sexta-feira, 31 de agosto de 2012

"Chantagem"... brevemente na televisão portuguesa (sim, é bem provável)

E numa altura em que os canais generalistas (mesmo a RTP, que para o ano, apesar da privtaização, prefere continuar a gastar rios de dinheiro e a não pôr verdadeira cultura no que será o único canal generalista da empresa )estão-se a preparar para a reentré televisiva, com as estreias dos mais variados reality-shows sobre os mais variados temas (cada um mais degradante que o outro), quer seja sobre pessoas com algum déficit de inteligência a partilharem uma casa e a serem filmadas 24 horas por dia, quer seja sobre indivíduos com excesso de peso a dançarem o tango, uma ideia para um formato proximamente a ser feito por algum dos canais poderá ser encontrada nesta paródia (actualíssima) dos Monty Python. A sério, hoje em dia não me admirava nada que alguma TV quisesse mesmo apostar uma parte do seu orçamento na feitura de um programa cujo nome fosse «Chantagem». Com todas as rubricas que o apresentador (interpretado por Michael Palin) mostra neste sketch, e acreditem, muito mais inofensivo do que muita coisa que a reality-TV deu ao mundo e que habituou os seus seguidores, estaria aqui a chave para um novo "hit" do momento, que depois poucos se lembrariam no futuro.
Fiquem com a sátira dos Python, e um bom fim de semana!

Rui Responde n.º 16 - O Regresso!

E eis que, finalmente, regressa esta famigerada rubrica do meu blog, que eu já tinha tantas saudades. E poderá manter-se no ativo por mais algum tempo. Basta mandarem as vossas perguntas para a caixa de comentários deste post ou para os meus mails. Quantas mais perguntas mandarem, mais vou eu ter de responder e de puxar pela cabeça, procurando respostas inventivas e patéticas.

Até agora tenho sete perguntas, o que me assegura duas edições (esta e mais outra) e uma pergunta que sobra para uma outra hipotética edição. Por isso, mandai as vossas perguntas, seres humanos possivelmente mais reais do que eu!

Mas vamos lá então pôr mãos à obra e responder a estas três perguntas (ai, as saudades que eu tinha disto!), e que são bem tramadas!

46.ª pergunta (uau, conseguiram fazer, até agora, mais de 46 perguntas sobre a minha pessoa? É obra!)

Se neste momento tivesses recursos ilimitados, que filme tu gostarias de fazer?

Tiago Videira (a.k.a Musicólogo)

Ui, logo para começar bem, uma pergunta complicada. O Musicólogo, junto com a pergunta feita, enviou uma descrição detalhada do que queria que a resposta à mesma contivesse («quero uma resposta imaginativa e detalhada: que história quererias contar e porquê, que actores gostarias de utilizar, que cenários, que tempo, que técnicas... etc... Puxa pelo teu desejo interior e mostra-me "o teu filme". Isso deverá dizer muito de ti e do que gostarias de oferecer ao mundo»). Bem, cá vou eu tentar responder a esta pergunta, que prometi que seria o mais detalhada possível:

Se eu tivesse, neste momento, tivesse recursos ilimitados, acho que gostaria, primeiro, de fazer um destes três projetos, todos baseados em livros que li e que gostei bastante:

1.º - Uma nova versão da «Crónica dos Bons Malandros». A meu ver, a versão do Fernando Lopes tem pouco do espírito da obra e tornou-se já um filme muito datado e muito chunga. Quando vi o filme fiquei muito dececionado por estar tão... tão... fraquinho. E não é por falta de recursos, não me venham cá com essa história. OK, podem não ter conseguido fazer a cena do (SPOILER) assalto à Gulbenkian (FIM DO SPOILER), mas era preciso colocar, para substituir, uma cena bizarra semelhante ao que uma pessoa pode ver se consumir cogumelos alucinogénicos? Até poderiam ter alterado um pouco a história e, sei lá, fazer noutro museu, ou lá o que fosse... mas nem isso poderia salvar muito o filme porque muitas vezes parece mais um reconto da história do que propriamente um filme... E quando acabei de ver o filme pensei logo que, se um dia trabalhasse no mundo do cinema, talvez seria uma boa ideia repescar a «Crónica dos Bons Malandros» e fazer um filme como deve ser. Não uma obra-prima, que dessas coisas não seria capaz, mas um filme melhor, um filme no verdadeiro sentido da palavra, e que fosse mais fiel ao estilo zambujalesco do livro. Para atores, até que seria giro trazer os do filme original, já todos septuagenários na atualidade, para um remake, mas não era capaz de ser boa ideia. Talvez na altura teria de fazer um grande casting para encontrar as pessoas certas para aquele rol de personagens fascinantes, como o Renato o Pacífico, o Silvino Bitoque (se não me falha a memória), etc, etc, etc. Cenário? As ruas de Lisboa, as mesmas do filme original. E a época, bem... acho que para uma história destas, não sei se poderia ambientar na atualidade ou na altura em que o livro foi feito... mas entre as duas hipóteses, acho que estou mais virado para os anos 80. Gostaria de fazer o filme utilizando o estilo de Martin Scorsese nos seus filmes de gangsters, com aquele ritmo rápido e fluído, que é o que perpassa toda a crónica de Mário Zambujal.

2.º - Uma adaptação do romance «The Catcher In the Rye», de J. D. Salinger. Li o livro no ano passado, adorei-o e tornou-se num dos meus preferidos de sempre. É um livro muito controverso e que semprem esteve envolvido em polémica (mais por causa do assassino do John Lennon que por outra coisa), e acho que, apesar de ser um livro muito bom e muito difícil de adaptar ao grande ecrã, gostaria de experimentar. Acho que, com muito trabalho e esforço, conseguiria fazer algo de bom, que não perdesse o espírito do livro e que conseguisse mostrar o melhor que Salinger escreveu na obra. É um daqueles projetos impossíveis, que gostaria de fazer, mas que, por um lado, tenho medo de meter a pata na poça. Mas porque não experimentar? Quem não arrisca não petisca! Em termos de atores, acho que é muito difícil estar aqui a escolher nomes. Não sei de nenhum ator da atualidade que vejo que seria bom para o papel do protagonista do livro ou para livro nem para as personagens secundárias. Teria de fazer outro casting, em busca de novoas talentos. Os cenários seriam também reais, ambientados nas ruas e espaços citados pelo livro, e a época também teria de ser a mesma do livro. Acho que na atualidade não funcionaria, mesmo, perderia muito por isso (apesar de, quando estava a ler o livro, sentia que aquelas cenas se passavam nos dias de hoje, poderiam ter sido escritas hoje que seriam iguais. Mas acho que, ambientadas na época descrita do livro, poderiam ter mais impacto e poderiam mostrar como as diferentes gerações tem vários pontos em comum umas com as outras. Para este filme, acho que uma realização com os estilos de Francis Ford Coppola e Sidney Lumet juntos, seria capaz de resultar. Para filmar um livro deste calibre, era preciso um misto de inspirações no «Serpico» e também no «Padrinho», vá-se lá saber porquê, mas acho que, se bem misturados, fariam a receita ideal para a melhor adaptação que eu poderia fazer de «The Catcher In the Rye».

3.º - Uma adaptação do romance «O Som e a Fúria» de William Faulkner. Este seria o projecto mais impossível dos projectos mais impossíveis do planeta, mas era outro livro que eu gostaria de ver adaptado ao cinema. Li o livro este Verão (proximamente falarei dele num post dedicado aos livros que li nestes férias), e acho que foi o mais marcante desta estação. Gostei imenso do livro e foi outro que subiu logo para o topo dos melhores que li até hoje. À medida que ia lendo o livro conseguia ver a cinematografia da história na minha cabeça, e acho que, apesar de ser um livro muito complexo e, por isso, muito difícil de ser bem adaptado ao cinema, gostaria de estar metido neste projeto. Ou então, se só pudesse filmar parte da história (que é tão longa que, se calhar, daria um filme de cinco horas), escolheria os dois últimos capítulos, mais próximos de uma narrativa mais linear e que eu considerei os mais cinematográficos do livro. São muito intensos, cheios de episódios muito interessantes e que merecem ser vistos no grande ecrã. E acho que devo ter um problema em relação a atores, porque nesta caso também fico um bocado confuso e não sei bem quem escolheria. Mas talvez até punha o Robert de Niro ou o Al Pacino a fazerem o papel do Tio Maury, vejo os dois atores como bons para esse papel. Em termos de cenários, seria a propriedade dos Compson (a família protagonista do livro) e, se fosse filmado o segundo capítulo da obra, teria de filmar na Universidade de Harvard (espaço onde se desenrola essa parte do livro). Em termos de técnica, utilizaria mais uma vez a referência do «Padrinho», uma história também sobre uma família, mas misturado com a obra-prima «O Gigante» de George Stevens. Vi muito deste filme neste livro e acho que poderia ser uma ótima inspiração se eu pegasse neste livro. Pensando bem, até era giro pôr o James Dean no papel de Quentin. Mas pronto, o ator já não está entre nós, e isso é impossível que aconteça. O tempo a utilizar também teria de ser o do livro, já que o mesmo segue uma dada cronologia narrativa.

47.ª pergunta

Tens alguma fobia?

Rita Gonçalves

É curioso porque tive de ir checar outra vez as anteriores edições do «Rui Responde» porque pensava que já tinha respondido a esta pergunta (e não, não tinha. Mas reparei foi como me tornei um pouco menos infantil em dois anos. É obra!). A resposta à tua pergunta poderá causar o gáudio dos meus arqui-inimigos, que se poderão aproveitar, assim, dos meus pontos fracos para me atacarem mais facilmente e destruírem o meu Império colossal e "ruiossal"... OK, chega de palermices.

Fobias não tenho muitas. Acho que é mesmo só uma. Tenho um pequeno trauma com abelhas. Quando era mais novo (tinha doze anos, se não me falha a memória) estava a jogar ténis ou lá o que fosse e uma abelha entrou-me para dentro dos óculos. Inteligente como sou, decidi tapar o olho a ver se a abelha ia-se embora (estava em pânico, claro) e ela ferrou-se-me mesmo na sobrancelha direita. Acho que foi mais ou menos a partir dessa altura que me fui apercebendo que o sotôr oftalmologista tinha razão: não preciso de andar com os óculos postos na rua. Não me faz falta. Só para ler, ou para ver televisão, ou para escrever estas baboseiras, isso sim, preciso das minhas lunetas. Mas para andar na rua, "jamé"! Aliás, porque o facto de ter retirado este acessório ajudou-me a ser um grande galã género Zézé Camarinha e... não. Com óculos ou sem óculos continuo a ser o mesmo idiota de sempre. Disso não tenho dúvidas.

48.ª pergunta

O que é suposto a vida ser?

Rita Gonçalves

Pronto! Claro! Tinha de ver a típica pergunta filosófica! Já se previa, não é? Porque é que às pessoas mais normais do mundo as pessoas perguntam estas coisas? Porque é que se dão ao trabalho de quererem saber o que eu opino sobre assuntos de uma complexidade refletiva tão vasta e longínqua do meu pequeno pensamentozinho? Porquê?

Deixando-me de queixinhas à parte, acho que cheguei à conclusão que é suposto a vida ser isto (citando os Monty Python):
Try and be nice to people, avoid eating fat, read a good book every now and then, get some walking in, and try and live together in peace and harmony with people of all creeds and nations.
Este é o significado que o grupo de humoristas arranjou para definir a vida, no filme «O Sentido da Vida». E eu acho que é isto mesmo. Às vezes as pessoas gostam de dar complexidade às coisas. Porque é que não podemos viver simplesmente e aproveitar tudo o que a vida nos dá? Para quê estar a inventar sentidos para a vida complicados se nunca servirão para nada? Por isso, digo, que a vida é suposto ser algo de bom para nós que deve ser aproveitado ao máximo.

E Pronto, ficam aqui estas três perguntas respondidas. A propósito desta última, Carpe Diem para todos vós e bom fim de semana. E claro, mandem as vossas perguntazinhas, sim?

Recebido!

E pronto, é só p'ra avisar que o calendário (prémio do passatempo alusivo à série Breaking Bad, que mais de 150 pessoas me ajudaram a obter com o seu like ao meu comentário) foi há pouco recebido aqui em casa. É um calendário engraçado, e apesar de ser de 2012 (portanto, faltam três meses para perder a validade) vale para qualquer fã. É uma boa peça de "memorabilia" da série.
Muito obrigado a todos os que me ajudaram e um bom fim de semana!

OK, aqui vou eu dizer bem de Rão Kyao!

Acho que já estou preparado para falar de um concerto invulgar, que pude assistir no sábado passado, numa Igreja em Albufeira.
Os meus Pais tinham dito «Vamos lá ver o Rão Kyao, que vai ser giro e é de graça». Primeiro fui um pouco de pé atrás pela "má fama" que o artista tinha junto de mim. Tinha-o visto tocar uma vez na televisão e não gostei. E costuma ser um alvo de piadas de muito humorista.
Mas fui então ao concerto, e posso afirmar que gostei. Estranhamente, este indivíduo portador de grandes laivos de idiotice e grande desrespeito pela música mais... meditativa, gostou do concerto de Rão Kyao, onde o artista transformou diversos cânticos religiosos em melodias para a sua flauta. Não fiquei um fã... mas gostei do que ouvi. Acho que a música mexeu comigo e fez-me refletir muito nas coisas, enquanto a estava a ouvir... é um tipo de música muito calma, muito pacífica... e talvez daí o facto de ter gostado de ouvir, e de querer experimentar outra vez. 
Acho que este caso pode ser visto como uma lição para todos nós. Não podemos julgar as coisas à primeira vista. É preciso conhecê-las bem de perto. E do Rão Kyao, fiquei com uma melhor perspetiva. Com certeza.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

A Sombra do Caçador


Aviso: pela primeira vez na vida, publico no blog uma crítica com spoilers - dados desmancha-prazeres que podem estragar a visualização de um filme. Por isso, se não quiserem ser incomodados (e bem!) por estes spoilers, queiram fazer o favor de não lerem o segundo e o terceiro parágrafo e o «exemplo» do quarto parágrafo deste texto. Estava a pensar cortar este texto, visto que foi pensado para o fórum «Gato Malhado», onde me pediram que fizesse algumas críticas mais extensas (que incluam, lá está, spoilers) aos melhores filmes que vou vendo. Aliás, a primeira dessas críticas foi «O Terceiro Homem», que sofreu um corte significativo, mas que não estragou o texto em si. Neste caso (que é o meu segundo "trabalho", ao nível destas críticas mais longas), decidi deixar a crítica na sua versão integral para evitar que houvessem partes soltas sem sentido (que é o que eu penso que aconteceria se procedesse à "censura"). Garanto que não volto a "spoilar" em tempos futuros, 'tá bom? Obrigado pela vossa atenção e boa leitura!

«A Sombra do Caçador» é outro filme que faz parte da lista das obras-primas inimitáveis e inigualáveis da História da Sétima Arte. Teve tudo para resultar, e apesar de, na época em que estreou, ter passado despercebido tanto pelo público como pela crítica (situação que ocorreu a muitos outros clássicos do cinema), todos agradecemos que alguém se tenha lembrado de fazer este filme, senão, hoje em dia esta grande peça histórica e cultural da Humanidade nunca teria existido. Foram precisos alguns anos para «A Sombra do Caçador» ser merecidamente reconhecida e ser justamente considerado um dos melhores filmes de sempre do Cinema Americano, mas melhor assim do que se tivesse perdido no tempo.  

Mas vejamos bem o que temos em mãos: ora, há Harry Powell (interpretado por um fantástico Robert Mitchum), um padre fanático, que acredita mais na condenação das almas do que na salvação das mesmas (e, quando digo condenação, a dita é feita pelas mãos do próprio indivíduo), e que tem, em cada mão, tatuadas as palavras "Amor" e "Ódio" (a cena em que Powell explica o porquê de ter estas duas palavras impressas nos seus dedos é memorável e uma das melhores do filme). Entretanto, Ben Harper, um homem casado e Pai de dois filhos, é condenado à morte, e encontra-se atrás das grades na mesma altura em que Powell foi apanhado a tentar cometer mais um dos seus crimes fanáticos. Depois do dito indivíduo morrer devido ao crime que cometeu, Powell decide apoderar-se do dinheiro que aquele deixara aos seus filhos, tentando entrar dentro da comunidade em que estão inseridos e conquistando a Mãe das duas crianças (John Harper e Pearl Harper), tornando-se o Pai adotivo delas e tornando a mulher num protótipo do fanatismo pregado por ele próprio. Os dois meninos tornam-se o alvo preferido de Harry Powell (pois só eles sabem onde é que os dez mil dólares do Pai estão escondidos) e, apesar da filha começar a gostar do senhor Powell, o filho desconfia sempre das intenções do padreco, tentando descobrir, afinal, o que é que aquele tipo anda ali a fazer. E em que é que tudo isto vai dar? Poderia ser num final semelhante a qualquer novela mexicana ou portuguesa, mas disto tudo resulta uma verdadeira obra de arte.

Gostava de salientar que, apesar de ser a personagem mais famosa do filme (sendo a ela que deve grande parte do seu prestígio), não é em Powell que a ação do mesmo se centra, mas sim em John Harper. O filme centra-se mais nos pensamentos do pequeno rapaz e nas formas que ele planeia para se livrar de Powell, e na sua forma de ver as coisas e de querer continuar a sua vida sem ter aquele homem por perto a tentar apoderar-se do seu dinheiro. Mas é interessante ver o filme desta perspetiva se nos lembrarmos de uma das cenas decisivas da história do filme, quando Harry Powell é (finalmente!) apanhado pela polícia: o pequeno John entra em desespero, e pela primeira vez, chama Powell de Pai (tinha recusado a considerá-lo como tal até àquela altura). O momento é dramático, e percebemos a confusão que vai na mente daquela criança, quando grita, a chorar, para Powell, magoado e caído no chão, que tome o dinheiro que causou tantos problemas: "Here! Here! Take it back. Take it back. I don't want it. It's too much. Here! Here!"

A realização de Charles Laughton (um ator de cinema que, depois deste, não realizou mais nenhum filme - talvez devido ao insucesso na época que obteve «A Sombra do Caçador») pega em todos os pormenores da história do filme para nos dar um visionamento de rara beleza e que aproveita todas as potencialidades do preto e branco e do film-noir. Veja-se, por exemplo, a cena em que as duas crianças fogem, num barco, do (nessa altura, temível) Harry Powell. Apesar das crianças sentirem muito medo de caírem nas garras do terrível Padre, Laughton aproveita para filmar a beleza do ambiente que rodeia o lago onde os meninos estão a viajar. Vemos os animaizinhos, os coelhinhos fofinhos... por momentos até nos esquecemos que aqueles dois pirralhos estão a fugir de um psicopata maluco e fanático... mas depois voltamos à realidade.

«A Sombra do Caçador» é também um filme que vai tirar muitas características técnicas e visuais ao Expressionismo Alemão dos Anos 20. É outra constante que podemos observar em muitas cenas do filme (praticamente as que mostram que ou os miúdos estão em sarilhos, ou que Powell está a preparar alguma) e que mostra ser uma grande "homenagem" (repito, "homenagem", não "cópia") ao que melhor se fez em termos de cinema nesse país, nessa era "doirada".

O filme contém uma extraordinária banda sonora, inconfundível, inesquecível e magistral. Composta por Walter Schumann, a música de «A Sombra do Caçador» assenta que nem uma luva à ação do filme. Schumann soube, com mestria, criar a composição ideal para todos os momentos, alegres ou tristes, que o filme mostra ao espetador. 

«A Sombra do Caçador» é um filme notável, por ser uma excelente crítica ao fanatismo religioso (que não era um tema tão debatido na época como é nos nossos dias) e ao oportunismo que inunda as relações humanas. É um filme que se tornou modelo para plágios (perdão, para outros filmes) que seguiram o mesmo género e os mesmos moldes da história, mas que felizmente, nunca conseguiram superar o original em tudo. Muito por culpa de Robert Mitchum e a sua icónica interpretação do Reverendo Harry Powell, que atingiu a verdadeira imortalidade com a participação neste filme. 

Uma nota também para destacar a eficácia desta personagem. A meu ver, uma personagem torna-se mais interessante, irreconhecível e brilhante pela subjetividade dos seus atos. Harry Powell é um exemplo disso, porque sabemos que Powell assassina todas aquelas vítimas, mas não vemos nada acontecer. Não precisamos, porque sabemos que é a verdade (da história, claro).

Para terminar, constato que adorei o filme. Tornou-se um marco de referência para a minha cultura cinematográfica, e não é de admirar que tenha um culto tão grande por entre os cinéfilos. Era o filme preferido do próprio Robert Mitchum (um ator pertencente àquela geração do já-não-se-fazem-atores-assim), e aconselho que vejam, ou revejam, ou re-revejam! É um filme que tem muito para ser explorado e admirado, e este texto foi apenas uma tentativa (falhada) de prestar homenagem a esta obra-prima do Cinema e da Cultura Mundial. Está recheado de grandes momentos, de grandes interpretações, e ninguém pode ficar indiferente a «A Sombra do Caçador» depois de o descobrir!

Nota: * * * * * 

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Um pequeno passo para o Homem...



Como não tenho estado muito tempo na internet por estes dias, algumas coisas que gostaria de assinalar e de, pelo menos, fazer referência, são abordadas algum tempo depois da ocorrência das mesmas. Contudo, não é demais fazer uma pequena homenagem a Neil Armstrong, o lendário astronauta que deixou a primeira pegada na Lua (e sim, eu acredito que tudo isso aconteceu) e que lançou uma frase de vitória e de esperança que ainda hoje é conhecida de todos nós. E quiçá, talvez um dia os seres humanos regressem ao solo lunar. Mas o primeiro a fazer esse feito (e de que maneira!) foi Neil Armstrong.

R.I.P

Um Lugar Para Viver

«Um Lugar Para Viver» foi uma das maiores surpresas que tive nos últimos tempos. Apesar de ter uma seleção mais ou menos rigorosa dos filmes que vejo, o que me faz não ter muitas desilusões cinematográficas, há certos filmes excelentes que passam por os meus olhos e que fico embasbacado por não ter conseguido imaginar que a qualidade dos mesmos poderia ser assim tão boa. Esse foi o caso deste filme, realizado por Sam Mendes, e protagonizado por uma grande dupla de atores, comediantes mais conhecidos pelos seus trabalhos televisivos (John Krasinski, do magnífico "remake" americano do clássico britânico «The Office», e Maya Rudolph, uma das maiores estrelas das mais recentes temporadas do «Saturday Night Live»), mas que em «Um Lugar Para Viver» têm interpretações dignas de serem premiadas.
O filme parece ter sofrido alguma desvalorização pela maior parte dos críticos e pelo público que vota no IMDB (está com rating de 7.1/10, apenas mais uma décima acima que «Uma Vida Inacabada»... mas OK, não entremos por esta via de discussão), mas adorei-o. É um filme que quase atinge o limiar da perfeição. Contém todos os ingredientes necessários para ser uma fita adorável, poderosa, hilariante e envolvente, e que, penso, deve ser vista por toda a família (exceto pelos mais piquenos, claro...). Vi este filme com os meus familiares e todos adorámos cada minuto do mesmo, apesar de termos todos gostos muito diferentes, mas que neste filme coincidiram. «Um Lugar Para Viver» retrata as relações familiares, as relações entre os membros de um casal, e as suas expetativas, ansiedades e preocupações para o seu futuro, enquanto indivíduos e enquanto parte de uma família.
Krasinski e Rudolph passeiam-se então por algumas partes dos EUA, visitando familiares ou amigos, em busca do melhor sítio para criarem a sua filha, que está por nascer. E é ao encontrarem-se com essas pessoas e ao depararem-se com ambientes e formas de vida tão distintas entre si que irão descobrir qual será, então, o lugar em que irão viver.
Sendo um filme diferente do habitual, «Um Lugar Para Viver» conta com um extraordinário elenco, uma excelente banda sonora e uma grande realização de Sam Mendes, que nos transmite grandes lições para a vida, e que mostra ser um filme simples, mas muito mais profundo do que aparenta.

Nota: * * * * *

sábado, 25 de agosto de 2012

Uma Vida Inacabada

E cá estou eu para, finalmente, fazer um update aos filmes que fui vendo nos últimos dias, em que estive mais ausentado das lides internetais. Começo por «Uma Vida Inacabada», um drama familiar com grandes atores e realizado pelo mesmo senhor que fez esse filme chamado «Chocolate».
Pena que só tenha descoberto este pormenor depois de ter acabado de ver o filme (e de ter pegado na caixa do DVD do «Chocolate», para comprovar que era o mesmo realizador), tendo constatado que a minha curta memória tinha razão. E daí suspirei: "Aaah, então é o mesmo senhor que fez esse filme com o Johnny Depp a fazer de cigano? 'Tá boa."
OK, deixemo-nos de "parlápiês" desnecessários, e vamos ao que interessa: Fiquei algo desiludido com esta filme. Mas por outro lado, é uma daquelas fitas que, se tivesse deixado de ver aos trinta minutos de visionamento, talvez pensaria "Ui, que filme! Mal posso esperar para me voltar a aconchegar no sofá para terminar, com regalo, de ver este filmaço!". «Uma Vida Inacabada» só pode ser mesmo julgado quando visionado na íntegra. Senão, pode dar asneira. Não é como os filmes de outros realizadores, que conseguem mostrar o que prometem com as suas obras, e que sabemos que vamos gostar até ao fim (no meu caso pessoal, até hoje os filmes de Woody Allen foram sempre a prova disso). Este é um filme muito inconstante.
Este filme contém muitas cenas desnecessárias que, se fossem cortadas, poderiam reduzir a história para a duração de uma curta-metragem. É um daqueles filmes que vemos uma vez na vida, sem ficarmos com grandes recordações do mesmo, e depois ficamos mais na expetativa para saber qual vai ser o próximo filme a ver. «Uma Vida Inacabada» contém também um sem-número de clichés e algum over-acting (por parte de Jennifer Lopez e da pequena Becca Gardner) que não percebem que não precisam de berrar ou de fazerem figuras tristes para nos apercebermos que estão numa má situação de vida. A história é insonsa, previsível até dizer chega (aliás, como o próprio «Chocolate»), mas que, digamos, até contém alguns diálogos interessantes e portentores de alguma graça.
Gostava de destacar a belíssima fotografia do filme. Aliás, se quiserem mesmo ver «Uma Vida Inacabada», podem mesmo só deixar o filme correr para ver as paisagens bonitas (cuidado é com o urso CGI, que é tão real como... oh pá, até o urso 'tá mal feito!). Mas pronto, queixinhas parvas à parte, este filme é bom entretenimento, e interessante para distrair durante uma hora e quarenta minutos. Ah, e também a dupla Morgan Freeman - Robert Redford, até é preciso dizer que funciona muito bem! Mas só conseguimos ter, com «Uma Vida Inacabada», uma forma boa de passar o tempo. Só que depois, a memória que ficaremos do mesmo, é que não será assim tão relevante...

Nota: * * * 1/2

... E depois pedi aos céus e fui ver os Amor Electro!



Mais um "show-case" na FNAC do Algarve Shopping, e desta vez com a presença dos notáveis Amor Electro, cuja performance foi mesmo de bradar aos céus! E sim, fico ainda mais convicto que a música portuguesa é boa e muita gente não sabe o que perde por pensar que "A Máquina" é a única música que vale a pena conhecer desta magnífica banda! Recomendado!

P.S - Fotografia tenho aqui no telemóvel, esqueci-me foi do cabo USB para passar. Mas imagens para quê? :)

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

R.I.P ao único canal de interesse dos generalistas

É pena que a RTP2, o único canal que tinha alguma programação de interesse durante a noite acabe... A RTP2 é um poço de cultura sem fim que vai ser destruído... é pena... Depois queixam-se que os canais de cabo aumentem a audiência...
Que mais posso dizer? De novo nada, toda a gente já manifestou a sua opinião. Apenas posso acrescentar que dantes a concorrência das generalistas era novela, documentário, novela e novela. Agora vai ser novela, novela e novela...

"Se Deus Quiser"... ainda encontro artistas de alto gabarito por estas bandas!

Ontem ouvi um mini concerto dado por uma grande banda portuguesa, os Virgem Suta, aqui numa FNAC das terras algarvias. Adquiri o disco, que é um mimo. As letras das canções são hilariantes, assim como as melodias das mesmas. E digo-vos, foi uma oportunidade de ouro conhecer artistas de tão elevada qualidade, que têm uma atitude tão simpática com os seus ouvintes e sabem agradar a toda a gente (mesmo aos mais murcões)! Valem muito a pena estas iniciativas da FNAC! E vale a pena que as pessoas apareçam! Tem sido bom estar a descansar, na praia, a chapinhar na água, a ler, a ver bons filmes e a ouvir grandes músicas como a dos Virgem Suta!

P.S - Não tenho conseguido estar na internet, mas quando conseguir, prometo que escrevo aqui mais coisas, porque tenho muito para rabiscar! Este pequeno post foi só para dar a prova que esta pessoa que sou eu ainda existe neste mundo...

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O Terceiro Homem



«O Terceiro Homem» é um dos maiores clássicos de sempre da História do Cinema, e um dos expoentes máximos do “film-noir”. É um filme excecional, e que só pude ver pela primeira vez ontem à noite. Fiquei imediatamente fã do filme, de toda a sua atmosfera, das suas personagens e da sua história. Aliás, eu já conhecia a história porque antes tinha lido o pequeno romance de Graham Greene que serviu de base à criação do filme. Mas se me guiasse apenas pelo livrinho, poderia pensar que o filme é completamente dispensável e uma perda de tempo (apesar de até ter gostado de o ler, fiquei um bocado de pé atrás porque não me pareceu ser nada de especial). Contudo, depois de ver o filme, mudei completamente de ideias. Além de várias cenas e pormenores da história terem sido acrescentados à versão original planeada por Greene no papel, a pobreza do texto é esquecida devido à grande força do elenco e da arte que este filme proporciona. Ler apenas o livro não nos consegue fazer perceber, à partida, como o filme pode ser tão bom, e mesmo melhor que o romance (um caso parecido com o que sucede com «Psycho» de Alfred Hitchcock).
O início do filme não é, de todo, banal. Aliás, é o género de abertura de um filme que deve ter sido muito bem pensada para agarrar o espetador e fazê-lo continuar a ver o que se irá desenrolar posteriormente. No início do filme ouvimos uma voz-off (que, segundo a Wikipédia, é a do próprio realizador do filme, Carol Reed) que nos quer fazer parecer familiar (fala num tom como que nos conhecesse há muito tempo e nos estivesse a contar uma história, qual avôzinho sentado no sofá rodeado pelos netos) e que nos explica um pouco do ambiente e das circunstâncias em que decorre a história do filme. E bem, estamos numa época pouco posterior ao final da II Guerra Mundial, na cidade de Viena que está dividida em quatro partes para os quatro países que, fundamentalmente, fizeram parte desse conflito: Inglaterra, EUA, Rússia e Alemanha.
Joseph Cotten (um ator pouco reconhecido e injustamente esquecido do público, que aqui tem uma grande interpretação) é Holly Martins, um escritor de romances baratos que vai até Viena para se encontrar com o seu grande amigo Harry Lime, que lhe ofereceu um trabalho na cidade. Mas logo após a sua chegada à casa de Lime, Holly recebe a notícia do falecimento do mesmo, vítima de um acidente automóvel. Mais tarde, Holly conhece Anna, a namorada de Lime, e as duas pessoas que estiveram com ele quando morreu: o Barão Kurtz e Popescu. À medida que o filme se vai desenrolando, e à medida que Martins aborda as pessoas que conheciam Lime, apercebe-se que a morte do seu amigo de infância poderá não ter sido acidental…
«O Terceiro Homem» é um filme que está muito bem realizado, que recorreu à utilização de planos e ângulos de câmara diferentes e sem dúvida inovadores para a época (e cuja inovação persiste nos nossos dias). A atenção ao pormenor e a filmagem de certos elementos peculiares chamou-me a atenção. 
Gostaria também de salientar a excelente banda sonora do filme, composta por Anton Zaras e tocada com apenas um único instrumento, o “Zither”. É impossível não ficarmos com a música de abertura do filme (que se repete diversas vezes ao longo do mesmo) na nossa cabeça durante horas. É uma grande banda sonora, muito simples, mas muito eficaz, e que é uma das mais reconhecíveis e lendárias de todas as bandas sonoras de todos os filmes do planeta.
Cada vez mais gosto de “film-noir”. É que os filmes deste género são mesmo daqueles filmes que são impossíveis de serem vistos a cores. Se fosse feita uma nova versão de «O Terceiro Homem» sem este tom acinzentado, acho que, com certeza, o filme não teria a mesma tensão, a mesma profundidade e a mesma originalidade que carrega. É como os Simpsons. Poderiam não ser amarelos? Sim, mas não era a mesma coisa. Homer Simpson igual a nós? Côa breca! Este é um filme completamente… perfeito, e merece todos os aplausos que forem possíveis receber. Influenciou e continua a influenciar muitas gerações, e é obrigatório todos verem!

Nota: * * * * * 

sábado, 18 de agosto de 2012

Casamento Escandaloso



A década de 40 foi uma década "dourada" para a comédia cinematográfica norte-americana sofisticada. Um género de filme que, ao contrário de muitas fitas que por hoje circulam e que se assumem como comédia (mas que, se formos a ver bem, olhar para uma parede durante horas a fio poderá causar-nos muito mais gargalhadas do que a visualização de escassos minutos desses filmes), mostrava-se singular pelas histórias apresentadas, pelas personagens e pelos atores que as interpretavam. Foi uma época de glória para a farsa (a comédia de enganos), para a sátira social e para a crítica de costumes dos seres humanos, sem qualquer tipo de distinção. 

«Casamento Escandaloso», um filme realizado por George Cukor e que conta com as interpretações de Katharine Hepburn, Cary Grant e James Stewart, é um dos grandes exemplos do melhor que se fez em termos cinematográficos nos EUA durante esse período de sucesso para o país, e é tido como uma das melhores comédias de sempre. E não é para menos: «Casamento Escandaloso» tem tudo para bater certo e funcionar para qualquer tipo de espetador e para todos os gostos cinéfilos. A história não é muito elaborada, mas é impossível não conseguir ver o filme até ao fim. Apesar de ter tido logo uma larga suspeita de como toda aquela encrenca iria acabar, o que é facto é que não consegui desligar o televisor nem parar de ver o filme. E penso que é desta matéria que são feitos os grandes filmes, que não valem apenas pelo final ou por uma ou outra cena estrondosamente popular (uma popularidade que, muitas vezes, é levada à exaustão) e que obriga a visualização do seu filme só para sentirmos aquele dejá-vu na parte em que ouvimos a personagem a dizer a frase que todos sabemos de cor. «Casamento Escandaloso» vale pelo seu todo, pelo conjunto de ingredientes que foram precisos juntar para a sua feitura: uma peça de teatro que resulta tão bem no grande ecrã como no palco, um grande elenco de atores soberbos (cujas interpretações, perdoem-me o saudosismo, já não se "fazem" hoje em dia...), um realizador que está à altura do argumento do filme e a fórmula do melhor entretenimento que a América tem proporcionado a várias gerações de espetadores.

Mas o que mais gostei em «Casamento Escandaloso» foi mesmo o seu argumento, e que tem de ser merecidamente destacado (embora, volte a repetir, todos os outros "componentes" do filme funcionam perfeitamente). Aqueles diálogos, repletos de ironia e piadas inteligentes que soam tão bem hoje como soavam há mais de setenta anos, quando o filme estreou (e que são a principal causa, na minha opinião, da grande graça deste filme) têm de ser atentamente escutados (e lidos nas legendas, se necessário). É um argumento que está muito bem escrito e que mostra a complexidade linguística das personagens do filme, que nunca deixam de ser, ao longo de toda a duração do mesmo, portentoras de grandes doses de credibilidade e de humanidade.

Por fim, deixo um apelo: seria bom que as pessoas voltassem a ver estes clássicos (que têm passado, ultimamente, com mais regularidade nas televisões, algo que é de louvar) e não os deixassem cair no esquecimento. «Casamento Escandaloso» nem tem razões de queixa porque é até um filme que tem sido muito acarinhado pelo público nos últimos anos, mas mesmo assim, se puderem, vejam clássicos deste calibre. Recordam uma época diferente da nossa, mas que, contudo, não deixa de ter grandes parecenças com a atualidade... 

Nota: * * * * 1/2

Um apelo para o regresso de uma rubrica deste blog

Hum... estive a ler os posts de uma rubrica "abandonada" deste blog, e depois pensei, e acho que já estava na altura de regressar esta que era uma das mais famosas rubricas da Companhia das Amêndoas (embora, vejamos, no caso deste blog, a "fama" é pouca ou quase nenhuma), o «Rui Responde», que consiste, basicamente, em eu responder a perguntas colocadas por vós, leitores das minhas palavras mal soletradas. Convido toda a gente a mandar perguntas para este post, para os meus mails, para o blog... enfim, só sei é que a resposta é garantida! 
Mandem lá as vossas questões... tenho saudades das respostas patéticas que eu dava! :)

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

O Segredo dos Seus Olhos



Não sei como posso descrever as sensações que me deu o visionamento de «O Segredo dos Seus Olhos», um filme de Juan José Campanella que arrecadou um Óscar da Academia para melhor filme estrangeiro. Aliás, deve-se notar muito a minha enorme incapacidade para descrever o que quer que seja. Mas acho que posso falar um pouco (e não muito em pormenor, porque, quando faço estas críticas, esqueço-me sempre de diversas ideias que tinha planeado antes da escrita das mesmas) do que achei do filme, que embora seja de uma maneira muito redutora, espero que consiga dar a entender o porquê de ter gostado tanto desta fita.
A história de «O Segredo dos Seus Olhos» é construída de uma forma intrincada e complexa, e que vai buscar alguns tradicionalismos do policial e dos grandes thrillers cinematográficos. Contudo, as influências que Campanella e a sua companhia seguiram para fazerem este filme não são suficientes para danificar a grande originalidade do mesmo (ao contrário do que acontece com muitos casos em que se sucede o oposto – o cliché inunda o filme, não dando sequer a entender o que é novo naquele filme do que já foi usado e abusado), fator que é bastante auxiliado pelo grande elenco que encarna as personagens de «O Segredo dos Seus Olhos» (com o protagonista Ricardo Darín, um ator de que eu já tinha ficado fã com o filme «O Filho da Noiva», também realizado por Campanella). 
Misturando um caso romântico com um crime e sua investigação em duas épocas distintas (anos 70 e finais dos anos 90), «O Segredo dos Seus Olhos» é um filme que me prendeu ao ecrã do início ao fim. Não por ser um drama num estilo diferente do que o cinema americano costuma (re)utilizar,  nem tão pouco por ser um policial que, nas mãos erradas, poderia cair no maior extremo da banalidade (aliás, é o que poderá acontecer se o estúdio americano que pretende fazer um remake desta obra cinematográfica argentina não o fizer de uma forma que não estrague o significado do filme original). Gostei bastante deste filme porque, simplesmente, é um grande filme, que apesar de não “emanar” o perfume de obra-prima mirabolante e magistral da História de todo o Cinema, é uma obra que está excelente em todos os aspetos! E o Óscar com certeza que foi merecido. Porque «O Segredo dos Seus Olhos» é um filme tocante, viciante, bonito e uma grande obra cinematográfica. Pode não ser o símbolo da perfeição da Sétima Arte, mas caramba! É um filme cujo investimento na visualização dos seus 120 minutos será completamente recompensador. E mais do que isto, penso que não é necessário afirmar, porque lá dizem que as imagens (neste caso, as que estão em movimento – sei que o dito popular não diz exatamente isto, mas penso que o significado seja igual nos dois casos) valem mais que mil palavras…

Nota: * * * * *

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Donnie Darko



Arrisco-me a dizer que nunca um filme me tinha deixado tão perturbado como «Donnie Darko», que vi na noite de segunda-feira passada. Este é um filme nada convencional, que me deixou completamente arrepiado com o que retirei do visionamento do mesmo. E aliás, acho que vou ter de o rever muito em breve, dado o número de questões que gostaria de tirar a limpo.
Mas porque é que «Donnie Darko» é um filme tão… tão… estranho, mas ao mesmo tempo tão bom? Na minha humilde opinião, Richard Kelly (realizador e autor do argumento do filme) acertou na “muche”. Ao construir uma história que gira em torno de um personagem com diversos distúrbios mentais e que cria uma sucessão de acontecimentos bizarros e surpreendentes, Kelly deu ao mundo uma obra cinematográfica incomparável e insuperável. Sinceramente, este é dos poucos filmes que me causou um arrepio na espinha – e não é um filme de terror, atenção! – e que me deixou completamente abananado, como que perdido neste vasto universo.
OK, esta comparação foi demasiado estúpida, mas depois de ver «Donnie Darko», a boca aberta continuou aberta por mais alguns minutos - outra coisa que só acontece com o visionamento de determinados filmes, e que me faz pôr este no topo, junto dos melhores de sempre. E se há fita que merece o desígnio de “filme de culto”, terá de ser, com certeza, «Donnie Darko».
Mas falando de outras coisas (embora seja um bocado difícil porque não consigo articular frases interessantes sobre o filme, o que me parece extremamente injusto devido à soberba qualidade do mesmo… mas enfim, é a minha cabecinha), devo destacar também a interpretação de Jake Gyllenhaal como o protagonista que dá título ao filme. Apesar de sempre ter achado que este ator tem um certo ar estranho que o levaria sempre a ser chamado para interpretar personagens com certos problemas nos miolos, é em «Donnie Darko» que todo o seu “charme” bizarro é elevado ao máximo (porque, obviamente, este é um filme sobre um miúdo completamente “chalado”. Talvez noutros filmes que não sejam sobre esse… tema…, o ar de Gyllenhaal não o favoreça… mas isso é outra história).
Sinto um grande vazio com a feitura desta crítica porque não consegui escrever nada do que eu queria (devido, em parte, ao facto que poderia estar a cometer um gravíssimo ato de “spoileirização” com as minhas palavras), mas só sei mesmo terminar este texto recomendando vivamente este filme. Não é nada do que algum de vós poderá ter visto antes, nem é nada do que algum de vós poderá ver depois… espero eu! «Donnie Darko» já deixou uma marca bem presente no cinema contemporâneo, e de todos os filmes que a malta da minha geração adora (alguns de uma maneira muito excessiva, diga-se), este é dos poucos que me parece ser merecedor de toda a adoração de que é “vítima”. E eu passei a ser mais um dos fãs de «Donnie Darko»!

Nota: * * * * *

domingo, 12 de agosto de 2012

Um pedido de ajuda deste ser vivo que sou eu para um passatempo do facebook!


Aos (poucos) leitores do meu humilde blog, um apelo para me ajudarem num passatempo relacionado com a série «Breaking Bad» (da qual estou a ficar cada vez mais fã!). O prémio é um calendário, e como se trata daqueles concursos de likes, estou a pedir o vosso auxílio, que poderá sempre fazer a diferença!

Para poderem ajudar este miserável caixa d'óculos, precisam apenas de fazer o seguinte:

1.º - fazer like nesta página http://www.facebook.com/Breaking.Bad.Portugal

2.º - e depois. fazer mais um like, mas no meu comentário desta foto:  www.facebook.com/photo.php?fbid=257443427706296&set=a.257133354403970.56892.169030823214224&type=1&theater

Fico muito agradecido se ajudarem neste passatempo, e se puderem, divulguem-no junto dos vossos amigos!

Obrigado e bom domingo!

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O insustentável peso da comunicação social: A vitória de Portugal e a reação dos media


Parece que finalmente, Portugal conseguiu conquistar uma medalha nos Jogos Olímpicos. A modalidade foi a de canoagem e, como certamente devereis saber, foi uma medalha de prata, conquista que deve ser reconhecida como merecida pelos nossos atletas tugas. 
A vitória foi motivo de júbilo para uns (um júbilo que se está a revelar algo exagerado, mas é como tudo nesta vida) e de idiotice para outros. E quando falo da idiotice, refiro-me, claro, à nossa comunicação social. E porquê? Por uma razão muito simples: jornais, rádio, televisão e internet aproveitaram-se do facto de Portugal ter ganho essa almejada medalhinha prateada para criar, qual grupo de psicopatas do jornalismo, uma série de notícias que envolvessem esta vitória, ou o maior número possível de "sumo" que se poderia tirar desta "laranja".
Ou seja, depois de toda a nação ter ficado ao corrente da notícia da nossa vitória em Londres, começou a enchente de notícias que de informação pouco ou nada têm. A história de vida dos atletas, entrevista aos familiares dos atletas (e um deles, pelo que eu vi, poderia ser considerado o "Elvis Presley" português - mas com bigode), o que é que os atletas gostam de fazer, o facebook dos atletas, etc, etc, etc... 
Por um lado, esta cena toda (que se mostra comum nas notícias nacionais, já vi isto acontecer pelo menos numa dúzia de ocasiões distintas) fez-me recordar um filme que vi há uns meses (e cuja crítica publiquei no blog), que se chama «Flags Of Our Fathers - As Bandeiras dos Nossos Pais». A semelhança desta fita com a situação que apresento neste post é que, em ambos os casos, os media ajudam a distorcer as coisas e a dar extrema popularidade a um acontecimento (que não recebeu o tratamento que merecia), deixando com que, pouco tempo depois, caia vertiginosamente no esquecimento da opinião pública.
Não haveria outras maneiras de mostrar o orgulho que os portugueses têm deste pequeno feito (que, se formos a ver bem, só nos podemos orgulhar de acontecimentos desta pequenez)? Mais, não haveria outra maneira de dar espaço a toda a informação, ocupando mais com as notícias mais importantes e não dando tanta importância a esta (que por ser um caso de patriotismo e que dá garantidamente audiências, foi abusivamente utilizado)? Mais ainda, será que algum dia os serviços informativos perceberão o que é realmente uma notícia?
Disto tenho dúvidas. É mais importante ouvir os políticos a queixarem-se uns dos outros, o Otelo a dizer uns bitaites para a TV, e depois meia hora seguidinha dedicada a todos os clubes de futebol nacionais, desde o Benfica até ao Merdaleja Sport Club. E depois, lá pelo meio, lembrarem-se que estão também a decorrer os Jogos Olímpicos, dando mais espaço para este evento desportivo por causa da medalha conquistada, porque assim nos voltamos a lembrar do orgulho que temos da nossa pátria. 
Mas daqui a dois ou três dias, será como que Portugal nunca tivesse atingido este feito. O "bombardeamento" aconteceu dias antes e já se fartaram de o usar...
Mas é como o final do «Network - Escândalo na TV». Pode acontecer tudo e mais alguma coisa, mas as notícias continuam. E amanhã, existirão novos casos que serão "notícia". 
Volto a repetir: acho que devemos dar os parabéns aos nossos atletas. Mas que não nos esqueçamos que isto, de facto, aconteceu, e que não foi apenas mais um caso de rotina...

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Aconteceu no Oeste


Se não fosse este tal de Sergio Leone a dar uma "esparguetada" ao género Western, arrisco-me a afirmar que o mundo não seria o mesmo. É que os filmes do senhor Leone estão tão integrados na cultura popular e cinematográfica que se tornaram documentos muito significativos e comprovativos da passagem dos seres humanos pelo planeta Terra. OK, isto já é um exagero, mas há que fazer as respetivas vénias a Sergio Leone e à sua mente brilhante, criadora de clássicos cinematográficos intemporais como o épico «Era Uma Vez na América» (altamente recomendado, está claro) e este Western, que vi na noite de ontem, de nome «Aconteceu no Oeste». Este filme tornou-se, tal como o da «América», um dos melhores que já vi, e entrou logo para a lista dos meus filmes preferidos.

 E o que resulta tão bem neste «Aconteceu no Oeste»? Acho que é, simplesmente, devido à mesma dupla de ingredientes com que foi cozinhada a sua obra prima «Era Uma Vez na América»: Antes de mais nada, é preciso um Leone para o filme ser como é. Os planos de câmara, as sequências de ação e de drama, a construção das personagens e da história, só seria possível ser feita da forma como é mostrada em «Aconteceu no Oeste» com um indivíduo, que é esse tal italiano Sergio Leone. Depois, quem diz Leone fala também em Morricone, o fantástico compositor de bandas sonoras cinematográficas, e cujas obras para os filmes "leonianos" dão uma chama ainda maior ao filme e o tornam mais intenso e inesquecível. 

 Adorei tudo o que havia para adorar em «Aconteceu no Oeste». E todo o filme, cada frame que constitui esta maravilhosa (deixemo-nos de conversas) obra-prima forma uma peça cinematográfica inesquecível e que se mantém inigualável a tudo o que se fez desde a sua estreia e de tudo o que se fará nos tempos futuros. Sergio Leone foi um génio da Sétima Arte, e das poucas pessoas que conseguia tornar cada momento do filme digno de ser memorável e entusiasmante, do mais relevante ao mais insignificante. E isso é um feito que um grupo muito restrito de realizadores consegue alcançar. Leone faz parte da cambada de autores que eram apaixonados pelo cinema de uma maneira tão forte (ou maior) que a que tinham pela vida. E «Aconteceu no Oeste» é um dos grandes triunfos de Leone. Um Western que não se fica por esse género e se torna uma lição de cinema para todos os gostos e críticas. Quem viu este filme e não sentiu diferença em si mesmo depois de acabar o seu visionamento, recomendo que o veja outra vez, "fachavor". Porque «Aconteceu no Oeste» não é (felizmente) um filme qualquer. É uma espetacular fita que deve continuar a ser objeto de culto e apreciação por parte dos seus seguidores, por muitas e muitas gerações. 

 Nota: * * * * *

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

A Quadrilha Selvagem (The Wild Bunch)


«A Quadrilha Selvagem» mostra ser um filme de uma qualidade rara e de uma frescura incomparável. Passados mais de quarenta anos sobre a sua estreia, o filme ainda causa polémica na atualidade pela sua violência e a sua forma de mostrar o género Western. Sam Peckinpah realizou este filme e co-escreveu o argumento do mesmo, naquele que é, sem dúvida, o seu filme mais conhecido e admirado. E acho que, depois de ter visto «A Quadrilha Selvagem» e os documentários que fazem parte dos extras da edição DVD, apercebi-me que conheço mesmo pouco da obra deste realizador, tão subestimado pela maioria das pessoas e cuja carreira tem muito boa "fruta" para ser colhida.
Sam Peckinpah adorava o género Western, que foi o que usou na maioria dos seus filmes. Em certa medida, «A Quadrilha Selvagem» marca o fim (temporário) dos sucessos de crítica e bilheteira dos Westerns, mas por outro lado, foi com este filme que se deu início a uma nova perspetiva de ver o Cinema, com uma nova forma de se mostrar a violência, mais provocadora e chocante (e que se desenvolve cada vez mais) auxiliado com os melhores ingredientes que são necessários para se obter um Western excelente. «A Quadrilha Selvagem» retrata também o fim de uma era, a do Velho Oeste e de todas as suas particularidades, já que se situa cronologicamente no princípio do século XX, que marcaria uma grande viragem para os Estados Unidos da América.
«A Quadrilha Selvagem» segue as desventuras de um bando de criminosos (liderados por Pike Bishop, interpretado por um excecional William Holden) que pretendem fazer o seu último "trabalho" ao ajudarem um general mexicano a obter um carregamento de armas, assaltando o comboio de onde vieram as mesmas, ao mesmo tempo que há uma espécie de jogo do "gato-e-rato" em que Pike e a sua pandilha são perseguidos por Deke Thornton (interpretado por Robert Ryan) e uns quantos caçadores de prémios, que pretendem obter a sua recompensa com a captura desta "quadrilha selvagem".
Em «A Quadrilha Selvagem», o espetador não apoia os bons, mas sim os maus da fita. Torcemos para que a Quadrilha se safe dos sarilhos em que se metem, apesar de sabermos que aquele bando se trata de um grupo de homicidas, sedentos pela recompensa dos seus assaltos, sem olhar a meios para a conseguir obter. Mas ao longo do filme apercebemo-nos que, lá no fundo, nem são más pessoas e só são, apenas, os últimos "sobreviventes" dos últimos dias do "Far West".
Sam Peckinpah realiza este fantástico filme, inesquecível, bem composto e ritmado, e recheado com um elenco de atores de grande qualidade, naquele que é um dos Westerns mais marcantes da História do Cinema e que continuará a dar que falar por muito tempo.

Nota: * * * * *

«North Atlantic» na Final em Veneza

Boa notícia: a curta-metragem «North Atlantic», de Bernardo Nascimento, que era uma das concorrentes do concurso Youtube Film Festival, conseguiu chegar à final e ser uma das dez curtas que o Senhor Ridley Scott terá de visionar no Festival de Veneza, para escolher a grande vencedora (e que obterá o prémio de passar a curta para uma longa-metragem).
Esperemos que Scott escolha de maneira sábia. Mas se fosse a curta tuga... era melhor para nós, não é?