Casablanca Parte II (Ou: Como Hollywood mostra ter uma forte carência de boas ideias)


Ontem estive a rever algumas das cenas de um dos meus 57 filmes preferidos de sempre (até agora, a lista poderá aumentar): «Casablanca». O critério que usei para a seleção do visionamento de certas partes deste grande clássico americano foi o de, simplesmente, procurar os momentos que mais me marcaram e mais persistem na minha memória que tenho do filme. Desde o momento em que Rick (Humphrey Bogart) constata que o antigo grande amor da sua vida está no seu café, quando ouve o pianista Sam tocar a (agora famosíssima) balada «As Time Goes By», até ao "início de uma bela amizade", às recordações dos tempos passados em Paris (e que ficarão para sempre na memória dos dois personagens - "We'll always have Paris"), não esquecendo, também, a famosa ordem dada por Louis: "Prendam os suspeitos do costume". Que é que eu posso dizer sobre «Casablanca»? Adoro o filme (fiz uma pequena crítica sobre ele há uns tempos, leiam-na aqui), e mais qualquer palavra que eu possa dizer sobre ele é sempre pouca para descrever o quão gosto de toda a história, dos diálogos, dos ambientes, da realização e das personagens de «Casablanca». É um dos exemplos mais refinados do Grande Entretenimento à Americana e é um filme que está quase a fazer setenta anos (70!) e continua a encantar hoje.

É engraçado comparar o legado que «Casablanca» deixou com todas as implicações (e complicações) que estiveram no centro da sua criação. A edição DVD (e muito provavelmente, a do "bolo-rei") contém uma série de documentários muito interessantes sobre os bastidores que levaram a que «Casablanca» fosse feito tal e qual como hoje o conhecemos e adoramos. Um deles (logo o primeiro item do menu de extras) caracteriza muito bem, pelos testemunhos do filho de Humphrey Bogart e da filha de Ingrid Bergman, e em pouco mais de cinco minutos, a forma como «Casablanca» foi feito. Para os produtores e para todos os membros da equipa técnica, mais os atores. este seria um filme de rotina. Apenas mais uma fita para cumprir o número de filmes estabelecidos pelo contrato assinado com a Warner Brothers. E o mais engraçado é que ninguém sabia, ao longo das filmagens de «Casablanca», o final da história. O guião dava voltas e voltas e ia sendo escrito durante a execução das cenas definitivas da história ainda por terminar, e esse fator (que incomodou muito os atores, nomeadamente Bogart), aliado à pressão da rodagem do filme e do descontentamento constante dos produtores e da equipa fez com que «Casablanca» fosse, para muitos, uma experiência de trabalho para esquecer. E de repente, o filme é aclamado pela crítica e pelo público, e vence vários prémios, nomeadamente 3 Oscares da Academia para Melhor Filme, Melhor Realizador (o excelente trabalho de Michael Curtiz deve mesmo ser realçado) e (pasme-se!) Melhor Argumento.

É que mesmo tendo sido escrito de uma forma pressionada e em cima do joelho, o guião de «Casablanca» contém, provavelmente, 50% das frases mais famosas da História do Cinema, aquelas citações que os cinéfilos têm constantemente presentes nos seus pensamentos e pretendem usá-las para diversas situações do dia a dia. E isto é obra, meus amigos.

O problema é que parece que a Warner Brothers tem planos para uma sequela desta obra prima do Cinema Americano. Alguns podem dizer «Oh Rui, mas que coisa! Tens de dar espaço à inovação!". Pois, mas eu acredito que, tal como o próprio Stephen Bogart (o Bogart "Júnior") afirmou (e que pode ser lido na notícia), há obras que são intocáveis. Por isso, para quê, sequer, continuá-las? Se fosse um remake, vá, eu não me iria também dar ao trabalho de ver, mas ao menos não era a continuação do mesmo filme. Esta sequela vai pegar na história do casal de «Casablanca» e fazer aparecer um filho que, qual Marco dos desenhos animados, decide ir à procura do paradeiro do seu progenitor (mas, vistas bem as coisas, apesar de Rick ter o seu café em Marrocos, era bem feita que o seu "júnior" fosse parar por acidente à Argentina, onde está a Mãe do miúdo proprietário de um símio de nome Dominó). Talvez pensem que conseguem almejar o mesmo estatuto de culto que o filme original ou até irem mais longe, como se fossem uma espécie de «O Padrinho - Parte II» do século XXI.

Seria interessante se isso acontecesse, mas como muita coisa nesta vida, seria algo muito improvável. Penso que, como ultra fã de «Casablanca», é impossível manter o charme deste filme na sequela. OK, o objetivo de uma continuação pode não ser esse, por isso digo por outras palavras: tenho receio que «Regresso a Casablanca» (o título da parte II da "saga") não seja um filme interessante e se torne, apenas, numa espécie de blockbuster hollywoodiano e que seja o contrário do primeiro «Casablanca»: enquanto que o primeiro filme ninguém da produção pensou que fosse algo memorável, tendo sido quase feito às três pancadas, o segundo pode ser feito com muita expetativa, muita minúcia e muito cuidado, e mesmo assim... não ser algo de memorável e provavelmente esquecível. Algumas sequelas são assim. Quantas pessoas se lembram que «A Golpada», famoso filme de George Roy Hill protagonizado pelos Grandes Paul Newman e Robert Redford, teve uma segunda parte? Pois, nem eu sabia, só há pouco tempo a pesquisar pelo IMDB é que encontrei esse "filme". Ou até mesmo a famigerada sequela dessa comédia lendária (mas não tão lendária para mim) que dá pelo nome de «O Grande Lebowski»? Pois... penso que o problema destas duas sequelas destes dois filmes completamentes distintos é o mesmo: nenhum deles esteve nas mãos dos indivíduos que criaram os originais. E é o que vai acontecer com a sequela «Casablanca». Aparte de ter uma história da autoria de um dos argumentistas originais do filme, que foi feita num contexto diferente e para ser produzida de uma maneira totalmente diferente da que é possível hoje em dia, com os meios desta época passados quase setenta anos da estreia do filme de Michael Curtiz. Talvez seja utilizado CGI e 3D para «Casablanca II», mas vamos esperar para ver. Mas estou muito pessimista, muito mesmo. Nem é como certas sequelas anunciadas (por exemplo, vai haver uma quarta parte de «Toy Story»: apesar de nem ter precisado de um terceiro filme, esse foi brilhante - talvez este quarto possa ser uma boa surpresa, para não variar) em que deposito alguma confiança. Mas repetir «Casablanca» é um risco demasiado grande. E agora é que deviam prender os "suspeitos do costume", ou seja, os produtorezinhos da Warner Brothers, sempre cheios de ideias geniais. Dentro em breve ainda se lembrarão de fazer sequelas para «Anjos de Cara Negra» ou de «Fúria de Viver». A mim nada me espanta, dado o estado das coisas. Mas agora uma coisa é certa (e voltando a citar mais uma frase célebre de «Casablanca»: Como é que, em todos os filmes produzidos em todos os países do Mundo, se vieram lembrar logo deste para fazerem mais dinheirinho?

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