South Park: Como a estupidez se pode tornar em algo de inteligente


Nos últimos dias voltei a um vício que deixara adormecido durante quase um ano. Esse vício dá pelo nome de «South Park», e é nada mais nada menos que, a meu ver, o maior fenómeno dos desenhos animados da História da Televisão... a seguir aos «Simpsons». Acho que saí do momento certo da época de hibernação, porque já tinha muitas saudades do visionamento desta bonecada bizarra e completamente idiota criada por Trey Parker e Matt Stone.

Apesar de estar na sombra daquela que é a série animada mais longa de sempre (aliás, todas as séries de "cartoons" que se seguiram aos «Simpsons» entram, inevitavelmente, no risco de a ela serem comparadas), há que fazer as devidas aclamações a «South Park» por ser uma série que, em mais de quinze anos de emissões, não mudou em nada. Aliás, diria que é um caso interessante de uma série que melhorou ao longo dos anos (ao contrário dos «Simpsons», que apesar de ser uma série fenomenal e uma crítica à América sem igual, confesso que já sofreu bastantes altos e baixos nas últimas temporadas exibidas). Diria mesmo mais: o facto de ter voltado a ficar agarrado à série foi por ter visto, no fim de semana passado, um episódio da 15.ª época no canal de cabo SIC Radical e que me fez constatar que continua a valer a pena seguir as tropelias de Kyle, Stan, Cartman e Kenny e de todos os peculiares e estranhos habitantes da cidade de South Park.

 Mas falando do episódio em si, do tal que me fez despertar de novo para o vício, penso que vale a pena descrevê-lo aqui em algumas linhas. É um episódio duplo (vi a segunda parte momentos antes de ter começado a escrever este post) que mostra uma das grandes qualidades de «South Park» e que a elevam num patamar igualmente elevado ao dos «Simpsons»: é o poder da crítica da história, dos episódios, do ambiente em que se desenrolam e das próprias personagens. Mas, se nos «Simpsons» optam por uma crítica um pouco mais correta e que ataca o que pretende atacar sem ser indireto, «South Park» opta por essa via, utilizando a sua maior arma: a estupidez. Mas ao usar a estupidez, consegue ser devidamente inteligente e não perder o sentido do que pretende satirizar ou criticar. No dito episódio duplo de que vos falo, Stan faz dez anos de vida e apercebe-se que, de repente, tudo o que gostava antes agora detesta. Há uma cena muito engraçada em que os quatro pirralhos vão ao cinema e veem diversos trailers, entre eles o do horripilante «Jack and Jill», com Adam Sandler a fazer o que mais gosta - filmes de m**da - e vemos o que Stan vê da sua perspetiva. Aquele trailer parece-lhe mesmo... m**da. E quando digo m**da, não estou a falar em sentido figurado, não. Stan vê mesmo... isso ao ver o trailer (também não me admirava que, um dia, o Adam Sandler fizesse um filme sobre essa... temática. Os seus fãs iriam vê-lo à mesma) e odeia o que está a ver, ao passo que os seus três amigos divertem-se à grande com aquele trailer e Cartman chega mesmo a dizer que quer ver aquele filme. Através desta ideia completamente desprovida de bom gosto, Trey Parker e Matt Stone conseguem pôr, por imagens, uma ideia que as pessoas expressam apenas por palavras (em inglês, "this movie is just like sh*t", por exemplo) e que mais ninguém se lembraria de colocar num programa televisivo. 

As pessoas que não conhecem «South Park» poderão ficar alarmadas pelo meu gosto estranho por este tipo de humor, mas vale a pena ver este duplo episódio, se algum dia o apanharem na TV, porque apesar de, mais adiante, usarem também mais ideias bizarras e repletas de nonsense para exprimirem outras... coisas, a história acaba por refletir uma mensagem do conflito de gerações que existe desde sempre e continuará a existir e de que o "cinismo" presente na personagem de Stan (e num grupo próprio que aparecerá na segunda parte deste díptico) não é nenhuma doença. Apenas que os gostos não se discutem. 

 «South Park» prima, na minha opinião, por ter os seus criadores, desde o início até agora, a comandarem as operações de feitura da série. É outra vantagem em relação aos «Simpsons» e a «Family Guy», por exemplo. Não há muitos argumentistas (e são sempre os mesmos) o que permite a que a série mantenha o seu espírito crítico e satírico que defende desde o início, permitindo também a que se torne cada vez mais meticuloso e pormenorizado. «South Park» ironiza, como ninguém, todos os tiques da sociedade americana, mas também todas as problemáticas de outros países, incluindo Portugal. Recomendado especialmente para os que gostarem de humor negro, bizarro e com alguns toques de excentricidade, «South Park» é a receita ideal para quem tiver curiosidade em ver os EUA de uma maneira cómica diferente e mais radical.

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