O Menino Selvagem


«O Menino Selvagem» é um filme que retrata a importância da cultura e sua aprendizagem para cada um de nós poder viver em sociedade. Realizado por François Truffaut (o realizador que conceituou-se com obras aclamadíssimas como «Os Quatrocentos Golpes» e «Jules e Jim»), o filme parte do caso verídico de Victor de Aveyron, uma criança que vivia em cativeiro e que, ao ser analisada e estudada pelo Dr. Itard, um investigador francês, mostra como a privação do convívio social e da ausência absoluta de educação pode trazer consequências na maneira de pensar, agir e sentir do ser humano. A criança em questão, que obteveo seu nome por "baptismo" do Dr. Itard, foi encontrada na floresta por um grupo de aldeões, que lhes mostrou ter comportamentos muito pouco habituais num ser humano, e atitudes praticamente animalescas que obteve durante o tempo que viveu isolado dos Homens.

Ao conhecer mais de perto o menino, que primeiramente foi investigado por um cientista que o designou de "idiota", o Dr. Itard decide ficar com ele para poder provar que a cultura só pode ser aprendida, não sendo, por isso, herdada geneticamente. Com Victor, o investigador apercebe-se de como a criança foi afetada fisica e psicologicamente por ter vivido afastada da sociedade. Por exemplo, no princípio das experiências que o Dr. Itard efetuou (e que deixou para a posteridade, felizmente, através de constantes registos de cada nova descoberta feita sobre o garoto), Victor anda completamente curvado (uma postura semelhante à de um macaco), com as mãos e os pés a servirem de patas, não sabe vestir-se (precisa, constantemente, de ajuda por parte de Itard ou da sua ama para conseguir pôr corretamente cada peça de roupa) nem comer ou beber corretamente (ou seja, não exerce estes atos como qualquer ser humano faria, notando-se, por isso, que não recebeu a educação devida para a condição de humano de que é possuidor) e não sabe articular nenhuma palavra. Contudo, as experiências do Dr. Itard vão alterar tudo isso, e as mudanças que se irão suceder em Victor podem ser testemunhadas ao longo que a ação do filme se desenrola: aprende a andar direito e com as costas direitas, começa a entender como se formam palavras, associa objetos, emite pequenos sons (como a palavra "leite" - "lait" - que, proferida pelo rapazinho, até se torna algo hilariante)... Assim, Itard conseguiu provar a influência que a vida em sociedade e que a educação exercem nas atitudes e nos comportamentos do ser humano, mostrando, então, que a cultura só pode ser transmitida através da aprendizagem do indivíduo (através de vários núcleos como a família e a escola). Foi um grande passo para a Ciência moderna e para o aparecimento de muitas outras investigações posteriores envolvendo estas temáticas. 

«O Menino Selvagem», não sendo um dos filmes mais conceituados da vastíssima filmografia de François Truffaut, torna-se uma obra importante para compreender todos os mecanismos e todas as circunstâncias que nos fazem ser quem e como somos. O próprio realizador interpreta Itard, num desempenho um pouco banal, mas que não deixa de ser convincente e que cumpre a sua função de aproximar o espetador, o mais preciso possível, da realidade vivida pelo investigador e das experiências que efetuou com Victor de Aveyron. A realização é leve, simples e direta, o que pode tornar «O Menino Selvagem» um filme mais acessível para qualquer tipo de público - e quando digo isto, estou a referir-me, principalmente, a malta dos dezoito anos para baixo que detesta filmes a preto e branco sem nenhuma razão verdadeiramente justificável - e mais credível, por filmar a realidade tal como ela é e sem adereços de maior. A banda sonora, apesar de ser pouca e muito repetida, não deixa de ser boa para os nossos ouvidos e de nos ficar na cabeça durante um tempo, dependendo da memória e gosto de cada um. O jovem que interpreta Victor de Aveyron é, sem sombra de dúvida, o ponto alto de «O Menino Selvagem». A interpretação do garoto está muito boa, e é ela que se torna o primordial ponto de contacto entre o espetador e o filme. O argumento peca apenas por ter um final um pouco abrupto, na minha opinião, mas para as limitações que a produção de Truffaut teve para ser concretizada, está muito acima do aceitável, e penso que se trata de uma história muito bem escrita e que contém cenas inesquecíveis (maioritariamente, as que envolvem as experiências e exercícios com Victor), que são relatados de uma maneira muito humana e detalhada.

Tive a oportunidade de ver «O Menino Selvagem» na disciplina de Sociologia, a mais apropriada - juntamente com Psicologia - para o filme ser visto. É uma obra muito educacional e, por isso, objeto de relacionamentos constantes com as matérias das duas disciplinas mencionadas. É um bom filme, que se vê muito bem e cuja visualização passa num instante, sem darmos por isso. Além de escolar, «O Menino Selvagem» trata-se também de uma fita familiar, simples e humana, sobre a vida de cada ser humano e os condicionamentos que sofremos, ao longo da nossa existência, para nos tornarmos as pessoas que somos no quotidiano. É uma obra que abre espaço para a reflexão e para a discussão, e que deve ser vista por todos. Não sendo um filme de qualidade acima da média, «O Menino Selvagem» conseguiu persistir ao tempo pela sua simplicidade e pela constante atualidade dos seus temas. Um filme honesto, acima de tudo.

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