sábado, 22 de dezembro de 2012

Léon, o Profissional


Fita que obrigatoriamente terá de ser incluída em qualquer lista sobre filmes de maior culto dos anos 90 (e mesmo de todo o século XX), «Léon, o Profissional» trata-se de um denso e refrescante thriller elaborado com o toque cinematográfico de Luc Besson, um cineasta que, ultimamente, tem preferido dedicar mais o seu tempo a um certo franchise de bonecada, do qual não voltarei a referir ao longo desta crítica, mas também elaborou um ou outro projeto interessante a que, infelizmente, o mercado não deu tanta atenção, em favor dos ditos "bonecos". Estreado originalmente no ano de 1994, mas com um impacto que perdurou até aos dias de hoje, «Léon, o Profissional» é um filme amado por uns e vexado por outros, mas que se revela ser uma obra com muitas poucas características estabelecidas entre os limites da vulgaridade, quer pela forma como conta a sua história, como pelas "ferramentas" estéticas e formais inovadoras utilizadas por Besson nas variadíssimas cenas de diálogos ou de ação, nunca perdendo o seu ritmo e a atenção do espetador.

«Léon, o Profissional» tem uma narrativa aparentemente simples, mas que é relatada de uma forma original, apelativa e completamente viciante, adjetivos esses que se podem aplicar ao filme desde o seu início, com a fantástica cena, poderosa e inesquecível, que abre a obra, e que nos faz pôr de parte qualquer estereótipo que estejamos à espera que definem muitas fitas deste género. Interpretado por Jean Reno, um dos mais carismáticos atores franceses das últimas décadas (a par, por exemplo, do genial Gérard Depardieu), Léon é um assassino profissional muito pouco normal. Trata-se de uma personagem muito interessante e, em certa medida, com piada. Não porque Léon seja um indivíduo todo galhofeiro e entertainer em qualquer jantar de família. Muito pelo contrário: Léon é aquele fulano que não participa na conversa e que prefere estar no seu cantinho (e, no caso do personagem, gosta de dar parte do seu tempo livre a cuidar de uma planta, que muito estima e que considera ser a sua melhor amiga), e que no entanto não aparenta ter o ar que a sua profissão "exige" (ninguém imagina à partida, como assassino profissional, um fulano com o aspeto e "psicologia" de Léon!). Ou seja, a parte piadesca da personagem de Léon tem mais a ver com o seu caráter e fisionomia, que me fez lembrar, em parte, um certo desenho animado tosco que via em pequeno, mas cujo nome a memória não me auxilia a descobrir. Não sei porquê, mas lembrei-me disso! Talvez por isso posso considerar que Léon é o único assassino que até não me importava de ter como vizinho. Isto é, se eu não pertencesse a alguma organização criminosa ou algo parecido (não queria ter de viver na ansiedade de, algum dia, um meu rival contratar o Léon para fazer o seu trabalhinho à minha pessoa!). Além de nutrir alguma simpatia junto da audiência, Léon é capaz de ser, também, o único assassino profissional a seguir um estilo de vida saudável, sem tabaco e álcool, mas com muito leitinho. Deve ser esse o segredo do sucesso dos seus trabalhos, visto que o cálcio fortalece os ossos... OK, esqueçamos esta frase ridícula e prossigamos com esta análise.

O filme conta a história, então, do assassino Léon, e de Mathilda, uma rapariga de doze anos que perde a família devido a um "massacre" por um lunático e psicótico agente da polícia (não deixa de ser irónico que o homem da lei seja o passadinho da cabeça e o outro o mais são...), que aproveita o seu estatuto dentro da Lei e da Grei para agir onde lhe apetece, quando lhe apetece, e como lhe apetece. Mathilda, que quase co-protagoniza a fita com Léon, é interpretada pela atriz (à época, ainda menor de idade), Natalie Portman, num papel surpreendente da adolescente que pretende vingar-se do implacável chui utilizando as "técnicas" do trabalho de Léon. E apesar de ser ainda muito nova, Portman mostrava já ter grandes probabilidades de conseguir atingir um grande futuro e uma carreira de topo no mundo da representação, algo que, ao longo dos anos, o público e a crítica tem sempre destacado (Natalie Portman é uma das grandes atrizes da indústria norte-americana e que, entre filmes com mais ou menos qualidade, mostra sempre o seu enorme talento - veja-se o arriscado e paranormal «Cisne Negro» de Darren Aronofsky, que valeu a Portman a premiação com o Oscar da Acadamia para Melhor Atriz), e «Léon, o Profissional» foi o primeiro passo e uma experiência fulcral na aprendizagem da atriz nas grandes lides cinematográficas. Constrói-se uma relação improvável, quase com contornos familiares, entre Léon e Mathilda, e que é impossível deixar despercebida: sem sentimentalismos desnecessários ou qualquer cliché dramático, temos uma boa e inesquecível química entre os dois atores. E além da enorme surpresa que pude contemplar nos papéis de Jean Reno e Natalie Portman, não me posso esquecer talvez do ator que me deixou ainda mais surpreendido: Gary Oldman, que interpreta o polícia psicopata, faz, provavelmente, um dos vilões mais maléficos e complexos que já vi no Cinema, mostrando também a grande versatilidade e criatividade de um ator que ainda hoje é muito conceituado e aclamado (como no filme «A Toupeira», baseado no romance de John Le Carré, do qual é o protagonista e que lhe valeu uma nomeação para o Oscar de Melhor Ator).

«Léon, o Profissional» não é um filme que pretende dar lições de moral, visto que não segue personagens com condutas ou modos de vida que se adequem à ética de cada um de nós, visto que se trata da história de duas personagens que são completamente outsiders da realidade que vivemos. Por isso, a obra de Luc Besson poderá chocar as mentes mais sensíveis, não sendo, também por isso, aconselhável para pessoas muito influenciadas pelo que veem nos atos que cometem no dia a dia, ou para aqueles que ainda não chegaram à idade de conseguirem pensar por si próprios (porque, c'os diabos, ninguém quer por aí mini-assassinos profissionais espalhados pelo Mundo, que se tornaram em tais tipos por terem visto filmes como este - e pior, se fosse segundo a minha sugestão! Por isso deixo aqui a declaração de responsabilidade ao leitor). A banalidade com que é retratada a carreira e os métodos profissionais de Léon poderá não ser considerada correta para ser mostrada na ficção, mas acho que só assim é que conseguimos sentir a realidade da situação do personagem: para ele, aquilo é o seu trabalho, algo que faz parte do seu quotidiano algo entediante e movimentado ao mesmo tempo.

Para terminar, apenas concluo que gostei muito deste filme, e que nos dá a conhecer uma mentalidade e uma realidade que nos passa completamente ao lado, visto conseguir sempre passar tão discreta da opinião pública (que há aí gente contratada para fazer com que certas pessoas faleçam, não o posso negar - apesar desse negócio, em Portugal, ter de ser diminuído à condição deste nosso país), e que por isso, nos é quase inconcebível e inacreditável. «Léon, o Profissional» é uma grande obra com uma história pouco complexa mas ainda menos convencional, e que consegue ser convincente e que muito bem realizada, escrita e interpretada. Luc Besson e Jean Reno conseguiram deixar a sua marca nos EUA, com este filme que, apesar de talvez ter sido um pouco sobrevalorizado, é completamente imperdível!

* * * * 1/2

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