domingo, 30 de setembro de 2012

Sucesso a Qualquer Preço


David Mamet é considerado um dos autores mais influentes, mais brilhantes e mais inigualáveis das últimas décadas. O seu estilo muito próprio de contar histórias, exposto quer nas suas inúmeras peças de teatro, em guiões para cinema ou em adaptações cinematográficas das ditas peças, mostra um caso único em que o autor se consegue impôr de uma maneira quase inimaginável. Mamet é um autor muito versátil e isso vê-se pela sua obra: é responsável, por exemplo, tanto pelos diálogos de Paul Newman em «O Veredicto», como pelas satíricas trapalhadas políticas de Robert de Niro e Dustin Hoffman em «Manobras na Casa Branca» ou até mesmo «Sucesso a Qualquer Preço», esta grande história sobre a concorrência comercial e a vida de vários técnicos de vendas de uma empresa de ofertas turísticas.

Baseado na peça homónima vencedora do prestigiado prémio Pulitzer, «Sucesso a Qualquer Preço» é uma trama inteligente e intrincada que critica a "sobrevivência do mais forte": aos vendedores da dita agência, um superior (Alec Baldwin) avisa que as duas pessoas que fizerem mais vendas, receberão um prémio e contactos novos e com mais oportunidades de sucesso de vendas. E os outros poderão estar em risco de ser despedidos. Aí conhecemos um desses vendedores (Al Pacino) que, à custa de ter tanto êxito nos seus esquemas comerciais, conseguiu ganhar o estatuto de campeão da empresa. E os outros estão numa situação inversa: os clientes não abundam, tanto por já terem contactos gastos como pelo facto de não conseguirem fazer os seus hipotéticos clientes seguirem os seus embróglios publicitários e, assim, não conseguem fechar negócio.

David Mamet explora como só ele sabe fazer as individualidades de cada um dos protagonistas através de diálogos muito "mametianos" e que, de tão bem construídos que estão, que é impossível alguém conseguir deixar de contemplar a perfeição textual deste filme. A realização é competente, mas «Sucesso a Qualquer Preço» destaca-se mais pelo argumento e interpretações que por esse elemento. Afinal, trata-se da adaptação de uma peça de teatro, onde não abundam os efeitos especiais e planos de câmara mirabolantes, mas a realização consegue adaptar-se ao estilo mais teatral da história de Mamet e acompanhar bem o desenvolvimento da ação. O elenco está repleto de grandes estrelas, que mereciam, sem dúvida, nomeações para os Oscares desse ano de 1992. Al Pacino recebeu uma nomeação para Melhor Ator Secundário, mas neste caso, penso que Jack Lemmon mereceria também uma distinção da Academia (e se possível, uma estatueta). A interpretação do ator é fenomenal e na minha opinião, a melhor de todo o filme. E ficou a faltar também uma nomeação para Mamet, com este filme merecia que a Academia lhe tivesse dado alguma atenção especial. Mas opiniões são opiniões, apesar de sem ter ganho grandes prémios, ficou para a memória um grande filme, com um potente argumento e soberbas interpretações, que nos fazem questionar sobre as atitudes das pessoas em relação aos outros e se é mesmo tudo, nesta vida, uma questão de sobrevivência. «Sucesso a Qualquer Preço» deve ser visto e discutido, e a sua importância vinte anos depois é comprovada pelo facto de ir ser levada de novo à cena na Broadway, com Al Pacino a representar um papel diferente que o que fez neste filme (mais precisamente a personagem do notável Jack Lemmon). Mais do que uma peça ou um filme, «Sucesso a Qualquer Preço» é uma brilhante e inteligente história sobre a vida e o poder do negócio e do comércio no dia a dia. Imperdível!

Nota: * * * * 1/2

À Espera de um Milagre




Enquanto estava a ver «À Espera de um Milagre» conseguia aperceber-me do quão importante aquele filme estava a ser para mim. Tornou-se numa daquelas experiências cinematográficas cuja essência e perspetiva das coisas me marcou de uma maneira assustadora, e agora este filme está na minha lista de favoritos. Para uns, há o «Era Uma Vez na América», para outros, «O Padrinho». E para mim, são esses dois, mais uns cinquenta filmes, e agora junta-se à lista este, que é sem dúvida uma grande e excelente surpresa. 

Um dos grandes trunfos desta fita realizada e escrita Frank Darabont (cuja feitura se seguiu, poucos anos depois, ao do celebérrimo «Os Condenados de Shawshank», que tal como «À Espera de um Milagre», se baseia numa obra de Stephen King, um dos mais admirados escritores norte-americanos das últimas décadas - e que faz parte também do grupo de autores com um número de obras tremendamente elevado a ser alvo de adaptações cinematográficas, diga-se) é que nos consegue envolver na sua história e suas personagens (principais, secundárias e figurantes) de uma maneira inacreditável. É incrível que, se esta história tivesse sido feita por outro realizador de uma maneira muito semelhante à usada por Darabont, o filme seria banal e o seu drama poderia ser insuportável. Mas isso não aconteceu comigo. Não consegui parar por um instante de ver «À Espera de um Milagre» e fui-me apercebendo de toda a qualidade do filme que perdi nos últimos anos. 

É que eu já tinha começado a ver o filme uma vez, quando ainda não tinha a idade mínima aconselhável para a sua visualização. Ainda se usava cá por casa o gravador de VHS e numa noite, a RTP decidiu transmitir o filme. Pus a gravar mas, esperto como era (e que ainda sou, infelizmente) a gravação ficou até metade (gaita, tinha-me esquecido dos intervalos!), e da hora e picos que vi do filme, fiquei absolutamente siderado. E chegando a uma das cenas mais fortes de «À Espera de um Milagre», ups... a fita acabou. Ironicamente, há poucos meses (Março, segundo as informações da box) a RTP decidiu voltar a (re-re-re-re-re-re) retransmitir esta obra, e com as melhores condições que a televisão digital pode fornecer, o filme ficou guardado no gravador por uns meses. A recente morte de Michael Clarke Duncan (o milagroso e misterioso Charles Coffey do filme) relembrou-me do visionamento que tinha deixado a metade devido às limitações dequela outra época (nada distante). E que bem que o fiz, porque além de ter sentido as mesmas coisas (ou mais até!) com a parte do filme que já tinha visto e que me recordava (que sensação de dejá vu...), todo o filme me marcou e não vai sair da minha cabeça. Senti que estava a ver o melhor que o cinema americano pode oferecer: um verdadeiro clássico moderno, bem pensado e quase a chegar à perfeição divina (ironicamente, de divino é uma das coisas que mais se fala em «À Espera de um Milagre», logo a começar pelo título tuga da fita). Podem considerar-me um reles apreciador de cinema de massas, mas não percebo qual é o mal. O que interessa é que, apesar de ser um filme comercial, é um ótimo filme! E essa qualidade nenhum orçamento ou receita de bilheteira, por maior que seja, não pode alterar. 

«À Espera de um Milagre» é uma história sobre a amizade, a divindade e os milagres desta nossa existência (fictícios ou nem tanto), podendo ser visto também como uma crítica à falta de valores e de solidariedade que é cada vez mais acentuada nos seres humanos. O filme utiliza um tempo algo distante (muuuito mais distante que a altura em que o VHS ainda era uma das ferramentas essenciais deste nosso lar) para ilustrar atitudes que hoje já não existem, devido ou a uma mudança de leis na sociedade ou aos interesses dos grandes grupos económicos. Situada numa penitenciária, de nome Cold Mountain, onde um quarteto de polícias (liderados por um fantástico Tom Hanks) e um choninhas que se acha mais que os outros devido a conhecer pessoas "lá de cima", lidam com diversos condenados à morte (causada pela dramática tortura da cadeira elétrica) que são enviados para a prisão. Entre pessoas com mais ou menos problemas mentais e mais ou menos bizarras, surgem personagens marcantes e inigualáveis e, entre elas, um homem chamado John Coffey e que, a pouco e pouco, irá mudar a vida daquele grupo de polícias. 

 Sim, vista desta maneira, a história do filme força mesmo o sentimento mais... sensível do espetador e, por ventura, a queda de uma ou outra lágrimazita acidental em certas cenas, mas este não é um drama... dramático qualquer. «À Espera de um Milagre» é uma grande ode à vida e ao bom cinema, que se destaca pela excelência quer na mise-en-scène (oh p'ra mim a usar termos franceses nestas críticas!) de Frank Darabont como no argumento escrito pelo próprio, passando pela extraordinária atuação de todo um elenco de luxo e de elevada qualidade e culminando numa fantástica banda sonora que, conjugada com os outros elementos, faz uma combinação única e que, aos mais sensíveis, poderá causar o tal choro não propositado (vá, eu admito, também deitei umas lágrimas em algumas partes da história do filme. Agora confessem também!). Mas «À Espera de um Milagre» é, além de um filme que nos faz sentir muita coisa ao mesmo tempo, uma poderosa obra que nos faz refletir sobre a nossa existência no mundo e o nosso papel enquanto parte de uma sociedade, de um país e por aí fora. Frank Darabont acertou na "muche" com «À Espera de um Milagre», uma obra única e inconfundível, que nos faz sonhar e querer acreditar que podemos mudar o mundo para melhor. 

★ ★ ★ ★

EDIT 02-03-2015 - Eh pá, que badalhoquice de texto é esta? Que vergonha... deveria apagar isto do mundo da web? Provavelmente. Mas devo ter um lado masoquista qualquer que me impede de pôr essa acção em prática.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

J. Edgar


O regresso aos "affaires" estudantis e à azáfama do dia a dia não me tem permitido dispender o tempo necessário para praticar dois dos meus maiores hobbys: ver filmes e escrevinhar qualquer coisa sobre eles.  Mas publico agora a crítica a «J. Edgar», que vi há mais de uma semana. Mais vale tarde do que nunca...
«J. Edgar», realizado por Clint Eastwood e protagonizado por Leonardo DiCaprio, é um filme biográfico sobre um dos homens mais populares e simbólicos da América, J. Edgar Hoover, que foi, para os mais distraídos, o diretor do Federal Bureau of Investigation (FBI) durante quase cinquenta anos. E porque é que Hoover é uma figura icónica da cultura vinda dos EUA? Na minha humilde e simplória opinião, uma das duas razões para essa fama de J. Edgar (a outra explicarei um pouco mais à frente) é o facto de ter sido sempre uma figura misteriosa e extravagantemente interessante para o público (e especuladores da sua vida, que à volta dela criaram milhentas teorias) e cuja lenda deixou viva mesmo depois da sua morte e que sobreviveu até aos nossos dias (daí a razão para se fazer este biopic). Aliás, a vida de Hoover é tão rica que caber tudo o que é essencial num filme com pouco mais de duas horas é obra. E «J. Edgar» consegue captar muita coisa interessante sobre este homem, misturando alguns temas controversos e pouco consensuais que envolvem os ditos mistérios Hooverianos (como por exemplo, a verdadeira orientação sexual do diretor do FBI). «J. Edgar» capta também, de uma forma soberba, o pensamento e perspetiva de vida de Hoover, de uma maneira extremamente forte e intrincada.

E Clint Eastwood e a sua equipa conseguiram pegar nos mitos da vida de Hoover e no que realmente aconteceu, e fizeram uma obra que homenageia perfeitamente o biografado. Não é, talvez, dos melhores filmes realizados por Eastwood nos últimos anos, mas é uma boa fita, bem construída, bem pensada, com uma fotografia típica dos filmes Eastwoodianos (e que da qual fiquei completamente fã!), com grandes interpretações (DiCaprio, a meu ver, teria merecido uma nomeação ao Oscar, já que este é um dos seus mais bem conseguidos e detalhados papéis) e que se vê bem. Mais: é um filme que nos faz interessar por saber mais coisas sobre Hoover (é esse o objetivo de um filme sobre a vida de alguém, obviamente, mas são poucos os biopics que nos fazem ter interesse para a descoberta de mais detalhes sobre o protagonista), sendo um verdadeiro documento da(s) época(s) que retrata, ao máximo pormenor, e que nos transporta mesmo para as diferentes décadas em que se desenrola a ação de «J. Edgar». 

A outra razão pela qual eu consigo explicar, na minha cabecinha, o sucesso planetário da figura de J. Edgar Hoover é a de a vida do mesmo passar vários acontecimentos importantes da História dos EUA. Muitas figuras míticas da América estão associadas, por boas ou más razões, à figura de Hoover. Charlie Chaplin, por exemplo (um caso que gostaria de ter visto retratado neste biopic, é pena que tenha sido descartado...) viu-se obrigado a "fugir" do país que lhe deu a fama e glória a nível mundial pelas suspeitas algo fanáticas e pouco verdadeiras de Hoover e da malta do FBI de que o Grande Génio da Sétima Arte estava ligado a atividades comunistas feitas por americanos. Mas não foi só Chaplin: foram várias as personalidades que, na época da caça às bruxas e do McCarthyismo, se viram metidas em sarilhos com o FBI e viram as suas vidas a tomar rumos que nunca tinham imaginado que pudessem acontecer. Os irmãos Kennedy (o John e o Bobby), caso que foi inteligentemente retratado no filme, também estiveram envolvidos em problemas com o senhor Hoover. E houve muitas, muitas outras figuras, e de que o filme apenas dá alguns exemplos, mas os suficientes para conseguirem exemplificar os métodos e ideologias anti-comunistas de Hoover. Há também espaço para as coisas boas que Hoover trouxe para o mundo da investigação, como a identificação por impressão digital, por exemplo. Fala-se depois do egocentrismo de Hoover em querer assumir a solução de todos os seus casos como seus (tornando-se numa espécie de super-herói para a miudagem da época) e por fim, há as tais referências aos assuntos polémicos (a homossexualidade de Hoover e os diversos tiques psicóticos - que fazem lembrar, em parte, Howard Hughes, personagem também, ironicamente, interpretada por DiCaprio em «O Aviador» de Martin Scorsese) e que são abordados de uma maneira séria e não como se fossem fofoquices para achincalhar os espetadores. Clint Eastwood respeita os seus seguidores, e bem!

Resumindo e concluindo, «J. Edgar» é uma boa peça na carreira de Eastwood e DiCaprio. É um filme fluído, um bom (e mais fidedigno) documento sobre a vida de Hoover, e que não pode deixar ninguém indiferente, devido à sua qualidade como obra cinematográfica e como acompanhamento para as aulas de História, para ajudar a compreender aquela época em que Hoover viveu e se popularizou, tornando-se até hoje numa figura de culto e de estudo de diversos historiadores e curiosos em todos os cantos do mundo. Este filme conseguiu ser competente no seu trabalho, e apesar de não ser um filme de qualidade mais elevada no historial de realizações de Clint Eastwood, vale a pena a sua visualização, quer para se compreender um homem nada consensual, quer para se compreender a mentalidade de uma América (um pouco) mais conservadora e fanática que nos nossos dias.

Nota: * * * *

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

O Circo: Charlie Chaplin em erupção


A pequena (mas espantosa) obra cinematográfica «O Circo», de Charlie Chaplin, é um dos maiores exemplos da versatilidade da arte "chaplinesca" de se fazer cinema, graças ao cuidado do autor em preparar minuciosamente cada plano, cada sequência, cada gag do filme. E de tão minuciosa que é a construção que Chaplin, habilmente, cria para os seus filmes, que é impossível uma pessoa ver diversas vezes, por exemplo, «O Grande Ditador» sem descobrir algum pormenor cómico de Chaplin que tinha passado despercebido no visionamento anterior (sei o que digo: já vi esse filme mais de dez vezes e de cada vez que o vejo é sempre como a primeira!). Penso que isso se sucederá com (espero eu) revisionamentos futuros deste «O Circo», porque é um filme espantosamente hilariante e que poderia aproximar muita gente do género mudo, dada a atualidade da maioria das piadas (apenas algumas mais "slapstick" que se perderam um pouco no tempo, mas que funcionam - apesar de não me terem feito rir, mas isso tem a ver com o gosto de cada um), da inteligência do simples e sóbrio argumento de Chaplin e das interpretações de um elenco que, apesar de marcar a sua forte presença ao longo dos sessenta e oito minutos de «O Circo», sabemos que é o "Little Tramp" a verdadeira estrela desta comédia. 

Contudo, apesar de ser uma comédia que, na época, foi aclamadíssima (recebendo Chaplin um prémio especial da Academia pela genialidade do seu filme e a inovação que o mesmo trouxe), e que hoje em dia continua a ser um ponto de referência de comediantes e críticos, a feitura de «O Circo» trouxe más recordações de Chaplin, numa época conturbada da sua vida devido a um divórcio escandaloso com a segunda mulher, ao falecimento da sua Mãe (que, nos últimos anos de vida, mostrava grandes sinais de debilitação mental e física) e às próprias filmagens da película, que foi diversas vezes interrompida e numa delas devido a um incêndio nos estúdios. Embora as memórias tristes que rodeiam toda a produção de «O Circo», Charlie Chaplin decidiu-o (e bem!) repescá-lo em 1970, acrescentando uma (extraordinária e linda) banda sonora da sua autoria (que começa com uma pequena cantiga, de nome «Swing Little Girl», cantada pelo próprio Chaplin) e deu uma roupagem mais adequada e mais atual à sua criação cinematográfica. Mas com atualizações ou sem atualizações, Chaplin tem aqui mais uma grande pérola que marcou a sua carreira na Sétima Arte. Não diria que seja um dos meus filmes preferidos do autor, mas que é muito bom, é sim senhora! Consegue ter, em pouco mais de uma hora de duração, a qualidade que muitos filmes cómicos dos nossos dias não conseguem ter com duas horas. Penso que cada um se conseguirá rir de coisas diferentes, de gags diferentes, ao ver «O Circo» (daí a genialidade e a versatilidade da comédia "chapliniana") e todos ficarão sensibilizados com a (falhada) paixoneta do vagabundo Charlot pela artista do Circo onde, por um incidente que o torna uma atração, é contratado para trabalhar. A história é muito simples, e com um modelo que teve várias "imitações" ao longo das décadas, embora as cópias nunca tenham conseguido passar a genialidade do original (devido, em parte, por nunca - felizmente - terem conseguido imitar suficientemente bem o mesmo - assim poderia perder-se a magia de ver «O Circo» com a hipótese de apanhar com clichés de todo o tamanho...). Resumindo e concluindo, todos deveriam ver «O Circo» (e seria um filme obrigatório para o Plano Nacional de Cinema, divulgado há pouco tempo - quem é que quer ver "A saída dos operários da fábrica", pelamordedeus?!), é rápido, vê-se com delícia e acaba-se com uma sensação de alegria e boa disposição para a vida contagiantes. Está disponível no youtube, e não têm desculpas para não espreitarem. Invistam uma hora do vosso tempo livre e vão ver que não se vão arrepender!

Uma nota também, mais uma vez (como costumo fazer quando falo em filmes de Chaplin), para a edição DVD da MK2, de uma excelência sem igual, e que é pena que a Costa do Castelo, em reedições recentes do catálogo dos filmes de Charlie Chaplin, não tenha querido pôr os extras destas edições com uns anitos publicadas por cá pela Lusomundo (e assim, vendem edições simples dos grandes filmes de Chaplin ao módico preço de vinte euros ou mais...). A introdução do historiador David Robinson é sempre relevante para percebermos, após a visualização de um qualquer filme de Chaplin, a época e a vida de Chaplin na altura em que o fez. E sempre recheado com materiais de arquivo inéditos e documentários excelentes (em «O Circo» com um documentário da série «Chaplin Hoje» com a participação de Emir Kusturica) mostram que a MK2 é uma editora que se pautava pelo respeito dos filmes que editava e do não querer apenas lançá-los para o mercado sem mais nem menos. Muitas distribuidoras lusas também deveriam aprender assim a respeitar o consumidor... 

 Nota: * * * * 1/2

domingo, 23 de setembro de 2012

O Veredicto


A justiça tem, como todos sabemos, os seus inúmeros e aparentemente insolucionáveis problemas. Tanto a corrupção de alguns dos elementos cruciais de cada julgamento, como a veracidade dos veredictos tomados quer pelo júri (no caso do sistema judicial norte-americano) quer pelo juiz (no caso português) são dois dos mais discutidos e problemáticos temas que rondam a ideia que cada um tem do que é a verdadeira justiça.
«O Veredicto», uma pérola assinada por Sidney Lumet e protagonizada por Paul Newman (um dos mais icónicos e míticos atores da História do Cinema) pega nestes dois temas e, com o inconfundível estilo Lumetiano, chega-nos uma história de lealdade aos princípios que cada um defende e o significado da Justiça... justa, e igual para todos.

«O Veredicto» é um grande filme cuja temática pode ser equiparável à situação da Justiça no presente e nos tempos que se avizinham. Abundam os casos que, em Portugal ou no estrangeiro, demonstram verdadeiras falhas jurídicas, quer o arguido seja culpado ou inocente. Há casos de situações que nenhum de nós consegue perceber onde acaba a realidade e quando inicia a ficção, dada a falta de profissionalismo e bom senso com que muitos casos jurídicos são tratados e abordados. E tal como no princípio dos anos 80, quando o filme estreou, como hoje, em finais do ano de 2012, uma coisa nunca mudou (e citando Padre António Vieira): os Grandes nunca deixaram de comer os Pequenos, quer pela corrupção, pela injustiça ou por outras medidas mais ou menos maldosas que põem a verdadeira Justiça de um lado e os interesses de um grupo económico de outro.

Sidney Lumet volta a filmar, como ninguém, as grandes preocupações sociais e políticas da Humanidade, com a história de um advogado posto de parte na sua profissão e que se vê a braços com um grande caso que poderá pôr em causa a viabilidade de uma grande Instituição, de diversas grandes empresas e de conceituados nomes da medicina e da sociedade americana. Frank Galvin, a personagem de Paul Newman, além de querer, a todo o custo, ganhar o caso (porque aliás, é esse o seu trabalho), consegue perceber, à medida que a investigação se desenvolve, que tem uma grande tarefa em mãos e que a sua ação é muito importante para levar de uma vez a Verdade ao de cima. Num thriller que passa num ápice e que nos deixa completamente agarrados à cadeira (ou ao sofá, à poltrona... seja o que for) seguimos as pistas que Galvin descobre e compreendemos também as emoções das personagens e das testemunhas que pretendem abordar para conseguirem levar a sua avante, e encaixamos todas as peças até chegarmos ao grande final, com o julgamento derradeiro e que põe, nas mãos do júri, a decisão final e que põe término a toda aquela história. Não estou a divulgar spoilers, porque provavelmente sabem que todos os grandes filmes envolvendo advogados acabam numa cena de tribunal, mas garanto-vos que não estou a estragar a hipotética experiência de verem «O Veredicto». O filme vale por cada minuto da sua duração. As interpretações de todo o elenco (com Paul Newman em estado de graça), o fantástico argumento da autoria do mítico David Mamet e a competente realização de Sidney Lumet dão a «O Veredicto» um filme com um grande poder social, capaz de mudar mentalidades e questionar-nos sobre o estado da justiça no Mundo.

Nota: * * * * 1/2

Ninguém Conhece Jack


A morte clinicamente assistida teve, tem e terá sempre o seu quê de polémica e de controvérsia, tanto pelas questões que levanta como com o verdadeiro propósito que pretende defender e que muitas pessoas tendem a não querer entender. Mas uma coisa é certa: sobre os casos que envolvem esta temática, ninguém consegue deixar um estado de indiferença...

Jack Kervorkian (mais conhecido como «Dr. Death») foi a primeira pessoa a, publicamente e sem receios, defender a legalização da eutanásia nos Estados Unidos da América, auxiliando mais de cento e trinta pessoas em fase terminal a morrerem de uma forma mais digna e descansada. A audácia e coragem deste médico levou a que fosse variadas vezes acusado de homicídio e tendo sido julgado por cinco vezes distintas e por cinco casos diferentes. A sua convicção e os seus ideais levaram a que fosse, no último julgamento, condenado à prisão, tendo estado preso cerca de oito anos, até ao ano de 2007. E no meio de tanta mixórdia de opiniões e de perspetivas do trabalho de Kervorkian, a HBO decidiu (e bem!) passar a sua vida para um telefilme (que tem mais de cinema que muito filme propriamente dito a estrear em sala, diga-se), protagonizado pelo mestre Al Pacino, que entra no seu papel de uma forma excelente e impressionante e que foi galardoada, justamente, com um Emmy e um Globo de Ouro. O argumento do telefilme foi também premiado e, depois de ter acabado de ver esta peça televisiva de grande qualidade, fiquei muito impressionado (ainda mais do que já estava) com a excelência e preocupação com que a HBO trata os seus conteúdos (um exemplo para muitas televisões europeias, afirmo!).

Gosto de filmes e de histórias de vida que nos deixam a questionar sobre certos temas. «Ninguém Conhece Jack» lançou-me num pequeno debate interno sobre as problemáticas do filme e que Kervorkian tanto defendia e promulgava. De um lado, tinha os seus apoiantes, e de outro, os fanáticos religiosos (que, ao que me parece - e como é muito comum nos EUA - confundem crenças com opiniões próprias - daí o grande problema das religiões, e que levou à criação de tantos problemas, não é das suas ideologias, mas de parte dos indivíduos que acreditam nelas e que as percebem ao contrário) que queriam desvanecer completamente a mente e os casos efetuados pelo médico (o que contraria um pouco do que a religião defende, mas enfim, aí está a ironia da Humanidade...). 

No meio de tanta polémica e de tanto sarilho, Kervorkian conseguiu impôr as suas ideias e mudar um pouco o estado das coisas, embora haja ainda muito fanatismo e ignorância no que toca a estas matérias. Na minha opinião, penso que a decisão está na pessoa: se decide terminar a sua vida e terminar com o seu sofrimento a pessoa é que sabe. Cada um, nessas situações, deve fazer o melhor por si (e para os seus, também). E concordo com o trabalho de Jack Kervorkian e penso que é, de facto, uma personalidade a ser recordada e seguida como um exemplo. E o telefilme da HBO consegue, na perfeição, fazer isso, sem necessitar de o "heroicizar" ou de o tornar um grande super-herói, onde toda a gente à volta é o grupo dos "bad guys". É uma produção muito bem feita, escrita e interpretada, e que - repito - deveria ser um exemplo para muita produção cinematográfica, que apenas se consegue impôr graças a bilhetes mais caros devido ao 3D ou a efeitos especiais do mais dispendioso que há. O melhor material ainda está na simplicidade e na história de pessoas reais (ou em ficções repletas de realidade e humanidade), e a HBO consegue mostrar isso neste grande trabalho que efetuou com «Ninguém Conhece Jack».

Nota: * * * * 1/2

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

RTP 2 - Sentimento de Revolta



Há pouco estive a ver um documentário que, no serão da passada quinta-feira, foi transmitido na RTP1 (e não na 2, o que é raro). Foi uma peça muito interessante sobre a vida e obra de Laura Alves, uma atriz infelizmente desconhecida para muita gente da minha geração, mas que alguns deverão reconhecer pelos papéis nos célebres filmes portugueses dos anos 40 como «O Leão da Estrela» ("ai a loiça!"). O problema é que só o registo cinematográfico e televisivo é que nos dá a conhecer, hoje em dia, uma pequena parte da genialidade dessa grande atriz. Mas outro problema (bem maior, suponho) é que nós, os mais novos, não nos habituámos a ir ao teatro regularmente e a reconhecer os atores em palco que não fossem os que estão a fazer telenovelas. A época de Laura Alves foi uma época muito diferente em termos culturais do que é a de hoje em dia: as pessoas valorizavam mais a ida ao cinema, o entrar numa sala de teatro, até o simples ato de ligar o botão da televisão e ver alguma das séries em voga naquela altura do preto e branco e da RTP que fechava às dez da noite com o hino nacional. 

Tudo isto me fez refletir na questão que aflige a televisão nacional da atualidade: o fecho eminente da RTP2 e da privatização da RTP, numa época em que o termo "programa popular" é sinónimo de parolice e putrefação de cérebros (excetuando em raros casos) e que torna cada vez mais insignificante e obsoleta a arte de se fazer... arte. Resumindo: às nove horas da noite, o que é que o espetador pode ver nos quatro principais canais (a.k.a generalistas) da nossa televisão? Bem, o concurso do Malato na 1, um documentário da National Geographic na 2, novela na 3 e novela na 4. O problema não é a existência destes programas na nossa TV. O problema é haverem em excesso, e essa situação de excesso acontecer desde há vinte e tal anos para cá. Parece-me que as pessoas deixaram, a pouco e pouco, de dar importãncia às coisas culturais e a torná-las situações banais do dia-a-dia, juntamente com a manhã de trãnsito ou a fila da Segurança Social, quando isto não devia acontecer! Um programa, um filme, uma peça de teatro, deveria servir para nos afastarmos da realidade, mas agora, também com o auxílio da internet, as pessoas deixam de se conseguir centrar numa coisa só. Não há tempo. Tentam ver um filme, e ao mesmo tempo que olham de quando em vez para o que se passa no ecrã, vão vasculhar as novidades dos amigos no facebook ou conhecer as novidades de SPAM da caixa de entrada do e-mail.

Mas no meio de um oásis de programas que estão centrados em provar a afirmação "As pessoas ainda veem televisão se lhes dermos o que querem" (e concordo: o grandesíssimo dejeto de animal - desculpem o insulto a caminhar para o palavrão - que dá pelo nome de Casa dos Segredos conseguiu aliciar, na primeira gala, mais de um milhão e meio de pessoas a ligar o televisor e conhecer a nova cambada de pirosos que vão frequentar, durante três mesinhos, "a casa mais famosa do país"), existe um canal que conseguiu sobreviver sempre ao invasor da badalhoquice e do popularismo barato de terceira classe: A Rádio Televisão Portuguesa parte II. Sim, dito desta maneira dá um ar mais pomposo à coisa, mas para quem não percebeu, estou a falar na RTP2. O único canal que se preocupa em agradar a diversos nichos de mercado: crianças mais inteligentes das demais que querem ver desenhos animados bons e não as sitcoms com risos "enlatados" do Disney Channel, intelectuais que vibram com cada novo documentário sobre um escritor português que desvaneceu da memória coletiva do povo, pessoas que gostam de entretenimento (mas que seja algo bom para se assistir e que não nos faça mal à cabeça), cinéfilos fãs de correntes tão diversas como Fellini até ao mais recente filme vencedor dos Oscares, etecetra. Poderia estar aqui a debitar os tipos de pessoas que fazem a audiência da RTP2. É claro que é o canal menos visto dos generalistas, mas o seu público cosnegue ser mais representativo da inteligência que ainda subsiste no nosso país do que juntando os outros 3 num só. A RTP2 faz o que  os privados não querem fazer e o que a RTP executa no mínimo de vezes por ano em que é obrigada a fazer serviço público de televisão. Foi com a RTP2 que eu e maior parte das pessoas da minha geração cresceram. Pode ser, repito, o canal menos popular entre os 4 mais populares, mas foi o que marcou mais a vida destas mentezinhas minúsculas que ainda estão por desenvolver que são as dos indivíduos que nasceram entre 94 e 99. É o canal que nos dá cultura e que associamos quando nos lembramos de algum aspeto de cultura geral que tenhamos aprendido por causa da caixinha mágica.

Se a RTP1, a SIC e a TVI produziram e emitiram programas marcantes e inovadores nos últimos anos? Sim, com certeza, mas de uma maneira tão disfarçada possível que passou ao lado de muita gente. Dos primórdios da SIC só me lembro dos (poucos) desenhos animados que transmitiam ao fim de semana e dos anúncios aos filmes do género «Sozinho em Casa» e a séries como a do cão polícia ou a do ranger do Texas. Mas da RTP2 lembro-me perfeitamente de ver anúncios a todos os programas, mesmo os mais intelectuais, exibidos todos ao mesmo horário e não às duas da manhã. E isso marca a diferença. A RTP2 faz, em parte, o trabalho que uma gigante como a HBO exerce nos EUA, só que para um nicho de interessados que estão dispostos a pagar a mensalidade para se ter em nossa casa o dito canal de cabo para verem séries próprias de qualidade, telefilmes de qualidade, grandes clássicos do cinema e bons programas que definem a Grande Televisão. Por cá, ainda temos um canal que faz algum desse trabalho à borliu, mas parece que o Estado quer remeter a cultura para, única e exclusivamente, quem tiver mais dinheiro ao bolso para gastar. Ou então, acabam com os poucos recursos culturais que a televisão portuguesa possa dar e pronto, é aquela pequena parte da população portuguesa que vê a RTP2 (incluindo eu - quando ligo a televisão faço sempre questão de ver o que está a dar no 2.º canal, não ligar aos outros e só depois ir ver a programação entediante do cabo) que começa a sacar tudo da net. 

O problema das pessoas deixarem de ver televisão, segundo alguns analistas muito dotados na disciplina de afirmarem coisas sem pés nem cabeça, tem uma única razão, e que volto a mencionar: a massificação de um único género de TV em três canais e quase 24 horas por dia. E em 2013, com a extinção da RTP2, não há hipóteses de fuga para aquelas pessoas que, sem recursos ou possibilidades para aceder à aldeia global, terão de se render ao João Baião, ao Malato, à Júlia e ao Goucha (engraçado que costumam dizer que esses programas da manhã trazem "alegria" às pessoas. O que é curioso é que das poucas vezes que vi esses programas a serem transmitidos, foi em lares de pessoas muito idosas - que mantinham o ar de solidão e tristeza que é estar num sítio daqueles, mesmo com as palhaçadas do caixa d'óculos da TVI - e em sítios em que a televisão era ligada e deixada naquele canal ao acaso só para "fazer companhia"). Era giro era que nessa altura as pessoas voltassem aos seus "pré-históricos" e "datados" hábitos de leitura. Diria muito desta sociedade. Mas não, essas pessoas veriam praticamente o que lhes pusessem à frente e 'tá feito!

Não sei porque de repente me apeteceu escrever o meu total grito de revolta em relação à extinção provavelmente permanente do único canal de verdadeiro interesse dos 4. Mas acho que ver aquele documentário abriu-me os olhos mais do que já estava. Foi a ver aquele documentário na RTP1, que raramente se lembra de passar coisas que façam as coisas pensar e recordar-se do passado, que me apercebi de algo: a RTP2 fecha, fica só a RTP1. Mas o Governo pensa que a 1 vai fazer o serviço público da 2. Ora, se o diretor de programas já disse que as apostas do canal para 2013 são as novas "estreias-televisivas-comerciais-a-imitar-os-programas-dos-privados-e-que.ninguém-vai-ver"? Porque é que achamos que a RTP vai preocupar-se com a cultura se já anunciou que os programas previstos para o próximo ano são os habituais projetos da Catarina Furtado e do resto da matilha que recebe demasiado na conta bancária para o "talento" que têm? A RTP não tem, na maior parte da sua consistência, profissionais de jeito para continuarem o legado da RTP2. E provavelmente, os poucos programas culturais da 1 também vão desaparecer, tal como o pouco bom senso que a televisão generalista ainda tem na sua programação (está muito bem escondido, mas ainda tem).

Há quem queira reagir a isto como «Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades». Bom, não é por pessoas ficarem na fila dez horas para regozijarem de histerismo por possuirem o mais recente IPhone que eu vou fazer igual. Nem é por trinta indivíduos acharem graça ao Malato que 10 milhões e picos tenham de achar também. Há opiniões diferentes, há gostos diferentes, há tendências tecnológicas e sociais diferentes, e tudo abandalha porque as pessoas do Poder e do entretenimento nunca souberam respeitar bem isso. E o que concluo, depois desta quase-tese de doutoramento? Que é pena, porque ainda sou dos poucos que acha que a televisão deve ser vista na televisão, e que me faz falta às vezes ter uma tela para ver filmes num tamanho maiorzinho que a televisão Sony (daquelas caixas analógicas dos anos 90) que está instalada no meu quarto. Mas é a vida. Mas perguntando se sem RTP2 continuará a haver cultura, obviamente que sim, mas de outra forma, que terá de se associar com o desenrrascanço dos espetadores.. Ao menos sei que não é por fechar o melhor canal nacional que as pessoas deixam de ver cultura. As que gostam mesmo (e que formam esse nicho que vê a RTP2 - que ao contrário dos outros canais, tem um grupo de seguidores regulares e fiéis, que não oscilam com a nova série da Casa dos Segredos ou da mais recente produção novelística lusa) começarão a procurar pelos seus próprios meios. É a vida, mas parece que tem de ser. E nós, tugas, estamos habituadíssimos ao "tem de ser". Ou é isso ou é fazer petições na net que o Governo nunca vai ligar (apesar de eu as ter já assinado). E por isso... tem de ser!

Este texto foi galardoado com o TCN Blog Award 2012 na categoria de Melhor Artigo de Televisão.

Cães Danados


Há alguns dias vi aquele que é considerado "o melhor filme independente de todos os tempos". Não posso concordar ou negar este título ganho por «Cães Danados», o filme que lançou o realizador e argumentista (com uma perninha de ator) Quentin Tarantino para as luzes "escuras" da ribalta (é que o filme teve sucesso, mas Tarantino só catapultou para o estrelato mundial com o hiper-sucesso «Pulp Fiction», tendo «Cães Danados», na altura da sua estreia, não ter recebido tantas críticas positivas como o vencedor da Palma de Ouro), porque precisaria de ver todas as produções feitas sem apoio de grandes estúdios que até hoje foram feitas em todos os cantos do globo, e daí é que poderia dar a minha opinião. Mas com ou sem grandes atribuições, tenho de dizer, absolutamente, que este se trata de um grande filme! Aliás, diria que é uma espécie de preparação para o que se avizinharia com a feitura de «Pulp Fiction», embora ambos os filmes sejam algo diferentes.

Posso afirmar também que Quentin Tarantino mostrou, pela primeira vez, quem é que era realmente. Teve espaço para, finalmente, dar asas à sua imaginação bizarra e pouco vulgar, produtora de ideias fora do comum que mudariam a forma de se ver Cinema e que tornariam o estilo do realizador muito próprio e peculiar. E dessa explosão criativa saiu «Cães Danados», um excelente thriller (com alguns toques de extravagante comédia) sobre um grupo de criminosos antes e depois de terem efetuado um assalto. A linha temporal da história é constantemente "danificada" (uma característica repetida repetida no «Pulp Fiction»), existindo cruzares entre o passado e o presente do filme que nos permitem conhecer as personagens daquele gangue mais em pormenor, e principalmente os motivos que levaram aquelas pessoas, completamente distintas (e cujos nomes de código são nomes de cores - sim, há o Mr. White, o Mr Orange, e por aí fora...) a juntarem-se para aquele assalto que se revelará menos proveitoso do que estavam à espera. A história está muito bem construída e com alguns pontos de grande originalidade e inovação por parte de Tarantino. Consegue, ao mesmo tempo, meter muitas influências pop no seu filme, mas inteligentemente soube obter uma receita cinematográfica muito conseguida e muito sua, sem precisar de dever muito às suas inspirações.

A cena inicial de «Cães Danados» já marcou o seu lugar nas mais marcantes e influentes da História do Cinema. A sequência é bastante simples, e baseia-se apenas numa conversa pré-assalto entre todos os bandidos "coloridos" sobre temas corriqueiros ou completamente idiotas. Quentin Tarantino faz uma pequena aparição nessa cena como um dos membros iniciais daquele gangue, onde tenta provar aos seus compinchas como a sua teoria sobre o verdadeiro significado de uma certa música de Madonna é verdadeira, numa cena hilariante e repleta de frases que ficam no ouvido e apetecem logo ser repetidas (e para conseguir-se isto é preciso ter-se aquela qualidade de se saber o que é que o público quer ver, que poucos cineastas têm, infelizmente...). E depois desta cena? Percebemos que o assalto correu mal e numa hora e meia que passa num instante, vamos descobrir o que se passou para o falhanço do gangue e muitos pormenores espetaculares e muito representativos do Cinema com C grande. Os atores cumprem na perfeição os seus papéis (com especial destaque para Steve Buscemi e Tim Roth, dois dos meus "atores-fora-do-circuito-tradicional-de-Hollywood" preferidos - e Tarantino poderia seguir representação, porque tem mesmo jeito!), a realização está competentíssima, muito bem ritmada e construída, e «Cães Danados» é um grande filme. Quer seja por ser independente ou não, caramba, é um estrondo de filme!

Nota: * * * * * 

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Cenas da Vida Conjugal - Uma peça exemplar



Ainda estou quase sem palavras para descrever o que vi, ouvi e senti com «Cenas da Vida Conjugal». A sério, estou completamente vazio de palavras suficientemente boas para conseguir descrever corretamente tudo o que adorei nesta magnífica peça. Tenho acompanhado regularmente os trabalhos do Teatro Nacional D.Maria II (por causa da parceria que o grupo de teatro da escola tem com esta grande instituição cultural), e esta peça é a prova da versatilidade e qualidade cultural da seleção muito acertada de peças que a direção artística do Teatro tem posto em cena. «Cenas da Vida Conjugal» é a grande demonstração de porque é que vale a pena ir ao teatro e porque é que os portugueses devem acompanhar estas grandes iniciativas (pagas ou gratuitas) que não são tão escassas como algumas pessoas pretendem afirmar (mesmo com o estado da nação, é fascinante a quantidade de eventos que se fazem e como as coisas não param!). 

Os dois atores que interpretam o casal João e Mariana (Adriano Luz e Margarida Marinho, respetivamente) estão perfeitos a retratar as emoções e problemas que tem uma vida conjugal. Apesar de algumas pessoas na plateia não conseguirem perceber o texto, e também por terem pensado que se tratava mais de uma comédia do que um drama (o que, por vezes, com os risos exagerados dessas pessoas, estragava algum do ambiente tenso e triste de certas partes da peça), nada disso retira nenhuma excelência às interpretações dos atores muito fortes e muito bem estruturadas, auxiliados com um texto que retrata muitas situações do dia-a-dia de marido e mulher e que têm muito a ver com a realidade de cada um. Se puderem, vão ver «Cenas da Vida Conjugal». E se puderem, apoiem também o Teatro feito em Portugal, que está muito bom e recomenda-se!

domingo, 16 de setembro de 2012

Está Tudo Iluminado


Como todos nós sabemos (isto é, excetuando o grupo de pessoas que ainda pensa que foi tudo encenado), a II Guerra Mundial foi um dos mais devastadores conflitos que alguma vez aconteceram no nosso planeta, deixando para o presente a memória de algo que nunca mais poderá voltar a acontecer, para o bem de todos nós. E «Está Tudo Iluminado», um filme realizado por Liev Schreiber e protagonizado por Elijah Wood e Eugene Hütz (que faz parte da mediática banda punk Gogol Bordello, responsável por algumas canções da banda sonora do filme), aborda o pós-guerra e as gerações que vieram depois daquelas que vivenciaram as horríveis práticas nazis que deram origem ao Holocausto.

Baseado numa história verídica, «Está Tudo Iluminado» é um notável exercício de cinema onde se destaca o maior interesse que o realizador, o argumento e a obra literária de Jonathan Foer (da qual o filme se baseou) mostram em dar a entender como é importante preservar a memória do passado. Através da personagem do próprio Jonathan, um colecionador impulsivo de... coisas, envolvendo pessoas próximas dele e os ambientes em que vive, e que quer descobrir o passado que rodeia a sua família judaica e procurar resposta para as diversas questões que estão por resolver, o filme conduz-nos numa grande viagem até à Polónia, em busca dos antepassados de Jonathan, que vai acompanhado por Alex (interpretado por Hütz), o Avô deste (Boris Leskin) e uma cadela com alguns problemas psicológicos e comportamentais (resumindo, é passada dos carretos!), representantes de uma agência que, propositadamente, quer ajudar os judeus a encontrar o seu passado "holocáustico" (e sim, todas as situações desta vida são ideais para o marketing...).

«Está Tudo Iluminado» mostra ser uma história que marca diferença pela sua originalidade, pela maneira que utiliza para chegar junto da audiência, e por não precisar de clichés lamechas ou lições de "overacting" para nos convencer que a lição que o filme nos dá é muito importante. Muito subjetiva, sim, mas importante. Destaco também a banda sonora, com diversas sonoridades vindas de bandas da Europa de Leste e que estão muito bem misturadas e selecionadas, e a belíssima fotografia do filme, que nos dá a permissão de contemplar a beleza das paisagens da Polónia, à medida que acompanhamos a viagem de Jonathan e companhia. É um filme que, além de querer ensinar às pessoas que o passado faz o presente, quer também comprovar que, por mais forte que uma pessoa possa ser, num ambiente de guerra, e rodeada pelos horrores e tragédias da mesma, é impossível não ficar com imagens e situações (e também alguns traumas) para o resto das suas vidas. São situações que não se esquecem, e esta viagem, tal como Alex pronuncia no início do filme (quando faz uma hilariante descrição do seu ambiente familiar), mudou as vidas daqueles sujeitos para sempre (incluindo a cadela!). «Está Tudo Iluminado» é uma boa produção cinematográfica americana que pede pelo reconhecimento e pelo debate dos temas que envolve o seu argumento, porque são destes pequenos e simbólicos filmes que surgem mais hipóteses de reflexão e discussão (amigável) sobre o que nos aflige no nosso quotidiano. Um filme a ver!

Nota: * * * *

Selvagens: e com um final, se estraga um filme



Ah, que bom sentir aquela sensação de desilusão que uma pessoa só pode encontrar numa sala de cinema. Aquela sensação de pequenez em relação à tela, por a mesma ter uma dimensão tão grande e nós sermos tão minúsculos em relação a ela.

OK, não era desta maneira que queria começar a falar de «Selvagens», a mais recente aposta do controverso Oliver Stone nas lides cinematográficas, mas não consegui imaginar uma maneira melhor para exprimir o que senti ao ver, hoje à noite, este filme num ecrã gigante. E esta vai ser daquelas críticas de "deitar-tudo-cá-para-fora", aviso já.

O meu desgosto em relação ao filme não é pelo seu conteúdo: aliás, «Selvagens» é um filme que possui uma boa dose de entretenimento, interpretações competentes e uma realização... vá... competente também (não terá o Stone consumido mais umas coisinhas para este filme?). O problema é o conteúdo do filme. A história é bastante interessante, e que deu azo ao realizador para se aproveitar disso e pôr muitas cenas de amorr e droga, mas isso não é o mal do filme, porque essas cenas não estão exageradas ou mal encenadas. O problema... é o final da história.

Mas já lá vamos. Gostaria, primeiro, antes de chegar ao que me desiludiu no final do filme, de dizer o quão estava a gostar do visionamento do mesmo. A sério, apesar de «Selvagens» transbordar de clichés de logística e de diálogos, é um filme que agarra o espetador à cadeira. Há coisas que são completamente surpreendentes (e outras menos, daí os clichés) e que são suficientes para nos manter concentrados no filme e na sua estranha história de um trio de amigos muuuito chegados, com dois rapazes e uma rapariga (um budista, outro "porradista", e a miúda que gosta dos dois moços - e de que os dois moços estão enamorados) que têm em mãos um negócio da mais pura erva que os traficantes podem ter a sorte de vender (sim, um pouco como o «Breaking Bad» - estou a gostar tanto da série que não pude deixar de fazer pseudo-comparações com a série). Entretanto, veem-se metidos em sarilhos com cartéis e dealers manhosos e com hábitos bizarros de vida. OK, até aqui tudo bem.

Mas há filmes cujo final pode ajudar a descambar tudo o resto. É como na vida. Há situações em que pensamos que estamos a ir no bom caminho, e por uma coisinha de nada, volta tudo ao zero. Não creio que «Selvagens» voltasse ao zero, mas que ficou muito danificado pelo final que teve, pelo menos para mim, disso não tenho dúvidas. Acreditem, quando constatei que o filme ia seguir aquele rumo, eu fiquei em estado de choque. Até não pude deixar de soltar, num tom mais ou menos alto, a minha indignação. Mas rapidamente calei-me e esperei que aqueles dois minutos de clichés e coisas felizes terminassem, para chegar aos créditos e poder manifestar junto dos meus amigos o meu desagrado. Não sei se o livro também é assim, se acaba com um twist inacreditavelmente idiota, e que seria o mesmo que uma criança de cinco anos usaria para acabar uma história, mas se é, então a história está só um bocadinho sobrevalorizada. Não quero estar aqui a spoilerizar sobre o final do filme (que, acredito, se alguém ler isto e depois for ver o filme vai ficar um pouco condicionado com o que aqui deixo escrito), mas eram precisos aqueles minutos antes do final, para nos fazerem constatar algo que nunca aconteceu, para depois dizerem «ah, afinal esta treta acaba assim e não da maneira que vos acabámos de mostrar. Só porque sim» (a frase pronunciada pela voz-off é algo semelhante a esta, vá)? Não poderiam, apenas, ter escolhido uma das ideias e pronto, não terem de fazer uma pequena "chachada" incomodativa neste filme? E pelo amor de Deus, não me digam que é um feito genial alguém ter conseguido dar vida a uma ideia tão infantil como essa, uma ideia que estragou a opinião que, até então, tinha formado sobre «Selvagens». Porque não é, de todo. Mas acho que é preciso as pessoas verem o filme para perceberem o que eu digo e analisarem de sua justiça (agora, certamente, já um pouco condicionadas - desculpem, não foi por mal. Queria tanto escrever isto agora para soltar o desagrado que restava no meu interior cá para fora). O filme é bom entretenimento e revela-se ser competente e muito bem visionável... até àquela parte em que uma pessoa fica «MAS ISTO ACABA ASSIM?». Mas sim, acho que até vale a pena ver. Mas não aconselho ninguém a pôr isto na sua lista de prioridades. Há melhor que se encontre por aí...

Nota: * * * 1/2

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Um Homem para a Eternidade



A História da Europa, ao longo dos séculos, revelou-se propícia a ser usada e abusada pelas lides hollywoodianas (embora, mais nos últimos tempos, o alvo do entretenimento cinematográfico e televisivo americano tenha sido mais a badalhoquice das épocas que retratam do que os factos e acontecimentos mais interessantes e que marcaram a mesma), que desde os primórdios da Sétima Arte, tem abordado muitos episódios importantes (outros menos que outros, diga-se) em diversos filmes e séries de televisão.

Eu, sinceramente, nunca fui grande fã de filmes ou séries que se passassem muito atrás no tempo. Não sei porquê, mas nunca me pareceram interessantes o suficiente para ter pachorra para os acompanhar até ao fim. Casos como o dos grandes épicos bíblicos (que, na minha opinião, são constantemente alvo de sobrevalorização), ou as grandes produções como «Cleópatra» (um espectáculo visualmente deslumbrante, mas que falha em termos de qualidade e veracidade), passando pelas séries mais recentes «Os Tudors» (OK, este é o maior exemplo da badalhoquice com que a indústria do entretenimento trata a Idade Média e os séculos anteriores ao XIX) são algumas das provas do meu desgosto por este tipo de entretenimento, que pretende ser real ou, ao menos, «inspirado numa história verídica», mas esse epíteto não basta para substituir todo um trabalho de produção e argumento que, muitas vezes, é esquecido de ser trabalhado.

Contudo, há filmes/programas que se destacam (e que se tratam, verdadeiramente - no caso dos filmes-, dos que são unanimemente considerados como clássicos de visionamento obrigatório) por conseguirem ser, além de grandes peças de arte e de entretenimento, uma reconstituição da época que retratam que, apesar de não poder ser 100% fiel à realidade daqueles tempos tão antigos (como há menos registos e como não havia câmaras de filmar ou máquinas fotográficas para se registarem momentos para "mais tarde recordar", poderá haver certas dificuldades em retratar o que foi real), conseguem ser um verdadeiro luxo para a vista e um complemento diria que educacional, que nos faz relembrar certos pormenores e factos absorvidos em algumas aulas de História. Foi o que me aconteceu, a ver «Um Homem para a Eternidade», um filme que é realmente uma verdadeira jóia da coroa britânica e um filme que terá mesmo de durar para a Eternidade (e desculpem a ideia tão fatela e tão pouco criativa, do uso do título do filme para o elogiar, mas enfim, foi o que pensei que fazia sentido), quer pela dimensão da sua história e pelos pontos tão importantes que foca da História do Reino Unido (e da própria Europa) durante a época de mudança e inovação que foi a dos Descobrimentos, quer pela mensagem e pela moral que transmite, através do exemplo de Thomas More, um dos mais influentes pensadores de todos os tempos (e uma grande figura da época do filme) e cuja obra literária «A Utopia» revela-se como uma das mais célebres e estimadas obras da História da Filosofia.

Mas situemos «Um Homem Para a Eternidade» no tempo e no espaço: é o reinado do terrível, do abominável, do... tarado... rei Henrique VIII, que está prestes a divorciar-se da sua primeira mulher para poder contrair matrimónio com a amante Ana Bolena, a ver se é ela que lhe consegue dar o herdeiro que Henrique tanto pretende (e que, cof cof, será a razão para ele se divorciar mais umas quantas vezes durante todo o seu reinado... mas continuemos). Ora, vistas as coisas do prisma da nossa atualidade, o século XXI (sim, aquele século em que, na altura do rei britânico, toda a gente pensava que o mundo já teria acabado), esta situação parece ser perfeitamente banal e desprovida de interesse (até mesmo para qualquer revista do socialite). Mas é claro que isto foi um choque tamanho para a comunidade religiosa da época, e principalmente para Thomas More, um católico muito convicto das suas ideias e crenças e que via o plano de Henrique VIII (e que, um pouco mais tarde, faria com que fosse formada uma Igreja completamente independente do Papa e do Vaticano - a Igreja Anglicana) como um ataque ao que o próprio defendera pouco tempo antes. Mas, claro, quando há poder, há amigos, e entretanto toda a malta aristocrata põe-se do lado do Henri e dos seus planejos conjugais. Contudo, Thomas More não muda a sua opinião, dando um exemplo de integridade que lhe custou a própria vida, mas que o eleva como Ser Humano acima de todos os foliões da corte. E hoje em dia, mais do que nunca, é importante pensar como isto é atual. Como o facto das pessoas mudarem de ideias e convicções segundo os seus próprios interesses tornou-se uma matéria tão  comum no nosso dia-a-dia (como já mostrava ser na época), quer nos partidos políticos, quer nos altos cargos económicos e financeiros, quer em muitos outros exemplos que estão, diversificadamente, registados em diversas personalidades, tempos e locais, em toda a História do Mundo. Thomas More pretendia um mundo perfeito na sua Utopia, e podia não conseguir concretizar o universo que a sua mente criou, mas mostrava ser uma pessoa muito mais inovadora e importante que a maioria dos filósofos da sua época. É uma referência incontornável, até aos nossos dias (tão incontornável que até o próprio Cavaco Silva - ainda primeiro-ministro - afirmou numa entrevista que tinha, na sua cabeceira, um exemplar de «A Utopia» - pena não ter sabido dizer quem é o autor dessa obra...) e que não pode ser deixada esquecida no tempo. Apesar das suas ideias mais fervorosas e algo datadas em relação à religião, a integridade de More em relação aos seus ideais deveria servir de lição a qualquer pessoa, independentemente das suas crenças e ideologias.

O filme é baseado na peça homónima de Robert Bolt (que se encarregou de transportar a sua obra teatral para um guião cinematográfico), e conseguiu reproduzir, além de muitos pormenores e factos da época retratados no filme (que, ao contrário de outros casos, não são inseridos na ação da fita de forma forçada, ou para lembrar aos espetadores que estão a ver uma obra histórica que fala de coisas que realmente aconteceram), a "teatralidade" da peça sem perder a mais ínfima parte de credibilidade e de qualidade do texto original. Apesar de terem sido feitas diversas alterações à história de «Um Homem para a Eternidade» (tornando, assim, possível a melhor maneira de se adaptar a história de Bolt ao grande ecrã), o filme funciona de uma forma excecional e inigualável, dando mesmo a sensação que fizemos uma viagem no tempo até ao século XVI (ou à ideia mais próxima e apurada que se possa ter sobre como foi esse século) e à vida de Thomas More. Este factor é também muito auxiliado pela realização sólida e preparada de Fred Zinnemann (responsável por muitos clássicos de Hollywood, incluindo «Até à Eternidade» e «Oklahoma», o primeiro filme a ser gravado em 35 mm) que venceu um Oscar (entre os seis que «Um Homem para a Eternidade» recebeu, incluindo melhor filme e melhor argumento adaptado), e também pelas poderosas atuações de um elenco de luxo que dispõe de diversos gigantes da arte de representar e da arte de fazer cinema: Paul Scofield (também vencedor de um Oscar pela sua prestação no filme) é um magnífico Thomas More, muito convincente e muito bem preparado para o seu papel (provavelmente por ter feito parte do elenco da primeira apresentação da peça de teatro) e é auxiliado por um bom leque de atores secundários que deixaram a sua marca neste clássico do cinema: John Hurt (no filme que lançou a sua carreira), Robert Shaw (como o excêntrico e estranho Henrique VIII), Orson Welles (um pequeníssimo papel, mas que marca uma forte presença da personagem clerical que o ator interpreta) entre muitos outros, que fazem de «Um Homem para a Eternidade» um filme fascinante e visualmente impressionante que mostra que podem os tempos e as vontades mudar, mas há coisas, problemas, situações, que não se alteram com o passar das gerações.

Nota: * * * * *

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Finalmente o update dos livros que este catraio andou a folhear durante as férias!

Eu tenho um grande problema com os livros, que é o facto de gostar de os ler. Quer dizer, verdadeiramente o problema não é esse, mas sim o facto de só conseguir ler seriamente e viciantemente em ambientes próprios, com muito silêncio e luz solar disponível. E isso encontra-se pouco nos nossos dias. Daí ter lido pouca coisa este Verão. Vou lendo livros aos bocados e raros são os que consigo ler em poucos dias. Acho que li muito mais jornais, revistas e artigos avulsos na internet, que livros, mas pronto, tudo serviu para os meus neurónios crescerem significativamente. Mas aqui fica um update (há muito esperado... pela minha pessoa) do que é que eu andei a ler no Verão. Como podem ver, a minha apetência para "tagarelar" sobre livros não é tão grande como para os filmes. Mas pronto, são "piquenas" opiniões que não pretendem obrigar-vos a ler ou não o que eu andei a folhear nestas férias.

-Ninguém escreve ao Coronel
Uma pequena obra de Gabriel Garcia Marquez que li num instante, mas que se não tivesse lido também passava bem sem ela, sinceramente. A sério, como é que, com uma premissa tão interessante, se acaba a ter uma história tão... tão... banal? Mas pronto, deste autor recomendo «Crónica de uma morte anunciada», que li no Verão passado e gostei muito, mesmo.

-Blackpot
Um texto completamente surreal da autoria de Dinis Machado a.k.a Dennis McShade (autor do classicíssimo «O Que Diz Molero», uma obra de referência para a minha pessoa), com pessoas que matam outras pessoas e nomes esquisitos e o camandro. Até que dava um bom filme! Gostei desta história, e gosto cada vez mais do estilo de Dinis Machado. Este livro pouco tem a ver com a sua "magnum opus", mas lê-se de uma assentada, e fiquei com uma impressão esquisita de que me tinha passado algo muito bom pela vista.

-O Som e a Fúria
Decididamente, dos melhores livros que alguma vez li, e o melhor livro deste Verão. Descobrir este clássico mudou a minha vida. Escrevi umas quantas linhas sobre ele na edição de ressurreição do «Rui Responde», mas volto a afirmar: o livro é fantástico, está muito bem escrito e idealizado. É a história de uma família, suas personagens, seus problemas, ao longo de vários anos e circunstâncias diferentes que são mostrados de uma maneira totalmente arrebatadora. Não é um livro fácil, mas é altamente recomendado. Estava a gostar tanto do livro, que demorei cerca de um mês a lê-lo. Ia relendo algumas partes e pensando mais em todos os pormenores do universo de William Faulkner. Fantástico!

Uma Noite Não São Dias
Um livro hilariante e bem construído, da autoria do Grande Mário Zambujal. Está cheio de referências a uma atualidade muito recente (até se fala no aeroporto da Ota), mas passa-se no "esquisito ano de 2044". É uma história repleta de intrigas, conversas futuristas (pouco reais, mas que têm uma data de piadas muito inteligentes ao tempo que vivemos) e que contém vários recuos e avanços no tempo, que nos dão para conhecer melhor todas as personagens. Recomendo muito - foi o segundo melhor livro que li do Senhor Zambujal (melhor mesmo só a «Crónica dos Bons Malandros»!)

Um sem-número de clássicos da banda desenhada
Regressei aos livros do Tintin, do Spirou, do Lucky Luke e tantos outros. Soube bem para recordar memórias e piadas que tinham estado bem guardadinhas na minha mente. Uma revisitação a todas estas personagens nunca é demais!

Balas e Bolinhos: um blockbuster tuga

Quando se deu o início da promoção ao terceiro capítulo da trilogia cinematográfica tuga «Balas e Bolinhos» em diversas formas de marketing (internet, televisão, cartazes, etc), pensei que estava na altura de me embrenhar neste universo mítico do cinema português (e que espero que, por todos os santinhos!, seja mais rentável que o filme dos Morangos com Açúcar) e ver os dois primeiros filmes que constituem esta saga épica da sétima arte lusa onde estão envolvidos indivíduos algo duvidosos, crimes do maior gabarito nortenho e bolinhos de bacalhau. Qual não foi o meu espanto e, como se fosse telepatia, vi que a SIC Radical ia transmitir, a altas horas da noite (porque, propriamente, «Balas e Bolinhos» não é para ser visto à hora em que aquele duende 3D substituto dos Patinhos está a mandar a criançada para a cama na RTP2), estas duas obras que constituíram, segundo a crítica do mais alto gabarito nacional, "o primeiro OVNI do cinema português". Como a essas horas estou no mundo do soninho (ou quando a insónia aperta - para contentar as pessoas que têm uma visão de mim algo semelhante a uma versão portuguesa do «Comic Book Guy» dos Simpsons, embora com menos peso - estou a beber um copinho de leite morninho para acalmar os nervos), gravei os filmes, e alguns dias depois vi-os praticamente de seguida (porque o primeiro tem uma hora de duração e o segundo hora e meia).

E, depois de vistos os dois filmes, que dizer sobre eles? Bem, primeiro, achei por bem juntar as minhas recensões críticas a cada um num único post, até para poder comparar a evolução criativa e financeira que houve entre os três anos que separaram a feitura dos dois. Segundo, tenho medo das palavras que escreverei aqui sobre «Balas e Bolinhos» e «Balas e Bolinhos: O Regresso». Não sei se conseguirei encontrar as frases certas para descrever os filmes, porque fiquei com uma opinião muito peculiar sobre os mesmos. Mas vamos lá tentar escrevinhar qualquer coisa, que quem não arrisca não petisca.

Falemos do primeiro, a ver no que é que isto vai dar: está mal escrito, está mal interpretado (mas os atores conseguem ter graça), está concebido de uma maneira muito amadora e despreocupada com diversos pormenores que não fazem sentido e que revelam uma grande falta de cuidado na realização do filme. Mas, ao contrário de muitos outros filmes que, com estas características, não me teriam conseguido fazer ver os mesmos até ao fim, este tive todo o gosto em ver. E aí está a diferença entre «Balas e Bolinhos» e todos os outros filmes maus de baixo orçamento: é que este deu gozo ver! E isso foi algo que achei inacreditável. Embora o filme fosse mal planeado, e pudesse ter sido reduzido a uma curta metragem de um quarto de hora, e apesar de não ter mudado a minha opinião de que estava a ver um mau filme até chegar ao fim do mesmo, não pude deixar de pensar que gostei de o ver, e que foi algo único que me passou diante dos olhos. E achei isto tão estranho, mas tão estranho... que ainda tenho remorsos em relação ao que escrevi até agora. E atenção: isto é apenas a minha opinião. Respeito todo o trabalho que esteve envolvido no filme (aliás, respeito o elenco e a produção cada vez mais), e repito: não sei porquê, mas gostei de ver o filme. Levei a mão à cara várias vezes com as "atrocidades" que encontrava, mas não conseguia parar de ver o filme, e a curiosidade tornava-se cada vez maior à medida que se aproximava a altura em que os quatro maltrapilhos iam preparar o "grande" golpe das suas vidas. E Luís Ismael, realizador, autor e o Tóne do filme, mostra ter uma grande paixão pelo cinema, tanto pelas referências a obras de culto do cinema que são feitas pelas personagens (veja-se a paródia ao discurso de Samuel L. Jackson em «Pulp Fiction»), como também pelo facto de, apesar de ter sido confrontado com muitas limitações orçamentais e técnicas para a rodagem do seu projeto, conseguiu fazer um filme que, apesar de mal feito, é bom de se ver. E isto muitos filmes com investimentos superiores a números com mais de nove dígitos conseguem fazer. Há entretenimento do bom em «Balas e Bolinhos», e sendo um filme português, feito por portugueses, é de louvar! Ah, e fiquei simpatizante com essas bizarras (mas muito reais) personagens que dão pelo nome de Tóne, Culatra, Rato e Bino, e que, ao contrário do que aconteceria se tivesse visto o «Scary Movie» (nunca vi um inteiro nem quero, pura e simplesmente), fiquei com uma vontade enorme de ver a sequela. E assim o fiz, logo de imediato.

«Balas e Bolinhos: O Regresso» mostra uma certa evolução em relação ao primeiro filme, mais experimental e com menos dinheiro para a sua feitura. A história está mais desenvolvida, há outras referências cinematográficas («Salteadores da Arca Perdida», por exemplo), há mais gargalhadas, há vilões (um deles - penso que seja de propósito - faz-me lembrar um dos "bad guys" do princípio da obra prima Leoniana «Aconteceu no Oeste»), há "special guest stars" (como o contador de anedotas Fernando Rocha), uma realização e um trabalho mais cuidado e preciso (houve mais meios para este segundo filme do "franchise"- chamemos-lhe assim, porque a dimensão desta saga dá razões para a mesma receber este epíteto) e o mesmo palavreado nortenho. Voltam as mesmas personagens, alguns anos depois do final do primeiro filme. Todos seguiram caminhos diferentes (nenhum minimamente aconselhável para qualquer ser humano), e agora está envolvido um mapa do tesouro que fará o grupo reunir-se de novo e partir à aventura, como se fossem os «Cinco», mas sem o cão (apesar do Bino ter quase o mesmo papel no filme que o Tim, o cão da miúda maria-rapaz da famosa coleção juvenil de Enid Blyton). O resultado é um filme também muito bom de se ver mas que, apesar de ser melhor que o primeiro, «O Regresso» é ainda mauzinho. Mas a caminhar para o razoável. Muito perto desse escalão, mesmo. E foi mais uma visualização que passou rapidamente e que gostei muito de fazer. É estranho uma pessoa ficar fã de uma saga tão... tão... tão contra aquilo que eu designo como "cinema de qualidade", mas gaita!, quero ver o terceiro!

(P.S - Não sei se repararam, mas desta vez não classifiquei estes filmes com a habitual escala das estrelinhas. Acho que, em casos como estes «Balas» não acharia muito justo estar a dar-lhes nota, apesar de saber mais ou menos a que daria a cada um deles. Talvez muito pelo facto de serem filmes fraquinhos mas que dão muito gozo de se ver - também depende dos estômagos, é claro - acho que mais vale deixar assim, sem nota, e quem tiver curiosidade, veja os filmes e tire os seus juízos de valor. É que as estrelinhas podem ser sinal de filmes a ver e a não ver. «Balas e Bolinhos», apesar de ser mau, é para ver! Vamos mas é apoiar filmes como estes, que pretendem levantar a moral cinematográfica lusa e mostrar que filmes altamente rentáveis podem ser feitos em Portugal!)

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Como Irritar Uma Pessoa - Um guia cómico para as idiotices do quotidiano

Naquele tempo, disse o apresentador de TV e produtor David Frost aos seus argumentistas: "façai um especial televisivo de comédia com uma hora de duração, que será produzido por mim mesmo, para que seja posto na prateleira, nunca exibido na BBC, para conseguirmos promover o nosso humor junto dos americanos, mas que será apenas realmente descoberto por nerds e fãs obscuros de um certo grupo humorístico (que alguns de vós, que irão participar neste programa, irão fazer parte) daqui a uns trinta anos!". Assim foi feito um programa que me deu muito júbilo de ver. E porque é que me apeteceu escrever a primeira frase deste post de uma maneira recriativa das Escrituras Bíblicas? Não sei, acho que não consegui arranjar outra maneira melhor para dar início a esta minha apreciação crítica de «Como Irritar Uma Pessoa». E acho que a história que rodeia a feitura deste especial televisivo tem muito que se lhe diga. Não é de uma complexidade tão grande como a maioria dos episódios descritos nos múltiplos livros do Antigo e Novo Testamentos, mas até que dava para fazer umas quantas páginas sobre a mesma, disso não tenho dúvidas (umas dez no máximo, vá. Oito são a bibliografia. E uma é o índice. Ah, e depois resta a capa). 

Senão vejamos: Depois de feito o lendário programa «The Frost Report» (cujo estatuto é muito mais superior do que a dignidade da BBC, já que não quis guardar nos seus arquivos muitas pérolas dos anos 60 e 70 da televisão britânica - daí o facto de, hoje em dia, existirem muito poucos episódios da quantidade total que teve esta série), o senhor cujo apelido dava título ao mesmo decidiu apostar na valorização da comédia britânica em terras do Tio Sam com este especial de uma hora, que reunia alguns atores/autores do «Report» (como John Cleese e Graham Chapman), juntando uma estrela de «Do Not Adjust Your Set» (Michael Palin) - um programa que também foi muito mal tratado pelas pessoas que ficaram encarregues de guardar as bobines do mesmo - e um dos atores de «At Last the 1948 Show» (Tim Brooke-Taylor), onde também participaram Cleese e Chapman. O programa ganhou a premissa de ser um guia (cómico) para ajudar as pessoas a irritar os outros. Uma espécie de "workshop" da irritação, em que uma série de sketches parodiavam diversas situações muito pormenorizadas do quotidiano, em que a capacidade de irritar o próximo é o denominador comum. O resultado é um clássico da comédia (e não estou a copiar o slogan do DVD, mas sim a constatar algo que pensei quando acabei de ver este programa).

«Como Irritar Uma Pessoa» foi exibido, discretamente, nos EUA, e rapidamente caído no esquecimento. Nunca foi transmitido em Terras de Sua Majestade, e teria-se de esperar pelos anos 90 para este especial ressurgir no mercado home video (na altura em cassete, e mais tarde em DVD). E é um grande programa, que, tal como maior parte do material material para a caixinha mágica em que John Cleese, Graham Chapman e Michael Palin estiveram envolvidos na sua produção. E muitos sketches do mesmo foram usados para recriações (mais desenvolvidas e melhor construídas) na série «Monty Python's Flying Circus», que invadiria os ecrãs dos lares ingleses em Outubro de 1969. O maior exemplo disso é o sketch da entrevista de emprego, usado mais tarde, na sua totalidade, para uma abordagem mais "nonsensiana" dos Python. Há também a influência do sketch do reparador de automóveis, que foi, com certeza, a ideia que deu origem a um dos mais famosos sketches da era Python, o Papagaio Morto.

Acho que nada mais posso dizer. Apenas que ver os 68 minutos deste programa foi uma delícia, e acho que vale muito a pena os fãs dos Monty Python (e do humor britânico em geral) verem «Como Irritar Uma Pessoa». Os maiores fãs dos Python encontrarão muitos "piscares d'olho" ao material humorístico do grupo que já conhecem, certamente, de trás para a frente, e ninguém poderá ficar dececionado com este programa. E mais ainda, acho que todos nós nos conseguimos identificar com, pelo menos, uma das situações apresentadas por Cleese e os seus compinchas. É o que comprova a frescura e atualidade desta pérola da televisão britânica!

O habitual post anual que referencia o regresso às aulinhas do autor deste blog e de outros tantos indivíduos

Chegámos, mais uma vez, àquela fatídica época do ano em que os meninos e meninas deste nosso Portugalinho voltam à escolinha para aprenderem coisas e tentarem ser suspensos (OK, este segundo aspeto diz respeito apenas a alguns estudantes, não pretendi generalizar. Mas caramba, até parece que treinam durante as férias para conseguirem mesmo conquistar esse... "prémio". E o maior número de vezes possível, de preferência). 
Mas antes desta semana ter principiado (e das alminhas de muito garoto e garota entrarem num estado preocupante de nervosismo, mas com algum saudosismo também), as aulas já estavam mesmo a chegar. Mas onde? Nas televisões, claro. Desde o anúncio do Continente (eu se fosse aquele miúdo tinha era cuidado quando chegasse à escola "da vida real", onde não há miúdos a cantarolar e o Boss AC a viver dentro do nosso cacifo - também, só era prejuízo. Depois era preciso dar de comer ao rapper e tudo...) às mega-promoções da WOOK e afins, que querem dar o máximo de desconto possível sobre os livros escolares (que, mesmo mais baratos, o seu preço continua a ser motivo de soltar inúmeros palavrões).
E qual é a minha reação a toda esta parafernália de marketing e encorajamento ao regresso às aulas, que tentei resumir nos dois primeiros parágrafos deste textinho? 
Não tenho nenhuma reação, já estou habituado a tudo isto. O que é que se pode fazer? Tem-se é de voltar às aulas, e é a vida. 
OK, a minha resposta não foi elucidativa de nada. Mas se formos a ver, nem este post é. Por isso, e para terminar este texto que não pretendeu dizer nada de especial, vamos mas é começar o ano letivo com o pé direito (e começar, também com o pé direito, a não sentir um nó na garganta de cada vez que escrevo uma palavra com o acordo ortográfico - e já fiz vários "erros", se forem a ver bem), e aproveitar para tirar umas notinhas boas, na faculdade, no liceu... o que seja. Está bem? Pronto.
Agora aproveitem estes últimos dias de férias para voltar a ligar os fusíveis cerebrais, treinem a escrita (pois, eu sei que muitos de vós não pegam num lápis ou numa caneta desde Junho!), e preparem-se. É que isto, no fundo, passa tudo num instante, e depois lá terei eu de voltar com estes posts idiotas sobre o regresso às aulas. E enquanto o próximo não chega (e olhem que este ano vai passar depressa, como os outros - a não ser que o mundo acabe em Dezembro), aproveitem para tirarem boas notinhas e fazerem alguma coisa da vida, está bem? Depois vão ver que passou depressa. «Eia pá, lá está o Rui outra vez a escrever sobre o regresso às aulas. O tempo voa e coiso e tal...»
O tempo é um bocado sacana.

sábado, 8 de setembro de 2012

O Barão: Terror à Portuguesa

 

Bem vindos ao estranho e bizarro mundo de «O Barão», um filme português que pauta pela diferença e originalidade. Pude vê-lo há uns dias, na habitual retrospetiva de todos os filmes emitidos durante o ano pelo cinema King. É um filme curto, mas que deixa uma marca bem profunda, sendo, em parte, culpa da grande banda sonora criada propositadamente para o filme pelos Vozes da Rádio. 

«O Barão» trate-se de uma adaptação muito negra (e de certo modo algo exagerada) do pequeno conto da autoria de Branquinho da Fonseca. O tom do filme é inspirado pela adaptação cinematográfica original, feita por uma equipa de filmes de série B nos anos 40, que esteve perdido até o guião e duas bobines do mesmo terem ido parar às mãos de Edgar Pêra, que decidiu pôr mãos à obra e realizar um remake do filme original, utilizando cenários idênticos, filmando a preto e branco, e com um grande leque de atores (com destaque para Nuno Melo, que tem aqui uma interpretação que foi digna de receber um Globo de Ouro nacional). 

O Barão é um excêntrico indivíduo, proprietário de uma mansão, e que irá acolher um "senhor do ministério", que foi até à aldeia recôndita onde vive aquela estranha personagem barónica para avaliar o desempenho de uma professora. Ao tomar contacto com o mundo do Barão e com as suas ideias e memórias, o homem entra num mundo completamente diferente, onde reina a desordem e a supremacia do Barão face a todos os habitantes da aldeola. 

Edgar Pêra marca o filme com uma realização diferente e algo inovadora (se bem que algumas cenas são demasiado prolongadas ou até desnecessárias), e que tem um pormenor curioso: é emitido com legendas em inglês. Mas atenção: estas legendas são irrequietas! Elas não gostam de ficar ali quietinhas na parte inferior do ecrã. Elas saltam, andam de um lado para o outro, saem da boca das personagens... estas legendas complementam as emoções da história e de todo o ambiente. É uma ideia curiosa e que nunca tinha visto ser posta assim em prática, e vale a pena destacá-la. Outro pormenor digno de nota é a homenagem ao cinema de terror dos anos 40 e às semelhanças que a película tem com um verdadeiro filme feito nos anos 40. A nível estético, diga-se, o filme vale muito pela positiva. Mas a temática de «O Barão» e este estilo que apresenta poderá afastar muitas pessoas da visualização do mesmo - sucedeu que muitas pessoas começaram logo a levantar-se das cadeiras quando se aperceberam que o filme estava a chegar ao fim -. Mas no final, «O Barão« revela-se como um bom filme, com algumas falhas a nível de argumento, é certo, mas que revela-se ser algumas vezes surpreendente e cativante. E vale a pena esperar pelo final dos créditos: há uma surpresa escondida para os mais pacientes (e é algo que, com certeza, fará soltar algumas gargalhadas). «O Barão» mostra ser um filme português que pretende distinguir-se do panorama da cinematografia lusa, e consegue mesmo fazê-lo. Quem manda aqui é mesmo «O Barão»! 

 Nota: * * * *

Doze Homens em Fúria


Doze indivíduos completamente diferentes formam o júri que terá de decidir qual o destino a dar a um jovem acusado de ter morto o próprio Pai. Todas as provas apresentadas vão contra o pobre moço. E onze dos jurados afirma a sua culpabilidade. O outro (interpretado pelo Grande Henry Fonda) está convencido da inocência do jovem, e contra todos os seus outros colegas e evidências, tentará convencê-los de que a sua opinião corresponde à verdade dos factos. O resultado? Um dos melhores e mais convincentes filmes sobre a justiça e a sociedade alguma vez feitos. 

Muitas vezes nenhum de nós consegue aperceber-se da complexidade que um caso jurídico tem (mais cá em Portugal que em outros países, é certo, mas adiante...) e todos os processos que levam à conclusão do mesmo. Mas acho que não é esse o tema principal de «Doze Homens em Fúria», o filme que marcou a estreia do Grande Sidney Lumet nas artes cinematográficas, que revela aqui uma abordagem ao filme que difere muito dos seus grandes clássicos dos anos 70 (década que foi a de ouro para o realizador. Basta pensar em «Serpico», «Um Dia de Cão» e «Escândalo na TV). A ação do filme desenrola-se quase na sua totalidade na sala em que os jurados se reúnem para debaterem o caso que têm em mãos. E ao longo do filme percebemos qual é a grande temática do mesmo: é a responsabilidade que dão a cada um daqueles jurados. Têm a vida daquele rapaz nas mãos. Se o considerarem culpado, é condenado à cadeira elétrica. E se descobrirem que, afinal, ele é inocente, é bem provável que lhes seja provocado um trauma para o resto das suas vidas. E caramba, se não acham que isto não é uma responsabilidade de peso, que passados mais de cinquenta anos sobre a estreia do filme (embora já tenha sido abolida a morte na cadeira elétrica) continua a ser um tema de debate muito interessante e preocupante, então nem vale a pena verem «Doze Homens em Fúria». Este é um filme notável, com certeza. Sidney Lumet mostra-se um indivíduo preocupado pela sociedade e por filmar os pequenos defeitos que o sistema judicial e político dos EUA apresentam, e que ainda hoje são atualíssimos. 

Outro ponto interessante deste filme é o facto de podermos acompanhar a evolução das personagens e como elas se apresentam melhor umas às outras e a nós mesmos. Conseguimos perceber as mentalidades de cada jurado (distintas umas das outras, diga-se) e os problemas de vida que cada um tem que enfrentar no dia-a-dia. E não precisamos de sair daquela sala, durante a maior parte do filme, para termos uma trama tão ou mais complexa que muito clássico sobre a justiça ou a política que hoje é conhecido e estimado. E aí está o trunfo de Sidney Lumet: consegue dar mais interesse a um único cenário que muitos realizadores nem atingem com efeitos especiais, cenários em 3D e coisas do género. É um filme muito educativo que todo o adolescente deveria ver, para aprender algumas coisas para a vida. Também dá para fazer uma pergunta: Como seria connosco, se tivéssemos num tribunal, a discutir um caso assim? Será que pararíamos para pensar e para tentar perceber o que está em jogo, ou só quereríamos era despachar aquilo e ir para o estádio, o mais rapidamente possível, ver o jogo da nossa equipa favorita (a preocupação de uma das personagens)? 

«Doze Homens em Fúria» é um extraordinário filme sobre o poder da justiça e o poder dos cidadãos. Uma grande lição de cinema e um filme que merece todo o reconhecimento que lhe possam dar (e justamente, é um dos filmes com melhor votação do IMDB). É um filme que chega a todos e que todos devem ver, sem dúvida. Um filme intemporal quer pelo seu conteúdo, quer pela lição social que pretende transmitir ao espetador.

Nota: * * * * * 

Vertigo - A Mulher que Viveu Duas Vezes



«Vertigo» (em português traduzido por «A Mulher que Viveu Duas Vezes», um título que parece que tem gosto em estragar-nos a visualização desta obra-prima) é um dos filmes mais conhecidos e estimados de Alfred Hitchcock, que agora anda nas bocas do mundo por ter substituído o intemporal «Citizen Kane» no topo de uma das mais conceituadas listas que, de dez em dez anos, vai averiguar qual é, para críticos e realizadores de cinema, o melhor filme de todos os tempos. Não obstante este facto, tive desde logo uma grande curiosidade para ver o filme.

Mas durante algum tempo tive dúvidas de que se Hitchcock me iria fascinar mesmo com este filme ou não, já que com outros filmes dele, a chama não foi aquela intensa, de nos fazer ficar de boca aberta e espantados com o que nos está a passar diante dos olhos. Falo, precisamente, em «Intriga Internacional» (apesar de ter gostado bastante do filme, não o punha entre os melhores filmes jamais feitos, como já vi em muitas listas espalhadas nos recantos da internet), e «Psycho» (OK, já vi este filme há uns anos. Aliás, nem o vi todo. Só consegui ver até à famosa cena do duche, mas de resto o filme não me estava a prender. Talvez tenha de fazer um novo visionamento, e desta vez integral). Mas, depois de ter visto «Vertigo», terei todas as dúvidas: ainda há razões para continuar a descobrir o Mestre do Suspense.

Aliás, só «Vertigo» dá todas as justificações possíveis e imaginárias para este epíteto criado pelos media e pelos críticos ao longo do tempo: é impossível não nos sentirmos assustados ou pressionados com algumas cenas da ação do filme auxiliadas por uma hábil realização de Alfred Hitchcock, combinada com uma poderosa banda sonora que nos faz sentir tudo e mais alguma coisa e que auxilia ao “terror” das cenas mais importantes de «Vertigo», mas também ao romantismo entre John Ferguson e Madeleine Elster. A combinação destes dois elementos, adicionando as grandes interpretações de todo o elenco (mas com atenção especial ao magnífico James Stewart e à versátil Kim Novak) cria uma junção de mestria e ilusão tão brilhante e cativante como poucos conseguem fazer hoje em dia. 

Teria dificuldade em escolher “um” melhor filme de todos os tempos. Já tive oportunidade de ver muitos e bons filmes que, com certeza, teria de pôr na primeira posição. Era mais provável ter mais filmes no primeiro lugar da minha lista pessoal que o número total de posições que consideraria ao executá-la. Mas não tenho dúvidas que «Vertigo» estaria entre os muitos filmes arrumados no número 1 da tabela. E consigo perceber o porquê de ser tão popular: porque além de ser um grande filme, é uma das histórias de Hitchcock que, apesar de constantemente imitada e plagiada, não perdeu um pingo de credibilidade passados mais de cinquenta anos após a sua estreia original. E isto sim, é algo de louvar!

Nota: * * * * *