segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Memento


Que há para dizer sobre «Memento», a longa metragem que revelou, definitivamente, a visão cinematográfica de Christopher Nolan ao Mundo (sendo um dos realizadores mais seguidos e celebrados da atualidade)? Penso que muito pouco, visto que o filme fala completamente por si. É totalmente impossível conseguir transmitir, pelas palavras mais exatas, o impacto que o filme me causou. Posso apenas dizer que foi um impacto de grandes proporções. Este é daqueles filmes para deixar uma pessoa completamente "abananada" e sem muitas palavras para poder proferir sobre a experiência que sentiu.

Vi este filme por sugestão da disciplina de Psicologia. Dentro do tópico do esquecimento, o filme era sugerido visto que «Memento» tem, como protagonista, um indivíduo de nome Leonard Shelby, que possui uma invulgar incapacidade, provocada por uma agressão, que se trata de uma anomalia no sistema nervoso que não lhe permite obter novas recordações. Lenny (como é incessantemente tratado por diversas personagens de «Memento» - apesar de ele não gostar da alcunha) não tem memória imediata, perdendo assim a capacidade de recordar um momento que ocorreu alguns minutos antes. Lenny vive num quebra-cabeças diário para conseguir superar as dificuldades da sua vida, e para conseguir continuar a sua persistente investigação em busca do assassino da sua esposa. Através de uma série de tatuagens que vai pondo no corpo e algumas notas que vai escrevendo, que contêm informação essencial para ele saber como agir em determinada situação, Lenny entra num caminho sem aparente fim, em que não consegue, realmente, perceber quem lhe diz a verdade e quem lhe está a mentir.

E esta dúvida permanente de Lenny percorre também, em parte, a mente do espetador, mas as nossas próprias incertezas dissipam-se ao longo do desenrolar da história, enquanto o personagem continua sem saber bem em quem deve acreditar. É que «Memento» está estruturado de uma forma diferente, que quebra completamente com as regras tradicionais da narrativa cinematográfica. Este filme tem uma estrutura não linear, com duas histórias paralelas, sobre o mesmo personagem, a serem contadas de forma intercalada. A diferença entre ambas é que se localizam, cronologicamente, em datas diferentes, o que nos ajuda a perceber, à medida que nos confrontamos com o passado de Shelby, o porquê das suas ações e comportamentos no presente. E «Memento» está elaborado de uma forma tão precisa, tão detalhada e tão ritmada, que não poupo elogios ao engenhoso trabalho de Christopher Nolan. O guião e situações criadas por Nolan e seu irmão (que escreveu a história que o realizador converteu para argumento cinematográfico) revelam uma força narrativa e artística muito marcante e própria, que mostrava como Nolan tinha muito para dar ao Mundo do Cinema. E até hoje isso se sucede, com a quantidade de filmes inovadores e brilhantes que o cineasta tem produzido nos últimos anos (dos quais destaco, principalmente, «A Origem», um filme semi-épico e grandioso com uma história também ela complexa e muito intrincada). Mas se todos os realizadores se estreassem (verdadeiramente) no circuito comercial do cinema (visto que Nolan tinha realizado, antes, o pequeno filme «Following», mas apenas com «Memento» conseguiu estabelecer-se como um realizador de excelência e que deve ser tomado em conta) com um filme tão criativo, tão inovador e tão controverso, era obra. Poucos o conseguem, e Nolan conseguiu-o.

«Memento» fala sobre a mentalidade de cada um de nós, dos nossos medos e receios, do estado da nossa memória e como podemos ser alvo de manipulação através de alguma falha de recordações que possamos vir a ter em determinado momento. Não estou a conseguir escrever grande coisa sobre o filme (talvez pelo que eu disse - não consigo dizer muito sobre uma experiência tão pouco possível de ser verbalizada) mas aconselho vivamente «Memento», não só para quem gosta de ser arrasado com uma experiência cinematográfica completamente nova, como também para aqueles que dizem que o Cinema já não é o que era: apesar de isso ser verdade (mas mais, a meu ver, por uma questão temporal - nada do passado é igual ao que é do presente, e vice-versa - do que de qualidade, que é o que algumas pessoas dizem com toda a certeza) e de os tempos serem outros, é possível sermos, ainda, apanhados de surpresa com algo de que não estávamos à espera de que fosse tão bom. O Cinema é feito de outra maneira do que nas décadas anteriores, e já não há Humphrey Bogart, ou James Cagney, ou Marlon Brando. Mas existem pessoas que sabem aproveitar as melhores qualidades que o Cinema recente proporciona, e elaborar um filme superior aos demais, que usam apenas efeitos especiais só porque sim e porque "é o que o povo gosta". «Memento» é um filme desafiador e comprometedor, mas que ninguém perde em ver, muito pelo contrário!

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