domingo, 16 de dezembro de 2012

Bowfinger - O Sem Vergonha


"Juntos pela primeira vez" é a frase de promoção ao filme «Bowfinger - O Sem Vergonha» que pode ser lida neste cartaz, por cima do título do filme. A frase refere-se, obviamente, aos atores e comediantes Steve Martin e Eddie Murphy, numa junção que, na minha opinião, deveria ter acontecido mais vezes (e é preciso salientar que, se isso for possível, que se envolvam em filmes melhorzinhos - há quanto tempo não vemos Martin e Murphy a sobressairem, realmente, de algum dos últimos projetos que fizeram?), porque neste filme, funciona surpreendentemente bem, criando um grande momento de comédia que, nos últimos anos, pouco se tem visto na indústria cinematográfica norte-americana (infelizmente, são as comédias televisivas que têm ganho popularidade, ultimamente - há espaço para projetos novos e mais cativantes e inteligentes, como é o caso das séries «Louie» e «Parks and Recreation»), que prefere viver à custa do lucro fácil, com projetos repetitivos, secos e que utilizam um humor mais infantil e humilhante (veja-se o caso dos constantes êxitos - pelo menos em Portugal - das comédias de Adam Sandler...).

«Bowfinger - O Sem Vergonha» é uma comédia divertida e algo surpreendente, tanto em termos humorísticos (não esperava dar, a este filme, uma nota como a que vou dar), como na escrita do argumento e no elenco selecionado para interpretar as inúmeras e patéticas personagens do filme. É uma sátira ao sistema económico e cultural da produção cinematográfica de Hollywood, não deixando, por isso, de ser uma caricatura atual da situação de hoje em dia. O filme pode ser visto, também, como uma crítica não-exaustiva à forma como os responsáveis de Hollywood põem a previsão de lucro que um projeto possa obter acima da qualidade que o mesmo contenha, tomando, por vezes, atitudes implacáveis para levarem as suas "convicções" económicas até ao extremo (veja-se, por exemplo, o caso do filme «The Magnificent Ambersons» de Orson Welles, que será, em breve, alvo de uma das minhas críticas - apesar de, para mim, ter funcionado bem na versão de oitenta e oito minutos, o filme era muito maior: um terço do filme ficou perdido para sempre devido às exigências dos produtores, que o queriam tornar o mais comercial que fosse possível, acabando a obra por ser, mesmo assim, um desastre no box-office). Por fim, mas não menos importante (visto que é, provavelmente, a crítica mais forte de todo o filme) «Bowfinger - O Sem Vergonha» é uma sátira às extravagâncias e falta de inteligência das estrelas do sistema hollywoodiano (destaque para um pequeno apontamento humorístico em que aparece uma pseudo-Igreja da Cientologia) e às mil e uma maneiras que os artistas arranjam para conseguirem alcançar o seu sonho de singrarem no perigoso mundo de Hollywood, e tornarem-se tão famosos como os seus ídolos cinematográficos (podemos ver esta crítica simbolizada na personagem de Heather Graham, uma atriz que, acabada de chegar a Hollywood, aproveita-se de tudo e de todos para conseguir entrar no topo).

Em «Bowfinger - O Sem Vergonha», encontramos um elenco cómico de luxo. A maior surpresa do filme é, sem dúvida, Eddie Murphy (que interpreta dois surpreendentes papéis: um, o de um ator de ação apalermado de Hollywood e paranóico com o racismo e com a seita religiosa em que acredita - a tal pseudo-Igreja da Cientologia - que é filmado para um projeto cinematográfico sem saber da existência do mesmo; e outro, o do duplo do ator, um autêntico choninhas que será contratado, à última da hora, para "tentar" substituir o ator original, para evitar mais problemas com filmagens não autorizadas), cuja performance faz notar, claramente, um regresso (pelo menos momentâneo) do ator às suas origens cómicas e às grandes imitações e personagens por que se tornou conhecido (tanto nos primeiros filmes da sua carreira, como antes, em programas televisivos como o mítico «Saturday Night Live», e nos seus hilariantes espetáculos de stand-up comedy - disponíveis, de forma integral, no youtube). Contudo, a cereja no topo do bolo é Steve Martin, que além de ter escrito o argumento de «Bowfinger - O Sem Vergonha», é também o protagonista do mesmo, dando vida ao indivíduo que dá título à comédia, e que se trata de um realizador arruinado de Hollywood, que procura a ressurreição da sua carreira, querendo, para isso, fazer um novo filme, a partir de um guião escrito pelo seu contabilista (que se trata de uma história de ficção científica, possuidora de todos os clichés e elementos cinematográficos em que os estúdios veem maiores hipóteses de lucro - é nessas situações que, aos senhores ricaços dos estúdios, lhes sobem os cifrões à vista... gaita, que isso deve fazer um mal danado aos olhos!).

Realizado por Frank Oz (um grande nome das lides hollywoodianas, que trabalhou em projetos tão diversos e inovadores como, por exemplo, o universo dos Marretas, ou mesmo nos seis filmes da saga «Star Wars», dando voz a Yoda), que dirige com simplicidade e sem grandes adereços esta comédia (não lhe tirando, por isso, qualquer valor cómico ou cinematográfico), posso concluir que «Bowfinger - O Sem Vergonha» é uma comédia muito subvalorizada (talvez pela "fama" que os dois míticos atores Martin e Murphy obteriam pelos seus projetos futuros...) e que, apesar de não ser um filme que, garantidamente, eu não queira rever em breve, entretém muito e consegue ser um filme inteligente, engraçado e original. Vale a pena!

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