quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

O Quarto Mandamento (The Magnificent Ambersons)


«O Quarto Mandamento» (adaptação lusa de «The Magnificent Ambersons», uma tradução cuja simbologia eu tentarei teorizar mais adiante neste texto) pode ser visto como um dos filmes mais "sofredores" da História do Cinema, e dos poucos que, garantidamente, têm uma história de bastidores que daria, com certeza, uma fita igualmente espetacular. Não é para menos, visto que o filme foi vítima de um corte gigantesco de um terço da sua duração original, para satisfazer a vontade dos senhores da RKO (a distribuidora que financiou o filme de Welles e que pretendia retirar dele o máximo lucro possível, apesar do filme anterior do realizador, o mítico «Citizen Kane», ter sido um autêntico flop no box-office), visto estes não terem achado que a visão cinematográfica de Welles era viável para atrair as audiências às salas de cinema. A polémica e a discussão em volta do que terá motivado a esta "remontagem" de «O Quarto Mandamento» e as verdadeiras intenções e perspetivas que Welles pretendia transmitir no seu projeto continuarão a suceder-se durante décadas, visto que, do filme original, apenas se sabe da existência do guião integral escrito por Welles, que contém todas as cenas eliminadas da obra, e as cenas de filme que foram cortadas pelos produtores foram destruídas pelos mesmos, o que impede definitivamente a descoberta total de «O Quarto Mandamento» (a não ser que, por aí algures num país muito distante, algum arquivo descubra umas quantas caixas cheias de pó incluindo estes fragmentos - nunca se sabe, aconteceu uma situação semelhante com o «Metropolis» de Fritz Lang, que agora pode ser visto, finalmente, na versão original do realizador em versão DVD e Blu-ray). Pena é que também, por causa da destruição dos negativos originais, as novas gerações não possam ver o filme com imagem e som decentes (a edição portuguesa em DVD do filme - Costa do Castelo Filmes - deve ter sido, a par com a comédia «Não o Levarás Contigo» de Frank Capra, o filme com maior degradação que já pude ver neste formato), visto que é impossível restaurar-se a cópia da fita que ficou guardada e que o National Film Registry preserva desde os anos 90, quando nomeou «O Quarto Mandamento» para o seu precioso "cofre".

Contudo, apesar de muitos críticos e estudiosos apontarem o corte brutal de «O Quarto Mandamento» como a causa para que o filme não pudesse chegar às pessoas como a obra prima que Welles idealizou, fiquei bastante impressionado com a obra. Não poderei dizer que o filme "soube a pouco", ou que se sentia alguma falta de cenas ou de elementos fundamentais para a narrativa (ao contrário do que acontece com a maioria dos filmes portugueses que estreiam no cinema - pouco tempo depois, dão na televisão numa versão maior, e alguns desses filmes estreiam versões exibidas das salas que parecem algo "amputadas"), porque, apesar de todos os problemas que teve de enfrentar, «O Quarto Mandamento» ficou, para a posteridade, como um excelente filme dramático e de uma qualidade praticamente igual à de «Citizen Kane». Entre escolher qual dos dois é o melhor, para mim é impossível. São ambos grandes filmes, que não podem ser menosprezados. Mas felizmente, Welles conseguiu agradar suficientemente aos produtores para conseguir manter o espírito da sua obra e a "inesquecibilidade" da experiência de ver este filme, algo que muito me agradou. Penso rever «O Quarto Mandamento» muito em breve, porque achei que esta obra tem tanto para ser visto e analisado que apenas uma visualização não basta, tal é a grandiosidade da história da família Amberson e da forma como Orson Welles nos transmite todas as emoções das personagens e da época em que se inserem, repleta de aristocracia e de hipocrisia, tal como a contemporaneidade.

Os planos e os ângulos de câmara planejados por Welles são brilhantes, assim como todo o trabalho de atores (que são, na sua maioria, vindos do Mercury Radio Theatre, do qual Welles também fez parte), destacando as interpretações de Joseph Cotten (um veterano e grande amigo de Welles, que já tinha marcado o seu enorme talento em «Citizen Kane» e voltaria a surpreender alguns anos depois no papel de Holly Martins, o protagonista do thriller «O Terceiro Homem» de Carol Reed), que aqui é Eugene, um papel muito forte e que marca o conflito geracional que terá com George, a personagem de Tim Holt (também numa grande interpretação), o filho da eterna amada de Eugene, não querendo que a sua Mãe se "desonre" por causa do seu antigo amor, perdido devido a um incidente que os afastou por vários anos. Dollores Costello é o terceiro ponto alto de «O Quarto Mandamento» em termos de elenco, interpretando a irmã de Lucy (a Mãe de George) a histérica Isabel, que além de estar também eternamente apaixonada por Eugene, tem cá uns ataques depressivos que nem vos falo. Fazem tanta impressão que parecem ser mesmo reais.

Não me posso esquecer de mencionar também todos os cenários de «O Quarto Mandamento», um espetacular festim para os olhos em termos cinematográficos, e que Orson Welles soube aproveitar da melhor forma. Majestosos e grandiosos (e que foram muito dispendiosos para a RKO, dando um prejuízo muito alto para o estúdio norte-americano), estes cenários são um verdadeiro encanto e tornam-se num elemento tão fundamental para a compreensão da obra como as interpretações dos atores, a realização de Welles e o argumento escrito pelo mesmo (e baseado no romance de Booth Tarkington)

«O Quarto Mandamento» ficou um filme curtinho, depois do corte dos senhores com os bolsos cheios de notas. Contudo, os seus 88 minutos valem muito mais do que eu poderia alguma vez imaginar. É um filme que impressiona visualmente, emocionalmente e mesmo racionalmente. Apesar da edição portuguesa em DVD do filme possuir a tal péssima qualidade, acho que não é por isso que o filme perca qualidade "material", do seu conteúdo (se valesse só pela limpidez da imagem, então não era um grande filme... é como estas coisas do 3D, que, dizem, acrescentam coisas ao visionamento de uma fita... ora essa!, a fita vale por si, não pelos seus adereços!). E um pormenor engraçado e que deve ser também destacado: o próprio Welles, que apesar de ter reencarnado o papel de Tim Holt na versão do Mercury Radio Theatre, preferiu ficar apenas atrás das câmaras desta vez. Contudo, é responsável pela narração voz-off de «O Quarto Mandamento», que de uma forma muito interessante nos conta alguns pormenores do filme e, no início, nos faz uma espécie de crónica, comparando a época em que se passa a ação do filme, com a realidade dos anos 40, em que a rapidez da vida já era uma constante. Os créditos finais são também narrados pelo próprio Welles, numa medida proposta pelo realizador para não deixar as pessoas tão "deprimidas" depois de saírem do cinema. Algo engraçado e peculiar, este pequeno pormenor técnico. 

Contudo, «O Quarto Mandamento» não é uma comédia, mas também não pode ser visto totalmente como um drama pesado. Não sei porquê, mas encontrei muitas semelhanças entre esta história com as novelas de Eça de Queiroz ou de Camilo Castelo Branco, pela parte satírica que faz da época, ao mesmo tempo que aborda uma situação séria e que nos pode tocar (ou não - depende da sensibilidade de cada um). Sem querer mais engonhar, porque acho que já disse demasiado, recomendo, sem sombra de dúvidas, «O Quarto Mandamento», uma obra que sofreu pela sua grandiosidade, mas que sobreviveu até hoje num formato mais pequeno, mas que não perdeu nada em termos de qualidade e excelência. Uma pérola! 

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