Underground: Era Uma Vez um País


Nenhuma guerra é guerra enquanto irmão não mata irmão.

Uma brilhante visão de um país e de uma cultura que nos é completamente desconhecida, «Underground: Era Uma Vez um País» marcou a segunda aclamação do realizador Emir Kusturica no Festival de Cannes. Dez anos depois de ter recebido a Palma de Ouro, em 1985, pelo filme «O Pai foi em Viagem de Negócios» (uma cativante história dramática sobre os problemas vividos na Jugoslávia de Tito), Kusturica volta a conquistar, triunfante, o Festival francês de cinema, recebendo o segundo galardão máximo de Cannes da sua carreira.

«Underground: Era Uma Vez um País» é um filme marcado pelo surrealismo, pelo humor e pela seriedade, elementos que são habituais na filmografia de Emir Kusturica, mas que são "cozinhados" de maneiras diferentes em cada um dos seus filmes (como por exemplo, algumas das suas obras são mais parvas - no bom sentido do termo - do que outras, como por exemplo, o divertidíssimo «Gato Preto Gato Branco»). A obra segue a mesma linha de crítica política de «O Pai foi em Viagem de Negócios», com o tempo do Informbiro e, mais tarde, da ditadura totalitária do estadista Tito, a serem alguns dos pontos fulcrais desta grande epopeia sérvia.

O filme divide-se em três partes cronologicamente distintas e que se tratam de três guerras, de proporções maiores ou menores, e que auxiliam a contar a história dos dois "amigos" protagonistas do filmes: a primeira parte é a "Guerra" (ou seja, a Segunda Guerra Mundial e como as pessoas, naquele país, conseguiram sobreviver - ou não - à invasão dos nazis); a segunda parte é a "Guerra Fria", e a terceira e última parte volta a ter o nome de "Guerra" (mas desta vez, esta guerra trata-se do conflito interno da Jugoslávia, no princípio dos anos 90, e que marcou o fim do regime político do país e da denominação atribuída ao mesmo até então). Podemos percecionar, assim, que a temática de «Underground: Era Uma Vez um País» é a guerra e suas consequências para a vida da população. Mas não, este filme tem muito mais do que isso, sendo também uma genuína história de amor, traição e "amizade" que me agradou pela originalidade e excentricidade utilizada para ser contada.

Não posso dizer que alguma das personagens do filme seja... normal. E pela palavra "normal" pretendo dizer que os indivíduos que rodeiam o imaginário da obra de Kusturica não se tratam de personagens que sigam os padrões a que nós, espetadores ocidentais mais habituados à cinematografia norte-americana, vejamos regularmente nos filmes que vamos visionando. É que todo o pessoal de «Underground» tem sentimentos e ideias que nos podem parecer estranhos a princípio, mas a pouco e pouco vamos reparando, ao longo do filme, que aquela gente é mais séria, mais humana (quer para o bem, quer para o mal), mais cómica e mais credível do que podíamos esperar à partida.

A mistura entre imagens reais, provenientes de documentes históricos audiovisuais, com a ficção criada por Kusturica e companhia, é esplêndida. Acerta sempre e nunca nos deixa ficar desiludidos. E vale a pena ter atenção redobrada numa sequência que transfere a ação do filme da primeira parte ("Guerra") para a segunda parte ("Guerra Fria"), com a ascensão de Tito ao poder, ambientada por uma forte, poderosa e conhecidíssima peça de música erudita (não preciso de dizer qual é, porque pelo nome nem eu próprio chegaria lá... vejam o filme e perceberão qual é esta dita peça).

Destaco também a profunda sátira e ironia que Kusturica emprega nesta sua caricatura dos usos e costumes do seu país, além de algumas características da psicologia humana abordadas e que são comuns a todos os outros povos, como a traição e a ganância. Através da história de dois homens durante mais de quarenta anos de História, e dos caminhos opostos que tomam devido às decisões que tomaram e que influenciam sempre a sua vida, «Underground» revela a ingenuidade da alma humana e como as situações da existência se repetem constantemente ao longo das gerações, independentemente do quão conturbada seja a época que se esteja a viver. Mas penso que, acima de tudo, Kusturica quis, mais uma vez, dar a conhecer ao Mundo a história do seu país, que nunca nos pareceu ser suficientemente bem contada, dando.nos uma visão muito subjetiva, mas alarmantemente atual, da evolução e retrocesso do seu país em termos económicos, políticos e sociais.

Pecando apenas por ser um pouco longo demais em certas partes, «Underground: Era Uma Vez um País» é um filme épico maravilhoso sobre a política, a família, a amizade (e a falsa amizade) e a guerra e suas implicações. E apesar de todas as excentricidades apresentadas, quer pelo guião, quer pelas (magníficas) interpretações do excelente elenco, quer pela fluída e inteligente realização de Emir Kusturica, o filme consegue ser um retrato profundo e dramático da história de um país e de um modelo político. Contém muitas cenas de pura magia cinematográfica (e isto nota-se, principalmente, na terceira parte da fita), e que redobram a originalidade e a criatividade do grande cineasta Emir Kusturica.

* * * * 1/2

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