domingo, 11 de novembro de 2012

O Homem Elefante


Há quase vinte e quatro horas terminei uma das sessões mais emocionantes e perturbadoras de cinema que fiz em muito tempo.É raro encontrar um filme com particularidades que me fizeram estar num estado de espírito tão particular que considero impossível transpôr para a palavra escrita (mesmo para a falada, penso que teria grandes dificuldades em conseguir descrever o que sinto neste momento). Encontrei características tão únicas e especiais em «O Homem Elefante», um dos mais admirados trabalhos do realizador David Lynch (o nome diz tudo, não preciso de estar a fazer referências à sua carreira).

Não consigo considerar «O Homem Elefante» uma obra prima cinematográfica, nem penso mesmo que seja um filme assim tão bem executado para "merecer" uma nota máxima dada pela minha pessoa. Contudo, tornou-se mais um filme integrante da minha lista de preferidos de sempre (que já vai em 58 itens, por agora). O filme é imperfeito, mas é perfeito ao mesmo tempo. É difícil explicar, mas apesar de haver algumas partes de «O Homem Elefante» que não estejam feitas de uma maneira tão boa como outras, este foi um filme que me tocou muito e que me marcou muito. E foi de uma maneira tão extraordinária, tão única e tão forte, que fiquei com a impressão de que este vai ser um filme que vou rever muito mais vezes ao longo da minha vida. E daí, achei que era justo incluí-lo na minha lista. Também não tem mal nenhum, visto que tenho outros filmes "imperfeitos" no meu top de preferências (veja-se, por exemplo, «Kramer contra Kramer» e «Regresso ao Futuro»). E apesar das "imperfeições", «O Homem Elefante» tratou-se, a meu ver, de um filme de uma rara sensibilidade, muito diferente de outros trabalhos do realizador David Lynch (que, pelo que eu conheço, gosta mais de enveredar por caminhos mais surrealistas e não tão "certinhos" como os utilizados para este filme, nomeado para oito Oscares).

Falando de «O Homem Elefante» em si, pela sua história e pelas temáticas que aborda... penso que há muito material para ser explorado e o que eu possa escrever vai sempre parecer pouco. David Lynch e sua equipa partem de um caso verídico, contando a história de um indívíduo chamado John Merrick (no filme o nome próprio foi alterado, visto que Merrick, originalmente, se chamava Joseph. Não consegui perceber o porquê desta substituição, mas talvez assim fosse mais fácil para a personagem, no filme, entoar o seu nome, e também assim cria-se mais impacto no espetador - em mim, ao menos, foi o que aconteceu. É preciso ver o filme para compreender esta "sensação", mais não digo) que nasceu deformado, devido a um acidente que a sua Mãe teve durante o seu tempo de gestação. Merrick foi tratado sempre como uma aberração e como número de espetáculo circense, atraindo multidões de curiosos pelo mundo dos "freaks" pelo epíteto de Homem Elefante. Contudo, um proeminente cientista (interpretado de uma forma brilhante no filme por Anthony Hopkins) decide compreender mais em pormenor a vida e o pensamento de John Merrick. As investigações e pesquisas do cientista com o próprio Merrick dão uma nova vida a esta "cobaia", tornando-o um ser humano mais digno desse nome: sociável, falador e curioso pelo mundo cultural. Contudo, haverá certas pessoas, incluindo o antigo "proprietário" de Merrick (que o usava como artista de circo), que pretenderão usar as suas grandes deformações físicas para conseguirem proveito próprio. E assim, a vida de John Merrick não está definitivamente segura...

«O Homem Elefante» é um espantoso filme dramático, comovente e muito propício à queda de umas lágrimazinhas em certos momentos. A fita pode ser vista como uma metáfora para a atualidade, visto que aborda um tema que é comum a, praticamente, todas as épocas que o nosso planeta já viveu: a diferença, e o modo como a encaramos. John Merrick é visto por uns como um idiota conhecido apenas por ser uma das aberrações do circo; outros conseguem ter uma visão menos tapada e mais abrangente das coisas, conseguindo perceber que Merrick é, tal como qualquer um de nós, um ser humano, que deve ser respeitado e compreendido (citando a famosa frase da personagem: "I am not an animal! I am a human being! I...am... a... man!"). O filme acerta em cheio em três pontos: as interpretações (não esquecer a magistral performance de John Hurt como Merrick), a banda sonora composta de uma maneira perfeita para todo o ambiente e história do filme, e a história, escrita de uma forma bastante interessante inteligente, que nos comove, nos alerta para as injustiças do Mundo, e que nos incita também a marcar a diferença dos padrões que, parece, regulam a nossa sociedade. Filmado a preto e branco (para mim, foi uma escolha muito positiva e acertada por parte de David Lynch), «O Homem Elefante» reflete também a mentalidade de uma sociedade diferente da atual, mas apesar de ambas estarem separardas por quase dois séculos, ainda possuem (para o bem e para o mal) diversos pontos em comum.

Nota: * * * * 1/2

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