Heróis Esquecidos (The Roaring Twenties)


A Lei Seca constitui, além de um dos marcos mais importantes e estudados da História dos EUA do passado século, um ponto de referência fundamental para a criação de várias e diversas histórias ficcionais (que poderão não ter tanta ficção como aparentam...). Livros, filmes, séries de televisão, programas de rádio e peças de teatro usaram e abusaram (no meio cinematográfico desde o princípio dos anos 30, quando a dita Lei foi despromovida desse epíteto pelo Presidente Franklin Roosevelt, o que causou - obviamente - o júbilo de toda a população das terras do Tio Sam), da época que a América viveu, repleta de perigo e crime, à volta da proibição das bebidas alcoólicas. A forma como eram vendidas clandestinamente, a falsificação das bebidas vendidas, as mortes e traições envolvidas, os amores envolvidos sobretudo por um jogo de interesses inquestionável e inegável (pelo menos, para um dos lados da relação - o outro é o que fica sempre a perder porque se enganou na paixão que optou), e tantos outros temas, resultaram em inúmeros marcos e ícones da nossa cultura popular. A Lei Seca foi dissecada ao máximo pela produção cultural, e felizmente, resistiram ao tempo muitas obras de grande valor e qualidade, e que nos auxiliam a explorar mais em pormenor e com mais realismo como era viver nos "Loucos Anos 20". É mais precisamente, através de um olhar cinematográfico e repleto de movimento, que se consegue obter um efeito maior junto do público em relação aos ambientes e vidas das personagens que viveram nessa época tão complexa da História Americana. E com a junção dos elementos certos, além de se conseguir criar uma grande fita, é provável que surja um "monumento" em homenagem aos verdadeiros bandidos que inspiraram tanto a nossa cultura.

«Heróis Esquecidos», ou como deve ser dignamente designado (ou seja, pelo título original), «The Roaring Twenties», é um filme que se tornou um dos maiores exemplos desse realismo e detalhe, sendo um dos filmes mais conhecidos de sempre no género de fita de gangsters. E não por acaso, bastando apenas verificar os nomes envolvidos nesta obra: o dinâmico e criativo realizador Raoul Walsh, e os atores James Cagney e Humphrey Bogart (que neste filme, contracenam pela última vez nas suas carreiras, depois de «Anjos de Cara Negra» e «Oklahoma Kid») são o bastante para tornar «The Roaring Twenties» um filme muito atrativo para quem gosta do bom cinema americano, ou seja, aquela cinematografia que é mais conhecida por "já-não-se-fazem-filmes-assim". Nesta fita, seguimos a ascensão e queda de Eddie Bartlett (interpretado, de uma forma sempre espantosa, por James Cagney), um ex-soldado da I Guerra Mundial que, ao regressar à América após o término do conflito com a assinatura do Armistício, decide arranjar trabalho, e em algum tempo, vê-se metido num grande negócio clandestino de bebidas alcoólicas, através do qual se irá tornar um indivíduo muito influente na sua cidade. Acompanhamos todos os passos de Bartlett, numa personagem distinta de outros bandidos interpretados por Cagney, em filmes como «Anjos de Cara Negra» ou «Fúria Sanguinária» (realizado dez anos depois de «The Roaring Twenties», também por Raoul Walsh), visto que estamos na presença de um anti-herói que não é mau por natureza, não tem a bandidagem entranhada nas veias desde que nasceu. Bartlett é apenas um fulano como qualquer outro que quer apenas viver a sua vida como todos nós. Contudo, os tempos conturbados da Lei Seca (e o que se sucedeu depois da desaprovação da mesma por Roosevelt) irão mostrar como, afinal, Bartlett se deixou levar demais pelo mundo que criou. Além da traição do seu suposto aliado (interpretado por Humphrey Bogart, com um ar de sacanice que até faz impressão) Bartlett vai apaixonar-se por uma rapariga que conheceu, aleatoriamente, durante a guerra (através das famosas cartas que as senhoras mandavam aos soldados em combate) e ver-se-á numa carga de sarilhos com o final da Lei Seca (situação semelhante à de muitas outras pessoas).

Um facto interessante de «The Roaring Twenties» é a forma como é feita a narração do filme. Não temos uma normal voz-off, que sendo participante ou não participante na ação da história que está a contar, nos dá algumas pistas (subjetivas ou não) sobre cada detalhe que estamos a ver no ecrã. Temos uma voz off que, como se estivesse a relatar as notícias (ou a fazer os célebres mini-noticiários que, à época, antecediam a exibição dos filmes no cinema - mais os desenhos animados e outras coisas mais), nos dá uma perspetiva (com toques de ironia e sarcasmo) em estilo meio documental, da história de Bartlett e companhia, mostrando a veracidade das situações apresentadas e como o real e a ficção se esbatem constantemente ao longo da ação do filme. O autor da história de «The Roaring Twenties», Mark Hellman, deixa isso bem esclarecido no "prefácio" que antecede o princípio da fita: o que iremos ver foi baseado em acontecimentos verídicos, em pessoas verídicas, e numa época que, esperemos nós, nunca mais volte a existir.

«The Roaring Twenties» é um grande filme que vence com a realização poderosa e rápida de Raoul Walsh dá um ritmo imparável e inimitável à obra e as interpretações são de se lhe tirar o chapéu, com Cagney a preencher sempre o ecrã de forma esmagadora com a sua fantástica prestação, ao lado de um grande elenco de atores secundários. O argumento está muito bem escrito e é muito "humano". «The Roaring Twenties» é um filme engenhoso e cativante sobre uma era lendária da História Americana, e das pessoas que a conheceram de perto. Foi o último filme de James Cagney como gangster, isto é, até voltar a fazer um papel do género, o que só aconteceu dez anos depois. Contudo, apesar de Cagney ter ficado, à época, saturado de fazer este tipo de filmes, uma coisa ninguém pode negar: ninguém imita ou ultrapassa este excelente ator em interpretações como a de Eddie Bartlett em «The Roaring Twenties».

* * * * 1/2

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