Fúria Sanguinária (White Heat)


Unanimemente considerado, tanto por públicos tanto por críticas deste Mundo, um dos melhores filmes de gangsters de todos os tempos, «White Heat» (vou-me referir ao filme sempre no título original porque penso que a tradução portuguesa fica mal e não encaixa. Prefiro fazer outra exceção à regra geral de referenciar os títulos em português, e assim escrevinhar esta crítica dessa maneira) é uma obra que merece todo o reconhecimento que lhe possa ser atribuído. E este excelente filme, realizado pelo fantástico Raoul Walsh e com James Cagney no papel principal, tem já várias aclamações no currículo que não podem passar despercebidas: para além de ser o quarto filme no top 10 dedicado ao filme de gangsters do American Film Institute (apesar de eu não considerar «O Padrinho» como um filme incluído nesse género - é o número 1 do top, mas penso que a obra de Francis Ford Coppola é muito mais do que isso - penso que estes tops do AFI têm uma seleção de filmes muito boa para se conhecer mais em pormenor o melhor Cinema Americano de sempre, em diversas áreas distintas. Vale a pena dar uma vista de olhos!), de ter o "vilão" interpretado por Cagney noutra lista do mesmo instituto (a dos melhores sacripantas da Sétima Arte dos EUA) e da sua famosa frase ("Made it, Ma! Top of the World!") estar incluída em mais uma lista do AFI, é importante não esquecer que o filme foi escolhido para fazer parte da preservação do National Film Registry, o que mostra o quão significante tem uma obra cinematográfica para a História de um Povo.

«White Heat» poderia ser um típico filme de gangsters, com tiros, mortes, perseguições, traições, enganos e jogos de gato e rato. E o que é um facto é que a fita contém esses ingredientes todos. Mas a isso tudo é acrescentado um outro ingrediente, que o difere de todo e qualquer filme que possua os elementos anteriormente mencionados: «White Heat» consegue ser um impressionante estudo psicológico de um personagem, neste caso, do patife Cody Jarrett - interpretado por James Cagney -, que, apesar de ser temido e seguido por toda a bandidagem do país, não consegue largar a sua Mãe (que também é uma patifória, atenção!). É muito interessante e cativante acompanharmos a evolução da mentalidade e dos atos que Jarrett toma ao longo da ação da fita.

A importância de «White Heat» para a abordagem do método de contar histórias de Hollywood é muito significativa, facto que pode ser visto no pequeno documentário que está incluído nos extras da edição DVD do filme (que contém ainda o trailer da obra e um conjunto de três pequenos filmes da época, introduzidos pelo crítico de cinema Leonard Maltin, que servem para encenar, no conforto do lar, como era a ida ao cinema nesse longínquo ano de 1949 - os espetadores americanos não sabiam o que esperar do filme da sessão, mas era garantido que seriam presenteados, antes da projeção da mesma, com um pequeno noticiário com as principais atualizações do estado da Nação e do Mundo, uma curta metragem musical e animada, e no final, um desenho animado dos Looney Tunes). Historiadores de Cinema, Professores que se dedicam a estudar e a divulgar a Sétima Arte e os Grandes Realizadores da atualidade (como é o caso de Martin Scorsese) afirmam a grande influência que «White Heat» teve nos EUA, na arte das imagens em movimento, e na vida deles próprios. E eu concordo com todos eles: o visionamento de «White Heat» trata-se de uma experiência inacreditável, fascinante e inesquecível.

Com uma tradução lusa que o faz parecer ser um antecessor a preto e branco dos filmes de pancadaria dos anos 80, «White Heat» é um dos melhores e mais fascinantes filmes de gangsters de todos os tempos. James Cagney interpreta uma das personagens mais famosas, marcantes e complexas de toda a sua vasta carreira (que ficou, principalmente, reconhecida e imortalizada pelos trabalhos em filmes sobre o submundo americano, tal como «White Heat», mas também «Anjos de Cara Negra», «O Inimigo Público» - o filme que lançou o ator para o estrelato - e «The Roaring Twenties»). Realizado por Raoul Walsh de uma forma completamente surpreendente e ainda inovadora, após mais de sessenta anos passados sobre a estreia do filme, «White Heat» é uma grande obra-prima que não deixa ninguém indiferente.

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