Os Pássaros: um verdadeiro filme de terror


Faço aqui uma pequena confissão: não sou apreciador de filmes de terror. Não é por meterem medo (porque, pelo menos a maioria dos que eu vi, não me fizeram qualquer efeito mental - à exceção do «Shining», que ainda teve algum efeito, embora eu não o considere uma obra-prima), mas por duas razões completamente diferentes: a primeira, porque a generalidade dos filmes de terror vive dos mesmos lugares comuns e estereótipos de sempre: um ambiente perfeitamente natural, em que a história de fundo entre as personagens nada interessa para o desenvolvimento do filme, onde aparece, como sempre, um serial killer disposto a matar toda a gente sabe-se lá porquê ou um monstro que, muito previsivelmente, devora tudo o que lhe apareça à frente; a segunda razão é que a maioria dos filmes deste género cinematográfico tendem a ser, além de, como já expliquei, repetitivos, fazerem o uso de sangue e tripas para me tentarem assustar. Infelizmente, não é isso que me assusta. Uma vez fiquei espantado quando passei, numa aula de filosofia do ano passado, o filme «Tudo Bons Rapazes» de Martin Scorsese e da maior parte das pessoas ter ficado meio que "aterrorizada" com as cenas de violência do filme. Há apenas uma pequena diferença entre as cenas envolvendo pancadaria deste extraordinário filme de gangsters com, por exemplo, a chacina dos filmes da saga «Saw»: é que, pelo menos, em «Tudo Bons Rapazes» sabemos que aquilo que vemos é baseado numa história verídica... Talvez fosse por isso que meio mundo daquela turma tivesse algum medo das tropelias de Henry Hill e companhia... mas não. Foi mesmo só por causa do sangue. E a mim isso não faz qualquer tipo de confusão. Nem percebo como é que isso pode meter medo. Mas isto sou só eu, e não pretendo desrespeitar os apreciadores do género de terror. Talvez ainda não encontrei foi muitos filmes do género que me agradaram.

«Os Pássaros», um dos maiores êxitos comerciais da carreira do genial Alfred Hitchcock (a.k.a. Mestre do Suspense), veio contrariar este meu geral desagrado pelo género de terror, encabeçando a lista dos bons filmes que já vi com temáticas que pretendem assustar o espetador (se bem que essa minha lista não seja muito grande - existem apenas dois títulos, este mais o «Shining»). Este thriller com muito terror à mistura começa também a pegar nalguns estereótipos presentes em muitos filmes de terror, como por exemplo, o cenário de que tudo está ótimo e a correr às mil maravilhas ao princípio. Caramba, se alguém vir os primeiros dez minutos de «Os Pássaros», é muito pouco provável que consiga perceber para que é que servem as ditas aves no filme, a não ser para os expositores da loja de animais onde Melanie Daniels (interpretada por "Tippi" Hedren, uma atriz que se introduziu no mundo do cinema com esta obra hitchcockiana), a personagem central da trama, se encontra pela primeira vez com Mitch Brenner (interpretado por Rod Taylor). Mas digo que vale muito a pena continuar a ver «Os Pássaros» para além desses ditos dez minutos, pois as surpresas começarão a surgir de uma maneira inesperada, tanto para os espetadores que viram o filme século XX como para os indíviduos das novas gerações que (como eu) contactam pela primeira vez com esta fita.

Porque é que gostei bastante de «Os Pássaros»? Porque sinceramente, é um filme que me pareceu não se deixar ficar pelas evidências, trazendo-nos grandes momentos de cinema (diria mesmo, arte) sem deixar de ser puro entretenimento "pipoqueiro". O Mestre de Suspense encontra aqui mais razões para explicar o famoso epíteto que a opinião pública lhe atribuiu ao longo dos anos, com um filme carregado de tensões fortes e de momentos que poderão causar mesmo medo. Este medo é conseguido tanto pela história e pelos atores, que funcionam de uma forma perfeita para conseguirem atingir o objetivo de «Os Pássaros», como pelos diversos planos de câmara utilizados, muito estratégicos, que realçam ainda mais toda a pressão e receio das personagens do filme. Destaque também para a não utilização de banda sonora, que não existe, praticamente, em todo o filme, o que beneficia o seu ambiente misterioso e terrorífico (não precisamos de nenhuma música para percebermos quando algo de errado se passou/se está a passar/se irá passar).Uma cena do filme que ficou muito presente na minha mente e que me marcou bastante, por exemplo, é um dos muitos exemplos ilustrativos da forma como Hitchcock monta um "susto" para o espetador, sem precisar, lá está, de banda sonora, e criando um verdadeiro momento de pura criatividade e originalidade do realizador: quando Melanie vai buscar a irmã de Mitch, temos um plano dela, e depois um plano do recreio da escola. Esta sequência repete-se algumas vezes, e de cada vez que voltamos a ver o recreio, vemos que este está cada vez mais cheio de pássaros (neste caso, corvos), que irão atacar aquela turma quando os alunos saírem, com cautela e acompanhados pela professora. Se virem «Os Pássaros», reparem neste pequeno pormenor. Para mim, só esta sequênciazinha é de génio, e tenho dito.

«Os Pássaros» é um filme muito bom, que me deu o que eu procuro, na minha opinião, na definição de filme de terror. Alfred Hitchcock mostra como o terror não precisa tão objetivo e hardcore para nos assustar verdadeiramente (se tivesse sido filmado à maneira do «Saw», garantidamente que não tinha mesmo passado dos dez minutos de visionamento). E confesso que fiquei verdadeiramente impressionado e algo assustado com certas cenas do filme, que tendo quase meio século, conseguiu ser mais aterrorizante que qualquer promissora nova estreia supostamente terrorífica nas salas de cinema. E mais do que um filme, «Os Pássaros» consegue ser também (um pequeno momento para mostrar como a filosofia está permanentemente ligada à criação de cinema) uma análise sobre a reação de uma sociedade em relação à ocorrência de um fenómeno grave e inconcebível, perturbador para a estabilidade da mesma. Sim, poderia, sendo assim, dar esta mesma opinião de análise sobre filmes de catástrofes como «2012» e «O Dia depois de Amanhã» (outro género de filmes que está em primeiro lugar nas minhas preferências), só que a diferença é que «Os Pássaros» tem uma visão mais real, intimista e construtiva do caso que apresenta, ligando-se mais ao espetador pela sua veracidade e não se mostrando apenas como um filme para se passar um bom bocado e depois enxotá-lo para sempre no recanto poeirento da nossa memória. «Os Pássaros» é uma grande obra com pouco mais a dizer e muito mais a contemplar, visto que as palavras são poucas para a descrição do que pude ver e só o olhar pode contemplar, verdadeiramente, a riqueza da fita. 

Nota: * * * * 1/2

Comentários

  1. Vou tratar de ver já Os Pássaros. Gostei do que li aqui. Apenas uma ressalva: O Shining é mesmo uma obra prima. Aliás. Toda a obra do Kubrick o é.

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  2. Eu não consegui achar isso do «Shining», mas pronto, são gostos. :) Gosto mais de outros filmes do Kubrick, cuja filmografia ainda não pude ver na íntegra: «Laranja Mecânica», «Dr Strangelove» e «2001: Odisseia no Espaço». Para mim são as obras primas da carreira deste ícone do cinema. Mas o «Shining» é um bom filme! :)

    Obrigado pelo comentário! :)

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  3. Já estou a ver Os Pássaros. Acabei de "sacar" agora mesmo por torrent. :))

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