cena em que a criada da casa arruma as coisas usadas para o "buffet" do jantar, que estiveram em cima do baú. Acompanhamos cada passo pela empregada e só pensamos: "será que ela vai abrir a arca? Se sim, o que vai acontecer? Se não, será que a miudagem se vai safar deste crime horrível e sem razão aparente?"). Há cenas que me pareceram não ter sido bem executadas para retirar o máximo de sensações possível do espetador (algo que em Hitchcock é muito habitual - este é o realizador do público, convém não esquecer. O cineasta que levava massas ao cinema para verem as obras de um homem que sabia o que as audiências queriam e dava-lhes ainda mais), o que é pena, porque nessas alturas a câmara podia ter parado um bocado e existirem planos menos longos, mas muito mais densos pela maior capacidade que conseguiriam reter de cada plano de filmagem.

Contudo, apesar deste pequeno inconveniente (e, provavelmente, eu escrevi demais sobre o mesmo, o que parecerá que tenho muito mais a criticar em «A Corda» do que a elogiar, o que não é verdade - sou apenas como qualquer ser humano: para mal dizer temos sempre todos mais papas na língua), o filme é bom,   está bem estruturado e interpretado pelos atores, que conseguem aproveitar a densidade teatral do argumento (baseado numa peça inglesa muito badalada para a época) e do cenário para exprimirem as suas performances ao mais alto nível. Se a peça original abordava mais em pormenor outras questões como a homossexualidade dos dois protagonistas (nada disso é mencionado ao longo de toda a duração de «A Corda», mas vá lá, e não pertendo ser homófobo, mas está-lhes escrito na testa! - é que está mesmo! Vejam o filme e depois irão comprovar a veracidade do que acabei de dizer!) e do próprio Professor deles (algo que James Stewart não retratou - e bem, porque talvez nesta versão filmada, tocar nestes aspetos poderia cortar um pouco a tensão "hitchcockiana", que não vive tanto de dilemas telenovelescos desse género), «A Corda» preferiu, e bem, utilizar a abordagem única do Mestre, com o crime como pano de fundo e todos os sentimentos e reações dos dois jovens à medida que aquele jantar se desenrola... e que parece nunca mais acabar. Uma obra cujo visionamento passa num instante e que deixará de certeza boas recordações para quem usufruir desta experiência!

★ ★ ★

EDIT 02-03-2015: Este é daqueles casos em que a minha opinião mantém-se exactamente igual (porque vi o filme outra vez, entretanto). A crítica é que está uma bela porcaria. Porque me dei ao trabalho de partilhar esta mediocridade com o mundo? Enfim...

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Duas Obras Primas Revisitadas

Na semana passada voltei a ver dois filmes que me tinham deixado uma marca muito forte, e que há muito tempo queria revisitar. Filmes que me deixaram pouco para dizer por escrito, mas muito para pensar e sentir. Quis também rever estas duas obras primas inegáveis da História do Cinema para confirmar se essa impressão inicial se mantinha. E manteve-se. E são dois filmes que me ensinaram tanto sobre a Arte de se fazer um filme, que logo se juntaram à minha lista de Filmes de Sempre. E novamente, estes dois Grandes filmes deixaram-me pouco para escrever e muito para admirar. Por isso, deixo aqui duas pequenas críticas sobre essas fitas, completamente recomendáveis, e que são ambas obras de * * * * *!

O primeiro filme visto foi «O Carteirista» («Pickpocket» na versão original), uma pequena obra-mestra do realizador francês Robert Bresson. Com pouco mais de setenta minutos, «O Carteirista» contém um significado e uma simbologia que vale por muito filme de maior duração. Uma história simples, vagamente inspirada em «Crime e Castigo» de Fiodor Dostoievsky, relata as andanças de Michel, um indivíduo com umas certas teorias sobre o crime e a inteligência do ser humano que o levam a agir com o meio que o rodeia de uma forma menos usual. Começa uma "carreira" como carteirista (as sequências em que assistimos à prática do "carteirismo" estão profundamente e minuciosamente filmadas, vale a pena visioná-las com atenção). O ator que desempenha a personagem não era um profissional, e foi esse o objetivo de Bresson em escolhê-lo, para poder dar a maior inexpressividade possível a Michel, uma caracterísitca que encaixa perfeitamente na personagem e no ambiente que a envolve. Um tesouro cinematográfico que urge ser descoberto, uma análise detalhada e complexa sobre a culpa e a procura do significado da existência humana. Michel é um homem perdido nos seus pensamentos, que irá sentir na pele as consequências dos seus atos e da sua estranha (e algo perigosa) maneira de pensar. Uma autêntica lição de Cinema!

O segundo filme, visto na manhã da véspera de Natal, dá pelo nome, em português, de «A Grande Esperança» (no original, «Young Mr. Lincoln»). Um autêntico poema em forma de filme, esta obra prima do realizador americano John Ford está tão bem executada, interpretada e filmada, que é um mimo para a vista poder contemplar, de novo, todas as cenas e planos de câmara que a obra contém, e que foram exemplo a seguir por muitas gerações de cineastas. Uma crítica à ignorância e à precipitação de um povo, características que nele se mantiveram totalmente iguais nos nossos dias. O ator Henry Fonda encarna Abraham Lincoln nos seus tempos de juventude, quando começou a exercer advocacia e a dar que falar numa pequena aldeia americana. Um caso praticamente impossível, mas que Lincoln saberá usar e explorar de uma forma arrabatadora. Arrebatadores são também as imagens lindíssimas das paisagens e dos personagens que John Ford proporciona aos espetadores, e consigo perceber a "inveja" que o cineasta russo Sergei Eisenstein tinha em relação a este filme ("de todos as obras que possuem uma harmonia quase clássica", dizia ele, "esta ocupa o lugar de honra"). Adorei rever o retrato de Lincoln, assemelhando-se a um novo e renovado Jesus Cristo, a querer chamar à razão o povo ignorante que o rodeia. E não me recordava do final do filme, e por isso a surpresa em relação ao mesmo manteve-se. Uma preciosidade inesquecível.

E pronto, espero o que me falta em palavras para descrever a grandiosidade destes dois filmes não afaste possíveis curiosos destas obras primas. Não preciso sempre de escrever testamentos entediantes sobre fitas, não é? Apenas quero sugerir bons e excelentes filmes. E espero ter conseguido fazê-lo neste post. Bons filmes!

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

O homem que matou Liberty Valance

Isto é o Oeste. Quando a lenda se torna num facto, publica-se a lenda.

«O homem que matou Liberty Valance» é um dos westerns mais famosos de sempre (e dos filmes que mais lucro e popularidade trouxe ao realizador John Ford), e para muitos um dos melhores filmes do género. Um relato em estado puro do "far-west", atento a todos os pormenores, sendo um filme minucioso no que respeita à recriação dos ambientes e situações vividas pelas pessoas que viveram nesta época maravilhosamente lendária para os Estados Unidos da América. O western é o género a que, incontornavelmente, todo e qualquer cineasta associa primeiramente quando é John Ford de que se fala. O próprio cineasta afirmou uma vez a célebre frase: "Eu sou o John Ford e faço westerns", o que mostrava que, apesar do realizador ter conseguido fazer filmes de excelência noutros géneros cinematográficos (veja-se, por exemplo, «A Grande Esperança» - no título original, «Young Mr. Lincoln» - um filme dramático sobre os primeiros anos de Abraham Lincoln como advogado), eram os westerns que Ford guardava com mais carinho na sua memória. E não é para menos, visto que muitos consideram hoje em dia alguns seus filmes de "coboiada" (como por exemplo, «A Desaparecida», «A Paixão dos Fortes», e este filme que é o alvo desta crítica) como os seus melhores trabalhos.

Neste «O homem que matou Liberty Valance» encontrei um western à minha medida, que adorei e que, penso eu, dada a sua simbologia e complexidade, irei rever variadíssimas vezes nos próximos tempos. E neste filme já gostei muito mais de ver o ator John Wayne: se em «A Desaparecida» o caracterizei como um pouco canastrão, achei que o seu papel nesta obra e a sua performance foram totalmente convincentes, e Wayne agarrou, para mim, no personagem com uma força que só pode ser comprovada por quem vir o filme. Adorei a relação entre as duas personagens centrais da obra, Tom Doniphon (John Wayne) e Ransom Stobbard (personagem interpretado pelo Grande James Stewart, com mais uma grande e inesquecível interpretação), dois atores que, como afirma o cartaz promocional da fita, contracenam pela primeira vez um com o outro, e penso que foi assim criada uma forte e poderosa química entre os dois atores, que perfazem um dos pontos altos deste filme.

«O homem que matou Liberty Valance» trata-se de um western que não funciona apenas como excelente e inteligente entretenimento. É um filme que abrange uma série de diversas reflexões filosóficas, psicológicas e sociológicas, que cada um poderá descobrir pela perspetiva com que ficará da fita após o seu visionamento. Além de ser o retrato do final de uma era gloriosa para os EUA, o filme pode ser visto como uma crítica à atualidade, em que a burocracia excessiva atrasa bastante os casos de justiça, arrastando-os por demasiado tempo e acabando a "verdadeira" justiça por nunca vir ao de cima. Com a revisitação de uma época em que a pistola desempenhava a Lei nas cidades, mas que começa a ser "invadida" por entendedores da verdadeira Lei (essa normalizada e escrita), talvez consigamos perceber, com «O homem que matou Liberty Valance», que hoje em dia chegámos a um extremo exatamente oposto ao do tempo de Tom Doniphon, Ransom Stobbard e Liberty Valance, em que a Lei em demasia e mal executada é que governa.

Lee Marvin interpreta em grande estilo o vilão do filme, o temido e sanguinário Liberty Valance, que entrará em duelo (num confronto à séria e repleto de tensão) com Ransom Stobbard, o jovem advogado que chega a Shimbone e que vê o sistema de "Lei do Mais Forte" como algo a ser proibido para que a pequena cidade consiga viver sossegadamente e sem perturbações de maior. Contudo, o confronto entre as duas realidades, de dois homens enraizados em "culturas" completamente distintas, marcará a forte mensagem pessimista de todo o filme, estreado numa época em que o género western estava já a dar poucos sinais de vida. O contraste entre Stobbard e Doniphon mostra também essa dualidade de retrato do passado e do presente (da época em que o filme estreou): o homem instruído da grande cidade, símbolo da nova era que os EUA irá ver surgir, a pouco e pouco, em todos os seus Estados (em alguns com mais incidência do que noutros); face ao pistoleiro valentão número um da cidade, símbolo do fim da era do "far-west", e em parte, do género western no cinema americano.

As referências a figuras históricas ou a lendas urbanas do Oeste americano podem ser atentamente observadas durante toda a obra, como Horace Greeleu, um dos pioneiros da imprensa escrita na América do Norte e um dos primeiros grandes homens do jornalismo e da divulgação das notícias no país. A referência a esta personalidade verídica é feita pelo fundador, redator, repórter... do "Shinbone Star", o jornal da cidade, que conta que Greeley foi um dos seus Mestres e que dele bebeu muita influência para seguir uma carreira no jornalismo, mesmo que provinciano. Apenas uma pequena sugestão de leitura: Horace Greeley foi parodiado/homenageado no franchise de Lucky Luke, o cowboy que dispara mais rápido que a própria sombra criado por Morris,, no álbum «O Daily Star». A presença do jornal na cidade onde se passa a ação do filme serve também para demonstrar o poder da comunicação social na criação de "heróis" e na perspetiva que temos de cada indivíduo. Basta ler a frase retirada do filme que eu coloquei no início deste post, e percebemos como os media, tanto nos anos finais do Oeste como hoje em dia, ainda exercem uma forte influência em cada um de nós. 

«O homem que matou Liberty Valance» é também uma amostra da constante evolucão da educação e da mentalidade dos cidadãos americanos, com a chegada da escolarização pela personagem de James Stewart e os primórdios de uma nova América, virada para o progresso e para o futuro. Em Shinbone desaparecerão gradualmente os John Waynes para darem lugar aos James Stewarts, que acreditam na educação como a base da Lei e da Ordem, e não na arma de fogo. Mas é interessante a forma como as duas "eras" se chocam, algo que é principalmente visível em cenas como a pequena "aula" de tiro "oferecida" por Doniphon a Stobbard (e que acaba mal... para Stobbard) ou o final do filme, que nos faz entender que, apesar de todo o progresso, a América não perdeu a sua ruralidade nem o gosto pela mesma.

O filme não possui daqueles acessórios técnicos que ficaram associados a westerns anteriores de John Ford, como a música demasiado impregnada na ação do filme (algo que marca excessivamente «A Desaparecida», o filme que é vulgarmente considerado como uma obra prima da filmografia de Ford e da cinematografia americana em geral - mas que eu acho que perde um pouco pelos acessórios em volta da mesma). Este é um western mais puro, real, dinâmico, humano e original. É mais uma das múltiplas e variadas colaborações entre o realizador John Ford e o ator John Wayne, uma das duplas que melhor caracteriza o cinema clássico americano, e que, em «O homem que matou Liberty Valance», estiveram envolvidos na criação de um excelente e inesquecível western, um género que, apesar de na época estar a dar os últimos sinais de (uma longa) vida, tem ainda muito para dar e vender hoje em dia. É um género tão complexo e variado que não deve ser visto como antiquado ou ultrapassado sem ser devidamente conhecido. E este filme é, sem dúvida, uma prova superlativa de que o género western deve ser descoberto!

* * * * * 

domingo, 23 de dezembro de 2012

Boas Festas!

O autor deste estaminé irá ausentar-se nos próximos dois ou três dias, para poder celebrar com os familiares e restantes as festas da quadra natalícia. Por isso, enquanto o blog estiver de "mini-férias", que aproveitem bem o Natal, que corra tudo pelo melhor, e que preencham o vosso dia 25 com muita alegria, generosidade, e condimentos alusivos à época (cuidado com a doçaria!)!

sábado, 22 de dezembro de 2012

Léon, o Profissional


Fita que obrigatoriamente terá de ser incluída em qualquer lista sobre filmes de maior culto dos anos 90 (e mesmo de todo o século XX), «Léon, o Profissional» trata-se de um denso e refrescante thriller elaborado com o toque cinematográfico de Luc Besson, um cineasta que, ultimamente, tem preferido dedicar mais o seu tempo a um certo franchise de bonecada, do qual não voltarei a referir ao longo desta crítica, mas também elaborou um ou outro projeto interessante a que, infelizmente, o mercado não deu tanta atenção, em favor dos ditos "bonecos". Estreado originalmente no ano de 1994, mas com um impacto que perdurou até aos dias de hoje, «Léon, o Profissional» é um filme amado por uns e vexado por outros, mas que se revela ser uma obra com muitas poucas características estabelecidas entre os limites da vulgaridade, quer pela forma como conta a sua história, como pelas "ferramentas" estéticas e formais inovadoras utilizadas por Besson nas variadíssimas cenas de diálogos ou de ação, nunca perdendo o seu ritmo e a atenção do espetador.

«Léon, o Profissional» tem uma narrativa aparentemente simples, mas que é relatada de uma forma original, apelativa e completamente viciante, adjetivos esses que se podem aplicar ao filme desde o seu início, com a fantástica cena, poderosa e inesquecível, que abre a obra, e que nos faz pôr de parte qualquer estereótipo que estejamos à espera que definem muitas fitas deste género. Interpretado por Jean Reno, um dos mais carismáticos atores franceses das últimas décadas (a par, por exemplo, do genial Gérard Depardieu), Léon é um assassino profissional muito pouco normal. Trata-se de uma personagem muito interessante e, em certa medida, com piada. Não porque Léon seja um indivíduo todo galhofeiro e entertainer em qualquer jantar de família. Muito pelo contrário: Léon é aquele fulano que não participa na conversa e que prefere estar no seu cantinho (e, no caso do personagem, gosta de dar parte do seu tempo livre a cuidar de uma planta, que muito estima e que considera ser a sua melhor amiga), e que no entanto não aparenta ter o ar que a sua profissão "exige" (ninguém imagina à partida, como assassino profissional, um fulano com o aspeto e "psicologia" de Léon!). Ou seja, a parte piadesca da personagem de Léon tem mais a ver com o seu caráter e fisionomia, que me fez lembrar, em parte, um certo desenho animado tosco que via em pequeno, mas cujo nome a memória não me auxilia a descobrir. Não sei porquê, mas lembrei-me disso! Talvez por isso posso considerar que Léon é o único assassino que até não me importava de ter como vizinho. Isto é, se eu não pertencesse a alguma organização criminosa ou algo parecido (não queria ter de viver na ansiedade de, algum dia, um meu rival contratar o Léon para fazer o seu trabalhinho à minha pessoa!). Além de nutrir alguma simpatia junto da audiência, Léon é capaz de ser, também, o único assassino profissional a seguir um estilo de vida saudável, sem tabaco e álcool, mas com muito leitinho. Deve ser esse o segredo do sucesso dos seus trabalhos, visto que o cálcio fortalece os ossos... OK, esqueçamos esta frase ridícula e prossigamos com esta análise.

O filme conta a história, então, do assassino Léon, e de Mathilda, uma rapariga de doze anos que perde a família devido a um "massacre" por um lunático e psicótico agente da polícia (não deixa de ser irónico que o homem da lei seja o passadinho da cabeça e o outro o mais são...), que aproveita o seu estatuto dentro da Lei e da Grei para agir onde lhe apetece, quando lhe apetece, e como lhe apetece. Mathilda, que quase co-protagoniza a fita com Léon, é interpretada pela atriz (à época, ainda menor de idade), Natalie Portman, num papel surpreendente da adolescente que pretende vingar-se do implacável chui utilizando as "técnicas" do trabalho de Léon. E apesar de ser ainda muito nova, Portman mostrava já ter grandes probabilidades de conseguir atingir um grande futuro e uma carreira de topo no mundo da representação, algo que, ao longo dos anos, o público e a crítica tem sempre destacado (Natalie Portman é uma das grandes atrizes da indústria norte-americana e que, entre filmes com mais ou menos qualidade, mostra sempre o seu enorme talento - veja-se o arriscado e paranormal «Cisne Negro» de Darren Aronofsky, que valeu a Portman a premiação com o Oscar da Acadamia para Melhor Atriz), e «Léon, o Profissional» foi o primeiro passo e uma experiência fulcral na aprendizagem da atriz nas grandes lides cinematográficas. Constrói-se uma relação improvável, quase com contornos familiares, entre Léon e Mathilda, e que é impossível deixar despercebida: sem sentimentalismos desnecessários ou qualquer cliché dramático, temos uma boa e inesquecível química entre os dois atores. E além da enorme surpresa que pude contemplar nos papéis de Jean Reno e Natalie Portman, não me posso esquecer talvez do ator que me deixou ainda mais surpreendido: Gary Oldman, que interpreta o polícia psicopata, faz, provavelmente, um dos vilões mais maléficos e complexos que já vi no Cinema, mostrando também a grande versatilidade e criatividade de um ator que ainda hoje é muito conceituado e aclamado (como no filme «A Toupeira», baseado no romance de John Le Carré, do qual é o protagonista e que lhe valeu uma nomeação para o Oscar de Melhor Ator).

«Léon, o Profissional» não é um filme que pretende dar lições de moral, visto que não segue personagens com condutas ou modos de vida que se adequem à ética de cada um de nós, visto que se trata da história de duas personagens que são completamente outsiders da realidade que vivemos. Por isso, a obra de Luc Besson poderá chocar as mentes mais sensíveis, não sendo, também por isso, aconselhável para pessoas muito influenciadas pelo que veem nos atos que cometem no dia a dia, ou para aqueles que ainda não chegaram à idade de conseguirem pensar por si próprios (porque, c'os diabos, ninguém quer por aí mini-assassinos profissionais espalhados pelo Mundo, que se tornaram em tais tipos por terem visto filmes como este - e pior, se fosse segundo a minha sugestão! Por isso deixo aqui a declaração de responsabilidade ao leitor). A banalidade com que é retratada a carreira e os métodos profissionais de Léon poderá não ser considerada correta para ser mostrada na ficção, mas acho que só assim é que conseguimos sentir a realidade da situação do personagem: para ele, aquilo é o seu trabalho, algo que faz parte do seu quotidiano algo entediante e movimentado ao mesmo tempo.

Para terminar, apenas concluo que gostei muito deste filme, e que nos dá a conhecer uma mentalidade e uma realidade que nos passa completamente ao lado, visto conseguir sempre passar tão discreta da opinião pública (que há aí gente contratada para fazer com que certas pessoas faleçam, não o posso negar - apesar desse negócio, em Portugal, ter de ser diminuído à condição deste nosso país), e que por isso, nos é quase inconcebível e inacreditável. «Léon, o Profissional» é uma grande obra com uma história pouco complexa mas ainda menos convencional, e que consegue ser convincente e que muito bem realizada, escrita e interpretada. Luc Besson e Jean Reno conseguiram deixar a sua marca nos EUA, com este filme que, apesar de talvez ter sido um pouco sobrevalorizado, é completamente imperdível!

* * * * 1/2

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

10 filmes para o Fim do Mundo: Sugestões cinéfilas para aproveitarem bem o Apocalipse

E pela primeira vez, vou-me armar em grande especialista cinéfilo e deixo, aqui, uma listazinha, com sugestões de filmes para serem vistos no dia do (suposto) fim do Mundo. E não pensem que abordarei filmes catástrofe como «O Dia depois de Amanhã» ou «2012», nem irei pôr toooodos os filmes que acho obrigatórios que toda a gente veja antes de falecer (esses nem precisam já de estar em qualquer lista - vós sabeis quais são de cor e salteado!), como «O Padrinho» ou «Era Uma Vez na América». Apenas alguns que se adequem a essa "categoria", vá. A partir de uma seleção meticulosa, deixo aqui dez filmes agradáveis, não muito pesados ou dramáticos, e propícios a visionamentos em família ou com amigos. Contudo, não deixam de ser obras com um certo significado especial, que poderão descobrir se agarrarem alguma destas sugestões. Não quero que passem as (supostas) últimas horas da vossa vida com dramas existenciais. É melhor passarem de uma maneira agradável! Por isto e muito mais, aqui vão, por  ordem alfabética, dez filmes que poderão ser vistos no próximo dia 21:

1. - A Melhor Juventude
OK, compreendo que alguns não conseguirão perceber porque é que me lembrei de um filme de quase seis horas para ser visto num dia cujos momentos serão (por alguns) contados com um nervosismo e medo incrivelmente grandes. Mas se, pelo menos, virem a primeira de duas partes deste grande épico italiano de Marco Tullio Giordana, perceberão como, além de ser um fantástico filme excelentemente interpretado pelo grande elenco que o constitui, esta obra se trata de uma grande ode à vida e à existência humana (senão das maiores). A saga de uma família e seus amigos desde os anos 60 até aos princípios do século XXI contém comédia, drama e entretenimento ao mais alto nível. Digo-vos que as ditas seis horas passam num instante, e não se iriam arrepender de aproveitar o vosso dia para se sentarem frente ao sofá e verem «A Melhor Juventude». A não ser que tenham o dia demasiado preenchido, mas... fica o conselho.

2. - A Vida de Brian
A fantástica epopeia de proporções bíblicas dos Monty Python teria de estar obrigatoriamente nesta lista, por uma simples razão: «Always Look On the Bright Side Of Life». OK, e praticamente pelo resto de toda esta magnífica comédia, mas é a canção do filme que traz uma mensagem fundamental aos espetadores (e que deve, preferencialmente, ser vista naqueles minutos finais em que o Mundo começa a explodir e tudo. Deve fazer um efeito giro). Mas o filme é uma genuína peça de humor satírico e non-sense ao mais alto nível dos Python, e que qualquer pessoa pode achar graça, dada a versatilidade dos mecanismos de comédia utilizados e das brilhantes performances cómicas dos seis Python. Uma sátira aos dogmas e fanatismos da religião, que não ofende mas que pretende apenas fazer rir as pessoas e pôr toda a gente mais bem disposta. Para encarar o fim do mundo de uma perspetiva menos depressiva, «A Vida de Brian» é a receita ideal!

3. - Bem Vindo ao Norte
Mais uma grande comédia (porque nestas alturas o que o povo precisa é de rir a bom rir), mas desta feita, vinda do país da Torre Eiffel: «Bem Vindo ao Norte» não é uma comédia tão inteligente e provocadora como a anterior que consta desta lista, mas proporciona a mesma quantidade de gargalhadas e diversão, com uma história simplista mas bem estruturada, que poderá relembrar as pré-históricas rivalidades entre Norte e Sul (mais propriamente, entre tripeiros e alfacinhas). Com uma dupla de atores que possui uma química indiscutível e que é completamente visível ao longo de todo o filme, «Bem Vindo ao Norte» irá trazer muita alegria a quem o vir. E guardem-no para dia 21, se forem especialmente supersticiosos com esta "misteriosa" data. Não se vão arrepender!

4. - Brazil: O Outro Lado do Sonho
Uma pitoresca e inteligente sátira a um Mundo demasiadamente burocrático e envolvido nas "papeladas" é o que se pode dizer, resumidamente, desta fantástica fita de Terry Gilliam (membro integrante dos Python, que desenvolveu, ao longo das últimas décadas, uma interessante carreira como realizador de cinema). Contudo, apesar de se tratar de uma obra repleta de surrealidade e non-sense, «Brazil» contém mais detalhes reais sobre a existência humana do que se possa imaginar à partida. Sendo uma visão peculiar sobre o estado das coisas e de tudo que nos rodeia (e de que nós pouco ou nada sabemos), «Brazil» é um filme que nos faz pensar sobre o verdadeiro significado de cada ser humano neste planeta, e poderá ser visto de duas perspetivas se planearem o seu visionamento para dia 21: se virem a versão de cinema, ficarão com a ideia de "Iei, o Mundo é lindo, pena é que vá acabar"; mas se optarem pela (muito recomendável) versão do realizador, aí pensarão "ui, então o Mundo é isto, não é? Apocalipse, vem já depressa, fachavor!". Têm as duas versões à vossa disposição, e escolham aquela que vai condizer melhor com o vosso estômago na próxima sexta-feira. Eu avisei-vos...

5. - Casablanca
All right, all right! Recorri a um filme-cliché, constante em qualquer lista que verse sobre a Sétima Arte, confesso! Mas «Casablanca» é um filme tão bonito, tão romântico e eterno, e que penso que, como última memória de cinema para se levar desta para melhor, acerta que nem uma luva! Provavelmente o casalinho mais famoso de sempre da História do Cinema, ambientado num clima de guerra e por memórias obscuras de um passado distante, vivido em Paris antes da ocupação nazi, «Casablanca» é um filme... fantástico. E que apesar de ser também daqueles filmes que toda a gente "pensa" que conhece, tem de ser visto na íntegra! E qual a época melhor para se pôr memórias cinematográficas das boas em dia? Datas de previsão de apocalipses. «Casablanca» poderá fazer rir, chorar e emocionar, e isso faz parte de toda a sua magia. E faz uma sessão de cinema espetacular. Um filme sobre a vida e o amor, e que tem um significado maior que o Mundo, que dizem, vai acabar, e coiso. "We'll always have Paris..."

6. - Do Céu Caiu Uma Estrela
Talvez muitos queiram considerar «Do Céu Caiu Uma Estrela» para a quadra natalícia (isto é, se chegarmos até lá... eh eh eh), mas é um filme com uma dimensão poética, moral e humana tão grandes, que serve para qualquer época do ano. E então em tempos de iminente catástrofe e de irracionalidade dos seres humanos, ui!, nada melhor do que este magnífico filme de Frank Capra, com James Stewart em estado de graça no papel de George Bailey. Talvez a sua personagem mais popular, e pelas melhores razões: trata-se de um ser humano a sério, que se preocupa com os outros e pretende sempre o bem estar de todos os que estão à sua volta. Uma história com um profundo sentimento familiar, que unirá Pais e Filhos ao ecrã do televisor (ou à tela projetada, se tiveram esse luxo nos vossos lares) e que deixará toda a gente feliz e contente e a pensar melhor na vida e nas coisas que poderia ter feito se esta m**da toda não fosse acabar.

7. - Gato Preto Gato Branco
Uma comédia completamente louca e demente, da autoria do realizador Emir Kusturica, um versátil cineasta que tem brindado os seus seguidores com projetos sempre inovadores, mas ao mesmo tempo repletos das marcas características da sua visão da Sétima Arte: non-sense, surrealismo em estado puro, música e personagens pitorescas que nem lembram ao Diabo. Mas penso que em «Gato Preto Gato Branco», todas essas marcas de Kusturica são levadas ao limite, dando origem a uma fusão de comédia e parvoíce de proporções historicamente idiotas. Um filme que cita o número 5 desta lista (era giro se conseguissem ver os dois filmes, assim percebiam a referência), mas que vale pela sua originalidade e criatividade, com a história de uma comunidade cigana para a qual não consigo arranjar palavras para descrever. Mas se o Fim do Mundo realmente ocorrer, talvez consigam deparar-se nas ruas, momentos antes do "evento" se suceder, com indivíduos muito semelhantes com os deste filme.

8. - Hannah e as suas Irmãs
Este é o filme do Mestre cómico Woody Allen que eu considero ser a sua "magnum opus", entre as vinte e tal obras de sua autoria que eu já tive o enorme prazer de visionar. Mas não é por isso que o incluo nesta lista, e sim porque aborda, de uma perspetiva muito interessante e inteligente, o sentido da vida e das crenças religiosas para cada um de nós. Além de ter uma história de amor contada da maneira que só Woody Allen sabe fazer, «Hannah e as suas Irmãs» é, talvez, o filme mais filosófico do cineasta, mas também o mais divertido. E talvez assim, com o visionamento desta fita, momentos antes do Apocalipse, muitos se aperceberão do que realmente importa na vida e terão pensamentos como este: "Pois é! Afinal somos todos seres humanos, independentemente do que acreditemos. Mas ops... será que ainda vou a tempo de pedir desculpas àquela senhora muçulmana cá do prédio? Ah, já 'tá tudo a ir pelos ares. Gaita."

9. - Regresso ao Futuro
E que tal ver um filme sobre viagens no tempo, numa altura em que o mesmo corre depressa demais para o abismo da catástrofe? Para isso, vejam «Regresso ao Futuro» de Robert Zemeckis, com Michael J. Fox e Christopher Lloyd em, provavelmente, os papéis mais marcantes das suas carreiras. E se ainda houver tempo, visionem as duas sequelas, vale a pena ver tudo de seguida, tipo maratona. A fantástica saga de pseudo-ficção científica e as desventuras de Marty Mc Fly e Doc. Emmett Brown pelo tempo e pelo espaço fazem-nos pensar também sobre a durabilidade da nossa existência na terra. Caramba, quem é que eu pretendo enganar? O filme não é tão profundo assim, em termos filosóficos. Mas é também uma história que nos faz perceber o valor do tempo e de cada ação que fazemos na linha temporal da nossa existência. Talvez nos lembremos de coisas como: "ui, não devia ter andado à tareia com o Joaquim, na pré-primária", ou "ah bolas, fiquei a dever cinco cêntimos à menina da mercearia". E se, por acaso, surgir um DeLorean "mágico" à vossa porta, aproveitem para corrigir o passado. Mas atenção! Cuidado com os paradoxos e as ruturas temporais... e coiso.

10. - Vertigo
Sim, mais um cliché cinematográfico, mas que serve para acabar com esta lista em grande! Além de ter sido considerado o melhor filme de todos os tempos recentemente pela Sight and Sound (decisão muito discutível, mas que o filme é excelente, disso não tenho dúvidas). E aproveitem para o ir ver na comodidade e "espetacularidade" de uma sala de cinema, visto que o filme vai ser reposto em cópia digital já a partir de amanhã! Aproveitem para esbanjar dinheiro à grande, visto que depois do Mundo acabar não vão precisar mais dele. O problema é que depois esta previsão pode estar errada, tal como outras milhares que o Homem inventou ao longo dos séculos. Maaas... não vamos pensar nisso. Vejam James Stewart no papel de um polícia com medo de vertigens ("Ui, que coisita tão fútil", dirão os amiguinhos habituados à tecnologia 3D do cinema moderno. Pois bem, enganam-se!) e Kim Novak como a mulher por quem este se apaixona, e que o vai envolver numa das tramas cinematográficas mais densas e fantásticas de sempre. Não fala sobre a vida, nem do significado da mesma, mas caramba, é um filmaço, do Mestre Alfred Hitchcock, que deve ser visto pela simbologia que contém e pelo romance entre as duas personagens!  

E assim termino esta minha primeira lista (espero não voltar a fazer isto muito em breve!!!). É de uma subjetividade total, mas garanto que, se pegarem em pelo menos uma destas minhas sugestões, não se vão sentir defraudados. Tenham um bom resto de semana, vejam bons filmes, e até ao Apocalipse!

Ou não.

Se não se suceder, saberão que eu continuarei com as minhas tretazinhas aqui no Blog das Amêndoas, 'tá bom?

Agora com licença, que tenho de arrumar os enlatados para me prevenir para o Fim do Mundo (apesar de não irem servir para nada, mas fica giro. Ideia de sobrevivência, e coiso, e perigos, e tal... OK, ando a ver demasiados filmes).

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

O Quarto Mandamento (The Magnificent Ambersons)


«O Quarto Mandamento» (adaptação lusa de «The Magnificent Ambersons», uma tradução cuja simbologia eu tentarei teorizar mais adiante neste texto) pode ser visto como um dos filmes mais "sofredores" da História do Cinema, e dos poucos que, garantidamente, têm uma história de bastidores que daria, com certeza, uma fita igualmente espetacular. Não é para menos, visto que o filme foi vítima de um corte gigantesco de um terço da sua duração original, para satisfazer a vontade dos senhores da RKO (a distribuidora que financiou o filme de Welles e que pretendia retirar dele o máximo lucro possível, apesar do filme anterior do realizador, o mítico «Citizen Kane», ter sido um autêntico flop no box-office), visto estes não terem achado que a visão cinematográfica de Welles era viável para atrair as audiências às salas de cinema. A polémica e a discussão em volta do que terá motivado a esta "remontagem" de «O Quarto Mandamento» e as verdadeiras intenções e perspetivas que Welles pretendia transmitir no seu projeto continuarão a suceder-se durante décadas, visto que, do filme original, apenas se sabe da existência do guião integral escrito por Welles, que contém todas as cenas eliminadas da obra, e as cenas de filme que foram cortadas pelos produtores foram destruídas pelos mesmos, o que impede definitivamente a descoberta total de «O Quarto Mandamento» (a não ser que, por aí algures num país muito distante, algum arquivo descubra umas quantas caixas cheias de pó incluindo estes fragmentos - nunca se sabe, aconteceu uma situação semelhante com o «Metropolis» de Fritz Lang, que agora pode ser visto, finalmente, na versão original do realizador em versão DVD e Blu-ray). Pena é que também, por causa da destruição dos negativos originais, as novas gerações não possam ver o filme com imagem e som decentes (a edição portuguesa em DVD do filme - Costa do Castelo Filmes - deve ter sido, a par com a comédia «Não o Levarás Contigo» de Frank Capra, o filme com maior degradação que já pude ver neste formato), visto que é impossível restaurar-se a cópia da fita que ficou guardada e que o National Film Registry preserva desde os anos 90, quando nomeou «O Quarto Mandamento» para o seu precioso "cofre".

Contudo, apesar de muitos críticos e estudiosos apontarem o corte brutal de «O Quarto Mandamento» como a causa para que o filme não pudesse chegar às pessoas como a obra prima que Welles idealizou, fiquei bastante impressionado com a obra. Não poderei dizer que o filme "soube a pouco", ou que se sentia alguma falta de cenas ou de elementos fundamentais para a narrativa (ao contrário do que acontece com a maioria dos filmes portugueses que estreiam no cinema - pouco tempo depois, dão na televisão numa versão maior, e alguns desses filmes estreiam versões exibidas das salas que parecem algo "amputadas"), porque, apesar de todos os problemas que teve de enfrentar, «O Quarto Mandamento» ficou, para a posteridade, como um excelente filme dramático e de uma qualidade praticamente igual à de «Citizen Kane». Entre escolher qual dos dois é o melhor, para mim é impossível. São ambos grandes filmes, que não podem ser menosprezados. Mas felizmente, Welles conseguiu agradar suficientemente aos produtores para conseguir manter o espírito da sua obra e a "inesquecibilidade" da experiência de ver este filme, algo que muito me agradou. Penso rever «O Quarto Mandamento» muito em breve, porque achei que esta obra tem tanto para ser visto e analisado que apenas uma visualização não basta, tal é a grandiosidade da história da família Amberson e da forma como Orson Welles nos transmite todas as emoções das personagens e da época em que se inserem, repleta de aristocracia e de hipocrisia, tal como a contemporaneidade.

Os planos e os ângulos de câmara planejados por Welles são brilhantes, assim como todo o trabalho de atores (que são, na sua maioria, vindos do Mercury Radio Theatre, do qual Welles também fez parte), destacando as interpretações de Joseph Cotten (um veterano e grande amigo de Welles, que já tinha marcado o seu enorme talento em «Citizen Kane» e voltaria a surpreender alguns anos depois no papel de Holly Martins, o protagonista do thriller «O Terceiro Homem» de Carol Reed), que aqui é Eugene, um papel muito forte e que marca o conflito geracional que terá com George, a personagem de Tim Holt (também numa grande interpretação), o filho da eterna amada de Eugene, não querendo que a sua Mãe se "desonre" por causa do seu antigo amor, perdido devido a um incidente que os afastou por vários anos. Dollores Costello é o terceiro ponto alto de «O Quarto Mandamento» em termos de elenco, interpretando a irmã de Lucy (a Mãe de George) a histérica Isabel, que além de estar também eternamente apaixonada por Eugene, tem cá uns ataques depressivos que nem vos falo. Fazem tanta impressão que parecem ser mesmo reais.

Não me posso esquecer de mencionar também todos os cenários de «O Quarto Mandamento», um espetacular festim para os olhos em termos cinematográficos, e que Orson Welles soube aproveitar da melhor forma. Majestosos e grandiosos (e que foram muito dispendiosos para a RKO, dando um prejuízo muito alto para o estúdio norte-americano), estes cenários são um verdadeiro encanto e tornam-se num elemento tão fundamental para a compreensão da obra como as interpretações dos atores, a realização de Welles e o argumento escrito pelo mesmo (e baseado no romance de Booth Tarkington)

«O Quarto Mandamento» ficou um filme curtinho, depois do corte dos senhores com os bolsos cheios de notas. Contudo, os seus 88 minutos valem muito mais do que eu poderia alguma vez imaginar. É um filme que impressiona visualmente, emocionalmente e mesmo racionalmente. Apesar da edição portuguesa em DVD do filme possuir a tal péssima qualidade, acho que não é por isso que o filme perca qualidade "material", do seu conteúdo (se valesse só pela limpidez da imagem, então não era um grande filme... é como estas coisas do 3D, que, dizem, acrescentam coisas ao visionamento de uma fita... ora essa!, a fita vale por si, não pelos seus adereços!). E um pormenor engraçado e que deve ser também destacado: o próprio Welles, que apesar de ter reencarnado o papel de Tim Holt na versão do Mercury Radio Theatre, preferiu ficar apenas atrás das câmaras desta vez. Contudo, é responsável pela narração voz-off de «O Quarto Mandamento», que de uma forma muito interessante nos conta alguns pormenores do filme e, no início, nos faz uma espécie de crónica, comparando a época em que se passa a ação do filme, com a realidade dos anos 40, em que a rapidez da vida já era uma constante. Os créditos finais são também narrados pelo próprio Welles, numa medida proposta pelo realizador para não deixar as pessoas tão "deprimidas" depois de saírem do cinema. Algo engraçado e peculiar, este pequeno pormenor técnico. 

Contudo, «O Quarto Mandamento» não é uma comédia, mas também não pode ser visto totalmente como um drama pesado. Não sei porquê, mas encontrei muitas semelhanças entre esta história com as novelas de Eça de Queiroz ou de Camilo Castelo Branco, pela parte satírica que faz da época, ao mesmo tempo que aborda uma situação séria e que nos pode tocar (ou não - depende da sensibilidade de cada um). Sem querer mais engonhar, porque acho que já disse demasiado, recomendo, sem sombra de dúvidas, «O Quarto Mandamento», uma obra que sofreu pela sua grandiosidade, mas que sobreviveu até hoje num formato mais pequeno, mas que não perdeu nada em termos de qualidade e excelência. Uma pérola! 

* * * * 

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Being There: A ascensão de um "videota"


Acabei há momentos de ler «Being There», um pequeno romance da autoria de Jerzy Kosinski, que por cá foi publicado pela Livros de Areia, uma pequena editora independente, em 2007. A obra de Kosinski conceituou-se ainda mais pela adaptação feita para cinema em 1979, nove anos depois da publicação original do livro, protagonizada pelo Grande Ator Peter Sellers (e que espero conseguir ainda visionar esta semana), e cujo argumento foi adaptado da novela pelo próprio autor da mesma.

«Being There» trata-se de uma pequena, mas prodigiosa, sátira aos EUA, à política, às relações entre países e ao efeito da televisão no nosso dia a dia. Este último tema está unica e exclusivamente simbolizado em Chance, o protagonista do romance, que passou toda a sua vida isolado do mundo exterior, vivendo numa mansão onde apenas tratava do seu jardim e via televisão para se distrair. Um dia, o seu "tutor" morre e Chance é obrigado a sair da sua casa e a iniciar contacto com a vida fora do seu pequeno e misterioso mundo. Aí interrogamo-nos da maneira como Chance aprendeu o que é a vida real através dos "ensinamentos" da caixinha mágica, dando-lhe uma ideia errada e pouco esclarecedora das atitudes que deve tomar face às pessoas e situações com que se vai deparando. 

E é a ingenuidade de Chance face ao que o rodeia que permite a Jerzy Kosinski elaborar uma mordaz e inteligente crítica à sociedade americana dos anos 70 (mas que se encaixa, perfeitamente, no mundo contemporâneo) e que nos deixa a pensar no verdadeiro significado das nossas ações e das nossas ideias face ao poder dos media e da alta sociedade. Um pequeno livro, mas com um significado gigante. Pequenas lições de literatura como esta não se apanham todos os dias...

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Underground: Era Uma Vez um País


Nenhuma guerra é guerra enquanto irmão não mata irmão.

Uma brilhante visão de um país e de uma cultura que nos é completamente desconhecida, «Underground: Era Uma Vez um País» marcou a segunda aclamação do realizador Emir Kusturica no Festival de Cannes. Dez anos depois de ter recebido a Palma de Ouro, em 1985, pelo filme «O Pai foi em Viagem de Negócios» (uma cativante história dramática sobre os problemas vividos na Jugoslávia de Tito), Kusturica volta a conquistar, triunfante, o Festival francês de cinema, recebendo o segundo galardão máximo de Cannes da sua carreira.

«Underground: Era Uma Vez um País» é um filme marcado pelo surrealismo, pelo humor e pela seriedade, elementos que são habituais na filmografia de Emir Kusturica, mas que são "cozinhados" de maneiras diferentes em cada um dos seus filmes (como por exemplo, algumas das suas obras são mais parvas - no bom sentido do termo - do que outras, como por exemplo, o divertidíssimo «Gato Preto Gato Branco»). A obra segue a mesma linha de crítica política de «O Pai foi em Viagem de Negócios», com o tempo do Informbiro e, mais tarde, da ditadura totalitária do estadista Tito, a serem alguns dos pontos fulcrais desta grande epopeia sérvia.

O filme divide-se em três partes cronologicamente distintas e que se tratam de três guerras, de proporções maiores ou menores, e que auxiliam a contar a história dos dois "amigos" protagonistas do filmes: a primeira parte é a "Guerra" (ou seja, a Segunda Guerra Mundial e como as pessoas, naquele país, conseguiram sobreviver - ou não - à invasão dos nazis); a segunda parte é a "Guerra Fria", e a terceira e última parte volta a ter o nome de "Guerra" (mas desta vez, esta guerra trata-se do conflito interno da Jugoslávia, no princípio dos anos 90, e que marcou o fim do regime político do país e da denominação atribuída ao mesmo até então). Podemos percecionar, assim, que a temática de «Underground: Era Uma Vez um País» é a guerra e suas consequências para a vida da população. Mas não, este filme tem muito mais do que isso, sendo também uma genuína história de amor, traição e "amizade" que me agradou pela originalidade e excentricidade utilizada para ser contada.

Não posso dizer que alguma das personagens do filme seja... normal. E pela palavra "normal" pretendo dizer que os indivíduos que rodeiam o imaginário da obra de Kusturica não se tratam de personagens que sigam os padrões a que nós, espetadores ocidentais mais habituados à cinematografia norte-americana, vejamos regularmente nos filmes que vamos visionando. É que todo o pessoal de «Underground» tem sentimentos e ideias que nos podem parecer estranhos a princípio, mas a pouco e pouco vamos reparando, ao longo do filme, que aquela gente é mais séria, mais humana (quer para o bem, quer para o mal), mais cómica e mais credível do que podíamos esperar à partida.

A mistura entre imagens reais, provenientes de documentes históricos audiovisuais, com a ficção criada por Kusturica e companhia, é esplêndida. Acerta sempre e nunca nos deixa ficar desiludidos. E vale a pena ter atenção redobrada numa sequência que transfere a ação do filme da primeira parte ("Guerra") para a segunda parte ("Guerra Fria"), com a ascensão de Tito ao poder, ambientada por uma forte, poderosa e conhecidíssima peça de música erudita (não preciso de dizer qual é, porque pelo nome nem eu próprio chegaria lá... vejam o filme e perceberão qual é esta dita peça).

Destaco também a profunda sátira e ironia que Kusturica emprega nesta sua caricatura dos usos e costumes do seu país, além de algumas características da psicologia humana abordadas e que são comuns a todos os outros povos, como a traição e a ganância. Através da história de dois homens durante mais de quarenta anos de História, e dos caminhos opostos que tomam devido às decisões que tomaram e que influenciam sempre a sua vida, «Underground» revela a ingenuidade da alma humana e como as situações da existência se repetem constantemente ao longo das gerações, independentemente do quão conturbada seja a época que se esteja a viver. Mas penso que, acima de tudo, Kusturica quis, mais uma vez, dar a conhecer ao Mundo a história do seu país, que nunca nos pareceu ser suficientemente bem contada, dando.nos uma visão muito subjetiva, mas alarmantemente atual, da evolução e retrocesso do seu país em termos económicos, políticos e sociais.

Pecando apenas por ser um pouco longo demais em certas partes, «Underground: Era Uma Vez um País» é um filme épico maravilhoso sobre a política, a família, a amizade (e a falsa amizade) e a guerra e suas implicações. E apesar de todas as excentricidades apresentadas, quer pelo guião, quer pelas (magníficas) interpretações do excelente elenco, quer pela fluída e inteligente realização de Emir Kusturica, o filme consegue ser um retrato profundo e dramático da história de um país e de um modelo político. Contém muitas cenas de pura magia cinematográfica (e isto nota-se, principalmente, na terceira parte da fita), e que redobram a originalidade e a criatividade do grande cineasta Emir Kusturica.

* * * * 1/2

À Noite Logo se Vê

Mais um livro lido de Mário Zambujal, o quinto do autor que me passa pela vista. Não sendo um dos seus melhores trabalhos, a meu ver, «À Noite Logo se Vê» é um bom livro com uma interessante história e situações hilariantes descritas no estilo único e inconfundível do carismático criador dos «Bons Malandros». Sendo uma história com um elevado pendor fantástico (o livro foi publicado, originalmente, numa coleção dedicada a esse género literário), o leitor segue as desventuras de um investigador do sobrenatural em relação ao mistério de Roseiral, uma terra onde não nasceu nenhuma alminha durante quatro anos. Além desta trama pseudo-policial, são contadas também algumas histórias avulsas sobre indivíduos "roseiralenses", repletas de humor e nonsense e que, de vez em quando, bem precisamos para distrair um pouco. Há uma certa dispersão por parte de Zambujal, um afastamento da trama principal, que depois não chega a ser contada de uma forma mais apelativa, para dar mais espaço às tramas secundárias. Mas gostei do livro e, tal como os outros quatro lidos pela minha pessoa do autor, é recomendável!

domingo, 16 de dezembro de 2012

Bowfinger - O Sem Vergonha


"Juntos pela primeira vez" é a frase de promoção ao filme «Bowfinger - O Sem Vergonha» que pode ser lida neste cartaz, por cima do título do filme. A frase refere-se, obviamente, aos atores e comediantes Steve Martin e Eddie Murphy, numa junção que, na minha opinião, deveria ter acontecido mais vezes (e é preciso salientar que, se isso for possível, que se envolvam em filmes melhorzinhos - há quanto tempo não vemos Martin e Murphy a sobressairem, realmente, de algum dos últimos projetos que fizeram?), porque neste filme, funciona surpreendentemente bem, criando um grande momento de comédia que, nos últimos anos, pouco se tem visto na indústria cinematográfica norte-americana (infelizmente, são as comédias televisivas que têm ganho popularidade, ultimamente - há espaço para projetos novos e mais cativantes e inteligentes, como é o caso das séries «Louie» e «Parks and Recreation»), que prefere viver à custa do lucro fácil, com projetos repetitivos, secos e que utilizam um humor mais infantil e humilhante (veja-se o caso dos constantes êxitos - pelo menos em Portugal - das comédias de Adam Sandler...).

«Bowfinger - O Sem Vergonha» é uma comédia divertida e algo surpreendente, tanto em termos humorísticos (não esperava dar, a este filme, uma nota como a que vou dar), como na escrita do argumento e no elenco selecionado para interpretar as inúmeras e patéticas personagens do filme. É uma sátira ao sistema económico e cultural da produção cinematográfica de Hollywood, não deixando, por isso, de ser uma caricatura atual da situação de hoje em dia. O filme pode ser visto, também, como uma crítica não-exaustiva à forma como os responsáveis de Hollywood põem a previsão de lucro que um projeto possa obter acima da qualidade que o mesmo contenha, tomando, por vezes, atitudes implacáveis para levarem as suas "convicções" económicas até ao extremo (veja-se, por exemplo, o caso do filme «The Magnificent Ambersons» de Orson Welles, que será, em breve, alvo de uma das minhas críticas - apesar de, para mim, ter funcionado bem na versão de oitenta e oito minutos, o filme era muito maior: um terço do filme ficou perdido para sempre devido às exigências dos produtores, que o queriam tornar o mais comercial que fosse possível, acabando a obra por ser, mesmo assim, um desastre no box-office). Por fim, mas não menos importante (visto que é, provavelmente, a crítica mais forte de todo o filme) «Bowfinger - O Sem Vergonha» é uma sátira às extravagâncias e falta de inteligência das estrelas do sistema hollywoodiano (destaque para um pequeno apontamento humorístico em que aparece uma pseudo-Igreja da Cientologia) e às mil e uma maneiras que os artistas arranjam para conseguirem alcançar o seu sonho de singrarem no perigoso mundo de Hollywood, e tornarem-se tão famosos como os seus ídolos cinematográficos (podemos ver esta crítica simbolizada na personagem de Heather Graham, uma atriz que, acabada de chegar a Hollywood, aproveita-se de tudo e de todos para conseguir entrar no topo).

Em «Bowfinger - O Sem Vergonha», encontramos um elenco cómico de luxo. A maior surpresa do filme é, sem dúvida, Eddie Murphy (que interpreta dois surpreendentes papéis: um, o de um ator de ação apalermado de Hollywood e paranóico com o racismo e com a seita religiosa em que acredita - a tal pseudo-Igreja da Cientologia - que é filmado para um projeto cinematográfico sem saber da existência do mesmo; e outro, o do duplo do ator, um autêntico choninhas que será contratado, à última da hora, para "tentar" substituir o ator original, para evitar mais problemas com filmagens não autorizadas), cuja performance faz notar, claramente, um regresso (pelo menos momentâneo) do ator às suas origens cómicas e às grandes imitações e personagens por que se tornou conhecido (tanto nos primeiros filmes da sua carreira, como antes, em programas televisivos como o mítico «Saturday Night Live», e nos seus hilariantes espetáculos de stand-up comedy - disponíveis, de forma integral, no youtube). Contudo, a cereja no topo do bolo é Steve Martin, que além de ter escrito o argumento de «Bowfinger - O Sem Vergonha», é também o protagonista do mesmo, dando vida ao indivíduo que dá título à comédia, e que se trata de um realizador arruinado de Hollywood, que procura a ressurreição da sua carreira, querendo, para isso, fazer um novo filme, a partir de um guião escrito pelo seu contabilista (que se trata de uma história de ficção científica, possuidora de todos os clichés e elementos cinematográficos em que os estúdios veem maiores hipóteses de lucro - é nessas situações que, aos senhores ricaços dos estúdios, lhes sobem os cifrões à vista... gaita, que isso deve fazer um mal danado aos olhos!).

Realizado por Frank Oz (um grande nome das lides hollywoodianas, que trabalhou em projetos tão diversos e inovadores como, por exemplo, o universo dos Marretas, ou mesmo nos seis filmes da saga «Star Wars», dando voz a Yoda), que dirige com simplicidade e sem grandes adereços esta comédia (não lhe tirando, por isso, qualquer valor cómico ou cinematográfico), posso concluir que «Bowfinger - O Sem Vergonha» é uma comédia muito subvalorizada (talvez pela "fama" que os dois míticos atores Martin e Murphy obteriam pelos seus projetos futuros...) e que, apesar de não ser um filme que, garantidamente, eu não queira rever em breve, entretém muito e consegue ser um filme inteligente, engraçado e original. Vale a pena!

* * * * 

sábado, 15 de dezembro de 2012

And the winner is...


Foi uma grande honra ter recebido, na tarde de hoje, no Centro Cultural Casapiano, o prémio dos TCN Blog Awards para Melhor Artigo de Televisão! Apesar de ter uma concorrência forte, o meu miseravelzinho blog conseguiu o galardão para esta categoria. E em grande parte devo esta premiação a todos os amigos, familiares e anónimos que votaram no meu artigo e que o divulgaram. Um Grande OBRIGADO a todos pela amizade e generosidade que tiveram para com a minha pessoa. Agradeço-vos muito muito muito! A palavra escrita é muito pouca para conseguir descrever toda a minha gratidão para com todos vós! UM GRANDE BEM-HAJA E BOAS FESTAS!!! :)

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

O Menino Selvagem


«O Menino Selvagem» é um filme que retrata a importância da cultura e sua aprendizagem para cada um de nós poder viver em sociedade. Realizado por François Truffaut (o realizador que conceituou-se com obras aclamadíssimas como «Os Quatrocentos Golpes» e «Jules e Jim»), o filme parte do caso verídico de Victor de Aveyron, uma criança que vivia em cativeiro e que, ao ser analisada e estudada pelo Dr. Itard, um investigador francês, mostra como a privação do convívio social e da ausência absoluta de educação pode trazer consequências na maneira de pensar, agir e sentir do ser humano. A criança em questão, que obteveo seu nome por "baptismo" do Dr. Itard, foi encontrada na floresta por um grupo de aldeões, que lhes mostrou ter comportamentos muito pouco habituais num ser humano, e atitudes praticamente animalescas que obteve durante o tempo que viveu isolado dos Homens.

Ao conhecer mais de perto o menino, que primeiramente foi investigado por um cientista que o designou de "idiota", o Dr. Itard decide ficar com ele para poder provar que a cultura só pode ser aprendida, não sendo, por isso, herdada geneticamente. Com Victor, o investigador apercebe-se de como a criança foi afetada fisica e psicologicamente por ter vivido afastada da sociedade. Por exemplo, no princípio das experiências que o Dr. Itard efetuou (e que deixou para a posteridade, felizmente, através de constantes registos de cada nova descoberta feita sobre o garoto), Victor anda completamente curvado (uma postura semelhante à de um macaco), com as mãos e os pés a servirem de patas, não sabe vestir-se (precisa, constantemente, de ajuda por parte de Itard ou da sua ama para conseguir pôr corretamente cada peça de roupa) nem comer ou beber corretamente (ou seja, não exerce estes atos como qualquer ser humano faria, notando-se, por isso, que não recebeu a educação devida para a condição de humano de que é possuidor) e não sabe articular nenhuma palavra. Contudo, as experiências do Dr. Itard vão alterar tudo isso, e as mudanças que se irão suceder em Victor podem ser testemunhadas ao longo que a ação do filme se desenrola: aprende a andar direito e com as costas direitas, começa a entender como se formam palavras, associa objetos, emite pequenos sons (como a palavra "leite" - "lait" - que, proferida pelo rapazinho, até se torna algo hilariante)... Assim, Itard conseguiu provar a influência que a vida em sociedade e que a educação exercem nas atitudes e nos comportamentos do ser humano, mostrando, então, que a cultura só pode ser transmitida através da aprendizagem do indivíduo (através de vários núcleos como a família e a escola). Foi um grande passo para a Ciência moderna e para o aparecimento de muitas outras investigações posteriores envolvendo estas temáticas. 

«O Menino Selvagem», não sendo um dos filmes mais conceituados da vastíssima filmografia de François Truffaut, torna-se uma obra importante para compreender todos os mecanismos e todas as circunstâncias que nos fazem ser quem e como somos. O próprio realizador interpreta Itard, num desempenho um pouco banal, mas que não deixa de ser convincente e que cumpre a sua função de aproximar o espetador, o mais preciso possível, da realidade vivida pelo investigador e das experiências que efetuou com Victor de Aveyron. A realização é leve, simples e direta, o que pode tornar «O Menino Selvagem» um filme mais acessível para qualquer tipo de público - e quando digo isto, estou a referir-me, principalmente, a malta dos dezoito anos para baixo que detesta filmes a preto e branco sem nenhuma razão verdadeiramente justificável - e mais credível, por filmar a realidade tal como ela é e sem adereços de maior. A banda sonora, apesar de ser pouca e muito repetida, não deixa de ser boa para os nossos ouvidos e de nos ficar na cabeça durante um tempo, dependendo da memória e gosto de cada um. O jovem que interpreta Victor de Aveyron é, sem sombra de dúvida, o ponto alto de «O Menino Selvagem». A interpretação do garoto está muito boa, e é ela que se torna o primordial ponto de contacto entre o espetador e o filme. O argumento peca apenas por ter um final um pouco abrupto, na minha opinião, mas para as limitações que a produção de Truffaut teve para ser concretizada, está muito acima do aceitável, e penso que se trata de uma história muito bem escrita e que contém cenas inesquecíveis (maioritariamente, as que envolvem as experiências e exercícios com Victor), que são relatados de uma maneira muito humana e detalhada.

Tive a oportunidade de ver «O Menino Selvagem» na disciplina de Sociologia, a mais apropriada - juntamente com Psicologia - para o filme ser visto. É uma obra muito educacional e, por isso, objeto de relacionamentos constantes com as matérias das duas disciplinas mencionadas. É um bom filme, que se vê muito bem e cuja visualização passa num instante, sem darmos por isso. Além de escolar, «O Menino Selvagem» trata-se também de uma fita familiar, simples e humana, sobre a vida de cada ser humano e os condicionamentos que sofremos, ao longo da nossa existência, para nos tornarmos as pessoas que somos no quotidiano. É uma obra que abre espaço para a reflexão e para a discussão, e que deve ser vista por todos. Não sendo um filme de qualidade acima da média, «O Menino Selvagem» conseguiu persistir ao tempo pela sua simplicidade e pela constante atualidade dos seus temas. Um filme honesto, acima de tudo.

* * * * 

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Memento


Que há para dizer sobre «Memento», a longa metragem que revelou, definitivamente, a visão cinematográfica de Christopher Nolan ao Mundo (sendo um dos realizadores mais seguidos e celebrados da atualidade)? Penso que muito pouco, visto que o filme fala completamente por si. É totalmente impossível conseguir transmitir, pelas palavras mais exatas, o impacto que o filme me causou. Posso apenas dizer que foi um impacto de grandes proporções. Este é daqueles filmes para deixar uma pessoa completamente "abananada" e sem muitas palavras para poder proferir sobre a experiência que sentiu.

Vi este filme por sugestão da disciplina de Psicologia. Dentro do tópico do esquecimento, o filme era sugerido visto que «Memento» tem, como protagonista, um indivíduo de nome Leonard Shelby, que possui uma invulgar incapacidade, provocada por uma agressão, que se trata de uma anomalia no sistema nervoso que não lhe permite obter novas recordações. Lenny (como é incessantemente tratado por diversas personagens de «Memento» - apesar de ele não gostar da alcunha) não tem memória imediata, perdendo assim a capacidade de recordar um momento que ocorreu alguns minutos antes. Lenny vive num quebra-cabeças diário para conseguir superar as dificuldades da sua vida, e para conseguir continuar a sua persistente investigação em busca do assassino da sua esposa. Através de uma série de tatuagens que vai pondo no corpo e algumas notas que vai escrevendo, que contêm informação essencial para ele saber como agir em determinada situação, Lenny entra num caminho sem aparente fim, em que não consegue, realmente, perceber quem lhe diz a verdade e quem lhe está a mentir.

E esta dúvida permanente de Lenny percorre também, em parte, a mente do espetador, mas as nossas próprias incertezas dissipam-se ao longo do desenrolar da história, enquanto o personagem continua sem saber bem em quem deve acreditar. É que «Memento» está estruturado de uma forma diferente, que quebra completamente com as regras tradicionais da narrativa cinematográfica. Este filme tem uma estrutura não linear, com duas histórias paralelas, sobre o mesmo personagem, a serem contadas de forma intercalada. A diferença entre ambas é que se localizam, cronologicamente, em datas diferentes, o que nos ajuda a perceber, à medida que nos confrontamos com o passado de Shelby, o porquê das suas ações e comportamentos no presente. E «Memento» está elaborado de uma forma tão precisa, tão detalhada e tão ritmada, que não poupo elogios ao engenhoso trabalho de Christopher Nolan. O guião e situações criadas por Nolan e seu irmão (que escreveu a história que o realizador converteu para argumento cinematográfico) revelam uma força narrativa e artística muito marcante e própria, que mostrava como Nolan tinha muito para dar ao Mundo do Cinema. E até hoje isso se sucede, com a quantidade de filmes inovadores e brilhantes que o cineasta tem produzido nos últimos anos (dos quais destaco, principalmente, «A Origem», um filme semi-épico e grandioso com uma história também ela complexa e muito intrincada). Mas se todos os realizadores se estreassem (verdadeiramente) no circuito comercial do cinema (visto que Nolan tinha realizado, antes, o pequeno filme «Following», mas apenas com «Memento» conseguiu estabelecer-se como um realizador de excelência e que deve ser tomado em conta) com um filme tão criativo, tão inovador e tão controverso, era obra. Poucos o conseguem, e Nolan conseguiu-o.

«Memento» fala sobre a mentalidade de cada um de nós, dos nossos medos e receios, do estado da nossa memória e como podemos ser alvo de manipulação através de alguma falha de recordações que possamos vir a ter em determinado momento. Não estou a conseguir escrever grande coisa sobre o filme (talvez pelo que eu disse - não consigo dizer muito sobre uma experiência tão pouco possível de ser verbalizada) mas aconselho vivamente «Memento», não só para quem gosta de ser arrasado com uma experiência cinematográfica completamente nova, como também para aqueles que dizem que o Cinema já não é o que era: apesar de isso ser verdade (mas mais, a meu ver, por uma questão temporal - nada do passado é igual ao que é do presente, e vice-versa - do que de qualidade, que é o que algumas pessoas dizem com toda a certeza) e de os tempos serem outros, é possível sermos, ainda, apanhados de surpresa com algo de que não estávamos à espera de que fosse tão bom. O Cinema é feito de outra maneira do que nas décadas anteriores, e já não há Humphrey Bogart, ou James Cagney, ou Marlon Brando. Mas existem pessoas que sabem aproveitar as melhores qualidades que o Cinema recente proporciona, e elaborar um filme superior aos demais, que usam apenas efeitos especiais só porque sim e porque "é o que o povo gosta". «Memento» é um filme desafiador e comprometedor, mas que ninguém perde em ver, muito pelo contrário!

* * * * *

sábado, 8 de dezembro de 2012

Luzes da Ribalta


Estamos no ano de 1952: após o grande fracasso, de público e de crítica, que constituiu a sua anterior obra, «Monsieur Verdoux» (que entre nós tem o nome de «O Barba Azul»), Charlie Chaplin vê-se cada vez mais desprezado pelos EUA, o país que o acolheu e que o deu a conhecer ao resto do Mundo. Tanto pelas falsas acusações de comunismo, cimentadas por uma época de fanatismo e perseguição políticas que marcou profundamente os anos 40 e 50, tanto pela forma como Chaplin se sente afastado do seu público (ou, melhor dizendo, o afastamento que as audiências americanas fazem gradualmente à vida e obra do genial cineasta), é notória a forma como Chaplin se sente desgastado pelas pressões e pela forma muito conservadora e fanática como muitos americanos veem os seus filmes, de uma maneira pretensiosa que leva a que sejam julgadas as peças cinematográficas do autor (provavelmente, das mais bonitas alguma vez feitas na História da Sétima Arte) de uma maneira completamente errada.

Contudo, Chaplin arranja uma maneira de transpôr, para o meio artístico, os seus receios e medos reais, com este bonito e comovente drama que dá pelo nome de «Luzes da Ribalta». Convicto de que este seria o último filme que realizaria em toda a sua carreira (algo que, de facto, não se sucedeu, visto que, após este, realizou mais dois: «Um Rei em Nova Iorque» e «A Condessa de Hong Kong»), Chaplin não sabia, à partida, que depois de concluído, o filme seria o motivo do seu grandioso regresso à Europa e a Inglaterra, país onde nasceu e passou os primeiros anos de vida, num ambiente angustiante e repleto de miséria. Foi a regressar ao Velho Continente que o ex-Charlot compreendeu que ainda havia motivos para acreditar na sensibilidade e honestidade do público. «Luzes da Ribalta» só seria verdadeiramente descoberto pelo povo americano vinte anos depois da sua estreia, quando Chaplin perdoou os EUA pelos erros que cometeu, ao receber um Oscar honorário de carreira e outro para a extraordinária banda sonora de «Luzes da Ribalta». Contudo, este brilhante filme faz-nos entender perfeitamente o que Chaplin sentia e receava, através de toda a história deste filme e suas personagens. Calvero, o palhaço entristecido por ter perdido o seu público, interpretado por Chaplin, é apenas um alter-ego do realizador. Em tudo é igual a Chaplin, menos no nome, e também por Chaplin ter sido o "Little Tramp", e Calvero ter sido o "Old". Ah, e fundamentalmente, a parte amorosa da coisa: enquanto que o "Little Tramp" sofre de amores nunca correspondidos (à exceção do filme «Tempos Modernos»), o "Old Tramp" é seguido por uma rapariga jovem que não percebe, verdadeiramente, o que sente por ele.

«Luzes da Ribalta» será, provavelmente, um dos filmes mais bonitos e poéticos de toda a carreira do artista dos sete ofícios. E possivelmente, será a obra mais autobiográfica da sua extensa filmografia. E também a mais pesada, quer em termos cinematográficos, quer em termos emocionais. A força do melodrama vivido por Calvero e a jovem bailarina Terry eleva a arte de Charlie Chaplin a um nível nunca antes possível de ser contemplado. O guião está carregado de cenas profundamente tristes e melancólicas, assim como as poderosas interpretações de todo o elenco. Mas há também lugar para pequenas reflexões sobre a vida, e momentos dos espetáculos de Calvero (quer em sonhos do antigo artista, quer na realidade) e da bailarina Terry, que ganha força e coragem para continuar a sua carreira depois de Calvero a ter salvo do suicídio. «Luzes da Ribalta» está cheio de pequenos pormenores e apontamentos cinematográficos que são dignos de serem observados com muita atenção: como referi, o filme tem um pendor muito autobiográfico. Esta autobiografia revela-se em dois aspetos: tanto pelo tempo "presente" da elaboração do filme, quando Chaplin tinha de encarar inúmeros e constantes problemas com diversas facções americanas, tanto pelo sentimento de nostalgia de Chaplin em relação à sua infância (nostalgia essa vista no vestuário e maneiras de expressar de Terry - Chaplin pôs nesta personagem muitos aspetos físicos e psicológicos que se assemelhavam aos da sua Mãe, uma artista de vaudeville que sofreu na cara a perda de público que Calvero recorda, em sonhos, no filme - assim como o ano em que se passa a história: 1914, época em que Chaplin estava a dar os primeiros passos para a fama). 

No filme estiveram envolvidos muitos membros da família de Chaplin, como a sua própria esposa Oona O'Neill (que substitui Claire Bloom, a atriz que interpreta Terry, em dois planos de curta duração - nem se nota a momentânea diferença), o seu meio irmão (que interpreta, com ele, a cena do espetáculo de bailado onde está Terry e em que Calvero foi convidado a entrar) e os seus filhos (Sydney Chaplin é o pseudo-galã deste drama, que tenta conquistar Terry, e os filhos, à altura, mais novos de Chaplin - entre os quais a agora famosíssima atriz Geraldine Chaplin - que fazem um pequeno cameo no início do filme). Este ambiente muito familiar terá ajudado muito a que Chaplin conseguisse transpôr, de uma maneira ainda mais humana e densa que o habitual, as condições e perspetivas de vida de cada um dos personagens de «Luzes da Ribalta». 

Há que destacar também a interpretação de Buster Keaton, outro dos grandes Deuses da comédia muda americana. É um pequeno número cinematográfico, onde os dois Gigantes cineastas, que fazem de palhaços, contracenam com algumas patetices que envolvem um violino e um piano. Digam o que quiserem, mas ver reunidos, embora que por poucos minutos, duas lendas do Cinema, não é algo que se veja todos os dias! Diz-se que Chaplin terá cortado planos em que Keaton se revelava demasiado engraçado, mas concorrências à parte (afinal, na época de Ouro do Cinema mudo nos EUA, sobreviveram, até hoje, mais as memórias das obras destes dois Senhores do que de quaisquer outros da sua era), é bonito ver dois Artistas com A grande que, apesar de viverem fases complicadas das suas carreiras na altura, conseguem proporcionar um momento único na História do Cinema. De destacar também a fantástica banda sonora da autoria do próprio Chaplin. Já se tinha tornado hábito, nos seus anteriores filmes, que a composição estivesse também a cargo do próprio realizador. E em «Luzes da Ribalta», penso que conseguiu a sua apoteose: a música de abertura do filme é das mais celebradas de toda a obra chaplinesca. Todas as músicas do filme são muito bonitas, comoventes e inesquecíveis, e revelam também a influência da realidade daquele tempo na forma como Charlie Chaplin criou a sua arte musical.

Sendo, como podemos ver, uma fita que retrata as armaguras que a vida de Chaplin sofria na época, «Luzes da Ribalta» é uma emocionante reflexão sobre a arte, o público, os artistas, e o conflito entre as gerações mais novas e as mais velhas. No princípio do filme, aparece um intertítulo que esclarece que a história que vamos ver aborda a forma como a juventude sucede sempre à população mais envelhecida. E essa é a realidade que Calvero tem que lidar, embora não seja da maneira mais simpática. É essa antipatia e desprezo pelos mais velhos que se nota nos tempos atuais, tanto pela forma como a população idosa é tratada, como pela maneira como a juventude despreza, vivos ou não, os grandes ícones do passado. «Luzes da Ribalta» é um filme que poderá causar algum choro pelas pessoas mais sensíveis, mas faz bem que isso nos aconteça: revela a humanidade que cada um de nós tem, e que o filme possui de uma forma completamente esmagadora. Uma preciosidade!

* * * * 1/2