sábado, 3 de novembro de 2012

Há Lodo no Cais


«Há Lodo no Cais», uma das obras mais conhecidas e estimadas das carreiras do realizador Elia Kazan e do ator Marlon Brando, é por muitos considerado um dos melhores filmes americanos de todos os tempos, cujo estilo e inovação marcou um ponto de viragem no Cinema Americano, e cuja força e emoção (patentes tanto nas excecionais atuações de todo o elenco, como também na comovente história que envolve crime, amor e integridade) permanecem intactas quase sessenta anos depois da sua estreia original. Ficou célebre a interpretação de Marlon Brando como Terry Malloy, um antigo pugilista que poderia ter sido campeão, mas que se viu obrigado a trabalhar para o mafioso Johnny Friendly (uma interpretação de cortar a respiração de Lee J. Cobb, um ator que, a meu ver, foi vítima de muita subvalorização por parte dos críticos e do público ao longo das décadas - apesar de ter sido nomeado para Oscar pelo seu papel em «Há Lodo no Cais»), cooperando com o bando de gangsters que controla o cais da cidade e provoca todo o tipo de crimes e patifarias para conseguir manter todos os seus negócios.

Tudo muda quando Terry Malloy se apercebe que Eddie Doyle, um trabalhador que tentou ir contra o sistema de Johnny Friendly e companhia, foi assassinado, em parte, por sua causa, pois os seus superiores tinham-lhe ordenado que conseguisse convencer Doyle a subir até ao último andar do prédio onde morava (apesar de ele não se ter apercebido que a sua ação iria conduzir aquela morte), tendo sido empurrado do mesmo por gangsters serventes a Friendly. A partir daí, Malloy muda, a pouco e pouco, de atitude, e apercebe-se de como chegou tão baixo na sua vida (ficou famosa a frase dita por Brando: You don't understand! I coulda had class. I coulda been a contender. I coulda been somebody instead of a bum, which is what I am. - uma citação que ganhou muita fama e mediatismo à medida que «Há Lodo no Cais» chegava a novas gerações de espetadores, tendo sido eleita, pelo American Film Institute, como a 3.ª melhor citação cinematográfica americana de sempre). Ajuda o padre da zona que pretende desmascarar os esquemas criminosos da equipa de Friendly e apaixona-se pela irmã do assassinado (mais uma excelente interpretação, desta vez de Eva Marie Saint, tendo este sido o seu primeiro papel cinematográfico).

«Há Lodo no Cais» é um filme que cresce com o espetador, ao longo da sua duração, e que mexe connosco, e penso eu que esses filmes são sempre os que mais me marcam. Esta é uma obra capaz de chegar a qualquer tipo de público, pela sua força, pela grande capacidade de captar a atenção de cada um de nós, pelas mais variadas razões: quer seja pelo extraordinário elenco do filme, quer pela história intrincada que aborda um tema que, se o filme fosse feito hoje, pouco teria de ser alterada, quer pela identificação que o espetador possa fazer com o herói Terry Malloy (também eleito pelo AFI, mas como um dos melhores heróis cinematográficos de todos os tempos, em lista própria), que se apercebe das oportunidades da vida que perdeu e que o levaram ao estado de vagabundice em que se encontra. Tal como  Malloy afirma, ele poderia ter sido alguém, em vez de um maltrapilho. Talvez isto seja uma lição para cada um de nós, para percebermos que devemos aproveitar tudo o que nos surge e que pode ser bom para nós. Uma oportunidade, daquelas que se encontram num milhão, têm esse problema: de serem tão raras. É sempre melhor aproveitarmos a vida para fazermos o que queremos e não estarmos escondidos atrás de uma máscara para agradar a alguém. E isto pode parecer muito utópico da minha parte, mas gostava que as coisas fossem sempre feitas assim pelas pessoas... Mas é só a minha opinião.

«Há Lodo no Cais» arrecadou oito prémios da Academia das Artes e Ciências de Hollywood nesse longínquo ano de 1954, incluindo, claro está, melhor filme, melhor realizador (Kazan), melhor ator principal (Marlon Brando - um dos papéis que mais definem a sua imortalidade no meio artístico e o seu gigantesco talento para representar personagens tão diversas: Brando tanto podia interpretar, de forma genial, este Terry Malloy, como, quase vinte anos mais tarde, o mafioso Vito Corleone - e curiosamente, citei os dois papéis pelos quais o ator arrecadou Oscares. Mas há muito, com certeza, para descobrir na sua gigantesca e brilhante carreira), e melhor argumento original, pelo soberbo trabalho de Budd Schulberg, que conseguiu captar muito bem a essência de uma série de artigos jornalísticos que versavam sobre temáticas que seriam utilizadas neste filme, criando uma excelente história que marcou o Cinema de Hollywood. A banda sonora, da autoria do lendário compositor Leonard Bernstein (responsável, por exemplo, por esse musical tão conceituado que dá pelo nome de «West Side Story - Amor sem Barreiras»), merece ser escutada, com atenção, ao longo de todo o filme, visto que está repleta de melodias marcantes e que assentam que nem uma luva à ação de «Há Lodo no Cais».

A importância de «Há Lodo no Cais», tanto como estrondosa peça de entretenimento, de arte e de exemplo cinematográficos, está patente, também, pelo reconhecimento, no ano de 1989, de ter sido incluído nos arquivos dos filmes da National Film Preservation Board, que anualmente escolhe meia dúzia de filmes significantes para a cultura e arte americanas para serem ainda melhor preservados para as gerações futuras. Pena que, apesar de tão grande distinção, o filme não esteja corretamente apresentado na edição em DVD, tendo sido transferida, para o home-video, uma cópia do filme algo deteriorada. O que é pena, visto que «Há Lodo no Cais» é um espantoso drama, um filme de luxo, uma obra prima do cinema Americano, que merece ser vista em condições mais apropriadas e que despertem mais a atenção das pessoas. Este filme irá ser passado no ciclo de cinema da minha escola, que estou a organizar, e ainda bem que, sem ver o filme, aceitei a sugestão do Professor que me auxiliou neste projeto e o inclui nas nossas sessões cinematográficas. Porque «Há Lodo no Cais» é um filme que deve ser visto por todos, mas com especial atenção, pela malta jovem, para verem que os seus preconceitos em relação ao cinema mais antigo: este não é um filme ultrapassado e que continua a tocar as pessoas como em 1954. Um filme inesquecível e que é absolutamente obrigatório ver!

Nota: * * * * *

Sem comentários:

Enviar um comentário

Se chegaram até aqui e tiverem alguma mensagem, crítica, ou opinação a fazer em relação ao que acabaram de ler, façam o favor de o escrever aqui. A gerência agradece e responde (se não forem nenhum príncipe da Malásia que tem 10 milhões de dólares para me oferecer, claro).