domingo, 25 de novembro de 2012

Brazil: O Outro Lado do Sonho


Vou ser sincero: se houve um filme que, ultimamente, me surpreendeu mais do que o esperado e me provocou alterações cerebrais mais densas do que poderia alguma vez imaginar, foi o filme de ficção científica misturado com alguma parvoeira non-sense que dá pelo título de «Brazil: O Outro Lado do Sonho» (um subtítulo à tuga - visto que o filme, no nome original, se chama apenas «Brazil» - mas que volta a ser dos tais que até que nem foi mal pensado!). Esta comédia, com tons de drama, e que, com o seu brilhante final, acaba por ser uma reflexão muito macabra e densa da burocracia e dos exageros da nossa sociedade, foi concebida por um senhor que dá pelo nome de Terry Gilliam. Um cartoonista que ficou, primeiramente, conhecido pela bonecada que fazia para "elementos de ligação" na série «Monty Python's Flying Circus» e também nos filmes do grupo britânico de comediantes (não esquecer que teve também pequenos papéis hilariantes na obra do gang. Para mim, é o mais engraçado dos três indivíduos do sketch da Inquisição Espanhola. Há também o falso profeta apocalíptico e o carrasco bizarro de «A Vida de Brian» o batedor de cocos e o mágico da Ponte da Morte em «O Cálice Sagrado», e tantos outros personagens!), mas que, nos últimos tempos, tem dado mais nas vistas pelos seus trabalhos como realizador, onde explora a sua criatividade, versatilidade e surrealidade até aos limites do (im)possível. «Parnassus: O Homem Que Queria Enganar o Diabo» é um dos seus projetos cinematográficos mais recentes (e o derradeiro trabalho do ator Heath Ledger, que trabalhara com Gilliam também em «Irmãos Grimm») mas do autor são famosos ainda mais os filmes «O Rei Pescador» e «12 Macacos». Ah, e «Brazil», pois claro, que vale mesmo a pena qualquer um de vós (especialmente os que tiverem apreço - e alegre paciência - para cinema menos convencional) visto ser uma obra marcante e de proporções épicas!

Deve ser destacado que o filme contém interpretações de um elenco escandalosamente particular. Num pequeno cameo temos a aparição de Gordon Kaye (o francês René da mítica britcom «Allo Allo!») como um dos indivíduos que controla o grande sistema burocrático que governa a cidade fictícia do filme (ui, e tanta comparação que pode ser feita à realidade portuguesa...) ou o amigo dos tempos dos Python (que dois anos antes, regressaram ao cinema com «O Sentido da Vida» - «Brazil» é do ano de 1985) Michael Palin, que tem um papel impressionantemente bom (e importante no desenrolar da história do filme), onde revela grandes dotes para o drama e para a versatilidade de estilos de "acting". Robert de Niro faz também uma pequena aparição, também ela portentora de alguma surpresa (o filme fala por si). Temos também Bob Hoskins como um eletricista maníaco pela sua profissão e que procura qualquer tipo de meio para obter vingança de algo... completamente... idiota. Os atores principais estão brilhantes, principalmente o protagonista do filme, Jonathan Pryce, que entre o real, o sonho e a loucura, mostra ser um indivíduo com talento adequado para o papel versátil e algo perturbador que desempenha.

«Brazil» pode ser considerado uma espécie de versão "live action" dos cartoons da era Python, repleto de apontamentos satíricos que levam ao extremo algumas idiotices da nossa sociedade. Não acabando por ser tão surreal como a bonecada pela qual Gilliam se tornou popular dentro do grupo, «Brazil: O Outro Lado do Sonho» dá-nos uma crítica feroz e versátil (reforçada pelo fabuloso twist final) da nossa sociedade, a partir do retrato de um mundo utópico onde tudo gira à volta da burocracia levada ao maior extremo de todos os extremos. Este filme tornou-se uma das minhas pérolas de eleição. Não consegui considerá-la perfeita, devido a algumas partes menos bem executadas que o filme possui, mas penso que todo o fascínio que criei por «Brazil» se centra na sua mensagem social e como o non-sense aliado a uma crítica construtiva da realidade faz uma junção perfeita.

«Brazil» é um grande filme de ficção científica, uma grande história de amor, e uma fantástica lição de vida sobre a vida em sociedade e todos os "podres" que nela persistem ao longo de tantas gerações. Se há uma altura em que o filme está mais atual é precisamente agora, e daí é urgente que toda a gente o veja!

* * * * 1/2

2 comentários:

  1. Nunca vi o Brazil, um dia destes...

    Já viste os restantes do Craig?

    Just out of curiosity, já viste o Mulholland Drive e o Blue Velvet, ambos do David Lynch?

    ResponderEliminar
  2. Tens de ver! :)

    Ainda não, espero conseguir vê-los um dia destes também :)

    Do David Lynch ainda conheço muito pouco, apenas o «The Elephant Men»... está em falta, tenho muita coisa para ir ver, há sempre filmes preciosos que escapam!

    ResponderEliminar

Se chegaram até aqui e tiverem alguma mensagem, crítica, ou opinação a fazer em relação ao que acabaram de ler, façam o favor de o escrever aqui. A gerência agradece e responde (se não forem nenhum príncipe da Malásia que tem 10 milhões de dólares para me oferecer, claro).