Poderosa Afrodite


Já é certo e sabido que, se eu vou criticar um filme do Woody Allen, não vai ser algo de negativo. Até agora nunca vi um filme mau deste Senhor. Uns melhores, outros menos bons mas ainda dentro do nível "Bom", o talento, a criatividade e a genialidade do cineasta americano nunca me desiludiram e sempre me surpreenderam, não só pelos diversos (e versáteis) caminhos para onde dirige a sua arte cinematográfica (desde a comédia de costumes até ao pseudo-documentário sobre um indivíduo de nome Zelig), como pelo facto de conseguir sempre renovar o "roupeiro" cómico e manter sempre a mesma graça e o mesmo interesse, mesmo que enverede pelos caminhos mais invulgares e desconhecidos. Pelo menos para mim.

«Poderosa Afrodite» vai de encontro a isso mesmo, naquele que eu considero um dos melhores filmes dos mais de vinte que já vi até hoje do Sr. Allen. Se tivesse de fazer um top 10 - tarefa algo complicada, diria - não tenho dúvidas de que «Poderosa Afrodite» estaria lá. Achei que este foi um dos filmes mais cativantes e originais de Woody Allen, que mostra mais uma vez, a partir do grande ecrã, as "normas" de funcionamento das relações humanas, conseguindo de novo inovar e ser hilariante. Mas o filme pega em moldes não muito normais dentro do Universo Allenesco de contar histórias: temos um casal (interpretado por Woody Allen e Helen Bonham Carter) que adota uma criança, e essa criança revela-se ser completamente genial e fora do comum (ou então são os Pais que meteram ideias na cabeça - a personagem de Woody Allen deu-me muito esta ideia - mas isso não interessa agora). Lenny Weinrib, o Pai babado da criança-prodígio, decide, então (visto que a curiosidade era grande) descobrir quem é que foram os "responsáveis" pelo nascimento do garoto. Só que a sua busca poderá seguir caminhos inesperados, e afinal, Lenny apercebe-se que a inteligência não se adquire pelos genes.

Não quis resumir a história de «Poderosa Afrodite» no parágrafo anterior, mas apenas dar alguma bagagem para o visionamento do mesmo. Contudo, se se partir à descoberta filme sem qualquer tipo de informação adicional, a surpresa da obra será ainda maior. Esta comédia satiriza, além de, como é hábito em Woody Allen, as relações dos seres humanos (de uma forma muito particular e que se "recicla" constantemente, daí a obra deste senhor ser sempre muito apetecível para a minha pessoa), um tema mais surpreendente e menos vulgar de ser retratado: a tragédia grega, nos modelos clássicos em que foram criadas, por exemplo, a história do Rei Édipo (o do complexo) ou do Deus Cronos (aquele que comia os filhos e coiso e tal). Não tenho grande conhecimento sobre a cultura grega (um dos campos onde tenho a maior ignorância, infelizmente), mas penso que, por agora, até conheço algumas coisas essenciais. Como três dos grandes símbolos do país: Homero, Atenas e Crise (OK, deixemo-nos de piadinhas idiotas e continuemos a análise ao filme). Mas o porquê da sátira aos modelos da tragédia da Antiga Grécia, se «Poderosa Afrodite» aborda temas e ambientes que dispensam (de todo) qualquer tipo de referência ao dramatismo clássico? Aí está a parte engraçada (e muito original) do filme: Woody Allen utiliza um "coro", ao estilo das ditas peças gregas, para fazer o papel de narrador da história da fita, de uma maneira hilariante, surpreendente e muito bem elaborada (estes peculiares membros do elenco do filme até têm direito a intervenções individuais, onde alguns dos "coristas" dá a sua própria opinião sobre a ação da história - e um ou outro até dá previsões para o futuro da mesma -, incluindo até alguns exuberantes - e inesperados - momentos musicais).

Woody Allen fez-me, pela "não-sei-quant"ésima vez, ficar ultra-bem disposto com um filme de sua autoria, boa disposição essa que durou o resto daquele dia (que foi segunda-feira), e que perdurou durante toda a semana (com as memórias que me foram aparecendo na mente - as cenas mais engraçadas da película passaram diversas vezes na minha cabecinha). Sem perder qualquer tipo de inteligência nem qualidade (as piadas são todas do melhor!), Woody Allen elaborou um dos seus filmes mais bem conseguidos e mais atrativos, de toda a sua filmografia. Há também que destacar as interpretações do elenco de «Poderosa Afrodite»: além do próprio Allen (sempre em formato meio-alter ego), há que fazer especial referência a Mira Sorvino (que venceu o Oscar para Melhor Atriz Secundária com a sua interpretação neste filme), que é a surpreendente Mãe do filho brilhante do casal que o adotou. Helen Bonham Carter, nunca perdendo aquele ar meio excêntrico que sempre a caracterizou (pelo menos eu nunca consegui ver um filme com ela e achá-la "normal"), resulta em cheio como a esposa conflituosa de Lenny Weinrib. 

Woody Allen volta a acertar, deixando um filme brilhante e muito marcante na sua longa carreira, que perdurará por muitos anos, quer pela sua forma como aborda temas como a paternidade, o casamento e o amor, quer pela sua versatilidade em saber contar uma boa história e saber fazê-la chegar ao público, ao passo que este se identifica e segue com muita curiosidade o percurso de cada uma das personagens de «Poderosa Afrodite». Um filme absolutamente a ver!

* * * * 1/2

Comentários

  1. O meu filme preferido dele, excelente!

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  2. O meu preferido dele continua a ser o «Hannah e as suas irmãs», mas este está fantástico!

    Obrigado pelo comentário! :)

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