Do Céu Caiu Uma Estrela


Chegámos ao mês de Dezembro, e por isso, estamos muito, mas muito próximos, da chegada da quadra que o caracteriza: o Natal. Mas penso que (e lá vou eu usar um cliché muito habitual que pode ser verificado, praticamente, nos escritos de toda a malta que deu ou dá opinião sobre a época natalícia) as pessoas não pensam no essencial da efeméride. E isto não tem que ver com religião ou qualquer tipo de crença que cada um de nós acredite: tem que ver com valores, com espírito que, apesar de ser um dever de todos nós não nos esquecermos ao longo de todo o ano, é ainda mais marcante no dia 25 de dezembro (é pegar na célebre frase: "vá lá, não faças isso que hoje é dia de Natal!" e não sei que mais - quem é que nunca ouviu isto, pelo menos uma vez em toda a sua vida?). O Natal é a época da paz e do amor, da alegria e da solidariedade, e que nos faz lembrar todas as coisas boas que poderíamos ter feito nos restantes 364 dias do ano e só não os fizemos por esquecimento ou comodismo. E é nesse contexto que surge «Do Céu Caiu Uma Estrela», um dos filmes mais amados pela população americana nas últimas décadas.

Este filme, realizado por Frank Capra (o cineasta "moralista", responsável por tantas obras de culto da Sétima Arte, como o poderoso «Peço a Palavra», o divertido «Não o Levarás Contigo» e o inteligente «Loucura Americana») é o clássico cinematográfico natalício por excelência. Não admira a sua enorme popularidade, de ano para ano, quando uma qualquer estação televisiva americana tem a ótima ideia de o retransmitir (bem melhor que toda a programação natalícia que o canal poderia produzir para festejar a quadra). «Do Céu Caiu Uma Estrela» foi um autêntico flop no box-office, mas conquistou um gigantesco grupo de admiradores quando, um belo dia, o pequeno ecrã (visto que o filme perdeu os direitos de autor e tornou-se do domínio público) decidiu aproveitá-lo para encher espaço na programação. A partir daí, o filme nunca mais perdeu o seu espaço na televisão (e mesmo cá em Portugal: eu vi o filme graças à gravação que tinha feito no ano passado. Tinha passado na RTP1 - pasme-se! - alguns dias antes do 25 - é estranho ver o primeiro canal a fazer serviço público de alta qualidade de vez em quando... mas é bom que o faça, ainda mais pelas incertezas todas em relação ao destino da RTP2...).

«Do Céu Caiu Uma Estrela» apresenta, também, um dos heróis mais carismáticos da sétima arte americana, George Bailey (interpretado por um ator não menos carismático: James Stewart), uma personagem que pode ser vista como uma espécie de pseudo-contrário de Ebenezer Scrooge (o famoso idoso avarento e resmungão de «O Cântico de Natal», o livro da autoria de Charles Dickens, e todas as adaptações que foram feitas sobre o mesmo), visto que é um homem que se preocupa com todos seus amigos e todas as pessoas que dele dependem a sua sobrevivência. Mas Bailey leva essa solidariedade à exaustão, não conseguindo preocupar-se consigo mesmo e esquecendo-se das coisas essenciais da vida. Daqueles pormenores que perfazem a existência de cada um de nós e que nos dão alguma felicidade, para cobrir as amarguras e problemas do dia a dia. O filme dá-nos uma perspetiva de todo o passado de Bailey, até chegar ao tempo "presente" da ação do filme ( véspera de Natal): a sua infância (em particular, o dia em que salvou o irmão de morrer afogado), a sua juventude, a desistência dos seus sonhos para o futuro para conseguir manter a empresa do Pai, o matrimónio, as pressões do seu emprego, entre tantas outras coisas. Mais não pretendo contar sobre o filme, porque penso que as constantes (e sempre diferentes) sinopses que existem pela internet podem ajudar-vos a conhecer melhor a fita, mas acho que ela fala por si mesma, além do facto que muitos desses textinhos sinópticos conterem um ou outro erro sobre a história do filme. Por isso, também prefiro não arriscar cometer alguma gaffe e estragar as fortes sensações com que fiquei depois deste visionamento.

Apenas acrescento que «Do Céu Caiu Uma Estrela» me fez lembrar, em parte, «Loucura Americana», um filme de Capra que se centra na banca e na forma como os americanos viam os problemas financeiros na época em que a obra foi feita. Esta semelhança será visível para quem vir um dos dois filmes e depois visionar o outro (vale muito a pena ver estas duas fitas. «Loucura Americana» sofreu muito de síndrome underrated nas últimas décadas...). Mas ao dizer semelhança, posso também associar o termo "complementaridade", visto que os filmes apresentam situações semelhantes vividas pelos seus protagonistas, e cujas mensagens morais e filosóficas que podemos tirar da forma como cada um deles vive são idênticas: o poder da amizade ("nenhum homem que tenha amigos é pobre") e como o trabalho em grupo pode ter porporções imagináveis (para o bem, obviamente), se cada ser humano decidir contribuir com a sua pequena parte para ajudar a resolver um problema.

«Do Céu Caiu Uma Estrela» é o filme que todo e qualquer ser humano devia ver (este e outros tantos, mas centremo-nos agora neste). No Natal, na Páscoa, no 25 de Abril, no 1 de Dezembro... ou mais simplesmente, em qualquer dia do ano que não seja o do feriado natalício. Independentemente que alguma televisão decida passá-lo ou não (e em horário "nobre", ou seja, entre as 23 e as 2 horas - o horário ideal para trazer filmes de qualidade, familiares e cativantes, como todos nós sabemos), todos os espetadores (amantes de cinema ou simples curiosos) deveriam investir duas horas da sua vida neste grande obra prima. Não se vão arrepender, garanto-vos! Esta é uma grande e profunda ode à humildade e à bondade do ser humano, mesmo nas situações menos propícias à solidariedade. «Do Céu Caiu Uma Estrela» é também um ótimo exemplo para contrapôr a sociedade do filme com a atual, onde a falta de valores e constantes egocentrismos de cada um de nós pretendem-se sobrepôr a todas as coisas. Uma obra essencial! 

* * * * *

Comentários