Pagos a Dobrar


Na noite da passada terça-feira, em vez de ter ido estudar para o teste de Psicologia, que tive hoje, preferi investir quase duas horas do meu tempo neste precioso filme americano, um dos maiores objetos de culto do film-noir, um género de que sou muito apreciador. E digo-vos, foi tempo muito bem gasto (e o teste correu bem, ao menos isso... acho que aproveitei melhor aquele tempo a ver esta excelente obra do que a estudar matérias que, àquela hora, não me chamavam muito a atenção). «Double Indemnity», na tradução correta «Dupla Indemnização» (mas neste caso, o título tuga, apesar de não ser uma tradução fiel ao original, até que nem lhe fica mal, porque não tira o contexto do mesmo) é um filme sobre amor, enganos, morte, dinheiro e seguros. Sim, visto que a história da fita gira à volta de Walter Neff, um corretor de uma empresa de seguros (interpretado por Fred MacMurray), que se apaixona pela esposa de um dos seus clientes, Phyllis Dietrichson (interpretada por Barbara Stanwyck). Essa paixoneta (aparentemente) correspondida levará a que os dois amantes preparem um golpe para conseguirem angariar uma quantidade considerável de dinheiro, através do marido da dita senhora, que será o alvo da falcatrua planejada pelo corretor de seguros e pela moça algo... suspeita.

«Pagos a Dobrar» (o título português verdadeiramente usado - e que nem é assim tão mau apesar de não ser uma tradução 100% fiável) inicia-se de uma forma pouco convencional, diferente do habitual e diria mesmo que, em certa medida, chega a ser inesperada. Vejamos: a história inicia-se quase pelo fim da mesma, se seguirmos a ordem cronológica dos acontecimentos. Mas não é isto que a torna inesperada, e sim a forma como é feita, ou seja, a confissão de Walter Neff ao seu patrão, Barton Keyes (interpretado pelo grandioso Edward G. Robinson, uma das grandes estrelas dos filmes de gangsters dos anos 30, a par de James Cagney), do crime efetuado, do que se sucedeu e que Neff não estava à espera, e de tudo o que levou a que acontecesse a tragédia. Neff é uma personagem descontrolada e pouco segura de si própria... ou talvez não. Pelo menos é a ideia inicial que podemos tirar desta figura ao depararmos com a cena da confissão, que inicia o relato de todos os acontecimentos do filme. Mas não, isso não é verdade. A pouco e pouco compreendemos o engenho e a astúcia com que Neff, pormenorizadamente, preparou cada detalhe do seu grande golpe (achei muito engraçado o pormenor de pôr um papel nas campainhas de casa, para saber se, ao voltar depois de ter saído, se alguém o tinha vindo procurar ao seu domicílio - o que teria acontecido se os papéizitos estivessem no chão, caídos), e como conseguiu sempre enganar o seu chefe, de uma inteligência quase inata para resolver crimes, e que quase o apanhou com a boca na botija.

O filme é baseado no livro policial homónimo da autoria de James M. Cain, tendo sido adaptada ao ecrã pelo também-realizador Billy Wilder, juntamente com o autor Raymond Chandler (que criou o Detetive Marlowe, uma das mais famosas e míticas figuras da literatura policial de todos os tempos). É uma história intrincada, repleta de grandes diálogos e excelentes cenas de drama, romance e crime. Embrenhei-me na trama, nos personagens e no ambiente do filme daquela maneira que só películas com características "noir" me conseguem causar. Gosto desse estilo cinematográfico pela fotografia, pelos ângulos e movimentos de câmara, pela sucessão de cenas que envolvem diversos tipos de narrativa mas que encaixam que nem uma luva umas nas outras. «Pagos a Dobrar» é tido como um dos expoentes maiores do film-noir, com lugar em, praticamente, todas as listas que procuram saber quais os melhores filmes de todos os tempos que já pude consultar (embora nenhuma me tenha agradado por completo - é o tal caráter subjetivo de qualquer seleção de filmes, livros, álbuns musicais, etc. Mas ao menos ainda se encontram algumas preciosidades, como foi o caso de «Pagos a Dobrar»), sendo também uma influência para muitos realizadores famosíssimos (e grandesíssimos também, com obras primas de cortar a respiração) como o Mestre Martin Scorsese, um dos maiores sábios na área da Sétima Arte, tanto na execução como na preservação (ouvi-lo a falar de cinema é um tempo muito bem passado, garanto-vos!), de que tive conhecimento até hoje. E... mesmo se nunca tivesse sido reconhecido e fosse um filme que entraria na categoria dos "esquecidos", eu estaria, na mesma, aqui a defendê-lo com unhas e dentes (e acrescentaria também que se tratava de um dos filmes mais subvalorizados que já me tinham passado pela vista, mas como não é o caso, prossigamos com a crítica).

«Pagos a Dobrar» é um filme sensacional, que me remete para aquele tema do "já-não-se-fazem-coisas-assim". Acho que é uma daquelas obras que permanece boa, passados tantos anos após a sua estreia, e que continua a emocionar, a causar algum riso em certas partes, e também a interessar. Senão seria muito mais provável que tivesse caído no dito esquecimento (ou não... a vida dá muitas voltas, já nada me surpreende...). Fazerem uma sequela deste filme é impensável, porque não vale a pena (falo nisto apenas porque hoje soube da triste notícia que a Warner Brothers tem planos para uma possível sequela do clássico «Casablanca». Ele há cada uma...), «Pagos a Dobrar» vale por si mesmo e tem tanto ou mais para explorar nele mesmo do que em meia dúzia de "thrillers" atuais. Os comportamentos e movimentos das personagens (quer gestuais como psicológicos - como por exemplo, as diferentes formas como Neff trata Phyllis - e Phyllis trata Neff - ao longo que a ação do filme se desenrola e começa a criar-se um clima de tensão entre os dois), as emoções que transmitem, a forma como são pronunciados e planeados os diálogos, e tantas outras coisas... «Pagos a Dobrar» é um autêntico guia de estudo da Arte de se fazer Cinema e um exemplo do Grande Cinema intemporal, que continuará a ser objeto de visionamento e agrado de muitas gerações. Obrigatório para os apreciadores do film-noir, e para todos os cinéfilos em geral (tal como a maioria dos filmes que vou vendo - dependendo dos gostos de cada um, vale sempre a pena tentar descobrir alguma das pérolas que eu vou "cronicando"), esta é uma obra imperdível!

Nota: * * * * *

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