segunda-feira, 29 de outubro de 2012

As Faces de Harry


A vida é como Las Vegas, umas vezes em cima, outras vezes em baixo. Mas no fim, é sempre a casa que ganha. E não quer dizer que não te tenhas divertido...


Sempre me interessei, ao ler livros, ver filmes, contemplar certas e determinadas obras de arte, em conseguir compreender qual seria a parte da "realidade" que teria estado metida na feitura desses ditos elementos da nossa cultura e que perfazem a existência de cada um de nós. Para mim é impossível que, para um dado autor ter uma determinada ideia para qualquer coisa, a mesma tenha vindo do nada. Há mais condicionalismos na criação da arte (mesmo quando se trata de obras de pura ficção) do que se possa, à partida, imaginar. E «As Faces de Harry», um dos mais inteligentes, profundos, pessoais e diretos filmes de Woody Allen, é como que uma espécie de reflexão sobre o tema, mostrando que não é por algo sair da cabeça de alguém, com personagens inventadas e imaginação à mistura, que a ficção se deixa de basear (nuns casos, de uma maneira mais identificável, noutros não tanto) em casos verídicos presenciados pelo autor (quer em relação à sua vida pessoal, quer no contacto com as outras pessoas que conheceu ao longo da sua vida, retirando, desta junção de conhecimento e socialização, alguns episódios da memória que, vendo bem, até dão uma boa história).


As personagens das histórias de Harry Block, um escritor de best-sellers interpretado por Woody Allen (que, mais uma vez, como é hábito, escreveu o argumento do filme - que foi nomeado para Oscar), são como, digo eu, as dos filmes do próprio Allen (quer sejam representadas por ele próprio, quer por "special guests", como é o caso de John Cusack em «Balas sobre a Broadway», de Larry David em «Tudo Pode dar Certo», entre outros): tratam-se do autor, em estado de espírito e ideias, mas "um bocadinho disfarçado" (como o próprio Block as caracteriza no filme).. Apenas alguns pormenores mudam, como o nome para o seu alter-ego, e o acrescento de algumas características que tornem mais atrativas a história real agora transformada em ficção. Mas falemos um pouco, então, de Harry Block: trata-se de um escritor que, tal como muitos outros autores que exercem a mesma profissão, tem a mente virada do avesso: bebe, toma comprimidos, teve várias mulheres mas nunca conseguiu, verdadeiramente, tornar-se merecedor de alguma delas, e agravando o facto que as mesmas (e os seus familiares) criarem algumas desavenças com os escritos de Block por serem demasiado colados aos episódios que se sucederam na vida real e esteve em processo de terapia com diversos psiquiatras (começando, desde logo, na sua juventude). Block sofre um bloqueio criativo que o impede de escrever novas histórias, no seu estilo inconfundível que é bastante admirado pelos críticos e pelo público, que se identifica com as personagens criadas pelo autor. E entretanto, a sua antiga universidade (de onde tinha sido expulso) convida-o para uma homenagem à sua vida e à sua obra. E enquanto Harry Block (talvez, como alguns críticos - reais - apontaram, um alter-ego, além de Allen, da personagens Antonius Block, do filme «O Sétimo Selo» de Ingmar Bergman, filme de que Woody Allen é um grande admirador, reservando-lhe um lugar no seu "top 10" pessoal dos melhores filmes de todos os tempos para a Sight And Sound) se vê no meio de todos estes problemas sem solução aparente, acompanhamos as partes da sua vida que influenciaram a criação das suas personagens, chegando o filme a uma parte em que Block vê as suas personagens a interagirem com ele na "sua" realidade, e que o fazem perceber, a pouco e pouco, as coisas que estão erradas na sua existência e no seu modo de agir com as pessoas e consigo mesmo.

«As Faces de Harry» é o filme-resposta para aqueles que se perguntam se os filmes de Woody Allen baseiam-se na sua própria vida, se todas as suas personagens (desde o humorista Alvy Singer, de «Annie Hall», até ao trapaceiro Ray Winkler de «Vigaristas de Bairro», para não ter de mencionar, em jeito de lista, outros trinta e tal alter-egos) são "ele". Woody Allen não responde, diretamente, a essa questão (aliás, basta ver os seus filmes e compará-los a sua vida real), mas mostra, como quase fosse uma espécie de confissão cinematográfica, que tem vários "eus" (não ao jeito, obviamente, de Fernando Pessoa - felizmente!) na ficção que acabam todos por ser a mesma pessoa. E Allen faz isso de uma maneira tão brilhante e cativante que me fez pensar bastante também na forma como vemos e criticamos a arte, assim como nos identificamos ou imitandos certas personagens do mundo do cinema, da televisão ou da literatura, de uma forma que faz parecer que a nossa vida se molda em volta desses nossos "ídolos" do grande ecrã, do ecrã mais pequeno e do papel, que nos alteram a forma de falar, de pensar e de, em certos casos, vestir. 

O filme está recheado de grandes estrelas do Cinema Americano que, fazendo aparições mais pequenas ou com uma maior duração, não deixam de marcar a sua presença e deixarem uma memória de distinção de umas entre as outras ao espetador. O argumento de Woody Allen é algo diferente do utilizado noutros filmes do humorista, ao nível da linguagem dos diálogos e das personagens (usando um estilo um pouco mais hardcore - sou o único que faz um pouco de confusão, em certas partes do filme, ouvir Allen soltar um f*ck deliberadamente? É que, pronto, em outros filmes até é normal a sua personagem soltar uma ou outra "f-word", mas aqui é como se atingisse o estado de palavrão de Joe Pesci em «Tudo Bons Rapazes» - não façam comparações, não é esse o objetivo) e das próprias cenas, onde não existe aquele mecanismo da piada sempre imediata das personagens (que Woody Allen tem vindo a utilizar nos seus filmes mais recentes, mas também noutros que "nasceram" antes de «As Faces de Harry») e a história do filme é de uma grande complexidade e profundidade. Para mim, este tornou-se num dos Grandes filmes de toda a vasta carreira de Woody Allen (e que até agora só conheço perto de metade) e que é imprescindível ver, primeiro, pelos fãs do autor e da sua obra, como para quem gosta de variar, de vez em quando para um filme mais inteligente e que nos faça pensar. «As Faces de Harry» é um filme fabuloso que foca o pensamento de Woody Allen e a criação dos seus filmes, sendo também uma reflexão da vida moderna e da escrita na atualidade.

Nota: * * * * 1/2

domingo, 28 de outubro de 2012

1300: o aparecido

Eis que o blog chega à bonita soma de 1300 posts publicados (se bem que as coisas mais sérias e não tão idiotas só começaram a ser elaboradas há pouco mais de meia dúzia de meses). Para comemorar esta efeméride, decidi mudar o template do blog. Sim, eu gostava bastante do outro, mas aqueles passaritos a voarem não era muito do meu agrado. E como não sei mexer em códigos html e essas coisas (para poder retirar as ditas aves), decidi mudar todo o modelo do blog e, entre as poucas escolhas dadas pelo Blogger (e depois de alguma pesquisa em sites especializados em templates, não tendo eu gostado muito do que vi), escolhi este, mais simples e sem muitos adereços. Mas o espírito do blog, ui!, esse permanece com ou sem mudança de template. Continuai a ler o que eu aqui posto, fiéis discípulos, pois a palermice triunfará no meio do bom senso e da sanidade mental!

E uma boa semana para todos!

Dama de Espadas - um must na obra zambujaliana



E ontem acabei de ler «Dama de Espadas» de Mário Zambujal. Que posso dizer sobre o livro? Que é bom, está dentro do estilo que o autor habituou os seus leitores, e que eu cada vez gosto mais. É uma grande história (que visionei, a cada instante e a cada página, numa adaptação cinematográfica imaginária), muito bem engendrada e com muito humor à mistura. Mário Zambujal é mais conhecido pela «Crónica dos Bons Malandros», que é um livro excelente, mas vale muito a pena conhecer outros livros dele, tal como este, e provavelmente, «Cafuné», o mais recente e que saiu na semana passada nas livrarias. Este foi, dos quatro livros que li do autor, o segundo que mais gostei. E a sério, não me sai da cabeça a ideia de passá-lo para um grande filme!

sábado, 27 de outubro de 2012

Hana-Bi: Fogo de Artifício


Takeshi Kitano pode ser designado, de uma forma muito simples e concreta, o homem dos sete instrumentos do Japão. Kitano é um autêntico senhor na arte do entretenimento, que viu a sua obra ser reconhecida nos diversos setores de atividade em que participa, todos muito distintos entre si:. Na Europa e além-Atlântico, "Beat" Takeshi (tal como foi apelidado pelos habitantes do Japão, seu país de origem) é mais conhecido e conceituado pelo seu trabalho na área do cinema, tanto como ator como realizador, argumentista e editor. Mas Kitano também deixa marcas do seu enorme talento e criatividade na comédia (televisiva ou radiofónica), na música, na televisão como apresentador, na poesia, no design de um videojogo e na pintura. Aliás, alguns quadros de sua autoria podem ser contemplados também em «Hana-Bi: Fogo de Artifício», filme de que vos vou falar nesta crítica e que me surpreendeu por me mostrar um mundo cinematográfico que não conhecia, mas de que me tornei imediatamente admirador.

«Hana-Bi: Fogo de Artifício» é um grande filme que se torna um perfeito exemplo da diversidade e da força da visão cinematográfica de Takeshi Kitano, das suas histórias (quer envolvam a yakuza - que se trata do crime organizado japonês - quer não) e dos atores que dão vida às suas personagens (incluindo o próprio Kitano). O filme é considerado um marco na carreira de Kitano na Sétima Arte, visto que foi com ele que o realizador/autor/pintor/etc recebeu o galardão maior do Festival de Veneza: o Leão de Ouro. Com uma poderosa banda sonora da autoria do compositor Joe Hisaishi (que já assinou outras colaborações em filmes de Kitano), «Hana-Bi: Fogo de Artifício» é a prova de que vale sempre a pena alargar horizontes cinematográficos, rumo a caminhos e autores que nos eram dantes completamente desconhecidos. E digo isto porque conheço muito pouco do que se tem feito em termos de cinema oriental (em termos de títulos sim, já ouvi falar de uns quantos, que são muito prometedores, mas ver algum deles, até agora ainda não tive oportunidade para tal) e este filme foi um bom ponto de partida para explorar, com mais detalhe, não só a cinematografia japonesa, como também de outros países cujas produções (de grande diversidade e qualidade) me têm, infelizmente, passado ao lado nos últimos tempos.

«Hana-Bi: Fogo de Artifício» é um filme profundo, tocante e maravilhosamente construído, que resulta do cruzamento de diversas histórias que circulam à volta do mesmo personagem: Nishi, detetive da polícia japonesa. Nishi vê-se confrontado com inúmeros dilemas que se misturam e se entrelaçam ao longo de todo o filme: a sua esposa, doente em fase terminal, as memórias traumáticas das mortes dos seus colegas de profissão, a condição debilitada de outro agente após uma operação policial (que o leva a começar a ter tendências suicidas e um gosto pela pintura que o mantém vivo) e a dívida monetária que tem com a yakuza. O filme gira à volta destas várias situações, do impacto que as mesmas exercem sobre Nishi. Para resolver todas as problemáticas que atormentam a sua mente, o detetive decide engendrar um plano que dará uma solução viável (e feliz, em parte) às personagens que influenciam a sua vida e o seu dia a dia.

Takeshi Kitano constrói um filme belíssimo, quer em termos de sensibilidade (não caminhando para a lamechice - e isto é importante salientar), quer em termos de humanidade. Esta história passa-se numa cultura completamente diferente da nossa mas é quase impossível não nos identificarmos com ela, ou com algumas partes desta história, contada, simultaneamente, com cenas repletas de violência e de completa calma. Talvez seja essa a razão que levou o Professor com quem estou a fazer o projeto do cinema na escola a trocar o «Kikujiro» (também do Kitano) por este, depois de eu lhe ter falado que tinha gostado bastante do filme, por dar mais motivos para a reflexão do espetador em relação à sua própria vida quotidiana. É um filme pesado, sim, mas que não se esquece e que me marcou muito. Mas penso que terei de fazer um novo revisionamento, daqui a algum tempo, para retirar mais coisas novas dele. Porque «Hana-Bi: Fogo de Artifício» é daqueles raros filmes que me fez ter pena quando cheguei aos créditos finais, porque gostaria de voltar de novo a todo aquele universo sensível, humano e violento (com alguns toques de excentricidade) que caracteriza este filme galardoado de Takeshi Kitano. «Hana-Bi: Fogo de Artifício» é um filme diferente e inovador em certos aspetos que pede para ser visto. E vale mesmo a pena!

Nota: * * * * 1/2

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Anjos de Cara Negra: "Whaddya Hear? Whaddya Say?"


Na tarde do dia de hoje, momentos depois de ter visto este fascinante filme que dá pelo nome de «Anjos de Cara Negra», peguei, num daqueles acasos da vida completamente improváveis, num pequeno livro antigo das Seleções com «Frases Célebres de Pessoas Célebres» (pelo menos é o título dessa dita obrazita). Numa das inúmeras frases estampadas no livro, houve uma que me chamou a atenção por me ter identificado muito com a mesma em relação à opinião de que fiquei desta excelente obra cinematográfica que os meus olhos tiveram o prazer de contemplar. A citação é da autoria de Robert Frost, um dos maiores vultos da poesia norte-americana, que afirma que «É absurdo pensar que o único meio de saber se um poema é imortal seja aguardar que ele perdure (...) A verdadeira prova de um poema não reside no facto de nunca o havermos esquecido, mas de nos apercebermos imediatamente de que jamais poderemos esquecê-lo».

Trocando o "poema" da frase por "filme", a opinião de Frost assenta que nem uma luva a «Anjos de Cara Negra», e tantos outros filmes que fazem parte dos meus preferidos (este também já entrou na lista, é o 56º. Gostava de saber quantos filmes preferidos é que vou ter daqui a um ano... Ao ritmo que isto anda ainda chego aos 100 sem me aperceber disso...). Digo isto porque penso que este filme de Michael Curtiz ficou sempre na sombra, tendo apenas resistido por ter obtido, ao longo das décadas uma legião de fãs numerosa (e que conseguiram que o filme conseguisse ter a nota de 7.9 no IMDB, o que não é nada mau). Mas se fosse apenas por relações "temporais", como afirmou Frost, o filme ter-se-ia perdido naquela década (não) tão longínqua que foi a de 30. Se aguardássemos que o filme perdurasse com o passar dos anos (não tendo nem grande apupo e aclamação por parte dos críticos das décadas seguintes nem o reconhecimento de grandes instituições como o American Film Institute), seria como se nunca tivesse existido. Quer dizer, pela qualidade da cópia que foi convertida para a edição DVD do filme, percebemos que o mesmo nunca foi sujeito a condições apropriadas de conservação (existem várias falhas, muito visíveis mesmo, das bobines e de muitos fotogramas, ao longo de todo o filme).

Mas tinha dito que o filme ficara na sombra. Afirmei isso porque o realizador de «Anjos de Cara Negra», Michael Curtiz, elaborou, alguns anos mais tarde, o clássico «Casablanca». É outro excelente filme, sim senhora, mas parece que, tanto como o «Anjos», como o resto da filmografia de Curtiz, ficou sempre esquecida por causa da grande aclamação que «Casablanca» tem... desde sempre. E eu adoro o «Casablanca», é outro filme que consta na minha lista de favoritos de todos os tempos. Mas quando um filme quase que apaga todo o trabalho de um realizador que, aliás, era um dos maiores da sua área na época, isso é triste, porque acho que Curtiz tem muito para explorar (não sei em termos de qualidade, mas em quantidade, oh lá lá - no ano em que estreou «Anjos de Cara Negra», Curtiz esteve envolvido em três outros filmes, quase em simultâneo. E hoje em dia isso é obra!) e esta maravilhosa obra é um exemplo singular disso mesmo. Vejam é estes dois filmes (que foram os únicos que vi de Curtiz, por isso apenas deles posso fazer juízos), que já têm algumas horas de excelente entretenimento, na companhia de dois símbolos da melhor qualidade e excelência da produção cinematográfica hollyoodiana.

Os anos 30 e 40 foram repletos de grandes momentos de cinema que perduram até hoje... pelo menos para a minha pessoa. É que me sinto cada vez mais fascinado pelo cinema desta época, especialmente o que saía das grandes distribuidoras norte-americanas (principalmente a Warner Brothers), que eram, na generalidade, produtos cinematográficos repletos de estrelas, grandes histórias (mais atuais do que se possa imaginar) e fantásticos realizadores, que deixaram a sua marca em filmes brilhantes e que conseguiram retratar na perfeição os EUA durante as duas décadas citadas. E «Anjos de Cara Negra» é um filme de um género que, na altura da estreia, estava na moda: o filme de gangster, sendo alvo de filmes melhores e outros que não passavam de cópias do que se já tinha feito e que serviam apenas para render o peixe. É como os westerns: chegou-se uma altura em que, em Hollywood, se produziam filmes do género como se tivessem sido criados segundo um modelo de "estandardização", aquele que o senhor Henry Ford criou no princípio dos anos 20. Eram tantos westerns que se faziam, mas apenas poucos sobressaíam da generalidade das produções (principalmente por terem, nele envolvidos, Senhores que elevaram o género a Arte - como John Ford ou, numa fase de finais da era de prosperidade das histórias do Far-west no grande ecrã, Sam Peckinpah). O mesmo acontecia com os filmes de gangsters: a maioria das fitas feitas em moldes que envolvessem pancadaria, corrupção e histórias de amor vulgares, apenas tratavam temas como... pancadaria, corrupção e histórias de amor vulgares. 

Contudo, existem sempre os pontos isolados no meio do oceano, e «Anjos da Cara Negra» eleva o género do filme de gangsters a um patamar superior, como também consegue dar alguns toques de film-noir e de bom drama que lhe dão uma qualidade superlativa (pelo menos, a meu ver). A história é contada de uma maneira fluída, de uma forma muito rápida (que me fez lembrar, recorrentemente, o estilo utilizado por Michael Curtiz em «Casablanca») mas sem perder algum pingo de credibilidade. Acompanhamos Rocky Sullivan (interpretado por um estrondoso James Cagney, um dos melhores atores de todos os tempos - e afirmo isto tendo apenas visto um filme com ele, pelo menos por agora...), um gangster que, depois de ter passado quinze anos de prisão em prisão (e ter acabado o seu período prolongado de "férias" atrás das grades apesar de ter feito coisas que lhe permitiam poder gozar mais uns anitos na choldra), se vê cá fora no mundo "real" e apressa-se em arranjar mais esquemas e patifarias para conseguir singrar na vida do submundo do crime. No caminho reencontra Jerry, o seu amigo larápio de infância, que entretanto, com o passar dos anos, se tornara padre (Pat O' Brien num excelente papel, que comprova a dita química entre este e Cagney, muito por "culpa" da grande amizade que os dois atores conservaram nas diversas produções em que participaram juntos), que pretende, além de querer tentar mudar o seu velho amigo para os bons caminhos da vida (pois nele ainda vê várias razões para preservar a esperança na salvação da sua alma), impedir que os miúdos maltrapilhos (interpretados pelos Dead End Kids, um grupo que tinha feito sucesso na Broadway com uma peça de nome «Dead End» e que foram brilhantemente aproveitados para este filme), sucessores (a nível geracional) de Rocky e Jerry, sigam os mesmos caminhos que o gangster mais temido da cidade, que a criançada adora e vê nele um exemplo. Entretanto, Rocky reencontra uma moça que, quando eram mais miúdos, ele fez o favor de humilhar em público. E - adivinhem só - ela apaixona-se por ele, sim. É um cliché, sim, mas não é do cinema. A vida real é mais assim do que se pensa. Entretanto, o advogado ardiloso de Rocky, que decidiu apoderar-se da massa que ele pediu para lhe guardar enquanto estivesse preso, aproveita para retirar o seu "cliente" do caminho quando ele regressa da cela. E a ele se juntam outros gangsters que pretendem fazer a folha a Rocky, a ver se ele deixa de andar pela cidade fingir que é bom.

O resultado desta salganhada de histórias (que são todas muito simples, mas com mais profundidade do que aparenta - ao menos a nível pessoal, do espetador) mostrou ser para mim surpreendente do princípio ao fim. A realização de Michael Curtiz é competente, inteligente e esmagadora em termos emocionais para quem vê «Anjos de Cara Negra». Gostei muito de reparar o forte uso dado às luzes dos cenários, à fotografia das cenas (que perde algum do seu vislumbre pela cópia algo degradada do filme), às interpretações dos atores, ao argumento que, apesar de ter grandes falas, não perdeu o ritmo nem o meu interesse por estar muito bem planeado, executado e interpretado. A banda sonora é excelente e condizente com todas as ações do filme, não se exagerando nem fazendo falta por estar muito bem selecionada e organizada. Uma nota também para os planos de câmara, que nos aproximam das personagens e dos ambientes que as rodeiam (e nisto Curtiz mostrou uma das suas maiores potencialidades/talentos), e que foi a causa da minha emoção com os últimos momentos do filme (juntando-se à apoteose de Cagney e O'Brien, que mostram que a amizade e a dignidade do ser humano não tem limites, independentemente do ambiente em que se foi criado). «Anjos de Cara Negra» é, para mim, e digo-o sem receio, uma obra-prima, igualável a «Casablanca» em termos de qualidade, e que mostra como certos clássicos podem não resistir ao tempo, às listas dos críticos e a todas essas coisas, mas consegue sempre, se for bom, obter um culto de fãs atentos e maravilhados com o mesmo, que ganham interesse por ele ao gostarem de descobrir pérolas da 7.ª arte. Não sei se me posso incluir nesse grupo de "cinéfilos", mas que fiquei fã do filme, isso afirmo com toda a certeza!

Nota: * * * * *

Ajudinha? :)


Como escrevi no post anterior, estou nomeado para uma das categorias dos TCN Blog Awards 2012, nomeadamente, a de Melhor Artigo de Televisão (com o texto «RTP2 - Sentimento de Revolta»). Hoje começaram as votações e eu queria pedir-vos que (se acharem que este indivíduo que sou eu merece o vosso voto) me ajudassem com a vossa contribuição nesta fase de eleição. Sinto-me (e usemos, desta vez, uma comparação adaptada à realidade portuguesa) como uma PME no meio do Pingo Doce e do Continente). Basta verem, no lado direito do blog (http://cinemanotebook.blogspot.pt) responsável por esta iniciativa onde está a secção da categoria pela qual estou nomeado, e carregarem na minha ou noutra nomeação da mesma (se acharem que algum dos sete outros nomeados escreveu um texto melhor que o meu - o que é bem provável). A escolha é vossa e espero que a façam de forma justa, mas agradeço a vossa eventual ajuda! :)

Obrigado e bom fim de semana,

Rui

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Este blog até já está nomeado para prémios de alto gabarito e tudo...

Pois é verdade. A Companhia das Amêndoas viu o seu "trabalho" ser distinguido quando hoje foi anunciado que um dos nomeados na categoria de Melhor Artigo de Televisão dos TCN Blog Awards 2012, escolhidos cuidadosamente por um júri de altas individualidades, é o meu post sobre a situação duvidosa da RTP2 (podem ler esta mega-reflexão sobre o nosso quotidiano televisivo aqui. Posso-vos dizer que fiquei muito contente por o dito júri ter achado que, entre os quinze textos que enviei deste blog para as mais diversas categorias dos prémios, que havia pelo menos um que até nem era mauzinho. Mas agora sinto-me como um pequeno filme de baixo custo independente no meio de grandes blockbusters das maiores produtoras americanas: os meus adversários são muito bons e são de blogs muito maiores e com diversos colaboradores, maneira de que o meu blog não funciona. Mas enfim, uma nomeação, nestes prémios célebres do mundo blogueiro nacional, já é melhor que nada. Não quero estar a pôr expetativas em nada, porque estas coisas dos prémios são sempre muito subjetivas, por isso contento-me, por agora, com a nomeação. É uma grande honra e agradeço a toda a gente que possibilitou que isso acontecesse! :)

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

O esférico não está a rolar sobre a relva... ou então está e sou eu que não o apanho

Confesso (pela centésima-milésima vez): se há desporto que não gosto de jogar (pelo menos, em aulas de Educação Física... tive uma hoje e bem que podia ter chovido mais cedo, poupava-me o martírio de ter de usar os meus pés e tentar ir atrás de uma bola - sem sucesso, obviamente...) é o futebol. 
Lembrar-me do que se passou há pouco nos poucos minutos em que estivemos a praticar o desporto com mais adeptos no nosso Portugalinho pequenininho e muito, mas muito, sacanazinho, recordou-me de duas coisas: primeira, de uma série áudio que tinha feito para o blog há uns tempos, «O Programa do Mal Dizer», um projeto de algum êxito (se pensarmos em blogs que são vistos diariamente por uma ou duas pessoas, é giro saber que pelo menos umas quarenta ouviam este programa todas as semanas... onde é que elas iam buscar os programas então? Hum... mais vale deixar essa pergunta e respetiva resposta no segredo dos Deuses). O primeiro episódio dessa "ambiciosa" série (que pretendia, todas as semanas, abordar/ mal dizer um dado tema, entrevistar uma personagem repleta de idiotice e culminar com uma ou duas rúbricas também muito apalermadas) versou sobre o futebol. Por acaso não tenho o episódio em mãos. O megaupload, servidor onde ia, semanalmente, postando os capítulos do meu programa, fechou, e o senhor com muito excesso de peso que era o seu fundador deve estar agora a comer nachos para se consolar (ou então, como li numa piada que saiu na altura desta polémica ter surgido, está a fazer mais uploads que downloads...), daí os episódios deste programa não estarem mais disponíveis no circuito "internetal" e apenas num outro computador que está por aqui por casa.
Mas falando do episódio em si, não me recordo muito bem do mesmo (lembro-me do início, em que fiz uma voz de apresentação do mais estúpido que me lembrei na altura - achava que tinha jeito para as imitações, naquele, tão longínquo!, ano de... 2010). Mas sei que dizia coisas idênticas sobre o futebol que coincidem com o que penso hoje sobre o mesmo: há demasiado fanatismo e popularidade em volta dele... e eu continuo a jogar mal, horrivelmente, pessimamente, nas aulas de Educação Física.
A segunda coisa que me lembrei foi de um post que, há quase um ano (pensei que tivesse sido há mais tempo) publiquei neste espaço amendoeiro. Esse texto, com o singular nome de «O esférico rolando sobre o alcatrão - a tenebrosa relação de Rui Alves de Sousa com o futebol» segue a mesma linha de pensamento. Continuo um frangalho a jogar à bola. Só com o meu sobrinho é que conseguiria ter uma positiva nesse dito desporto (mas coitadinho... seria muito injusto visto que eu tenho mais dez anos do que ele. Mas só dessa maneira é que conseguia vingar no desporto, o que mostra o meu graaande talento para o mesmo), o que me faz pensar que, às vezes, faria melhor ao mundo se me atirasse neste momento da janela da sala. É o que eu vou fazer.

OK, esqueçam, está mau tempo lá fora e não estou p'ra me atirar para causar mais estragos. O sangue e isso.

Bom, continuando este périplo futebolístico. O que eu pretendo apenas voltar a abordar, depois deste parlapiê todo sem nexo, é a maneira fanática (e por vezes violenta) como as pessoas levam o futebol. Há crise, sim senhora, pode não haver dinheiro para ter pão em cima da mesa, mas o estádio da Luz vai estar sempre cheio. E quem diz Luz, diz Sporting e diz Dragão. Os outros, depende das partidas. Mas quando é o clube da aldeia a ir jogar, pelo menos toda a população em peso vai estar no estádio a ver a partida. O problema é que como são tão poucos não conseguem esgotar a bilheteira do estabelecimento.
Enfim, é como nas tais aulas de Educação Física. Quase nunca fazemos futebol, e o desporto não se encontra nos que fazem parte da nossa avaliação. Mas é giro ver como as pessoas ficam mais histéricas, ridículas e insuportáveis quando é o jogo de chutar a bola que é escolhido para ser praticado na aula. Eu sei que jogo mal, mas calma aí!, não precisam de me gritar. Já é incomodativo ouvir a estranha voz da minha consciência a gritar-me desalmadamente sempre que falho um passe, quanto mais a peixeirada dos outros... É giro porque, com os outros desportos, que são valiosos para a nossa nota, está-se tudo a marimbar e fazem tudo sem qualquer tipo de preocupação. Mas quando é o futebol, ui! Isso nem se fala! Parece que as pessoas mudam de personalidade quando vêem a bola a rolar no chão. E isso até que é giro... se isto se tratasse da gravação de um documentário da BBC (narrado, claro está, por Sir David Attenborough) sobre a sobrevivência dos animais em situações de perigo. Só que há duas coisas: somos seres humanos (e por isso, mais racionais), e depois, o futebol não é uma situação de perigo! Aliás, acrescento: só há perigo é quando, em campo, se envolvem caneladas, encontrões, e mais adiante, pancadaria da grossa, digna de um  novo filme (com dez sequelas garantidas) protagonizado por Chuck Norris. Lembro-me de uma vez passar na RTP Memória e estar a acabar a transmissão de um jogo, estava tudo calmo, o locutor diz «Obrigado e boa noite» e a câmara fica, imóvel, a filmar dois dirigentes de clubes a baterem-se com cadeiras e tudo. Qual «Casa dos Segredos», qual «Toca a Mexer», qual quê, a ação a sério está não na bola, mas no que está à volta dela, nos jogos de futebol. Os adeptos também são outro grande exemplo de fanatismo digno do maior extremismo possível (só faltam bombistas suicidas e o camandro...). Berram, bebem uma cerveja, partem umas coisas, bebem mais uma cerveja, apedrejam adeptos de outro clube, e "hop! Vou mas é beber uma mine!, aparecem na televisão, mais uma mine para descontrair, e depois batem nos familiares e vão dormir algumas horas (com a mine sempre à mão, não vá dar a sede a meio da noite ao menino...). E jogar futebol com os meus colegas fez-me lembrar todas estas imagens parvas e repletas com (apenas algum) non-sense? Sim. São casos diferentes, mas o fanatismo e o exagero na histeria (ah, e as caneladas) que, penso, são as coisas mais importantes em termos de problemas do desporto, são totalmente idênticas. Só falta é que cada um de nós comece a ganhar, pelo menos, um milhão de euros por ano pelos nossos joguinhos.
E assim vai o mundo, e o mundo do futebol. E mesmo a propósito, os noticiários, enquanto estava a escrever este post, fizeram todos o seu tempo diário dedicado exclusivamente ao futebol e todas as idiossincrasias (às vezes ocupam mais tempo com esse desporto nos programas do que com o resto). Mas vamos mas é ser todos amigos, jogar com calma e sem stress, que a vida só tem dois dias. E enquanto as pessoas não chegarem a essa conclusão, sempre tenho o meu sobrinho para me lembrar que sou só 99% mau a jogar futebol.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

My Darling Clementine - A Paixão dos Fortes


Estive de regresso, mais uma vez, ao mundo do Velho Oeste com mais um volume da extensa obra do género do realizador John Ford, «My Darling Clementine», em português «A Paixão dos Fortes». Eu costumo abordar os filmes mencionando sempre a tradução lusa, mas desta vez gostei tanto do título original desta grande fita que decidi, numa medida de exceção, quebrar a regra e utilizar o título americano. É que é uma expressão que me ficou na cabeça e que acho que condiz muito bem com o filme em si. Mas prossigamos...

«My Darling Clementine» começa de uma forma grandiosa. Ouvimos uma melodia muito conhecida do cancioneiro norte-americano, uma música que ilustra um povo, suas ideias e suas perspetivas de vida. A música em questão é a que dá título ao filme de Ford, e mesmo a propósito, visto que se fala de uma moça com esse nome (cujo envolvimento na ação da obra será explicada algumas linhas à frente). A cantiga em si, tanto como a letra que é cantada na mesma, mostram o que poderá o espetador esperar na hora e meia que se seguirá: logo nessa parte inicial dos créditos damos logo pelas imagens grandiosas das paisagens à boa maneira que só John Ford consegue passar para o ecrã, através de técnicas magníficas que me fizeram querer, por instantes, ter um ecrã com muitos metros de comprimento na minha sala de estar. Assim sabemos que nos espera uma história que não só pretende glorificar e abordar temas que fazem a História dos EUA e da sua formação, como também mostrar uma grande história que transmite grandes valores para a vida de todos nós, como a família, o amorrr (o triplo "r" é propositado) e a amizade, mesmo que envolva um bandido dos da pior espécie.

O filme pega nessa lendária figura que dá pelo nome de Wyatt Earp (digamos, em resumo, que era um herói como deve ser) e da sua história de vida, marcada por um famoso tiroteio em O.K Curral. Devo dizer que já conhecia mais ou menos a história desta personagem que, com certeza, tem um lugar de topo na mitologia do "far-west", graças a um álbum do Lucky Luke que, em tempos, tinha lido e  cujo título era precisamente "O.K. Curral". Mas o que é bom em «My Darling Clementine» é que, ao contrário de outros tantos remakes cinematográficos da história de Wyatt Earp, o filme não se foca tanto na cena de pistoladas de O.K. Curral mas permite-nos conhecer toda a vida da cidade em que Earp e os irmãos se instalam, depois do assassinato de um deles. Aí, Earp vai conhecer John "Doc" Holliday (não sei porquê, adoro o facto de os americanos porem as suas alcunhas no meio dos nomes, pelo menos dos filmes. Não me perguntem a razão desta minha adoração, e sigamos em frente), um patifório que depois se vai tornar amigo dele. 

John Ford não faz, com «My Darling Clementine», um western mais violento e cliché, mas sim uma história mais ritmada, sem necessitar tanto da música como em, por exemplo, «A Desaparecida», e que pauta pela simplicidade e por uma história mais humana e atual, em certos aspetos, aos nossos dias. Essa é a grande virtude deste filme cujo visionamento voa num instante e que nos faz sentir a chama do grande talento de todo o elenco, em especial de Henry Fonda - que interpreta Wyatt Earp -, um autêntico Senhor na Arte de Representar e que mostra, constantemente, ser um ator mais multifacetado do que possa aparentar. Gostei um pouco mais de «My Darling Clementine» do que do muito conceituado «A Desaparecida», mas penso que não se deve fazer comparações: são os dois grandes filmes, que não constariam da minha lista pessoal dos melhores filmes que já me passaram pela vista, mas cujo visionamento é merecedor e diria que é mesmo obrigatório. Porque o Cinema não se faz só de filmes excelentes e magnânimes, e encontrar pérolas como «My Darling Clementine» é um maravilhoso achado para quem gosta e se interessa pela Sétima Arte.

Nota: * * * * 1/2

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Planeta dos Estereótipos: A Origem

Estou cada vez mais convencido da veracidade da minha teoria pessoal (e transmissível, se vós vos identificardes com a mesma) de que os inúmeros estereótipos que  existem na nossa sociedade, e que versam sobre diversos temas, têm todos uma razão de ser. Um certo e determinado ser humano deste planeta teve, antes de criar uma ideia feita e fazê-la circular por todas as bocas possíveis, de presenciar algo ou conhecer alguém que fizesse com que essa ideia tivesse o seu quê de comum com a realidade. E algumas ideias deste calibre persistem durante tanto tempo, nas culturas das mais variadas populações, que só consigo imaginar duas razões possíveis (se houver mais alguma, façam o favor de relatar): ou a persistência dos estereótipos mostra a ignorância de quem continua a acreditar neles, ou pura e simplesmente, há provas (mesmo as mais pequenas possíveis) que ajudam a alimentar a crença nesse dado estereótipo. E era desta segunda hipotética hipótese que eu gostaria de versar mais algumas linhas nesta minha crónica.

E porquê abordar uma temática tão desprovida de interesse, mas que ao mesmo tempo suscita a atenção de qualquer tablóide sensacionalista de primeira categoria (que são, ou seja, os piores, os mais fofoqueiros e mais... ficcionais)?

A resposta é: porque sim. Porque às vezes, as pessoas tendem a criar certas opiniões de mim que têm a ver com o que pretendo falar neste post (a explicação para esta ocorrência ser-vos-á dada mais à frente) e porque tenho a sensação de conhecer algumas pessoas que fazem aquilo que sustenta a minha teoria sobre a ciência "estereotipal": parece-me que certos indivíduos (e indivíduas - pardon my french... é só para perceberem que se trata de uma questão comum a ambos os sexos) gostam de usar os estereótipos para moldarem a sua vida e poderem afirmar-se como alguém na sociedade, tornando-se uma espécie de marionetas manejadas pela hábil arte do diz-que-disse e da falsa mentira (sim, eu acho graça a este trocadilho), dando assim, suporte a que outras certas pessoas possam dar razão às suas ideias preconceituosas. E agora, analisemos a questão mais a fundo.

Eis então a explicação devida para as minhas preocupações no campo dos estereótipos. Eu não sou preconceituoso, com nada (ok, exceto pratos mal ou demasiado condimentados. Isso é aquela coisa...), mas há pessoas que, na sua perfeita ignorância e sentido de autoridade universal perante o resto do Mundo, gostam de o dizer para se poderem sentir um pouco mais superiores. 

O caso que irei relatar nas próximas linhas aconteceu muito recentemente (talvez seja demasiado atual para ser já "eternizado" na arte da escrita, mas vamos cá a ver), mas foi mais ou menos assim: Duas pessoas gostam muito de falar, nas aulas, de temáticas que nada têm a ver com as mesmas. Eu não tenho nada contra isso, aliás falem à vontade. Mas penso que há uma diferença em falar-se de um tema uma vez por outra e estar constantemente a bater na mesma tecla a toda a hora. A sério?! Aqueles dois não fazem mais nada na vida do que pensar naquilo (ah, e tenho de dizer, o tema em si contém muita obscenidade e perversidade à mistura)?! Ou então se gostam tanto de falar da mesma coisa, guardem para eles próprios, não precisam de falar alto para o resto da turma (até porque eu, nessa altura, estava devidamente ocupado a olhar para as linhas de uma folha nova acabada de inserir no meu dossier de estudo). Às tantas já estava um pouco maçado de ter de ouvir aquela conversa toda, e virei-me para eles e pedi-lhes apenas que falassem um pouco mais baixo (sabem, aquela frase, muito educada, que uma pessoa utiliza com o objetivo de pedir a outra - ou a outras, neste caso - que faça menos barulho, culminando na famosa sigla "S.F.F"? É essa mesmo). Daí, uma dessas duas pessoas disse que eu era uma pessoa fechada e defensora dos bons costumes. A minha reação perante isto: Quem usa temas de cariz sexual (chamemos as coisas pelos nomes) para se impôr junto dos outros e para poder tornar-se alguém no seu meio, tratam-se, com certeza, das pessoas mais deprimentes que o Mundo já teve a tristeza de conhecer. Ah, e parece que quem não pensa que essas temáticas são o Centro do Universo (meu caso, obviously), diz que é retrógrada e reacionário e o camandro. Ui, se eu sou reacionário, os nazis são o quê, pergunto-vos?

E isto, esta situação tremendamente idiota, o que é que faz acontecer? Alimenta o estereótipo de que todos os jovens são uns taradões de primeira, algo que é 90% mentira, mas que, se indivíduo tal pretender analisar a juventude através de casos como este, o resultado pode ser muito diferente. E porquê? Devido ao uso de um estereótipo recorrente da cultura popular! Mais ainda: uma dessas pessoas trata-se de alguém que é gay. Duplo estereótipo: os gays são pessoas que pensam em sexo a toda a hora e põem o sexo em tudo (neste caso, é quase assim. Se bem que eu já conheci mais pessoas com essa orientação sexual que não precisavam de dizer "Ei, olha para mim com atitudes bicha! Daí podes concluir que sou homossexual" nem fazerem as figuras tristes que essa dita figura do meu meio ambiente faz!). Continuem a alimentar estas ideias, continuem. Depois queixam-se e ficam ofendidos das paródias que os programas de humor fazem a certas personagens-tipo da sociedade portuguesa/americana/qualquer outra que tenha um programa que passe pelo nosso país. Depois ficam completamente humilhados por certos parodiantes conseguirem pegar nas coisas que veem à sua volta e transmiti-las de um modo humorista (sim, se os adolescentes e os gays, por exemplo, continuam a ser retratados daquelas formas que são visíveis em séries como «The Simpsons», «South Park» e «Family Guy», é porque ainda são atuais. Não interessa se o estereótipo é antigo ou novo, se é constantemente satirizado é porque se trata ainda de um caso recorrente e muito observável).

Isto é triste, mas de facto dava para fazer um sketch muito cómico e com uma elevada tendência para a ironia. Pessoas a usarem ideias comuns para mostrarem que têm uma certa atitude ou diferença dos demais seres que habitam este planeta azul? É muito triste, mas é a verdade. Entristece-me que as pessoas não sejam elas próprias de vez em quando. Não estou a dizer que não continuemos cínicos, arrogantes, orgulhosos, etc, mas chegar ao uso de estereótipos parece-me o facto mais idiota, mais hilariantemente estúpido, mais pythonamente absurdo, de todos os factos com complexos de idiotice que envolvam o envolvimento entre os seres humanos nos últimos tempos. OK, estou a ironizar, atenção! Mas acho que devemos todos observar, no nosso dia a dia, na escola ou no emprego, como a minha teoria repleta de idiossincrasias tem o seu quê de verdade. Também poderia agora deixar de escrever as coisas à minha maneira, como sempre fiz aqui no blog, e começar a falar das coisas que a malta gosta e ganhar um público muito alargado mas completamente desinteressado, e perder a pequena audiência muito personalizada, crítica e inteligente que fui conquistando ao longo de três anos e meio de existência deste estaminé. Só que perdoem-me, minhas senhoras e meus senhores, não vou cair no uso do estereótipo.


P.S - Já agora, aproveito para dizer como, nestas minhas crónicas, tenho revelado os meus dotes nessa arte que dá pelo nome de pegar num título de blockbuster de hollywood e reformulá-lo em algo completamente diferente. Nisto sou um completo génio!

Sobre os projetos da escola...

E pronto, lá foi hoje exibida a primeira sessão do ciclo de Cinema do Rainha Dona Leonor. «Vigaristas de Bairro», uma comédia de Woody Allen que foi vista por vários alunos e professores da escola e que pareceu ter sido do agrado de todos! Mais sessões virão (uma por mês, ou até uma ou outra especial, quem sabe?) e espererei sempre pela presença da malta do Rainha. Iremos mostrar filmes muito diversos ao longo dos próximos meses, mas digo-vos que vale a pena virem a estas sessões (que, infelizmente, estão apenas abertas a pessoas que fazem parte do circuito da escola)! Acho que é um projeto cujo desenvolvimento será interessante de se acompanhar. Mas isto sou eu a falar das minhas ideias parvas que veem a luz do dia... 

domingo, 14 de outubro de 2012

Para Roma com Amor


Existe algo que me irrita profundamente em alguns críticos ditos "profissionais" na arte de bem/mal dizer coisas que envolvam a cultura, que é a maneira como se apegam a um dado artista e pensam que tudo o que ele faz tem de ser brilhante, excecional e que se torne algo que mude as suas vidas para sempre. Isso acontece frequentemente com Woody Allen, sempre que o mítico comediante/ator/realizador faça estrear um novo filme seu. «Para Roma Com Amor», a mais recente aposta do universo "Allenesco" não é uma obra prima, mas também não o pretende ser. Aliás, se muito crítico deixar de lhe fazer comparações a, por exemplo,  «Annie Hall» ou a «Meia Noite em Paris», que antecedeu este passado na capital de Itália, poderá constatar que temos aqui uma deliciosa, surpreendente e bonita comédia.  

Quero com isto dizer que «Para Roma com Amor» foi demasiado criticado não pelo seu conteúdo propriamente dito (atores, história, realização, etc), mas sim por ter o nome de Woody Allen lá metido, ou então por ser um bilhete postal demasiado bonito de Roma. Os italianos não devem querer é turistas lá... ó Senhor Woody Allen, não percebeu que os críticos romanos queriam uma história ambientada nas festas bonga-bonga de Silvio Berlusconi? Ao menos era mais real... Pelo amor de Deus, mas isto é uma comédia! E quando as pessoas deixam de ter argumentos válidos para dizer que não gostaram de um filme e começam com estas picuinhices, não vale a pena ligar, muito sinceramente.

É que, quem seja fã ou não do trabalho de Woody Allen, poderá encontrar em «Para Roma com Amor» um filme muito agradável e com muito mais engenho e entretenimento que muita fita que anda por aí em exibição. Poderão não gostar tanto como eu gostei, isso é certo, mas que este filme é mau, mas mesmo mau, isso não consigo perceber porquê. Daqui a pouco ainda o põem numa lista ao lado do «Plan 9 From Outer Space» (que, admito, pelo que eu vi não me pareceu tão mau como o pintam. É mau, mas não o mais mauzinho de todo o Cinema).

«Para Roma com Amor» conta várias histórias de pessoas completamente diferentes com um ponto em comum: estão todas em Roma a viver ou a passar uns tempos. Aí conhecemos personagens tão distintas como um banal indivíduo que, de um dia para o outro, ganha fama a nível nacional (uma espantosa crítica ao mediatismo das celebridades e de como a vida de uma pessoa muda ao ver que é famosa), um ex-produtor de ópera que pretende usar a voz do sogro da filha (que ouviu cantar maravilhosamente no duche - e que é um pretexto ideal para Woody Allen brincar com uma das ideias-feitas mais antigas que existem), um jovem rapaz estudante de arquitetura que conhece um antigo morador da cidade (e conceituado arquiteto) e que o guia, de uma forma surreal, pelos dilemas amorosos que têm muito a ver com a sua juventude, e por fim, um casal que se vê separado por razões completamente banais, mas que lhes faz mudar a forma como veem o próprio amor que têm um pelo outro. Todas estas histórias funcionam e estão muito bem escritas, interpretadas e realizadas, mostrando que Woody Allen ainda tem muito para dar nos seus filmes.

Por vezes as pessoas esquecem-se de olhar para os filmes de um dado realizador como devem ser olhados  e, se se der o caso de não gostarem desse realizador, aproveitam para espezinhá-lo o mais possível (mesmo que o filme seja, efetivamente, bom). Ou então acontece a situação exatamente oposta. Por exemplo, na minha opinião, Woody Allen tem em mim o mesmo efeito que Manoel de Oliveira tem para alguns críticos (como o João Lopes, por exemplo): gosto de todos os filmes, mesmo dos que vão saindo mais recentemente! Já vi vinte filmes de Woody Allen e sempre saí satisfeito. E «Para Roma com Amor» é um inteligente filme (com muitas razões para se poder soltar umas quantas gargalhadas) sobre as relações humanas e, mais propriamente, o amor, através do único e inconfundível estilo de Woody Allen.  Vão ver o filme, porque além de ser, com certeza, melhor que 90% de tudo o que andará nas salas durante esta semana, é uma autêntica jóia que deve ser devidamente apreciada (ou detestada) não dando atenção às opiniões dos críticos - ou de pessoas mais amadoras e com menos experiência, como é o meu caso! Mas eu saí do cinema muito surpreendido, porque «Para Roma com Amor» foi um filme que, para além de me ter dado motivos para continuar o dia mais bem disposto e com um sorriso de orelha a orelha, é uma autêntica jóia e que me deixou completamente maravilhado. Só mesmo Woody Allen para me fazer sentir completamente novo com a magia da sua visão do Cinema!

Nota: * * * * 1/2

Boardwalk Empire - Império da Corrupção


«Boardwalk Empire» é, muito provavelmente, uma das séries televisivas mais "cinematográficas" da atualidade, ao lado de «Mad Men» e «Breaking Bad». Os planos de câmara, a ação dos episódios e as interpretações do elenco comprovam esta minha teoria de que cada vez mais a televisão se está a aproximar da Sétima Arte em termos de produção (mas se isto é bom ou mau, já não posso afirmar. Veremos com o desenrolar do tempo...). Estive para ver esta série há muito tempo e só agora é que a comecei, seriamente, a acompanhar desde o início, através das inúmeras reposições do canal de cabo AXN Black.

«Boardwalk Empire» contém um grande trunfo que mostra a competência e a qualidade com que é feita: falo-vos do Senhor Martin Scorsese, envolvido na série como produtor executivo, tendo realizado também o episódio-piloto da mesma. E é inevitável repararmos que há um olhar "scorsesiano" na ação da série, nas falas das personagens e na violência dos seus atos (é verdade, já me ia esquecendo, esta série não é aconselhável para as mentes mais sensíveis...). Encontro muitas semelhanças entre «Boardwalk Empire» e os seus grandes filmes sobre a máfia como «Tudo Bons Rapazes», «Casino» e o quadriplamente oscarizado «The Departed - Entre Inimigos» (que deu, finalmente!, a estatueta dourada ao já lendário cineasta de origem siciliana), só com a diferença de que a ação desta série se situa nos anos 20, durante a implementação da Lei Seca.

Conhecemos Nucky Thompson (interpretado por Steve Buscemi, um dos muitos grandes atores da tela maiorzita a migrarem para a mais "piquena"), um gangster que está metido no negócio da venda ilegal de álcool. Há espaço também para a interação com figuras históricas do mundo do crime, como é o caso de "Lucky" Luciano ou Al Capone. A série retrata de uma maneira muito viva e muito realista uma época que marcou uma viragem na História dos EUA. Aliás, a qualidade de «Boardwalk Empire» está estampada na estação televisiva onde é transmitida: HBO, responsável por muitas das melhores séries do século XXI e que não falhou, mais uma vez. Uma coisa interessante nas séries da HBO é que cada episódio tem sempre cerca de sessenta minutos (ou mais). E os episódios estão sempre estruturados de uma maneira diferente da efetuada pelas outras televisões. As histórias estão mais fluídas, mais desenvolvidas, e cada minuto é muito bem aproveitado e pensado. E «Boardwalk Empire» revela isso mesmo, e também de que é um dos grandes dramas televisivos da atualidade e que não deixa ninguém indiferente. Aconselhável para os fãs de Martin Scorsese ou dos trabalhos anteriores do criador desta série, Terrence Winter, «Boardwalk Empire» é uma grande série que alia factos históricos ao melhor entretenimento, inteligente, audaz e perspicaz, que a HBO tem habituado os seus espetadores nos últimos anos. Sem dúvida, uma série a ver!

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

O Meu Pé Esquerdo (Ou: Estou coxo e não é nada agradável)


Desde a manhã desta quinta feira que a minha mente está algo ocupada com a descoberta da cura para uma "coxidão" que me apareceu logo que acordei e pus os pés fora da cama. O meu pé esquerdo está dorido. Dói-me a andar e faz-me parecer ter muitos mais anos em cima quando ando na rua (e o que as pessoas devem ter pensado daquele rapazinho, coitadito, ali a andar desalmadamente mal...). Talvez isto seja reflexo do tropeção que dei ontem ao sair da escola. Só tinha ferido o cotovelo esquerdo (é sempre tudo do lado esquerdo, já repararam?) e mal caí ao chão, levantei-me, recompus-me e fui para casa na maior das calmas. Mas com o passar das horas o efeito da queda deve ter-se feito sentir com esta "coxidão" do pé esquerdo. Ontem à noite notei que sentia qualquer coisa estranha no pé, mas pensei que fosse algo passageiro, e afinal, tufas!, acordo de manhã a precisar de uma bengala para me segurar, qual Manoel de Oliveira mais novo. 

Não sei porque me lembrei do famoso pé dos Monty Python (aliás, nem sei se se trata de um pé esquerdo, mas continuando...), mas esta questão está a abananar-me a cabeça. Qual fome e miséria no mundo, qual crise económica e política em Portugal. O que interessa é o pé esquerdo do "piqueno" Rui Alexandre de Júdice Alves de Sousa! Aliás, com tanto tema tão ridículo que é sujeito a debate em muitos programas televisivos, talvez o meu pézinho desse mais algum interesse e um tema de conversa mais acutilante aos participantes dessas tertúlias da caixinha mágica.

OK, é melhor parar com as parvoíces (sempre as parvoíces... será que se o hemisfério esquerdo do meu cérebro também tiver uma "avaria" eu torno-me num indivíduo mais sério?), e vou mas é constatar que acabei de fazer um pequeno texto sobre o problema que o meu pé esquerdo está a enfrentar.

Sim, já constatei isso, e é melhor parar por aqui. Não porque está na hora de terminar o post, mas porque vou jantar. E quiçá, depois irei tentar a última "cura" que, num pequeno vox pop feito junto de amigos e familiares, me falta testar para ver se faz efeito: pôr gelo no pézito. Ora com licença, vamos lá sair da cadeira e andar até à sala de jantar. Com sorte chego lá daqui a cinco minutos, se for já.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

A Desaparecida



Aconteceu-me uma coisa peculiar com «A Desaparecida», filme tido para uns como dos melhores do realizador John Ford, e para esses e mais alguns, como o melhor western de todos os tempos. O que se passou é o seguinte: eu vi este filme há duas semanas (sim, duas semanas!) quando passou na RTP Memória, no ciclo de fim de semana «Noite de Cinema», apresentado sempre pelo ilustre crítico José Vieira Mendes. A pergunta que se põe é: Porque é que demorei tanto tempo a pegar nas ideias com que fiquei do filme e expô-las no mundo da virtualidade?

A resposta resume-se a isto: antes de ver «A Desaparecida» retirei todas as informações que tinha já absorvidas sobre o filme na minha cabeça. Antes de ter iniciado o visionamento do filme, a notoriedade e a reputação do mesmo desvaneceram-se da minha mente como se nunca tivessem passado por ela, não fosse eu ter uma desilusão de todo o tamanho só por causa de uma atribuição dada por críticos e realizadores de cinema. Pensava que, assim, poderia desfrutar do filme o máximo possível e sem estar a matutar sobre as opiniões das outras pessoas enquanto estava a formatar a minha sobre a história protagonizada por John Wayne, e que até envolve uma família massacrada, perseguições, índios, escalpes e tudo.

Mas ao acabar de ver «A Desaparecida» (e apesar de ter gostado muito do filme) não me dei por satisfeito, e como o tinha deixado a gravar naquele serão, aproveitei para, alguns dias depois, o voltar a ver. Pensei que talvez se sucedesse como na primeira vez que vi «O Padrinho»: à primeira tornou-se um filme marcante, mas só consegui apanhar toda a sua essência no segundo visionamento. E é um daqueles filmes que descubro, praticamente, algo de novo para apreciar e admirar a cada revisitação. Mas isso não se sucedeu com a segunda vez que "analisei" «A Desaparecida». Fiquei completamente na mesma. O filme é muito bom, sim senhora, mas a meu ver não chega sequer a ser um dos melhores westerns de sempre, nem mesmo o punha dentro da minha lista pessoal dos melhores filmes de todos os tempos. E isto só pude constatar, realmente, quando acabei de ver o filme em cada uma das duas vezes em que acompanhei a busca de Wayne pela sua adorada sobrinha. Daí, precisei de mais uns dias para matutar no assunto e só agora, devidamente, consegui arrumar as ideias para escrever um texto mais ou menos decente.

Vou tentar ser mais explícito (e não quero que os amantes deste filme tanto como dos outros westerns do Senhor Ford me levem a mal), mas sucedeu-se isto: vi o filme na televisão, vi o filme alguns dias depois. A minha reação e a minha opinião em nada mudou. Porquê? Acho que esta minha sensação de negação ao estatuto de obra-prima de «A Desaparecida» se deve a duas coisas: primeira, não fiquei grande adepto do "acting" de John Wayne. Não sei porquê, mas ele parece-me muito canastrão. Acho que não é um grande ator, perdoem-me por dizer isto, apesar de ter grandes momentos no filme; e a segunda, é que este western, a mim, não me mostrou nada de novo (em termos do pouco que conheço sobre o género). Aliás, pareceu-me seguir todos os estereótipos que são, desde o início, satirizados na série de BD «Lucky Luke», criada por Morris (e sendo René Goscinny responsável, a meu ver, pelas histórias de uma grande parte dos melhores álbuns do cowboy mais rápido que a própria sombra). Quando vejo um western, gosto que me mostrem coisas mais inovadoras (como, por exemplo, o caso do formidável «Aconteceu no Oeste» de Sergio Leone e o mais recente «Indomável» de Clint Eastwood). E podem-me dizer: estou a comparar coisas completamente diferentes. Sim, é capaz que esteja, mas «A Desaparecida» não teve em mim a chama que teve, por exemplo, com um Professor da minha escola, com quem estou a organizar um ciclo de cinema para a mesma e que pediu, expressamente, para pôr este filme na lista das escolhas. Engraçado como, depois de ter visto duas vezes o filme, ter ouvido este Professor contar diversas teorias e opiniões dele sobre o filme, que simplesmente adora. Mas parando de falar das picuinhices que pude reter do visionamento de «A Desaparecida», vou-me debruçar então sobre o que vi de bom no filme.

Apesar de «A Desaparecida» não ter sido, para mim, um filme excecional, é óbvio que não posso deixar de considerar que está muito bom (e mesmo apesar dos dois defeitos que lhe apontei). John Ford mostra o seu grande engenho em mostrar o Oeste de uma maneira mais superior e mais pormenorizada que outros realizadores. Tomei contacto pela primeira vez com a obra Fordiana com o visionamento do fantástico «A Grande Esperança» («Young Mr. Lincoln» no original, um filme sobre um Lincoln mais jovem, antes de ser presidente, que me tocou bastante e que merece, sem dúvida, uma revisitação em breve) e fiquei fascinado com as mensagens que Ford conseguiu transmitir utilizando a magia dos planos de câmara. Em «A Desaparecida», Ford utiliza ao máximo o ambiente que lhe foi oferecido para nos dar deslumbrantes imagens que só podem mesmo ser devidamente apreciadas num ecrã gigante. 

«A Desaparecida» não vale tanto pela história em si, mas sim pela forma como é contada, pela forma como nos é mostrada a longa e fatídica busca de Ethan (John Wayne) para conseguir encontrar a sua sobrinha. Não estamos na presença de um filme de ação corriqueiro, repleto de efeitos especiais e pura e dura carnificina indígena. Trata-se de um caso de vida ou de morte para Ethan, e que o espetador vai acompanhando. E não só fica a par de toda a história dramática do filme, há também espaço para o romance, com a relação entre o tal filho índio adotivo com uma rapariga de uma família próxima de Ethan. Mas mais do que isso, «A Desaparecida» é uma história sobre a família, sobre os verdadeiros valores que cada pessoa tem, e abordando por fim, a noção de justiça e de civilização que difere de indivíduo para indivíduo. «A Desaparecida» é um western mas também um drama carregado de um profundo sentido humano e que não deve ser visto como uma obra-prima. Talvez isso seja algo geracional, não sei, mas sendo para alguns excelente e para outros não, o visionamento deste filme é proveitoso, porque no fim de contas, trata-se de uma grande obra. Não prima pela perfeição, mas nem está longe disso, na minha cretina e idiótica opinião. E vale a pena, com certeza! E talvez a minha opinião e o moderado desagrado que tive com o filme, é capaz que mudem com os anos. Acho que é bem provável...

★ ★ ★ ★

EDIT 02-03-2015: passado este tempo todo o filme nunca me saiu da cabeça, o que me obrigou a revê-lo finalmente, e em condições apropriadas, neste ano de 2015. Não concordo nada, nada, nada com a mediocridade destas palavras. Se escrevesse esta crítica agora, eram 5 estrelas sem tirar nem pôr. Mas pronto, não quis alterar o que o meu espírito mais infantil considerou desta obra prima, nos idos de 2012.

domingo, 7 de outubro de 2012

South Park: Como a estupidez se pode tornar em algo de inteligente


Nos últimos dias voltei a um vício que deixara adormecido durante quase um ano. Esse vício dá pelo nome de «South Park», e é nada mais nada menos que, a meu ver, o maior fenómeno dos desenhos animados da História da Televisão... a seguir aos «Simpsons». Acho que saí do momento certo da época de hibernação, porque já tinha muitas saudades do visionamento desta bonecada bizarra e completamente idiota criada por Trey Parker e Matt Stone.

Apesar de estar na sombra daquela que é a série animada mais longa de sempre (aliás, todas as séries de "cartoons" que se seguiram aos «Simpsons» entram, inevitavelmente, no risco de a ela serem comparadas), há que fazer as devidas aclamações a «South Park» por ser uma série que, em mais de quinze anos de emissões, não mudou em nada. Aliás, diria que é um caso interessante de uma série que melhorou ao longo dos anos (ao contrário dos «Simpsons», que apesar de ser uma série fenomenal e uma crítica à América sem igual, confesso que já sofreu bastantes altos e baixos nas últimas temporadas exibidas). Diria mesmo mais: o facto de ter voltado a ficar agarrado à série foi por ter visto, no fim de semana passado, um episódio da 15.ª época no canal de cabo SIC Radical e que me fez constatar que continua a valer a pena seguir as tropelias de Kyle, Stan, Cartman e Kenny e de todos os peculiares e estranhos habitantes da cidade de South Park.

 Mas falando do episódio em si, do tal que me fez despertar de novo para o vício, penso que vale a pena descrevê-lo aqui em algumas linhas. É um episódio duplo (vi a segunda parte momentos antes de ter começado a escrever este post) que mostra uma das grandes qualidades de «South Park» e que a elevam num patamar igualmente elevado ao dos «Simpsons»: é o poder da crítica da história, dos episódios, do ambiente em que se desenrolam e das próprias personagens. Mas, se nos «Simpsons» optam por uma crítica um pouco mais correta e que ataca o que pretende atacar sem ser indireto, «South Park» opta por essa via, utilizando a sua maior arma: a estupidez. Mas ao usar a estupidez, consegue ser devidamente inteligente e não perder o sentido do que pretende satirizar ou criticar. No dito episódio duplo de que vos falo, Stan faz dez anos de vida e apercebe-se que, de repente, tudo o que gostava antes agora detesta. Há uma cena muito engraçada em que os quatro pirralhos vão ao cinema e veem diversos trailers, entre eles o do horripilante «Jack and Jill», com Adam Sandler a fazer o que mais gosta - filmes de m**da - e vemos o que Stan vê da sua perspetiva. Aquele trailer parece-lhe mesmo... m**da. E quando digo m**da, não estou a falar em sentido figurado, não. Stan vê mesmo... isso ao ver o trailer (também não me admirava que, um dia, o Adam Sandler fizesse um filme sobre essa... temática. Os seus fãs iriam vê-lo à mesma) e odeia o que está a ver, ao passo que os seus três amigos divertem-se à grande com aquele trailer e Cartman chega mesmo a dizer que quer ver aquele filme. Através desta ideia completamente desprovida de bom gosto, Trey Parker e Matt Stone conseguem pôr, por imagens, uma ideia que as pessoas expressam apenas por palavras (em inglês, "this movie is just like sh*t", por exemplo) e que mais ninguém se lembraria de colocar num programa televisivo. 

As pessoas que não conhecem «South Park» poderão ficar alarmadas pelo meu gosto estranho por este tipo de humor, mas vale a pena ver este duplo episódio, se algum dia o apanharem na TV, porque apesar de, mais adiante, usarem também mais ideias bizarras e repletas de nonsense para exprimirem outras... coisas, a história acaba por refletir uma mensagem do conflito de gerações que existe desde sempre e continuará a existir e de que o "cinismo" presente na personagem de Stan (e num grupo próprio que aparecerá na segunda parte deste díptico) não é nenhuma doença. Apenas que os gostos não se discutem. 

 «South Park» prima, na minha opinião, por ter os seus criadores, desde o início até agora, a comandarem as operações de feitura da série. É outra vantagem em relação aos «Simpsons» e a «Family Guy», por exemplo. Não há muitos argumentistas (e são sempre os mesmos) o que permite a que a série mantenha o seu espírito crítico e satírico que defende desde o início, permitindo também a que se torne cada vez mais meticuloso e pormenorizado. «South Park» ironiza, como ninguém, todos os tiques da sociedade americana, mas também todas as problemáticas de outros países, incluindo Portugal. Recomendado especialmente para os que gostarem de humor negro, bizarro e com alguns toques de excentricidade, «South Park» é a receita ideal para quem tiver curiosidade em ver os EUA de uma maneira cómica diferente e mais radical.

sábado, 6 de outubro de 2012

A Vida Não É Bela (se metermos o saca-rolhas ao barulho...)


Observem atentamente as duas imagens e descubram as semelhanças. Não descobriram quais são? Eu revelo-vos a resposta: não há QUALQUER tipo de semelhança! Mas há quem queira insistir que sim...

O passado dia 5 de outubro foi abundante em acontecimentos nas mais diversas áreas de interesse que o jornalismo aborda diariamente. Começámos bem com o Aníbal a pensar que estava naquele país imaginário que dá pelo nome de Lagutorp (vejam lá se conseguem descobrir a piada ultra-inteligente deste trocadilho) quando lhe pediram para hastear a bandeira; depois houve a notícia do falecimento de Margarida Marante, jornalista portuguesa de 53 anos; soube-se também que Sá Pinto não continuará a treinar o Sporting nas derrotas partidas desportivas em que o clube participará nos próximos tempos; por fim (e estas são apenas as ocorrências de que me lembro, de todo o manancial de informação que ontem me passou pelos olhos) houve tempo para as televisões, repetidamente, recordarem os espetadores que o  ontem foi a última vez que vimos o dia da Implantação da República como feriado nacional. Para o ano já ninguém poderá descansar durante o 5 de outubro, através do auxílio de um bom cafézinho e de um par de pantufas. Aliás, poder podem, que em 2013 este dia calha a um sábado... mas não nos afastemos, por favor, do essencial desta crónica.

Mas além de todas as informações que referi acima (e com o seu elevado grau de importãncia nas diversas áreas que representam - Margarida Marante no jornalismo, Sá Pinto no desporto, e a bandeira na... no baú dos tesourinhos deprimentes), uma chamou-me a atenção para despertar, de novo, a maledicência alheia e a parvoíce que caracterizam a escrita blogueira destes meus textinhos. Chegara, então, de novo a hora de dar asas à idiotice e dissertar sobre uma certa temática. E aqui estou eu. E o tema desta crónica é o facto do advogado de Renato Seabra (sim, o homem do saca-rolhas - epíteto que, confesso, poderia assemelhar-se ao título de um hipotético telefilme barato da SIC Radical) ter dito, para os senhores jornalistas, que a justificação da sua teoria de que o dito cujo não bate bem da bola reside numa frase retirada (isso mesmo!) do belíssimo filme «A Vida É Bela», de e com Roberto Benigni.

Ou seja, a prova dada pelo senhor advogado americano é tão válida como se um mafioso justificasse os males que fez à sociedade pela frase retirada de «O Padrinho Parte II»: My father always said: Keep your friends close but your enemies closer. Sim, assim o dito mafioso pode-se safar dizendo que o facto de ter cometido todos os crimes de que foi acusado deveu-se à influência negativa do seu Pai. E o júri aplaude a referência cultural e decide soltar o bandidozinho cá p'ra fora. É assim que funciona a justiça: quem sabe mais frases de filmes, arrisca-se a... ser bem sucedido e nunca ir para trás das grades.

OK, estou apenas a exagerar, como costumo sempre fazer, mas sou a única pessoa a achar patético que a defesa de Renato Seabra justifique a sua teoria com a frase de um filme que - pasme-se - nada tem a ver com o caso? Não metam o senhor Benigni ao barulho, que ele não merece... entre um indivíduo que se apaixona por uma princesa e que tenta salvar o filho dos horrores do Holocausto, e outro indivíduo que ficou famoso derivado a um cronista social e um saca-rolhas... há que fazer as suas devidas separações. 

Hoje não consegui fazer uma crónica testamental. É pena, porque essa era a minha ideia inicial. Mas estou a ver que este caso é tão idiota que nem a minha própria idiotice conseguiu gerar alguma coisa de pouco interessante que fosse maior que o que ficou aqui apresentado. Mas enfim, fica apenas a ideia: não confundam a realidade com os filmes. É capaz de dar asneira... pelo menos dava quando eu era mais novo. Mas mesmo assim... não vale a pena. E este post foi tão fraquinho que eu só merecia atirar-me agora da janela. Mas não o vou fazer. Aliás, porque tenho uma citação que comprova isto: Suja muito, e depois é preciso limpar. E isto não é de nenhum filme. É só o que alguém, com certeza, diria se eu agora cometesse esse ato suicida. Por isso, voltem às vossas vidas que eu cá continuo no meu cantinho com os meus disparates. Ora com licença.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Martin Scorsese e a Arte de Filmar nos EUA


Enquanto a minha mente fervilha para descobrir quais as palavras mais apropriadas a usar para escrever uma crítica sobre o único filme que me falta, neste momento,... criticar (e reparem: já o vi há quase duas semanas e mesmo assim ainda não cheguei a nenhuma conclusão), aproveitei para deitar as mãos a este precioso achado documental sobre a história da cinematografia americana: «Uma Viagem com Martin Scorsese Pelo Cinema Americano». Criado a pedido do BFI (British Film Institute) para se assinalar o primeiro centenário do nascimento da Sétima Arte, o já lendário realizador americano revisita, num documentário em três partes, as fitas, as histórias, os atores e os realizadores que, na sua sincera opinião, revolucionaram e fizeram a História do Cinema Americano.

Scorsese é um dos realizadores e uma das figuras do mundo do Cinema que mais admiro e estimo. E arrisco-me a dizê-lo, sem qualquer tipo de receio, que é das pessoas mais interessantes dentro do meio na atualidade, e das poucas que consegue falar sobre a sua arte e as suas convicções dentro da mesma de uma maneira fluída, atrativa e abrangente a todos os públicos. A sua voz  cordial e a sua postura muito humilde e familiar (parece uma espécie de nosso parente cujo maior divertimento é contar histórias sobre aquilo que é a sua vida - e neste caso, é a Sétima Arte) prenderam-me, desde o princípio, a ver as três horas e meia que constituem esta sua viagem pessoal. É quase como que uma aula, ou dira mesmo mais, uma espécie de curso televisivo para os curiosos sobre os pormenores do Cinema, sobre o que levou realizador tal a filmar uma certa cena daquela maneira tão peculiar, sobre as opiniões de alguns dos mais conceituados ícones da indústria cinematográfica dos EUA.

Cada uma das três partes deste documentário passa num instante. Ouvir Scorsese a falar sobre a sua maior paixão fez-me diversas vezes lembrar dos grandes comunicadores televisivos, que não precisavam de grandes efeitos especiais ou popularismos para se fazerem ouvir. Sentavam-se, falavam, e as pessoas gostavam, ouviam-nos atentamente e seguiam-nos como verdadeiros gurus da filosofia da época. E hoje há poucas pessoas assim. Scorsese é um realizador bastante versátil que conseguiu impôr-se no meio americano durante muito tempo fazendo sempre projetos interessantes e que nunca deixaram alguém indiferente. Basta falar em «Taxi Driver», «Touro Enraivecido» ou «Tudo Bons Rapazes» para comprovar isso. E ver a importância que Scorsese dá aos seus grandes gurus, impulsionadores a que este grande indivíduo quisesse seguir carreira no Cinema, mostra ainda mais o respeito que tem pela arte que muitos grandes realizadores fizeram e que, injustamente, foi apagada pelos mecanismos infernais da passagem do tempo. Aliás, Scorsese fundou uma instituição que pretende preservar grandes obras cinematográficas ou até mesmo resgatá-las do esquecimento. Um exemplar caso é o da "reconstrução" da duração original do épico de Sergio Leone «Era Uma Vez na América», exibido no último festival de Cannes e que mostrou ter conseguido recuperar muitas cenas do filme que Leone teve de cortar para agradar aos distribuidores.

«Uma Viagem com Martin Scorsese Pelo Cinema Americano» pretende ser uma porta aberta à compreensão da Sétima Arte e das mentes inovadoras e incrivelmente criativas dos mais talentosos realizadores americanos (ou que emigraram para a América), quer pelos estudiosos na matéria ou por pessoas que querem apenas expandir os seus conhecimentos sobre a ciência da câmara de filmar. Este documentário é um must e deveria servir como guia de estudo nas escolas de cinema!

Nota: * * * * *

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Uma pequena reflexão filosófica sobre os tempos que correm...

O que tem mais incomodado e preocupado a minha cabecinha nos últimos tempos, para além da (eterna) crise que o nosso país vive (desde que D. Afonso Henriques decidiu andar à batatada com a Mãe), é ver como o querer ter uma certa postura social em relação aos outros (ou o querer retirar proveito das coisas através de um oportunismo do caraças) faz certas pessoas disfarçarem os seus verdadeiros ideais e comportamentos, para poderem agradar aos outros. Aconteceu com uma manifestante no «Occupy Wall Street» (que quando uma corretora da bolsa desceu do seu escritório e lhe ofereceu um emprego, tufas!), está a acontecer com a miúda que abraçou o polícia (agora já é capa da VIP) e aconteceu, pelo que pude constatar há momentos, com uma pessoa que, anteriormente, julgava que conhecia. É por estas coisas que cada vez menos acredito nos reais valores das pessoas... 

Desculpem-me se hoje estou demasiado filósofo... há dias assim.

(P.S - Este pequeno apontamento foi originalmente publicado no meu Facebook, e dada a profundidade do tema - ui, tão profundo que ele é - decidi eternizá-lo aqui no blog. Com as devidas correções linguísticas e ortográficas que o Facebook não permitiu que as fizesse quando escrevi isto na primeira vez. Queria tentar desenvolver aqui o tema, mas não consegui pensar em mais nada. Acho que, neste caso, o pouco que escrevi consegue dizer muito - e isso é raro de acontecer nas patacoadas que vou magicando...)