sábado, 29 de dezembro de 2012

A Corda: Hitchcock em versão teatral


Dois estudantes matam um colega, somente para sentirem a adrenalina e o perigo do ato cometido. Após o homicídio, feito por sufocamento, escondem o cadáver num baú, e é em cima dele que será servido o jantar que de seguida se seguirá e que aquele duo preparou com o máximo cuidado. Para a refeição convidaram um Professor conhecido e admirado pelos seus alunos (mas mais propriamente, pelos dois assassinos - é por causa das ideias de Nietzsche, transmitidas pelo professor aos alunos, que a dupla de homicidas encontrou um motivo para matar aquele pobre inocente) e os Pais, a namorada e o melhor amigo (e ex da anterior) de David, o rapaz falecido e que todos pensam que irá estar presente no jantar. O plano perfeito e o crime perfeito, eis o objetivo dos dois garotos. Cumprir a máxima "nietzschiana" do Super Homem, o indivíduo inteligente e superior que poderá, se lhe aprouver, matar todo e qualquer ser humano que ache ignorante e inútil para a sociedade. Passam das palavras para os atos, compreendendo e adaptando mal os ideais de Nietzsche à sua realidade. E isto é só o princípio de uma noite que parece nunca mais acabar, para os dois rapazes. A tensão e o nervosismo que sentem em relação ao baú não para de crescer, em toda a curta duração de «A Corda», uma obra curiosa e distante de toda a filmografia de Alfred Hitchcock.

O vulgarmente (e excessivamente) denominado Mestre do Suspense (Hitchcock, felizmente, tem muito mais do que isso, apesar de ser esse ingrediente o que mais caracteriza todo o conjunto de filmes que realizou) deixou muitos e bons filmes para que muitas e muitas gerações possam ainda vislumbrar o talento e criatividade de um dos maiores génios cinematográficos de todos os tempos. Contudo, não encontramos em «A Corda» muitos dos elementos característicos que muitas pessoas adoram nos filmes de Hitchcock. Isto porque, pura e simplesmente, «A Corda» não é um normal (e com isto não pretendo dizer "vulgar", mas sim habitual dentro das multiplicidades artísticas do cineasta) thriller a que se associe o realizador: elaborado quase como um filme sem cortes (como se fosse uma única grande sequência com poucas necessidades de montagem - e algumas dessas necessidades passam mais ou menos despercebidas, mas outras sofrem tentativas frustadas de serem disfarçadas), não deixa de ser interessante notar como Hitchcock, apesar das limitações causadas pelo cenário (que se assemelha quase ao de uma qualquer sitcom americana gravada com público ao vivo) e pela estrutura do filme (baseado numa peça de teatro, a obra foi planeada e executada para conseguir obter o ritmo contínuo e sem paragens das artes de palco, o que por vezes pode confundir por parecer que estamos mais a ver teatro filmado - como aquelas sessões que passam repetidamente na RTP Memória, ou mesmo na estação generalista, quando esta se lembra de fazer serviço público - do que propriamente um filme de Cinema, com características mais apropriadas para o mesmo), consegue sempre aproveitar o melhor de cada cena, de cada personagem, de cada diálogo e de cada movimento para criar o maior suspense e tensão possível. Tensão essa que é muito auxiliada pela ausência praticamente completa de banda sonora no filme (além das músicas tocadas por um dos jovens homicidas - que é um artista no piano, veja-se só! - e das melodias que os personagens põem a rodar no gira-discos), ajudando-nos a focar no essencial de «A Corda» - e que é, pura e simplesmente, o que se vai passando naquele apartamentozeco, com uma vista lindíssima para a cidade, e dos ditos e não-ditos dos anfitriões daquela habitação como dos seus convidados, em diversas cenas com diálogos ou repletos de pequenos apontamentos humorísticos (com um certo toque "british", a meu ver), ou cheios de muitas subtilezas e que transmitem também as sensações daqueles indivíduos, principalmente dos dois assassinos, que tentam parecer o mais normal possível e evitam que qualquer um dos convidados se aproxime da arca onde está escondido o corpo (veja-se com atenção, por exemplo, a cena em que a cunhada do Pai do falecido David lê a sina ao assassino pianista, e fala de como aquelas duas mãos - que momentos antes, tinham estado envolvidas na morte de um inocente - teriam muito para dar ao Mundo. A expressão aterradora de reação que o jovem tem ao ouvir as palavras simpáticas - e sem, aparentemente, um duplo sentido, mas que nós espetadores percebemos na perfeição - é, sem dúvida, um grande momento de "acting" desta fita). 

Apesar de ter gostado de toda a trama e do elenco soberbo que perfaz este «A Corda» (com o imparável e inesquecível James Stewart em mais um grande papel), tenho pena que não tenha sido algo mais. Penso que não deveria ter sido filmado em estilo "teatral", porque acho que retira alguma da tensão e "cinematização" da história, que só por si contém mil e uma maneiras para a Sétima Arte se aproveitar dela da melhor maneira possível, através de diversos estilos ou realizadores cinematográficos. Houve uma coisa que me impressionou negativamente que foi a maneira como a câmara anda a cirandar pelo cenário, por vezes, de uma maneira descontrolada, focando demais aquilo que não nos interessa ver (mas nalgumas vezes, filmar o que não é suposto resultou bem - por exemplo, a cena em que a criada da casa arruma as coisas usadas para o "buffet" do jantar, que estiveram em cima do baú. Acompanhamos cada passo pela empregada e só pensamos: "será que ela vai abrir a arca? Se sim, o que vai acontecer? Se não, será que a miudagem se vai safar deste crime horrível e sem razão aparente?"). Há cenas que me pareceram não ter sido bem executadas para retirar o máximo de sensações possível do espetador (algo que em Hitchcock é muito habitual - este é o realizador do público, convém não esquecer. O cineasta que levava massas ao cinema para verem as obras de um homem que sabia o que as audiências queriam e dava-lhes ainda mais), o que é pena, porque nessas alturas a câmara podia ter parado um bocado e existirem planos menos longos, mas muito mais densos pela maior capacidade que conseguiriam reter de cada plano de filmagem.

Contudo, apesar deste pequeno inconveniente (e, provavelmente, eu escrevi demais sobre o mesmo, o que parecerá que tenho muito mais a criticar em «A Corda» do que a elogiar, o que não é verdade - sou apenas como qualquer ser humano: para mal dizer temos sempre todos mais papas na língua), o filme é bom,   está bem estruturado e interpretado pelos atores, que conseguem aproveitar a densidade teatral do argumento (baseado numa peça inglesa muito badalada para a época) e do cenário para exprimirem as suas performances ao mais alto nível. Se a peça original abordava mais em pormenor outras questões como a homossexualidade dos dois protagonistas (nada disso é mencionado ao longo de toda a duração de «A Corda», mas vá lá, e não pertendo ser homófobo, mas está-lhes escrito na testa! - é que está mesmo! Vejam o filme e depois irão comprovar a veracidade do que acabei de dizer!) e do próprio Professor deles (algo que James Stewart não retratou - e bem, porque talvez nesta versão filmada, tocar nestes aspetos poderia cortar um pouco a tensão "hitchcockiana", que não vive tanto de dilemas telenovelescos desse género), «A Corda» preferiu, e bem, utilizar a abordagem única do Mestre, com o crime como pano de fundo e todos os sentimentos e reações dos dois jovens à medida que aquele jantar se desenrola... e que parece nunca mais acabar. Uma obra cujo visionamento passa num instante e que deixará de certeza boas recordações para quem usufruir desta experiência!

★ ★ ★

EDIT 02-03-2015: Este é daqueles casos em que a minha opinião mantém-se exactamente igual (porque vi o filme outra vez, entretanto). A crítica é que está uma bela porcaria. Porque me dei ao trabalho de partilhar esta mediocridade com o mundo? Enfim...

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