South Park - O Filme


Adoro o universo de South Park, a mítica série de comédia animada criada por Trey Parker e Matt Stone e emitida no canal Comedy Central (um dos grandes expoentes do humor televisivo nos EUA - é lá que são também transmitidos programas célebres como «The Daily Show» ou o seu spin-off «The Colbert Report»). E a adaptação cinematográfica da série televisiva foi o primeiro filme na minha vida que vi sem legendas, há cerca de uns quatro anos. Algumas piadas poderão ter-me passado ao lado na altura, mas recordava-me do essencial do filme e das partes onde que tinha soltado mais (e ruidosas) gargalhadas. Não há dúvidas que «South Park - O Filme» é uma grande comédia, que leva a criatividade de Parker e Stone aos limites do impossível. Todos os pormenores da série e todas as possibilidades do grande ecrã foram aproveitados para a elaboração desta fita animada. Além de possuir todas as marcas do humor satírico e corrosivo da dupla de humoristas, «South Park - O Filme» é também um musical, repleto de melodias e letras hilariantes, e que mostrou ser um sinal das capacidades de Parker e Stone para este tipo de entretenimento, algo que ficou de vez comprovado com a peça que criaram para a Broadway, «The Book of Mormon», e que recebeu variadíssimos prémios, como os Tony Awards, os mais importantes na área do Teatro.

Em «South Park - O Filme», a pequena cidade e os seus habitantes atingem proporções nunca antes vistas, com a estreia de um filme canadiano no cinema de South Park. Terrence e Philip, os dois comediantes que Kyle, Stan, Cartman e Kenny adoram, estão pela primeira vez no grande ecrã, com um filme corrosivo, ordinário, idiota, e por isso polémico e controverso para os Pais da criançada da cidade. Claramente, esta situação apresentada na história do filme é também uma sátira à constante polémica e censura de que a série «South Park» tem sido alvo ao longo dos anos, desde o seu "nascimento". A estreia da fita leva muita garotada a ir vê-la e conseguir entrar no cinema, apesar do filme estar interdito a menores de 18 anos. Os efeitos do filme nos miúdos são irreversíveis: a sua linguagem torna-se muito mais ordinária e badalhoca, mas a gota de água foi a experiência de Kenny a tentar imitar um dos truques dos humoristas canadianos, o que levou ao seu (já habitual) falecimento. E os progenitores, depois desta tragédia (quer dizer, o Kenny já foi tantas vezes desta para melhor que cada novo falecimento já não pode ser considerado como uma tragédia, mas sim uma rotina...) põem todas as culpas na obra de Terrence e Philip (qual país, qual sociedade, qual quê! Aqueles dois canadianos é que são as reencarnações do Diabo na Terra!) e declaram guerra aberta ao Canadá (com um momento musical, «Blame Canada», que é de rir e chorar por mais! Aliás, esta canção esteve nomeada para o Oscar...). E esta situação totalmente ridícula serve para, ao estilo que a série de televisão tão bem nos costumou, gozar com a América e suas idiossincrasias com uma garra e um génio que muitos poucos têm a ousadia de utilizar.

«South Park - O Filme» só será ofensivo para quem assim o entender. Contudo, penso que esse não tivesse sido o objetivo de Trey Parker e Matt Stone com este universo, os episódios da TV e esta fita. É "apenas" uma grande sátira, de proporções (quase) épicas, sobre tudo e mais alguma coisa. Desde o fanatismo e censura que os americanos "construíram" nas últimas décadas (censura essa que os leva, por vezes, a tomar medidas extremas - no filme, é a eclosão de uma guerra contra o Canadá, tudo por causa de dois humoristas e o seu filme pateta), às idiotices da infância (apesar dos quatro amigos falarem, por vezes, como gente grande, há sempre momentos em que se parodia a sua própria condição de crianças), passando pela liberdade de expressão, o controlo da criação cultural pelas autoridades e as desculpas que os americanos constantemente dão para os seus filhos serem como são (nunca é por culpa dos Pais, mas sim da sociedade, do país vizinho, da televisão...). No meio de várias paródias musicais quer às peças da Broadway, quer aos filmes da Disney, quer a algumas das míticas frases da série, «South Park - O Filme» mostra o melhor e o pior daquela cidade, num filme hilariante e repleto de grandes cenas, com um humor negro e excêntrico difícil de agradar a todos os públicos, mas essencial para os admiradores da série ou deste género de comédia. Uma obra surpreendente que não perdeu atualidade com o passar dos anos (apesar do ajudante do Diabo, Saddam Hussein, já não estar entre nós, a piada mantém-se, e continuar-se-á a manter por muito mais tempo) e pensada ao pormenor, para agradar a todos os fãs do programa e desagradar aos que o consideram a causa de todos os males dos Estados Unidos da América. Brilhante!

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