O Menino de Cabul


Ao contrário de muitos, gostei bastante de ver «O Menino de Cabul». Não chego ao ponto de o considerar excelente, mas de facto, achei que esta obra tem mais do que se lhe diga e que deve ser vista ao pormenor. O filme parece simples, e não parece apenas, admito. A história não é complexa, não há grandes reviravoltas no guião, a montagem não é ultra espetacular, nem a narrativa é contada de uma forma pouco linear. Mas a força de «O Menino de Cabul» está mesmo na sua simplicidade, e na empatia que as personagens emanam e que me marcaram completamente. «O Menino de Cabul» não precisa de estar incluído em alguma das milhentas listas que atribuem esse epíteto tão subjetivo de «O melhor filme de todos os tempos» para ser o seu visionamento ser compensador. O filme não foi feito para ser um marco inesquecível na História do Cinema, mas para transportar uma grande história (a partir do livro «The Kite Runner», da autoria de Khaled Hosseini, que faz uma introdução ao filme na edição home-video do mesmo) para a Arte das Imagens em Movimento e para chegar às pessoas, ao público que, com os gostos mais variados, anseia por toda e qualquer novidade do mundo da Sétima Arte.

«O Menino de Cabul» é a história da amizade de dois meninos oriundos de realidades completamente distintas: um mora com o Pai, muito rico, e o outro vive com a família, que trabalha para o progenitor abastado do outro. Obviamente que este é um daqueles chavões que inundam uma quantidade bastante considerável de fitas que Hollywood, Bollywood e todos os outros países que fazem cinema (e que não têm uma "Meca" que marca a indústria da arte que tenha "wood" no nome) produziram. Aliás, é de apontar o caso do super-ultra-mega-popular (e mais recente) «Amigos Improváveis», que junta também duas pessoas através do mesmo guia narrativo de «O Menino de Cabul». E volto a pegar nesse filme (que foi um estrondoso sucesso por toda a Europa e além-mar, tornando-se um dos filmes mais vistos de sempre em França) para estabelecer um paralelo: é essa amizade entre duas pessoas diferentes que faz todo o interesse que circula as duas obras, e é essa "fórmula", que encaixa perfeitamente em ambos os casos cinematográficos, que faz as pessoas verem o filme e adorá-lo. Há vários tipos de filmes, os que são perfeitos, ou os que mexem connosco. Há ainda os filmes que conseguem ser perfeitos e marcantes e encaixarem.se em tantas outras categorias. Mas eu ponho «O Menino de Cabul» na categoria dos filmes que marcam, e que se tornam objeto de culto por um aglomerado de pessoas que se identificam e (em consequência) se comovem mais com o filme.

Marc Foster (realizador já conceituado, responsável por filmes tão diversos como «À Procura da Terra do Nunca», «Monster's Ball - Depois do Ódio» e pelo penúltimo capítulo do franchise 007, «Quantum Of Solace) pegou no livro e conseguiu fazer um filme que, além de ser entretenimento a sério, bem feito, concebido e idealizado, mostra ter habilidades para fazer obras que cheguem ao público, tornando-os cativantes e merecedores do seu visionamento. Tal como Steven Spielberg conseguiu renovar o espírito pelos grandes filmes de ação e aventura com a saga do mítico Indiana Jones, Foster mostra ter as competências desenvolvidas o suficiente para fazer que não lhe causem prejuízo, sem deixarem de ser bons (às vezes, há quem confunde "blockbuster" como mau filme... comparação mais errada...). A crítica ficou meio dividida com «O Menino de Cabul» (só o consagrado - e vencedor do Pulitzer - Roger Ebert mostrou estar mais entusiasmado com o filme, nomeando-o o quinto melhor do ano de 2007 e atribuindo-lhe nota máxima), mas penso que o público não ficou assim tanto. «O Menino de Cabul» é um filme "do público", tal como o filme «Amigos Improváveis, de que falei há pouco. E a mim mostrou ser uma história muito estimulante e entusiasmante, que nos faz pensar sobre temas que não estão longínquos como se possa pensar. O tempo cronológico mais perto do Presente que podemos encontrar no filme é o do ano de 2000, onde é retratada a situação de guerra e de extremo fanatismo que se vive, de uma forma muito intensa e perdurando até hoje, em muitos países e cidades árabes. E além de ser um filme sobre factos que nos chocam e impressionam em 2012, é uma obra sobre o poder da amizade e da escrita, que alcança fronteiras e que nos permite conhecer, de uma forma mais abrangente e detalhada, o que se passa à nossa volta. "Ler", como diz um poster que tenho cá por casa, "transforma os sonhos em realidade". Mas penso que, com «O Menino de Cabul», se passa exatamente o contrário: é a realidade que é transformada em sonho, na ficção que o livro e o filme abordam. Contudo, é uma ficção muito real, que não nos deixa parados sem refletir no  alcance que as palavras escritas podem ter sobre as que fazem o nosso quotidiano. «O Menino de Cabul» é um grande filme que não pode deixar ninguém indiferente.

* * * * 1/2

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