JFK: Política, segredos e intrigas


O assassínio do Presidente John F. Kennedy sempre foi um assunto de grande interesse para a minha pessoa. Não tanto pelos mitos, incertezas e mistérios que rondam a sua morte, mas pelo facto de essa tragédia marcante da História dos EUA mostrar (tal como sucedeu, pouco tempo mais tarde, com Martin Luther King e Robert Kennedy) que as pessoas que pretendem fazer a mudança são sempre as que mais depressa serão vistas como alvos a abater e a afastar tanto da sociedade, como da comunicação social. Como sabemos, não é o Bem, mas o Mal que prevalece, na maior parte dos casos. E Oliver Stone decidiu em boa hora pegar na investigação corajosa de Jim Garrison ao que verdadeiramente esteve por trás do assassínio de Kennedy e adaptá-la para o grande ecrã, elaborando não só um dos maiores símbolos de revolta e polémica cinematográfica da sua carreira (particularidade que perpassa grande parte da sua obra), como também um fantástico thriller que foi, certamente, um dos melhores filmes que já vi até hoje sobre temas que envolvam política (ou foi até mesmo o melhor, arrisco-me a afirmar!). 

«JFK» é um filme pouco consensual e que tem sido alvo de grandes discussões desde 1991, o ano em que estreou, até à atualidade (distinguido como um dos que gerou mais controvérsia em toda a História do Cinema pela Enternainment Weekly). É impressionante a quantidade de artigos recentes, dos últimos três anos, que se podem encontrar fazendo uma rápida pesquisa por um qualquer motor de busca, que versam mais pela veracidade ou falsidade dos factos apresentados no filme do que, propriamente, pela sua qualidade. Também o tema de «JFK» é nada mais, nada menos, do que um dos crimes mais "famosos" de todos os tempos, e que, passados quase cinquenta anos desde que a tragédia se sucedeu em Dallas, continua a fazer correr muitos rios de tinta. Penso que o filme de Oliver Stone não deve servir para ser sujeito a uma análise factual, se é uma adaptação 100% exata dos acontecimentos daquele ano de 1963 e das investigações que, três anos depois, se sucederam, chefiadas por Jim Garrison e a sua equipa. Visto que a teoria de Garrison limita-se a isso mesmo, ao facto de ser uma teoria (embora muito bem fundamentada e muito próxima do que realmente possa ter acontecido), o assassínio de Kennedy continua envolto em polémica e, se possível, fechado a sete chaves na memória dos Americanos.

Oliver Stone, contudo, decide virar tudo do avesso (como só este realizador sabe fazer) e pegar nesse tema, que o Governo e o Povo Americano sempre quis tentar esquecer. O resultado é um grande filme, com uma excelente interpretação de Kevin Costner, que pretende dar, em pormenor, a perspetiva que Jim Garrison construiu, ao longo de vários anos de entrevistas com testemunhas e suspeitos e algumas análises ao que o Governo quis esconder, sobre o assassínio de Kennedy. O ponto de partida de todo o caso é perceber como Lee Harvey Oswald (que, na altura - e ainda hoje - é o nome de referência quando se menciona a morte do 35.º Presidente dos EUA) poderia ter atuado sozinho nessa peça de teatro. E daí, Garrison e seus companheiros descobrem um grande esquema que envolve a Guerra no Vietname, Fidel Castro, a URSS, todas as razões viáveis que causassem o triste fim de Kennedy sofreu. E a cada novo dado que é apresentado à equipa de investigação, eu ficava cada vez mais curioso e interessado na mesma. Tudo neste filme funciona para captar ao máximo a atenção do espetador, desde a magnífica montagem que nos põe num ritmo acelerado semelhante à quantidade de informação que nos passa pelos olhos, ao longo de toda a duração do filme, até ao poderoso argumento e realização, que nos convencem de que, apesar de ser uma teoria da conspiração, existem grandes probabilidades de Garrison estar correto.

«JFK» não pretende chocar ninguém nem afirmar-se como a verdadeira resposta aos mitos e ideias que circundam o assassínio de John F. Kennedy há quase meio século. O filme pretende, apenas, alertar os espetadores para perderem a ingenuidade em relação ao Mundo, à política e aos media, e tentarem sempre, pelas suas próprias cabeças e sem serem condicionadas por outrem, compreenderem tudo o que se passa à volta delas, criando a sua própria opinião que, se for relevante e independentemente das consequências, deve ser divulgada e exposta à sociedade. Quem não arrisca não petisca, e basta ver o próprio exemplo deixado por Jim Garrison, que ao longo de todo o tempo que esteve em busca da verdade e da justiça ao relação ao caso Kennedy, foi pressionado por tudo e todos, e isso não o fez desistir da sua causa. E isso, meus amigos (como afirma Al Pacino em «Perfume de Mulher»), chama-se integridade, matéria de que os nossos líderes deveriam ser feitos. Garrison ficou na História. Para uns um lunático, para outros um indivíduo fora de série cuja teoria faz muito sentido (e que eu apoio, visto que, de tudo o que pude saber até hoje sobre todo este caso, esta teoria pareceu-me ser a mais verídica), ninguém pode ficar indiferente, tanto com o seu trabalho de investigação, como com esta maravilhosa peça cinematográfica de Oliver Stone, que por si só já conseguiu, ao menos, com que o Governo Americano mostrasse ao público alguns documentos, até então confidenciais, que tinham ficado guardados nos arquivos sobre toda esta problemática.

Ao acabar de ver as três horas de «JFK», fiquei com uma grande vontade de mudar o Mundo. E penso que esse deve ser o maior objetivo de Oliver Stone com a feitura deste filme, além de pretender despertar as pessoas para a realidade. E faz sentido que eu tenha ficado com esta sensação, visto que Stone dedica o filme (como aparece nos créditos finais) aos jovens, em quem deposita confiança e esperança para mudar os podres da sociedade. «JFK» é um excelente drama político e histórico que todos merecemos ver e contemplar, para percebermos que, apesar de todo o Mal que possa haver no Mundo, ainda existem pessoas empenhadas (e bem!) em fazer a diferença.

Nota: * * * * *

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