O Verão de Kikujiro


Depois do sucesso e aclamação de «Hana-Bi: Fogo de Artifício» no Festival de Veneza (filme pelo qual o realizador/autor/ator Takeshi Kitano recebeu o galardão máximo do certame: o Leão de Ouro), dois anos depois surge um filme completamente diferente, quer em estilo, quer em forma, quer em conteúdo. Takeshi Kitano afirmou que, depois da premiação de «Hana-Bi», quis mudar radicalmente de "visual" cinematográfico, para conseguir pôr os seus seguidores constantemente à prova e para mostrar a versatilidade de temas que sabe abordar como ninguém no grande ecrã.

«O Verão de Kikujiro» é um filme que possui um ambiente bonito e cativante, reforçado pela extraordinária química entre as duas personagens protagonistas da narrativa: Masao, o menino que parte numa grande jornada em busca da sua Mãe, e Kikujiro, uma autêntica besta javardola mal educada, que acompanha o garoto na sua busca pela progenitora perdida. A relação entre as duas personagens desenvolve-se, ao longo das quase duas horas de duração do filme, de uma maneira invulgar, que nos emociona e encanta ao mesmo tempo, apesar das constantes cenas disparatadas que o filme possui (e que são o símbolo característico da comédia de Kitano, que no Japão é pouco conhecido pelo seu trabalho cinematográfico, mas mais pela sua carreira de "entertainer" em várias outras áreas: rádio e televisão principalmente). Apesar de Kikujiro não perder a maioria das suas características rudes para com os outros e para com o próprio Masao, conseguimos entender que tudo aquilo não passa de uma fachada, e que Kikujiro é apenas (e virando o famoso chavão do avesso), um cordeiro com pele de lobo. E é com as experiências que vive, durante a viagem, com Masao, que percebemos o lado humano daquele indivíduo e como tem também sentimentos e emoções, apesar de querer mostrar-se sempre como uma pessoa muito mal educada. Há uma ligação quase como entre Pai e Filho, que fortalece os laços entre as duas personagens e a identificação do público com este duo, que vive as mais diversas peripécias e testemunha as mais variadas situações.

«O Verão de Kikujiro» está repleto de grandes e hilariantes gags, onde reinam, na sua maioria, o non-sense (mas daquele non-sense extremo, mais parecido com a mais extrema parvoíce possível) e a comédia física, numa junção perfeita que dá ao filme um ambiente cómico, apesar da força dos temas que nele são abordados (a família, a amizade e a bondade, por exemplo) e que me fizeram pensar muito no verdadeiro significado das expressões das personagens, que contém muito mais do que as falas que pronunciam no filme. Esta obra contém também cenas de uma grande beleza, quer visual como narrativa, que nos permitem conhecer melhor toda a história e todas as características das diversas personagens que o filme apresenta (não só a dupla "peregrina", como também todos os indivíduos que encontram no grande caminho que percorrem). O "espetáculo" visual e de mise-en-scène é muito auxiliado pela poderosa banda sonora da autoria de Joe Hisaishi (um colaborador regular dos filmes de Takeshi Kitano, tendo já antes assinado diversas composições para o realizador para muitas das suas obras, como «Hana-Bi» e «Sonatine»), que dá uma grande potência ao filme e que se torna numa parte fundamental para a compreensão do mesmo. E toda esta junção de fatores, aliada à vivacidade das interpretações do elenco (principalmente a vertente cómica de Takeshi Kitano) marca toda a experiência de visionamento de «O Verão de Kikujiro».

Esta foi uma comédia, com toques de drama (e alguma fantasia à mistura), que me surpreendeu bastante. Achei que Kitano fez muito bem em mudar o "visual" e não fazer um filme tão violento ou pesado, como é mais recorrente na sua filmografia (pouco conhecida e divulgada, infelizmente, em Portugal). É um filme muito agradável, que me emocionou com a sua simplicidade que caracteriza as relações humanas e a cultura japonesa, tão rica e muito desconhecida da minha parte. «O Verão de Kikujiro» toca pela sua história, pela sua música e pelas suas personagens, que se aproximam de nós pela forma simples e normal como reagem às situações com que se deparam ao longo do filme. Contudo, penso que o verdadeiro motor da fita é mesmo a personagem de Kikujiro. Apesar da maioria das sinopses feitas sobre o filme darem mais destaque à demanda de Masao em busca da Mãe, Kikujiro dá o espírito à narrativa da obra e a que as situações se procedam da forma como o filme nos mostra. Masao é apenas o acessório para o adulto poder rever nele os seus próprios problemas e angústias. E isso, meus amigos, penso que é uma característica muito bonita de «O Verão de Kikujiro», que o torna merecível de ser visto para as pessoas que gostam de simplicidade e humildade em obras cinematográficas.

* * * *

Comentários

  1. Depois de ler este teu texto, fiquei, sem dúvida, cheia de vontade de ver este filme. Já ouvi também a belíssima peça de piano de Joe Hisaishi que colocaste no fb. Mais uma vez parabéns e obrigada!

    ResponderEliminar
  2. Obrigado por mais um comentário Tia! :)

    ResponderEliminar

Enviar um comentário

Se chegaram até aqui e tiverem alguma mensagem, crítica, ou opinação a fazer em relação ao que acabaram de ler, façam o favor de o escrever aqui. A gerência agradece e responde (se não forem nenhum príncipe da Malásia que tem 10 milhões de dólares para me oferecer, claro).