Duas Obras Primas Revisitadas

Na semana passada voltei a ver dois filmes que me tinham deixado uma marca muito forte, e que há muito tempo queria revisitar. Filmes que me deixaram pouco para dizer por escrito, mas muito para pensar e sentir. Quis também rever estas duas obras primas inegáveis da História do Cinema para confirmar se essa impressão inicial se mantinha. E manteve-se. E são dois filmes que me ensinaram tanto sobre a Arte de se fazer um filme, que logo se juntaram à minha lista de Filmes de Sempre. E novamente, estes dois Grandes filmes deixaram-me pouco para escrever e muito para admirar. Por isso, deixo aqui duas pequenas críticas sobre essas fitas, completamente recomendáveis, e que são ambas obras de * * * * *!

O primeiro filme visto foi «O Carteirista» («Pickpocket» na versão original), uma pequena obra-mestra do realizador francês Robert Bresson. Com pouco mais de setenta minutos, «O Carteirista» contém um significado e uma simbologia que vale por muito filme de maior duração. Uma história simples, vagamente inspirada em «Crime e Castigo» de Fiodor Dostoievsky, relata as andanças de Michel, um indivíduo com umas certas teorias sobre o crime e a inteligência do ser humano que o levam a agir com o meio que o rodeia de uma forma menos usual. Começa uma "carreira" como carteirista (as sequências em que assistimos à prática do "carteirismo" estão profundamente e minuciosamente filmadas, vale a pena visioná-las com atenção). O ator que desempenha a personagem não era um profissional, e foi esse o objetivo de Bresson em escolhê-lo, para poder dar a maior inexpressividade possível a Michel, uma caracterísitca que encaixa perfeitamente na personagem e no ambiente que a envolve. Um tesouro cinematográfico que urge ser descoberto, uma análise detalhada e complexa sobre a culpa e a procura do significado da existência humana. Michel é um homem perdido nos seus pensamentos, que irá sentir na pele as consequências dos seus atos e da sua estranha (e algo perigosa) maneira de pensar. Uma autêntica lição de Cinema!

O segundo filme, visto na manhã da véspera de Natal, dá pelo nome, em português, de «A Grande Esperança» (no original, «Young Mr. Lincoln»). Um autêntico poema em forma de filme, esta obra prima do realizador americano John Ford está tão bem executada, interpretada e filmada, que é um mimo para a vista poder contemplar, de novo, todas as cenas e planos de câmara que a obra contém, e que foram exemplo a seguir por muitas gerações de cineastas. Uma crítica à ignorância e à precipitação de um povo, características que nele se mantiveram totalmente iguais nos nossos dias. O ator Henry Fonda encarna Abraham Lincoln nos seus tempos de juventude, quando começou a exercer advocacia e a dar que falar numa pequena aldeia americana. Um caso praticamente impossível, mas que Lincoln saberá usar e explorar de uma forma arrabatadora. Arrebatadores são também as imagens lindíssimas das paisagens e dos personagens que John Ford proporciona aos espetadores, e consigo perceber a "inveja" que o cineasta russo Sergei Eisenstein tinha em relação a este filme ("de todos as obras que possuem uma harmonia quase clássica", dizia ele, "esta ocupa o lugar de honra"). Adorei rever o retrato de Lincoln, assemelhando-se a um novo e renovado Jesus Cristo, a querer chamar à razão o povo ignorante que o rodeia. E não me recordava do final do filme, e por isso a surpresa em relação ao mesmo manteve-se. Uma preciosidade inesquecível.

E pronto, espero o que me falta em palavras para descrever a grandiosidade destes dois filmes não afaste possíveis curiosos destas obras primas. Não preciso sempre de escrever testamentos entediantes sobre fitas, não é? Apenas quero sugerir bons e excelentes filmes. E espero ter conseguido fazê-lo neste post. Bons filmes!

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