O homem que matou Liberty Valance

Isto é o Oeste. Quando a lenda se torna num facto, publica-se a lenda.

«O homem que matou Liberty Valance» é um dos westerns mais famosos de sempre (e dos filmes que mais lucro e popularidade trouxe ao realizador John Ford), e para muitos um dos melhores filmes do género. Um relato em estado puro do "far-west", atento a todos os pormenores, sendo um filme minucioso no que respeita à recriação dos ambientes e situações vividas pelas pessoas que viveram nesta época maravilhosamente lendária para os Estados Unidos da América. O western é o género a que, incontornavelmente, todo e qualquer cineasta associa primeiramente quando é John Ford de que se fala. O próprio cineasta afirmou uma vez a célebre frase: "Eu sou o John Ford e faço westerns", o que mostrava que, apesar do realizador ter conseguido fazer filmes de excelência noutros géneros cinematográficos (veja-se, por exemplo, «A Grande Esperança» - no título original, «Young Mr. Lincoln» - um filme dramático sobre os primeiros anos de Abraham Lincoln como advogado), eram os westerns que Ford guardava com mais carinho na sua memória. E não é para menos, visto que muitos consideram hoje em dia alguns seus filmes de "coboiada" (como por exemplo, «A Desaparecida», «A Paixão dos Fortes», e este filme que é o alvo desta crítica) como os seus melhores trabalhos.

Neste «O homem que matou Liberty Valance» encontrei um western à minha medida, que adorei e que, penso eu, dada a sua simbologia e complexidade, irei rever variadíssimas vezes nos próximos tempos. E neste filme já gostei muito mais de ver o ator John Wayne: se em «A Desaparecida» o caracterizei como um pouco canastrão, achei que o seu papel nesta obra e a sua performance foram totalmente convincentes, e Wayne agarrou, para mim, no personagem com uma força que só pode ser comprovada por quem vir o filme. Adorei a relação entre as duas personagens centrais da obra, Tom Doniphon (John Wayne) e Ransom Stobbard (personagem interpretado pelo Grande James Stewart, com mais uma grande e inesquecível interpretação), dois atores que, como afirma o cartaz promocional da fita, contracenam pela primeira vez um com o outro, e penso que foi assim criada uma forte e poderosa química entre os dois atores, que perfazem um dos pontos altos deste filme.

«O homem que matou Liberty Valance» trata-se de um western que não funciona apenas como excelente e inteligente entretenimento. É um filme que abrange uma série de diversas reflexões filosóficas, psicológicas e sociológicas, que cada um poderá descobrir pela perspetiva com que ficará da fita após o seu visionamento. Além de ser o retrato do final de uma era gloriosa para os EUA, o filme pode ser visto como uma crítica à atualidade, em que a burocracia excessiva atrasa bastante os casos de justiça, arrastando-os por demasiado tempo e acabando a "verdadeira" justiça por nunca vir ao de cima. Com a revisitação de uma época em que a pistola desempenhava a Lei nas cidades, mas que começa a ser "invadida" por entendedores da verdadeira Lei (essa normalizada e escrita), talvez consigamos perceber, com «O homem que matou Liberty Valance», que hoje em dia chegámos a um extremo exatamente oposto ao do tempo de Tom Doniphon, Ransom Stobbard e Liberty Valance, em que a Lei em demasia e mal executada é que governa.

Lee Marvin interpreta em grande estilo o vilão do filme, o temido e sanguinário Liberty Valance, que entrará em duelo (num confronto à séria e repleto de tensão) com Ransom Stobbard, o jovem advogado que chega a Shimbone e que vê o sistema de "Lei do Mais Forte" como algo a ser proibido para que a pequena cidade consiga viver sossegadamente e sem perturbações de maior. Contudo, o confronto entre as duas realidades, de dois homens enraizados em "culturas" completamente distintas, marcará a forte mensagem pessimista de todo o filme, estreado numa época em que o género western estava já a dar poucos sinais de vida. O contraste entre Stobbard e Doniphon mostra também essa dualidade de retrato do passado e do presente (da época em que o filme estreou): o homem instruído da grande cidade, símbolo da nova era que os EUA irá ver surgir, a pouco e pouco, em todos os seus Estados (em alguns com mais incidência do que noutros); face ao pistoleiro valentão número um da cidade, símbolo do fim da era do "far-west", e em parte, do género western no cinema americano.

As referências a figuras históricas ou a lendas urbanas do Oeste americano podem ser atentamente observadas durante toda a obra, como Horace Greeleu, um dos pioneiros da imprensa escrita na América do Norte e um dos primeiros grandes homens do jornalismo e da divulgação das notícias no país. A referência a esta personalidade verídica é feita pelo fundador, redator, repórter... do "Shinbone Star", o jornal da cidade, que conta que Greeley foi um dos seus Mestres e que dele bebeu muita influência para seguir uma carreira no jornalismo, mesmo que provinciano. Apenas uma pequena sugestão de leitura: Horace Greeley foi parodiado/homenageado no franchise de Lucky Luke, o cowboy que dispara mais rápido que a própria sombra criado por Morris,, no álbum «O Daily Star». A presença do jornal na cidade onde se passa a ação do filme serve também para demonstrar o poder da comunicação social na criação de "heróis" e na perspetiva que temos de cada indivíduo. Basta ler a frase retirada do filme que eu coloquei no início deste post, e percebemos como os media, tanto nos anos finais do Oeste como hoje em dia, ainda exercem uma forte influência em cada um de nós. 

«O homem que matou Liberty Valance» é também uma amostra da constante evolucão da educação e da mentalidade dos cidadãos americanos, com a chegada da escolarização pela personagem de James Stewart e os primórdios de uma nova América, virada para o progresso e para o futuro. Em Shinbone desaparecerão gradualmente os John Waynes para darem lugar aos James Stewarts, que acreditam na educação como a base da Lei e da Ordem, e não na arma de fogo. Mas é interessante a forma como as duas "eras" se chocam, algo que é principalmente visível em cenas como a pequena "aula" de tiro "oferecida" por Doniphon a Stobbard (e que acaba mal... para Stobbard) ou o final do filme, que nos faz entender que, apesar de todo o progresso, a América não perdeu a sua ruralidade nem o gosto pela mesma.

O filme não possui daqueles acessórios técnicos que ficaram associados a westerns anteriores de John Ford, como a música demasiado impregnada na ação do filme (algo que marca excessivamente «A Desaparecida», o filme que é vulgarmente considerado como uma obra prima da filmografia de Ford e da cinematografia americana em geral - mas que eu acho que perde um pouco pelos acessórios em volta da mesma). Este é um western mais puro, real, dinâmico, humano e original. É mais uma das múltiplas e variadas colaborações entre o realizador John Ford e o ator John Wayne, uma das duplas que melhor caracteriza o cinema clássico americano, e que, em «O homem que matou Liberty Valance», estiveram envolvidos na criação de um excelente e inesquecível western, um género que, apesar de na época estar a dar os últimos sinais de (uma longa) vida, tem ainda muito para dar e vender hoje em dia. É um género tão complexo e variado que não deve ser visto como antiquado ou ultrapassado sem ser devidamente conhecido. E este filme é, sem dúvida, uma prova superlativa de que o género western deve ser descoberto!

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