sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Sleepers - Sentimento de Revolta


«Sleepers - Sentimento de Revolta» é um filme que poderia muito bem ser adequado à realidade portuguesa, alterando, apenas, os nomes das personagens e os locais em que as mesmas se localizam à medida que a ação se desenrola. Realizado por Barry Levinson (o cineasta das causas sociais - veja-se, por exemplo, o oscarizado «Rain Man - Encontro de Irmãos», sobre um homem que descobre que tem um irmão autista, «Manobras na Casa Branca», uma sátira brilhante à política americana e à manipulação dos media, ou ainda o telefilme recente «Ninguém Conhece Jack», sobre a vida e visão do Dr. Jack Kervorkian, defensor da eutanásia nos EUA), a história de «Sleepers» gira em torno de um grupo de rapazes em duas fases distintas da sua vida: na adolescência e na idade adulta. Um erro, cometido entre estas duas fases (e que mudará a vida dos quatro amigos para sempre - e não digo isto por ser uma frase toda cliché e que é muito atraente para as multidões amantes de filmes lamechas), por esse quarteto de rapazes, marcará o fim da primeira fase e o início da segunda, mais cedo do que o previsto (algo que é dito mesmo por uma das personagens, que conta em voz-off tudo o que se passou entre ele e os seus amigos). O erro envolveu a morte acidental de um homem, que provocou a ida dos jovens para uma casa de correção, onde terão de se submeter às ordens de um grupo de polícias que monitorizam a dita casa. Contudo, é aí que a polémica começa: os jovens são vítimas de violação por parte de alguns agentes do centro. Muitos anos mais tarde, um incidente volta a reunir os quatro antigos amigos, e aí, podemos observar como a justiça e a injustiça se misturam de uma maneira muito complexa, através de um longo julgamento que marca uma das partes mais brilhantes de toda a narrativa de «Sleepers».


«Sleepers» aborda uma série de temáticas controversas e causadoras de uma discussão forte e pouco consensual, através de uma história verídica (o filme é a adaptação do livro de Lorenzo Carcaterra, que afirmou que tudo o que descreveu na sua obra é real, exceto apenas os nomes das personagens e pouco mais, que substituiu por razões óbvias) que me aproximou de uma realidade que, a mim, é tão distante, mas que os media falam constantemente. Falo, mais propriamente, do Processo Casa Pia, que tendo tantos anos de existência, continua sem uma resposta definitiva para ser, de uma vez por todas, encerrado. Esse Processo mostra também a fragilidade e a ingenuidade da nossa justiça, facto que está, também, muito patente em «Sleepers» (mas se todo o julgamento da Casa Pia fosse reduzido a um filme de 145 minutos, talvez já estaríamos todos muito mais esclarecidos e sem questionar tanto sobre, afinal, quem é culpado ou inocente em toda aquela história).

Barry Levinson reuniu um elenco repleto de enormes talentos da arte de Representar: Dustin Hoffman volta a colaborar com o realizador, após o gigantesco sucesso de «Rain Man», interpretando um advogado com problemas de álcool e droga, e junta, também, Robert de Niro (que voltaria a trabalhar com Levinson e Hoffman em «Manobras na Casa Branca»), num papel, digamos, pouco... convencional. Não digo isto por ser uma personagem fora do comum, até porque se trata de um Padre (mas provavelmente, trata-se de um dos sacerdotes mais cool da História do Cinema). Mas tive alguma dificuldade em encaixar o Senhor de Niro no papel de bom tipo, que pretende afastar os quatro jovens da "perdição" e conduzi-los para o bom caminho. Às vezes até pensei, talvez um pouco auxiliado pelo ambiente do filme (que me fez muito lembrar as obras cinematográficas sobre a máfia realizadas por Martin Scorsese como «Tudo Bons Rapazes» - que inclui de Niro no elenco também, mas no papel de um patifório com mau ar e mau génio), que aquele Padre, de repente, se iria desmascarar e toda a gente descobria, espantada, a verdadeira identidade daquele senhor. Mas não, isso não aconteceu. Contudo, é um Padre cheio de pinta, que se aproxima dos seus paroquianos (ou nem tanto) pela sua juventude, em que cometeu alguns pequenos crimes. Já é um Padre mais adequado à imagem desse Grande Ator. Eu sei que isto possa ser pieguice minha, mas habituei-me àquele estilo mais particular de Robert de Niro, daqueles papéis mais violentos, quer a nível psicológico e emocional. Contudo, está perfeito neste papel e simpatizei muito com a sua personagem, mostrando o seu enorme talento e versatilidade para qualquer tipo de papel (aliás, só há pouco, em pesquisas, é que me apercebi que de Niro já tinha interpretado um Padre num filme mais antigo e menos conceituado, que contava também com Robert Duvall). As interpretações dos miúdos estão também dignas de nota, dando uma grande veracidade à história e aos problemas com que se veem confrontados na casa de correção. Já os rapazes, quando adultos, são representados, na maior parte das cenas, por apenas dois deles, que se tratam dos maiores protagonistas do grupo (Brad Pitt e Jason Patric). É importante mencionar também o papel de Kevin Bacon, o polícia-símbolo de toda a pedofilia presente no estabelecimento onde se encontram os quatro rapazes. A história de «Sleepers» está muito bem conseguida, adquirindo mais força e notoriedade pela montagem, veloz e muito fluída, e pela visão cinematográfica de Barry Levinson, que soube dar o que eu queria sentir, em cada momento do filme.

Como já referi, Barry Levinson é o realizador das causas sociais, causas essas que nos estão sempre muito próximas, apesar de distantes ao mesmo tempo (ui, que frase tão linda que eu acabei de inventar...). «Sleepers» alertou-me, mais uma vez, para os temas quentes do dia a dia das notícias e que geram também muito falatório por parte da opinião pública. O filme mostra também como casos tão graves como o que os quatro amigos tiveram que conhecer devem ser tratados com a devida atenção e análise, apesar da influência dos grandes grupos económicos (ou daqueles suspeitos que possuem quantias de dinheiro elevadas o suficiente para subornarem quantos defensores da verdade quiserem) que está sempre presente, de uma maneira altamente exagerada. Contudo, apesar de ser o dinheiro que faz o Mundo girar, é a Verdade (e a procura pela mesma) que faz o Mundo crescer. E procura pela mesma que faz o Mundo crescer. E «Sleepers» é uma grande obra que reflete sobre o poder da Verdade e da Justiça (através das mais variadas - e complexas - maneiras) e do dever que cada Cidadão tem de denunciar o que está mal na sociedade, para garantir o bem do máximo número de pessoas. «Sleepers» é um filme cativante e entusiasmante que deveria ser passado nas escolas e ser alvo de discussão e análise de toda a gente, porque se trata de um entre milhares de exemplos que nos mostram como os valores da Verdade e da Integridade são mais importantes do que muitos nos querem fazer crer.

Nota: * * * * 1/2

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