sábado, 8 de dezembro de 2012

Luzes da Ribalta


Estamos no ano de 1952: após o grande fracasso, de público e de crítica, que constituiu a sua anterior obra, «Monsieur Verdoux» (que entre nós tem o nome de «O Barba Azul»), Charlie Chaplin vê-se cada vez mais desprezado pelos EUA, o país que o acolheu e que o deu a conhecer ao resto do Mundo. Tanto pelas falsas acusações de comunismo, cimentadas por uma época de fanatismo e perseguição políticas que marcou profundamente os anos 40 e 50, tanto pela forma como Chaplin se sente afastado do seu público (ou, melhor dizendo, o afastamento que as audiências americanas fazem gradualmente à vida e obra do genial cineasta), é notória a forma como Chaplin se sente desgastado pelas pressões e pela forma muito conservadora e fanática como muitos americanos veem os seus filmes, de uma maneira pretensiosa que leva a que sejam julgadas as peças cinematográficas do autor (provavelmente, das mais bonitas alguma vez feitas na História da Sétima Arte) de uma maneira completamente errada.

Contudo, Chaplin arranja uma maneira de transpôr, para o meio artístico, os seus receios e medos reais, com este bonito e comovente drama que dá pelo nome de «Luzes da Ribalta». Convicto de que este seria o último filme que realizaria em toda a sua carreira (algo que, de facto, não se sucedeu, visto que, após este, realizou mais dois: «Um Rei em Nova Iorque» e «A Condessa de Hong Kong»), Chaplin não sabia, à partida, que depois de concluído, o filme seria o motivo do seu grandioso regresso à Europa e a Inglaterra, país onde nasceu e passou os primeiros anos de vida, num ambiente angustiante e repleto de miséria. Foi a regressar ao Velho Continente que o ex-Charlot compreendeu que ainda havia motivos para acreditar na sensibilidade e honestidade do público. «Luzes da Ribalta» só seria verdadeiramente descoberto pelo povo americano vinte anos depois da sua estreia, quando Chaplin perdoou os EUA pelos erros que cometeu, ao receber um Oscar honorário de carreira e outro para a extraordinária banda sonora de «Luzes da Ribalta». Contudo, este brilhante filme faz-nos entender perfeitamente o que Chaplin sentia e receava, através de toda a história deste filme e suas personagens. Calvero, o palhaço entristecido por ter perdido o seu público, interpretado por Chaplin, é apenas um alter-ego do realizador. Em tudo é igual a Chaplin, menos no nome, e também por Chaplin ter sido o "Little Tramp", e Calvero ter sido o "Old". Ah, e fundamentalmente, a parte amorosa da coisa: enquanto que o "Little Tramp" sofre de amores nunca correspondidos (à exceção do filme «Tempos Modernos»), o "Old Tramp" é seguido por uma rapariga jovem que não percebe, verdadeiramente, o que sente por ele.

«Luzes da Ribalta» será, provavelmente, um dos filmes mais bonitos e poéticos de toda a carreira do artista dos sete ofícios. E possivelmente, será a obra mais autobiográfica da sua extensa filmografia. E também a mais pesada, quer em termos cinematográficos, quer em termos emocionais. A força do melodrama vivido por Calvero e a jovem bailarina Terry eleva a arte de Charlie Chaplin a um nível nunca antes possível de ser contemplado. O guião está carregado de cenas profundamente tristes e melancólicas, assim como as poderosas interpretações de todo o elenco. Mas há também lugar para pequenas reflexões sobre a vida, e momentos dos espetáculos de Calvero (quer em sonhos do antigo artista, quer na realidade) e da bailarina Terry, que ganha força e coragem para continuar a sua carreira depois de Calvero a ter salvo do suicídio. «Luzes da Ribalta» está cheio de pequenos pormenores e apontamentos cinematográficos que são dignos de serem observados com muita atenção: como referi, o filme tem um pendor muito autobiográfico. Esta autobiografia revela-se em dois aspetos: tanto pelo tempo "presente" da elaboração do filme, quando Chaplin tinha de encarar inúmeros e constantes problemas com diversas facções americanas, tanto pelo sentimento de nostalgia de Chaplin em relação à sua infância (nostalgia essa vista no vestuário e maneiras de expressar de Terry - Chaplin pôs nesta personagem muitos aspetos físicos e psicológicos que se assemelhavam aos da sua Mãe, uma artista de vaudeville que sofreu na cara a perda de público que Calvero recorda, em sonhos, no filme - assim como o ano em que se passa a história: 1914, época em que Chaplin estava a dar os primeiros passos para a fama). 

No filme estiveram envolvidos muitos membros da família de Chaplin, como a sua própria esposa Oona O'Neill (que substitui Claire Bloom, a atriz que interpreta Terry, em dois planos de curta duração - nem se nota a momentânea diferença), o seu meio irmão (que interpreta, com ele, a cena do espetáculo de bailado onde está Terry e em que Calvero foi convidado a entrar) e os seus filhos (Sydney Chaplin é o pseudo-galã deste drama, que tenta conquistar Terry, e os filhos, à altura, mais novos de Chaplin - entre os quais a agora famosíssima atriz Geraldine Chaplin - que fazem um pequeno cameo no início do filme). Este ambiente muito familiar terá ajudado muito a que Chaplin conseguisse transpôr, de uma maneira ainda mais humana e densa que o habitual, as condições e perspetivas de vida de cada um dos personagens de «Luzes da Ribalta». 

Há que destacar também a interpretação de Buster Keaton, outro dos grandes Deuses da comédia muda americana. É um pequeno número cinematográfico, onde os dois Gigantes cineastas, que fazem de palhaços, contracenam com algumas patetices que envolvem um violino e um piano. Digam o que quiserem, mas ver reunidos, embora que por poucos minutos, duas lendas do Cinema, não é algo que se veja todos os dias! Diz-se que Chaplin terá cortado planos em que Keaton se revelava demasiado engraçado, mas concorrências à parte (afinal, na época de Ouro do Cinema mudo nos EUA, sobreviveram, até hoje, mais as memórias das obras destes dois Senhores do que de quaisquer outros da sua era), é bonito ver dois Artistas com A grande que, apesar de viverem fases complicadas das suas carreiras na altura, conseguem proporcionar um momento único na História do Cinema. De destacar também a fantástica banda sonora da autoria do próprio Chaplin. Já se tinha tornado hábito, nos seus anteriores filmes, que a composição estivesse também a cargo do próprio realizador. E em «Luzes da Ribalta», penso que conseguiu a sua apoteose: a música de abertura do filme é das mais celebradas de toda a obra chaplinesca. Todas as músicas do filme são muito bonitas, comoventes e inesquecíveis, e revelam também a influência da realidade daquele tempo na forma como Charlie Chaplin criou a sua arte musical.

Sendo, como podemos ver, uma fita que retrata as armaguras que a vida de Chaplin sofria na época, «Luzes da Ribalta» é uma emocionante reflexão sobre a arte, o público, os artistas, e o conflito entre as gerações mais novas e as mais velhas. No princípio do filme, aparece um intertítulo que esclarece que a história que vamos ver aborda a forma como a juventude sucede sempre à população mais envelhecida. E essa é a realidade que Calvero tem que lidar, embora não seja da maneira mais simpática. É essa antipatia e desprezo pelos mais velhos que se nota nos tempos atuais, tanto pela forma como a população idosa é tratada, como pela maneira como a juventude despreza, vivos ou não, os grandes ícones do passado. «Luzes da Ribalta» é um filme que poderá causar algum choro pelas pessoas mais sensíveis, mas faz bem que isso nos aconteça: revela a humanidade que cada um de nós tem, e que o filme possui de uma forma completamente esmagadora. Uma preciosidade!

* * * * 1/2

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